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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA É UMA SOMBRA





A CASA É UMA SOMBRA




A casa é uma sombra do que fora.

Mancha escura, ou nem tanto, na paisagem.

Um pouco de caliça, entulho, pó.

As raízes penetram as paredes,

De um jeito ou de outro querem persistir.



O que existe é uma página em branco,

De tanto lida, gasta pelos dedos

E olhos incertos, gastos por sua vez.

O lápis, oco, não escreve mais.

A alma, oca, não escreve: esparze a sombra.



Não somos mais quem fôramos: ninguém

É o que somos, no jardim esconso.

A água flui.

O vento ajunta as folhas amarelas

                                   E varre para fora do possível.




domingo, 29 de janeiro de 2012

OS PATOS, OS MENINOS

















OS PATOS, OS MENINOS


Os meninos levaram o pato e a pata para nadar
No rio Tietê. Fazia sol, apesar de algumas
Nuvens. Os patos estavam eufóricos, quase mais
Que os meninos. Que riam, olhavam para o pato,
Olhavam para a pata, olhavam um para o outro,
E riam, riam a mais não poder.

Os patos mergulharam na água e gritaram,
Gritaram até perder o fôlego. Como não perderam
O fôlego, anoiteceu e ainda estavam gritando.
O pato nadava placidamente nas águas azuis
Como as do mar, a pata nadava para o lado oposto
E os dois gritavam a alegria da vida.

Um menino teria seus nove anos de idade, o outro
Era quase um adolescente. O mais velho parecia
Mais novo, com seu ar efeminado e meio chorão.
Foi preciso voltarem no dia seguinte para buscar
Os patos sumidos no rio feliz. Mas nem nesse dia
Os patos quiseram voltar. Aliás, os patos nem sabem
Querer ou não querer: os patos sabem nadar
E gritar a alegria da vida. 

Uma vez o menino mais novo segurou a pata,
Mas a pata se chacoalhou toda e saiu voando
E gritando. O menino mais velho caprichou
Na cara de choro, mas porque era seu costume
Essa cara delicada e dolorida.  Os meninos sabem
Que, quando os patos quiserem (sem querer!)
Voltarão para casa, com eles ou sem eles.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

OS FUMOS DA CIDADE






























OS FUMOS DA CIDADE


      1
Trouxe para a cidade o perfume do mato
e o perfume das ostras e das gaivotas.
Viverão comigo até eu morrer.
 
2
Nas ruas da cidade,
sob o céu negro, estou em casa.

3
  As ruas fedem a urina, fezes, óleo e fuligem.
Sombras me cobrem. Eu me encolho no meu canto.
Não posso viver sem medo.
 
  4
  Não somos mais eternos.
Habitamos engradados de plástico, nosso mundo é virtual.
Enviamos sinais de nossa solidão ao universo inteiro.

5
Quebraremos as taças, esvaziaremos o vinho e a dor.
As casas – os prédios com seus fios invisíveis – cairão por terra.
Restará, nos cacos de vidro, na fuligem, somente a poesia.
 
6
Senhor, dai-nos paciência, dai-nos um pouco de orgulho.
Chafurdamos demais na lama. É o fim do mundo.
Senhor, dai-nos o êxtase de uma última chama.
 
7
A pátina do silêncio escorre das juntas da arte.




sábado, 4 de dezembro de 2010

Fábulas de Natal (2)





O MENINO NASCEU

O menino nasceu ao meu lado.
Um halo de luz fendia as trevas,
Vinha do alto e se expandia.
O galo arrebentou a garganta.

O cavalo cantou as palavras do poema.
Uma frágil parede nos separava do mundo.
O cavalo escarva o chão soltando fogo pelas ventas:
Era o meu poema queimando a noite.

O sangue inundava o quarto.
A caçamba do tempo vem do fundo do poço,
transbordando água limpa e fresca.
Trago o estigma na fronte.

