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domingo, 17 de junho de 2012

A MORTE ABSOLUTA



                                     Ninguém escreverá
                                     a minha elegia
                                     quando eu me for.




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um poema de Bernardo Atxaga




A morte e as zebras




Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.


Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.


Bernardo Atxaga (poeta basco que devíamos conhecer mais)
Tradução de Luís Filipe Parrado.




quarta-feira, 18 de abril de 2012

RIDENDO CASTIGAT MORES




RIDENDO CASTIGAT MORES


Os falsos sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta Joseph Brodsky.

A minha poesia não deve ser humana,
os seus sentimentos são tudo menos falsos.

Nada do que é humano me é estranho,
já dizia o romano Terêncio.

A minha poesia é estranha para quem não é humano,
concluo, mostrando os dentes e as garras.


 

terça-feira, 17 de abril de 2012

A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS A MILLÔR FERNANDES




A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS
       A MILLÔR FERNANDES


A evolução das espécies segundo Raul Seixas
e Millôr Fernandes

tem o seu princípio na mosca,
passa pelo coelho

e deságua no homem – apenas mais um elo
mal resolvido da história.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

A CHUVA, ORAS








                              



                            A CHUVA, ORAS


Chove lá fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos


e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro


e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe


quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.


É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia


é água furando a pedra dura.





quarta-feira, 28 de março de 2012

POETA TEM QUE SOFRER, disse Millôr Fernandes




Eu acabava de ser apresentado a Millôr Fernandes, em 1991, como um dos poetas premiados na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Ele me bateu nos ombros, dizendo como quem consola: “Poeta não precisa ganhar prêmio. Poeta tem que sofrer.”

Pouco depois estava no Centro de Convenções Rebouças dando o seu depoimento diante de uma plateia atenta de umas duas mil pessoas. E qual era o tema? Não mais que o enunciado acima: “O poeta tem que sofrer.”

Era como se Millôr falasse para mim mesmo. Como se continuasse a conversa mal iniciada.

Ele me ensinava que os prêmios são um reconhecimento da obra que o poeta faria de qualquer maneira. Ou quase de qualquer maneira: antes é preciso sofrer.


Não me lembro de uma palavra desse depoimento, mas tinha aprendido o essencial. Somente se escreve criticamente.

Millôr se dizia um escritor sem estilo. Numa de suas últimas entrevistas disse que escrever é fácil. Basta ter o que dizer.

O humorista ou o poeta sentem a dor de viver. Depois, escrevem.


quinta-feira, 15 de março de 2012

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

























                                                                                                Pedra do Baú - S. Bento do Sapucaí - SP




A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

Leio um poema de Ted Hughes em que sua amada Sylvia Plath
Declama poesia para as vacas
E fico imaginando como seria interessante dizer meus poemas
Para os cavalos, os cachorros, as borboletas,
Talvez para o papagaio – dizem que o papagaio é ótimo ouvinte
E é disso que o poeta precisa: ótimos ouvintes.

Os animais podem muito bem ser melhores ouvintes
Do que os homens ou as mulheres sonhadoras ou palradoras.
Sim: pelo menos os animais não palram nem sonham.
Certo, alguns animais palram
Mas nenhum sonha
E um poema é para ser ouvido muito acordado,
Com todos os sentidos atentos.
O mal dos homens e das mulheres é não terem os sentidos atentos.

O mal dos animais é outro.
Os animais também não servem para serem ouvintes de poesia.
É que o poeta fala por imagens,
Diz vermelho e azul e verde e amarelo,
Diz luz e movimento,
Diz sangue e céu,
Diz tanta coisa para não dizer a ideia que está por trás das coisas.
Os animais veem as coisas e pronto.
Os animais não têm noção de beleza e efêmero,
De eterno e pó e abismo e Deus.
A poesia existe porque os homens complicam demais a vida.
Os animais veem a vida como uma coisa simples.
Não precisam de poesia.







sexta-feira, 2 de março de 2012

O PÁSSARO E O ORNITÓLOGO




          O ditado diz Um pássaro

Não é um ornitólogo.

Vivo a minha vida

E a minha poesia.

Os críticos vivam

A deles.

A terra gira

Como uma laranja,

Não quer dizer

Que a terra seja uma laranja.

É apenas a poesia

Nas palavras

Ou fora delas.

Não me pergunte por quê,

Eu não sou um ornitólogo.

