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terça-feira, 22 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
NOTA BREVE - MIREN AGUR MEABE
NOTA BREVE
Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.
MIREN AGUR MEABE
quinta-feira, 17 de maio de 2012
domingo, 13 de maio de 2012
Às mães (O coração do menino)
O CORAÇÃO DO
MENINO
O menino está na barriga da mãe como um tesouro que ela
guarda escondido.
O seu coraçãozinho bate junto do coração da mãe, ansioso,
maravilhado.
Aproximei a minha cabeça para ouvi-lo e fiquei
apalermado: tanta energia, tanta vontade de viver.
O seu coraçãozinho não batia: galopava. O que eu ouvi foi
um galope firme dentro da ventania.
A placenta fazia um barulho como uma ventania, e lá o
menino galopava, preparando-se para as ventanias da vida.
Eu não sei o que lhe dizer. Há momentos em que as
palavras são vazias, inúteis como flores murchas.
O menino tem três meses, um tamanhinho de nada, e uma
bruta disposição para viver.
Ele domina o mundo, com a certeza de que a vida compensa,
de que a vida é um milagre.
Eu ouvi o menino bradar, num som de galope, que a vida é
bela e que ele caminha para ela, a toda brida, querendo viver.
Eu compreendi que o menino tem asas e voa para além das
tempestades, até lá onde mora a origem de todas as coisas.
Eu compreendi a mensagem do menino, nova como a primeira
palavra que, vinda do infinito, faz o mundo nascer.
O menino existe para dar luz à escuridão mais fechada.
A sua visão traz a sabedoria essencial do universo.
O poeta é um anjo trôpego batendo numa pedra com seu
bordão de andarilho, à espera de uma impossível resposta.
O menino é essa resposta.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A ÉGUA ARGENTINA
A ÉGUA ARGENTINA
Cavalga a égua Argentina para o sonho
da infância esguaritada nos capões
e socavões escuros da memória.
A Argentina me traz menino para
agora. Sou o sol e o sal no lombo
molhado de suor, a passo grave
nas estradas vermelhas do Matão.
Ouça: a sombra cavalga ainda a noite,
a minha sombra de égua e menino.
O meu relincho cruza o tempo e a morte
e galopo nas trilhas orvalhadas
do passado. Sou a égua branca e preta,
sou a Argentina e sua estrela branca
na testa preta. Sou a égua e o menino
encantados. Bebemos a mesma água
e pastamos nas mesmas invernadas.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
NOTURNO DOLORIDO
NOTURNO DOLORIDO
Atrás da janela escura, como
no fundo de um lago,
uma criança dorme.
Um avião cruza o céu, sacode
o quarto da criança.
Os homens na rua
transformaram-se em pedra
e vestem armaduras de metal
que o vento chacoalha.
Ninguém se lembra, ninguém
foi testemunha
do meu sofrimento.
E um grito aflito atravessa a
noite, as estrelas, as almas.
Os telhados pendem, pesados,
aterradores.
As mulheres têm sangue nas
garras e nas asas cortadas.
As casas navegam nos
nevoeiros, adernam, naufragam.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
POEMA NO CREPÚSCULO
POEMA NO CREPÚSCULO
A árvore queimava
E o homem
Levantava o dedo pingando
sangue
Era como se tivesse uma rosa
Na mão
Um espinho na ponta do dedo
Olha o vento
Como sopra na copa das
árvores
O vento parece dourado
Sobre a copa das árvores
O menino olha o homem
Olha a árvore
Olha a rosa
E sai voando com o
vento sobre a copa das árvores
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
O SEGREDO DA BRISA
O SEGREDO DA BRISA
Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras
adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me
lembra
a paz de uma tumba.
A grama cresce entre as pedras,
como cabelo
de criança, em sua fragilidade e
inocência.
Uma pedra se destaca entre todas
as pedras:
é a memória, que cresce e
sangra.
Nesta minha biblioteca um livro
se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como
o homem.
Os animais despenham-se no
pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os
mortos.
Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas
verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das
montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão
para os homens.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A VÊNUS DE GESSO - o texto e o palimpsesto
A VÊNUS DE
GESSO
Eu tinha uns sete anos de idade e subi
Numa penteadeira
(Para ver minha imagem
No espelho?)
E quebrei em mil pedaços o busto de
Uma Vênus de gesso
Você só faz arte, disse
Minha mãe
Foi o vento, eu disse
Estou brincando com
a ideia de Gérard Genette de que todo texto tem o seu palimpsesto. Certo que
simplifiquei quase ad absurdum. Mas escrevi A Vênus de Gesso lembrando A
Estátua de Gesso, de um ano antes, que não me satisfazia.
Escrevi A Estátua
de Gesso e postei no blog do Gregório Vaz em fevereiro de 2011. Lembrando-me do poema, lembrei-me de que o
achava palavroso, pretensioso, etc. – ruim o suficiente para ir apenas para o
blog do Gregório.
Escrevi A Vênus de
Gesso com a intenção de tirar um pouco da gordura do primeiro poema. Como
magreza não é sinal de qualidade, vejo no poema um tanto gordo uma força que
este não tem. As garras da poesia?
Quem quiser
comparar, aqui está o primeiro poema, muito a grosso modo o palimpsesto:
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Vou
falar mais uma vez da estátua de gesso
que
eu quebrei quando era criança.
Disse
à minha mãe que o culpado foi o vento,
eu
não era um artista,
nem
sabia o que era isso.
Esse
é o destino dos poemas: foi o vento.
Os
poetas nem sabem mais o que é isso.
Gozado
como continuam fazendo poesia
com
um ar de intelectuais
que
dominam a sua arte
de
intelectuais.
Como
se a arte fosse um objeto intelectual.
Pior,
como se isso fosse uma condição sine qua non
para
um poema ser um poema.
Havia
um espelho por detrás da estátua de gesso.
O
espelho refletia a estátua de gesso
e
refletia a minha cara de espanto e medo infantil.
Eu
não sabia,
mas
começava a conhecer o espanto e o medo –
essas
condições para um poema ser um poema.
Há
outras, mas o mundo caminha para o fim tão depressa
que
não há tempo para enumerá-las
nem
adianta.
(Se alguém quiser vê-lo
no blog do Gregório:
domingo, 29 de janeiro de 2012
OS PATOS, OS MENINOS
OS PATOS, OS MENINOS
Os meninos levaram o pato e a
pata para nadar
No rio Tietê. Fazia sol,
apesar de algumas
Nuvens. Os patos estavam
eufóricos, quase mais
Que os meninos. Que riam,
olhavam para o pato,
Olhavam para a pata, olhavam
um para o outro,
E riam, riam a mais não
poder.
Os patos mergulharam na água
e gritaram,
Gritaram até perder o fôlego.
Como não perderam
O fôlego, anoiteceu e ainda
estavam gritando.
O pato nadava placidamente
nas águas azuis
Como as do mar, a pata nadava
para o lado oposto
E os dois gritavam a alegria
da vida.
Um menino teria seus nove
anos de idade, o outro
Era quase um adolescente. O
mais velho parecia
Mais novo, com seu ar
efeminado e meio chorão.
Foi preciso voltarem no dia
seguinte para buscar
Os patos sumidos no rio
feliz. Mas nem nesse dia
Os patos quiseram voltar.
Aliás, os patos nem sabem
Querer ou não querer: os
patos sabem nadar
E gritar a alegria da vida.
Uma vez o menino mais novo
segurou a pata,
Mas a pata se chacoalhou toda
e saiu voando
E gritando. O menino mais
velho caprichou
Na cara de choro, mas porque
era seu costume
Essa cara delicada e
dolorida. Os meninos sabem
Que, quando os patos quiserem
(sem querer!)
Voltarão para casa, com eles
ou sem eles.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
O MENINO E A MENINA
O menino e a menina
caminham pela estrada
com um sorriso cúmplice
nos olhos e nos lábios.
A estrada é torta e larga,
com árvores e pássaros,
terra, pedra e alegria
à direita ou à esquerda.
Ninguém conhece ao certo
a alegria do menino
e a alegria da menina
na estrada empoeirada.
