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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

IDENTIDADE






IDENTIDADE


Como Kafka, fui um inseto monstruoso.

Fui uma toupeira protegida e sufocada sob a terra.

Fui um abutre e devorava a minha vítima parte por parte

até chegar à mais sensível e essencial, a língua.

Fui um rato que não conseguia mais cantar.

Fui um macaco que perdeu a identidade,

da qual conserva apenas o ódio ao amestramento.

Fui um cachorro existencialista.

Fui um chacal que amava o deserto.

Como Empédocles, fui um jovem e uma jovem,

um arbusto e uma ave

e um peixe mudo no mar.



2-1-12 – José Carlos Brandão




 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER





O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER


O poste de ferro diante das ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha de pedra
queima os pássaros da morte.

Viver ou morrer com a relva que se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um sinal de vida
antes da morte.

Descasquei a cebola torcendo o nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o osso.
Uma a uma iam caindo as faces sobrepostas
alheias e ainda íntimas.

A cidade multiplica suas esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.


12-23-2011   J. C. M. Brandão





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PRIMEIRO POEMA DO ANO






O MACACO


O macaco na jaula do zoológico
faz caretas, mostra os dentes, funga.
Incomodado com a minha presença,
talvez me olhe como num espelho.

Grita, num guincho dolorido, aflito.
Será meu ancestral?
Balança a cabeça, desaprovando.

Estende o longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura uma banana,
com outra um graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para mim.


1-1-2012 - J. C. M. Brandão






terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O SOBREVIVENTE





O SOBREVIVENTE


O longo muro de pedras sobe a montanha.
Numa das pedras vejo as letras do meu nome
gastas, apagadas pelo tempo.

Mas eu sobrevivi.






sábado, 26 de novembro de 2011

O POÇO DA CIDADE




O POÇO DA CIDADE

1
Mergulhou no poço da cidade,
mas não para se suicidar.
A lua e as estrelas o chamavam.

2
É natural que venha a velhice.
É natural que venha a morte.
Só não quero perder a minha loucura.

3
Precisei matar os dois homens.
Levei comigo a mulher.
Nova vida começava para nós.

4
Na casa velha havia um homem sem cabeça,
uma mulher com o ventre aberto
e três crianças em volta, mumificadas.
E pediram-me para não escrever sobre isso.

5
A sua pele negra era de uma beleza estonteante.
À noite descobri-lhe os cotos das asas de anjo.
Foi preciso matá-la.

6
Fui encarregado de exterminar os ovos.
Já imaginaram uma proliferação de anjos
nesta terra desolada?

7
Deus não é possível.
Os anjos não são possíveis.
Os homens estão entregues à própria sorte.

8
Não sei nada da minha vida ou da minha morte.
Carrego o silêncio de uma pedra na cabeça.

9
Querem que eu faça parte disto e daquilo.
Eu sou sozinho como os ossos de um crânio sobre uma pedra.
Eu sou uma sombra ao vento.

10
Fui um cavalo selvagem.
Fui uma rosa frágil, uma pedra, um rio.
Duvido que eu seja um homem.

11
Não reconheço a forma da minha cidade.
Estas pedras, estes ferros retorcidos, estes fios soltando fogo
e a fumaça saindo do ventre da terra à medida que as pessoas respiram.








quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O bezerro Bito




O bezerro Bito

Acaricio o focinho do bezerro
Bito, peludo e escuro, muitos anos
depois do adeus à infância e suas pastagens
de sonho e sol. Sou órfão de um bezerro.

O Bito ergue a cabeça e me olha triste
como se adivinhasse a dor futura.
O que seria feito de nós dois
no carrossel do tempo, que não para?

Morremos quando finda o sortilégio
que fazia o universo inteiro nosso.
Nunca mais o bezerro Bito berra

me chamando no pasto. Nunca mais
a lambida na cara como um beijo.
Nunca mais o menino e o seu bezerro.

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... Gregório Vaz apronta das suas: um extemporâneo poema de finados (ou de amor, se quiserem).

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