Sou apenas um pássaro.







domingo, 26 de fevereiro de 2012

O ACORDO





O ACORDO


Adrian fez um acordo com a morte:
se pudesse dormir com Frida
mais uma vez,
ela poderia levá-lo mais cedo,
quando quisesse.

Frida tirou a roupa,
peça por peça,
deitou-se ao lado de Adrian
e disse:
A morte concordou.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA DESENTRANHADO DO "DOUTOR FAUSTO", DE THOMAS MANN




HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA
DESENTRANHADO DO CAP. XXXI DO “DOUTOR
FAUSTO”, DE THOMAS MANN

Era uma vez um casal de gêmeos de estirpe real.
O irmão ama a irmã desmedida e estouvadamente.
Desse amor nasce um menino de grande beleza,
Filho e sobrinho de cada um dos progenitores.

O pai tenta expiar a culpa numa peregrinação
À Terra Santa e morre no caminho.
A criança sofre um destino incerto: indigna
Do batismo, é posta num barril e jogada ao mar.

Levada pelas ondas até um convento, um abade
A recolhe e batiza com o seu nome: Gregório.
A mãe jura jamais se casar, indigna
De um matrimônio cristão, e rejeita a mão

De um duque feroz, que lhe invade e conquista o reino,
Exceto a cidade fortificada onde ela se refugia.
Gregório cresce e conhece sua origem: quer
Peregrinar ao Santo Sepulcro, mas passa pelo país

De sua mãe, sabe de sua triste sina e propõe-se
Servi-la: mata o duque e liberta o reino.
Os conselheiros aconselham a rainha a casar-se
Com o jovem. Ela reflete por um dia e casa-se.

A mãe deita com o filho do pecado no leito nupcial.
Só depois sabem quer eram mãe e filho.
Felizmente a pobre rainha não deu à luz um irmão
Do seu filho e neto do seu irmão.

Cabe agora a Gregório a romaria expiatória.
Chega à casa de um pescador e ambos concordam:
A solidão é a solução. O pescador leva Gregório
Para o alto-mar e acorrenta-o num rochedo.

Gregório passa dezesseis anos em penitência.
Então morre o Papa em Roma.
Uma voz vem do céu e ordena que Gregório,
De seu opróbrio, deve ser o novo Vigário de Cristo.

Emissários chegam à casa do pescador, que pesca
Um peixe com a chave das correntes de Gregório
No ventre. O pescador leva os emissários da Igreja
À Pedra da Expiação entre as ondas do alto-mar.

Gritam: “Gregório, homem de Deus, Desce da Pedra
Para ser o Vigário de Deus na Terra.”
Gregório aceita: “Seja feita a vontade de Deus.”
É um santo o homem que sobe ao trono de Pedro.

Sua mãe vai a Roma confessar-se com o Santo Padre.
Gregório diz: “Ó minha doce mãe, irmã e esposa!
O Diabo quis dar-nos o Inferno, mas o Deus
Da Misericórdia encaminhou-nos para o Céu.”

Construiu um convento para a sua mãe nele
Se fechar, expiar e dirigir como abadessa.
Por pouco tempo: logo os dois devolveriam
Suas almas infelizes à glória de Deus.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MEU (DES)ENCONTRO COM MANUEL BANDEIRA






MEU (DES) ENCONTRO COM MANUEL BANDEIRA



Eu vi Manuel Bandeira parado na frente do Banco...
Não me lembro de que banco, mas era um prédio antigo
e o poeta exibia seus famosos dentes que eram teclas de piano.

Eu contemplei o poeta com admiração, quase com devoção,
e não tive coragem de me aproximar, cumprimentá-lo, quem sabe
ajoelhar-me a seus pés.

O poeta pairava com displicência no mesmo lugar
como se não esperasse nada, apenas que a vida passasse
e as coisas continuassem com a sua insignificância e a sua poesia.

Eu fiquei tão encantado contemplando o poeta, imbuído
de tanta timidez em minha veneração quase estúpida
que não pude dizer nada, fazer nada.

Até se poderia ouvir a música das teclas de piano do poeta
que, naquele distante 1969, quando eu o via em carne e osso
e poesia, há muito já partira para outras encantadas esferas.







quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA




ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA

Há tempos eu queria fazer um poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.

Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.

Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.

Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.

1-2-2012 - J. C. M. Brandão





domingo, 29 de janeiro de 2012

OS PATOS, OS MENINOS

















OS PATOS, OS MENINOS


Os meninos levaram o pato e a pata para nadar
No rio Tietê. Fazia sol, apesar de algumas
Nuvens. Os patos estavam eufóricos, quase mais
Que os meninos. Que riam, olhavam para o pato,
Olhavam para a pata, olhavam um para o outro,
E riam, riam a mais não poder.