O menino dá a mão
para a mão estendida
da menina feliz
e suas almas caminham.
Não há maior prazer
no mundo do que olhar
essas duas crianças
na estrada nessa tarde.
sábado, 24 de dezembro de 2011
NATAL EM BAGDÁ
Natal em Bagdá (1998)
A bomba desenha uma cruz em Bagdá,
A estrela explode antes de nascer,
A mulher rasga com as unhas o ventre ressequido,
Dois olhos vazios me olham de lugar nenhum.
As árvores estão despidas como esqueletos,
A rosa não tem mais nenhuma pétala,
A raposa e outros bichos tristes choram no deserto,
O universo é um cogumelo gotejando.
Profeta sobrevivente do exílio,
Já não tenho voz e canto à beira da estrada.
Todas as crianças têm a garganta cortada,
O sangue das crianças colore a aurora.
Um menino queima sobre a palha,
Das suas cinzas o novo homem vai renascer.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Poema, o cão
Poema
O nome do cachorro era Poema.
Morto o dono, chorara e uivara à lua
e às estrelas a sua dor ingente.
Morreria de dor, todos diziam.
Visitou a capela entre os pinheiros,
onde o dono elevava a alma a Deus,
e a biblioteca, o outro lugar sagrado,
e ante os dois, reverente, se prostrou.
Encontrou o menino na montanha,
contemplaram o abismo do universo
com suas maravilhas, e concluíram
que mais belo é o coração humano.
O menino seguiu o seu caminho
com o Poema ao lado para sempre.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Três paráfrases
1. O carrinho de mão vermelho
Quando criança eu tinha um carrinho
de mão vermelho
como William Carlos Williams.
Vivia marcado de cocô de pomba
branco
sobre o vermelho.
Eu enchia o carrinho de pedaços
de madeira e partia
para construir o mundo.
Nada mais tinha importância.
2.A PEDRA
Uma pedra é uma pedra, é uma pedra.
Não quero que a pedra seja outra coisa.
A pedra em si vale um poema.
Não é preciso dizer nada.
Nenhum símbolo, nenhuma imagem.
É uma forma completa, única, absoluta.
É um poema.
3. EM CRETA, COM O MINOTAURO
Em Creta, com o Minotauro
esquadrinho o labirinto.
Instauro o meu reino restrito.
O sol queima os sonhos.
Eu quebro o candelabro.
Desenrolo o novelo da dor.
A esfinge me decifra: sou
o poeta com a lira em delírio
em Creta, com o Minotauro.
___________________________________________
1. O Carrinho de Mão Vermelho talvez seja o mais famoso poema de William Carlos Willians. É certamente o que mais exemplifica a sua técnica de tirar do poema tudo que é excesso, usar palavras comuns, criando uma pintura clara, quase sem imagens. Não merecia que eu lhe acrescentasse nada, e não o fiz. Acontece que eu tive um carinho de mão vermelho, que enchia (uma amiguinha de infância, uns quarenta anos depois, me lembrou o caso) de pedaços de madeira, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Então, eu precisava registrar o fato.
O poema de WCW é lido fora do contexto. WCW era médico-pediatra e estava em visita ao uma menina doente, em agonia, quando viu pela janela o carrinho vermelho. Daí a sua importância, que, no meu caso, é simples memória.
Deixo abaixo o poema de WCW, para lembrar aos leitores – mais do que comparar.
THE RED WHEELBARROW
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
O CARRINHO DE MÃO VERMELHO
tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas
tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas
(Trad. José Paulo Paes)
2. O verso “Rose is a rose is a rose is a rose” deve ser mais conhecido do que todo o resto da obra de Gertrude Stein. E é vítima de uma falácia: faz parte de um poema de 1913, e o primeiro Rose refere-se ao nome de uma pessoa, - mas é outro texto lido fora do contexto, como a afirmação de que as coisas são o que são. É nesse sentido que empreguei no meu poema. Francis Ponge ensina no “Le parti pris des choses”, justamente esse “as coisas são o que são”, que eu já aprendera com João Cabral.
