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sábado, 14 de janeiro de 2012

O INSTANTE ESSENCIAL

                                




                                O INSTANTE


                                Onde estão as árvores que estavam aqui
                                ainda ontem, ainda hoje de manhã?
                                Costumavam passear nos braços da névoa,
                                mas sempre voltavam... Não voltarão mais desta vez?

                               O que as árvores têm a me dizer? O que os pássaros
                               tanto sussurram? As flores caem, os frutos se abrem
                               e as águas correm álacres no córrego inquieto.
                               Eu fico à espreita da fulguração de um instante essencial.












quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O MENINO E A MENINA



 
O menino e a menina
caminham pela estrada
com um sorriso cúmplice
nos olhos e nos lábios.

A estrada é torta e larga,
com árvores e pássaros,
terra, pedra e alegria
à direita ou à esquerda.

Ninguém conhece ao certo
a alegria do menino
e a alegria da menina
na estrada empoeirada.

O menino dá a mão
para a mão estendida
da menina feliz
e suas almas caminham.

Não há maior prazer
no mundo do que olhar
essas duas crianças
na estrada nessa tarde.



sábado, 24 de dezembro de 2011

NATAL EM BAGDÁ




Natal em Bagdá (1998)


A bomba desenha uma cruz em Bagdá,
A estrela explode antes de nascer,
A mulher rasga com as unhas o ventre ressequido,
Dois olhos vazios me olham de lugar nenhum.

As árvores estão despidas como esqueletos,
A rosa não tem mais nenhuma pétala,
A raposa e outros bichos tristes choram no deserto,
O universo é um cogumelo gotejando.

Profeta sobrevivente do exílio,
Já não tenho voz e canto à beira da estrada.
Todas as crianças têm a garganta cortada,

O sangue das crianças colore a aurora.
Um menino queima sobre a palha,
Das suas cinzas o novo homem vai renascer.








terça-feira, 22 de novembro de 2011

A GÊNESE DAS COISAS





GÊNESE DAS COISAS

No princípio era o nome. Eram as coisas.
O sangue tinge as coisas de luz.
Deus não permita que eu morra sozinho, sem as coisas.
Sou uma criatura com veneno nas unhas,
sou uma criatura com veneno na língua.

Vivo com uma alegria feroz a inocência das coisas.
Que fazer com o mundo?
A máquina das coisas gira nos eixos.
O vento faz música no bambual.
O vento faz música nos ossos.
O vento articula o nome das coisas.

São belas as coisas como gênese da terra.
A terra é iluminada com as flores nos chifres das vacas.
A terra é amor.  Deus é doce.
A criação sorri, os dentes das criaturas estralam.
Criar e morrer. Sou feliz como um louco quando crio.

Manipulo as coisas, com sangue nos dedos.
Eu me reconheço nos troncos das árvores.
A minha loucura explode as árvores.
As minhas mãos sangram com o peso das coisas.





quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A paineira




A paineira

Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.

Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.

Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.

Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.

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sábado, 24 de julho de 2010

A figueira



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O jornal Bom Dia, em Bauru, na matéria sobre o lançamento do meu livro "Memória da terra", publicou o poema "A figueira" na foto do tronco da minha figueira. Gostei tanto que quis repetir o feito aqui - mas não consegui trabalhar bem com as cores, para deixar o texto bem legível. Se não conseguir ler após clicar para ampliar o texto, leia-o abaixo.


A figueira

Deito num vão no tronco da minha árvore.
É uma grande figueira velha de um século.
Estou deitado no meio de folhas amarelas
Com um cheiro bom pelo meu corpo inteiro.

Réstias de sol desenham figuras no ar.
Pássaros voam, pousam e cantam.
A claridade doce me envolve e sonho
A sombra do bezerro e a sombra da vaca.

Essa figueira foi minha desde que nasci.
O meu mundo eram os seus galhos e folhas.
O meu mundo eram suas raízes sobre a terra,

Seu tronco e sua sombra como um colo de mãe.
Envelheci, sou outro, a minha figueira envelheceu,
Não nos reconhecemos. O tempo não volta atrás.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Canção do exílio




CANÇÃO DO EXÍLIO

A minha terra tem uma figueira
Na porta de casa, um cavalo inquieto
E os cachorros latindo para as vacas
E o meu pai apartando os bezerros.

As jabuticabeiras são infinitas,
O pomar tem todas as frutas
E todos os pássaros cantando.
Os sabiás, os melros, os canários

Disputam quem canta mais alto.
O sanhaço lambuza o bico no mamão.
O cafezal e o terreiro de café,

O milharal e a mata à beira d’água
Me lembram que eu sou criança ainda
Com a cara lambuzada de terra vermelha.

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Dia 12 último fui visitar a casa da minha infância.
Continua lá. Caiu um raio em cima da figueira, não está
mais inteira, mas continua lá.