Sou lavado pelo batismo do menino.
Vejo os ossos brancos sobre a pedra.
O menino ergue a chave com a mão pequena
E me abençoa.


   O POEMA DO MILAGRE

Sou uma pedra no meio da casa
Com os ossos do cão cruzados em cima.
Quando chegará o inimigo?
Sentaremos juntos, conversaremos, sorriremos?

Comungaremos a minha casa antes de nos estranharmos?
A minha mãe chora atrás da porta,
A cabeça coberta com o pano da dor.
Um espinho me penetra nos olhos com o poema do milagre.

O nome do menino me queima a língua.
Os olhos do menino estão em brasa e iluminam a noite.
A casa cai com a luz.

As flores voam, as pétalas são gotas de fogo.
A mulher entrega o menino ao estrangeiro.
O velho ergue o menino nos braços e canta.


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                 ( poemas de Natal, 2007)

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sábado, 27 de novembro de 2010

Fábulas de Natal (1)





A HORA DO MENINO

Quando o menino quebrar a pedra
Dizendo uma oração sobre os ossos brancos
E gritar para a estrela da manhã: É a hora!
As águas despencarão da cachoeira do tempo

E inundarão os caminhos do homem.
As abelhas descerão do céu.
Os pássaros descerão do céu.
Enxames de anjos rasgarão as cortinas azuis.

Pode baixar a luz!
A virgem lavará a manhã com o sangue do menino.
O menino soltará fogo da boca.

A mulher canta o poema do abismo como um acalanto.
O quarto brilha, saem chamas do quarto.
O menino saiu das coxas da mulher
Para levar o sangue ao mundo.


A NOITE DO MILAGRE

A noite sobre o mar e os barcos dos pescadores,
Com o silêncio pairando como um pássaro morto.
Um cavalo em chamas galopava na montanha,
As árvores voavam para o céu com suas asas de anjo.

À borda do poço ouço o sermão do expatriado.
O galo vermelho se contorce, louco.
A gaivota voa negra sobre as ondas, a gaivota cega.
A égua se imobiliza de cascos erguidos, em vigília.

Estamos à espera do milagre.
A adormecida flutua com a casa em trevas.
Componho a face estranha no espelho.
Semeio flores azuis entre as espumas do mar.

O pescador mostra-me as chagas.
Esta é a noite da fé, a noite do milagre.
Toma o peixe e parte.

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Em 2007 fiz doze ou treze poemas de Natal. Várias fábulas de esperança. Vou postar aqui, aos poucos, neste Advento, esta minha preparação e espera pelo Menino.

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Visita ao Matão




Visita ao Matão

Eu me vejo no espelho da janela.
A minha velha casa me recebe,
A mesma casa antiga, familiar,
Com as mesmas paredes, que me abraçam.

Um raio destruiu meia figueira,
Mas ela continua na paisagem
Com os cupins, abelhas, parasitas
Vivendo de seu tronco e suas raízes.

As jabuticabeiras se renovam,
Crescem e multiplicam-se no tempo.
O peru, as galinhas, os bezerros,

O meu mundo me espera no quintal.
O ribeirão, o mato ao fundo, os pássaros
Embalam a minha infância ainda hoje.

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Visita à casa da minha infância, num lugar chamado Matão.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Canção do exílio




CANÇÃO DO EXÍLIO

A minha terra tem uma figueira
Na porta de casa, um cavalo inquieto
E os cachorros latindo para as vacas
E o meu pai apartando os bezerros.

As jabuticabeiras são infinitas,
O pomar tem todas as frutas
E todos os pássaros cantando.
Os sabiás, os melros, os canários

Disputam quem canta mais alto.
O sanhaço lambuza o bico no mamão.
O cafezal e o terreiro de café,

O milharal e a mata à beira d’água
Me lembram que eu sou criança ainda
Com a cara lambuzada de terra vermelha.

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Dia 12 último fui visitar a casa da minha infância.
Continua lá. Caiu um raio em cima da figueira, não está
mais inteira, mas continua lá.