Tenho cansado de ver a citação dos versos de Adélia Prado: “Deus de vez em quando me castiga. / Me tira a poesia, olho para uma pedra e vejo uma pedra.” Elogiosamente. E são belos versos. Mas citados fora do contexto, um dos mais longos poemas de Adélia, que fala da condição humana, não da técnica poética. Quanto à técnica, ela sabe que a poesia é linguagem. Que as palavras se tornam especiais com o trabalho da linguagem no poema.
O meu poema refere-se a essa ideia.
3. “Em Creta, com o Minotauro” é o nome de um dos melhores poemas de Jorge de Sena. Vi à exaustão o Minotauro nos labirintos de Jorge Luis Borges. Já não era novidade para mim, por minha formação clássica. É o meu poema mais pessoal dos três acima, quanto a linguagem e visão do mundo.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010
A goiabeira


A goiabeira
Estendi a mão para apanhar uma goiaba
e uma lagarta de fogo me queimou o braço.
Doeu até a alma.
Estendi a mão e não encontrei nem a goiabeira,
era como se tivessem passado séculos ou milênios.
Doeu mais que a alma, se possível.
Hoje nem o pomar existe mais, nenhuma árvore.
A lagarta de fogo era a serpente, a goiabeira era a árvore
do bem e do mal no meu quintal-paraíso.
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010
O arado de Deus

O arado de Deus
É manhã nos lençóis no varal,
As pombas brancas voam,
Eu vôo com as asas do Espírito,
O silêncio do mapa é azul.
Eu vôo pelas mãos dos anjos,
Abro as cortinas para o Verbo,
O vinho no copo é sangue,
O trigo na mesa é o corpo.
Minha mãe pinta uma árvore,
Meu pai cavalga um cavalo de luz,
Meus irmãos montam e desmontam
As portas e janelas da infância.
Eu aprendo a poesia do mundo,
Deus segue à frente com o arado.
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O quadro

O quadro
Acendemos as tochas
E nas paredes os quadros gemiam.
Uma aranha e um escorpião passeavam
Entre as sombras das molduras.
Um abismo de trevas
Se formava nos olhos assustados
De um menino sorrindo
Um sorriso estranho.
– Quem pintou essa ameixa
Nos lábios do menino?
Os lábios gelados
– Quem pintou o gemido?
Da ameixa sai um verme
– Quem pintou esse menino com lábios de verme?
O silêncio de Deus, 2009
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domingo, 17 de outubro de 2010
O circo de cavalinhos
Os cavalos loucos
Os cavalos loucos cavalgam na lua.
São cavalos cegos e tocam música
e cantam versos verdes e vermelhos
e cantam com um peixe na garganta.
Os cavalos loucos comem na minha mão,
comem milho e ouro cantando baixinho.
São cavalos felizes e riem de mansinho
e gargalham com a chuva e com as árvores.
Um dia pegou fogo nos cavalos loucos,
o carrossel girava, girava em chamas.
Sobrou apenas a alma dos cavalos loucos,
sobraram os olhos dos cavalos queimados.
Os olhos doíam e choravam lágrimas de fogo,
os olhos de fogo eram a alma dos cavalos loucos.
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A Ignácio de Loyola Brandão
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Ignácio de Loyola Brandão esteve em Bauru há uns dois anos e contou a história do circo de cavalinhos do seu avô, que eu recrei à minha maneira neste poema.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O bezerro Bito

O bezerro Bito
Acaricio o focinho do bezerro
Bito, peludo e escuro, muitos anos
depois do adeus à infância e suas pastagens
de sonho e sol. Sou órfão de um bezerro.
O Bito ergue a cabeça e me olha triste
como se adivinhasse a dor futura.
O que seria feito de nós dois
no carrossel do tempo, que não para?
Morremos quando finda o sortilégio
que fazia o universo inteiro nosso.
Nunca mais o bezerro Bito berra
me chamando no pasto. Nunca mais
a lambida na cara como um beijo.
Nunca mais o menino e o seu bezerro.
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... Gregório Vaz apronta das suas: um extemporâneo poema de finados (ou de amor, se quiserem).
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
A paineira

A paineira
Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.
Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.
Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.
Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.
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