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sábado, 17 de dezembro de 2011

CANTO DA PRIMAVERA





CANTO DA PRIMAVERA


É primavera na terra transverberada.
As palavras cantam como fontes infatigáveis.
Tudo move as palavras.
Um trator,
um pássaro,
uma estrada,
uma estrela.
O perfume dos jacintos paira no ar
e cai
com a luz do sol fertilizando o sangue.

As raízes elevam-se leves
com o ofício dos espinhos e a defesa dos marimbondos.

Ouço o martelo da primavera polindo as flores e as estrelas
e os esqueletos dos cavalos
dos poetas – os cavalos transverberados
na noite líquida.
A loucura me guia, com a sua imanência e a teia do êxtase.

O silêncio da candeia sobre a mesa, as grandes sombras
esvoaçantes
e uma gota
de óleo
no escuro.
A primavera explode, uma serpente se enleia
nos meus braços, na garganta. 

E eu canto.
Eu canto com a voz das coisas, que nunca se calam.
A rosa ilumina o sangue.
A pedra ilumina a rosa.
Os mortos iluminam a vida.
A primavera cresce na ponta dos dedos.
A primavera cresce na ponta da língua transverberada.

José Carlos Mendes Brandão




domingo, 17 de outubro de 2010

O circo de cavalinhos



Os cavalos loucos

Os cavalos loucos cavalgam na lua.
São cavalos cegos e tocam música
e cantam versos verdes e vermelhos
e cantam com um peixe na garganta.

Os cavalos loucos comem na minha mão,
comem milho e ouro cantando baixinho.
São cavalos felizes e riem de mansinho
e gargalham com a chuva e com as árvores.

Um dia pegou fogo nos cavalos loucos,
o carrossel girava, girava em chamas.
Sobrou apenas a alma dos cavalos loucos,

sobraram os olhos dos cavalos queimados.
Os olhos doíam e choravam lágrimas de fogo,
os olhos de fogo eram a alma dos cavalos loucos.

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A Ignácio de Loyola Brandão

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Ignácio de Loyola Brandão esteve em Bauru há uns dois anos e contou a história do circo de cavalinhos do seu avô, que eu recrei à minha maneira neste poema.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Canção do exílio




CANÇÃO DO EXÍLIO

A minha terra tem uma figueira
Na porta de casa, um cavalo inquieto
E os cachorros latindo para as vacas
E o meu pai apartando os bezerros.

As jabuticabeiras são infinitas,
O pomar tem todas as frutas
E todos os pássaros cantando.
Os sabiás, os melros, os canários

Disputam quem canta mais alto.
O sanhaço lambuza o bico no mamão.
O cafezal e o terreiro de café,

O milharal e a mata à beira d’água
Me lembram que eu sou criança ainda
Com a cara lambuzada de terra vermelha.

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Dia 12 último fui visitar a casa da minha infância.
Continua lá. Caiu um raio em cima da figueira, não está
mais inteira, mas continua lá.