Os patos mergulharam na água e gritaram,
Gritaram até perder o fôlego. Como não perderam
O fôlego, anoiteceu e ainda estavam gritando.
O pato nadava placidamente nas águas azuis
Como as do mar, a pata nadava para o lado oposto
E os dois gritavam a alegria da vida.

Um menino teria seus nove anos de idade, o outro
Era quase um adolescente. O mais velho parecia
Mais novo, com seu ar efeminado e meio chorão.
Foi preciso voltarem no dia seguinte para buscar
Os patos sumidos no rio feliz. Mas nem nesse dia
Os patos quiseram voltar. Aliás, os patos nem sabem
Querer ou não querer: os patos sabem nadar
E gritar a alegria da vida. 

Uma vez o menino mais novo segurou a pata,
Mas a pata se chacoalhou toda e saiu voando
E gritando. O menino mais velho caprichou
Na cara de choro, mas porque era seu costume
Essa cara delicada e dolorida.  Os meninos sabem
Que, quando os patos quiserem (sem querer!)
Voltarão para casa, com eles ou sem eles.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

COMO UM PÁSSARO

                                                                                                                       udu da coroa azul





COMO UM PÁSSARO



A rosa da placenta.
O feto como um pássaro.
Um peixe flutua nas águas convulsas do mundo.

Depois do dilúvio,
o pássaro voa com um ramo verde no bico.


jan./2012 - José Carlos Brandão






quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

IDENTIDADE






IDENTIDADE


Como Kafka, fui um inseto monstruoso.

Fui uma toupeira protegida e sufocada sob a terra.

Fui um abutre e devorava a minha vítima parte por parte

até chegar à mais sensível e essencial, a língua.

Fui um rato que não conseguia mais cantar.

Fui um macaco que perdeu a identidade,

da qual conserva apenas o ódio ao amestramento.

Fui um cachorro existencialista.

Fui um chacal que amava o deserto.

Como Empédocles, fui um jovem e uma jovem,

um arbusto e uma ave

e um peixe mudo no mar.



2-1-12 – José Carlos Brandão




 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ATRÁS DA VIDRAÇA





ATRÁS DA VIDRAÇA


A mulher atrás da vidraça, silenciosa,
olha fixamente o lagarto.

É tal o seu silêncio, como se estivesse nua.
É tal a sua nudez, como se estivesse morta.

Eu olho a mulher que olha o lagarto, profundamente,
de tão longe, como se estivesse em outro planeta.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PRIMEIRO POEMA DO ANO






O MACACO


O macaco na jaula do zoológico
faz caretas, mostra os dentes, funga.
Incomodado com a minha presença,
talvez me olhe como num espelho.

Grita, num guincho dolorido, aflito.
Será meu ancestral?
Balança a cabeça, desaprovando.

Estende o longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura uma banana,
com outra um graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para mim.


1-1-2012 - J. C. M. Brandão






sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OS BURACOS NEGROS






OS BURACOS NEGROS
                                  

Deus dialoga com o diabo
sentado na ponta de uma tábua, o diabo na outra ponta.
A tábua estendida como uma gangorra sobre um buraco negro.

“O Senhor criou tudo que existe, o sol e as outras estrelas
e os buracos negros, que um dia vão destruir toda a Criação
e o Criador junto?” – disse o diabo.

“Vou cuidar disso” – disse Deus e levantou-se da tábua
deixando o diabo ser sugado pelo buraco negro.









sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NATAL 1999






NATAL 1999
                              
                               ”O menino nasceu morto”
                               (Natal 1964, Murilo Mendes)

Deus nasceu na estrebaria.
A estrela brilha no alto céu
e ilumina o universo.
Os pastores seguem a estrela,
os reis magos seguem a estrela.
Deus nasceu e essa verdade
é tudo e nada.
Sobre o feno,
Deus respira
com um burro, uma vaca,
alguns animais.
O rito
que é nada e tudo
se veste de palha.
Uma estrela se apaga,
outra nasce.
A vida prossegue.
Os homens não seguem
a estrela.
A palha queima
e nenhuma estrela desce
para a minha companhia.      
Deus não cresce
na estrebaria.
Os homens não são mais sábios
nem mais naturais.
A vida prossegue
com a poesia
dos animais.
Somos feitos de adeuses,
uma pouca cinza fria.
Deus perece
na estrebaria.