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sábado, 16 de junho de 2012

A LARANJA


 
Uma laranja rola
no meio do rio

rola
entre os peixes
e a água.

O sol brilha no alto.

A laranja rola
sem destino.




terça-feira, 22 de novembro de 2011

A GÊNESE DAS COISAS





GÊNESE DAS COISAS

No princípio era o nome. Eram as coisas.
O sangue tinge as coisas de luz.
Deus não permita que eu morra sozinho, sem as coisas.
Sou uma criatura com veneno nas unhas,
sou uma criatura com veneno na língua.

Vivo com uma alegria feroz a inocência das coisas.
Que fazer com o mundo?
A máquina das coisas gira nos eixos.
O vento faz música no bambual.
O vento faz música nos ossos.
O vento articula o nome das coisas.

São belas as coisas como gênese da terra.
A terra é iluminada com as flores nos chifres das vacas.
A terra é amor.  Deus é doce.
A criação sorri, os dentes das criaturas estralam.
Criar e morrer. Sou feliz como um louco quando crio.

Manipulo as coisas, com sangue nos dedos.
Eu me reconheço nos troncos das árvores.
A minha loucura explode as árvores.
As minhas mãos sangram com o peso das coisas.





sábado, 27 de novembro de 2010

Fábulas de Natal (1)





A HORA DO MENINO

Quando o menino quebrar a pedra
Dizendo uma oração sobre os ossos brancos
E gritar para a estrela da manhã: É a hora!
As águas despencarão da cachoeira do tempo

E inundarão os caminhos do homem.
As abelhas descerão do céu.
Os pássaros descerão do céu.
Enxames de anjos rasgarão as cortinas azuis.

Pode baixar a luz!
A virgem lavará a manhã com o sangue do menino.
O menino soltará fogo da boca.

A mulher canta o poema do abismo como um acalanto.
O quarto brilha, saem chamas do quarto.
O menino saiu das coxas da mulher
Para levar o sangue ao mundo.


A NOITE DO MILAGRE

A noite sobre o mar e os barcos dos pescadores,
Com o silêncio pairando como um pássaro morto.
Um cavalo em chamas galopava na montanha,
As árvores voavam para o céu com suas asas de anjo.

À borda do poço ouço o sermão do expatriado.
O galo vermelho se contorce, louco.
A gaivota voa negra sobre as ondas, a gaivota cega.
A égua se imobiliza de cascos erguidos, em vigília.

Estamos à espera do milagre.
A adormecida flutua com a casa em trevas.
Componho a face estranha no espelho.
Semeio flores azuis entre as espumas do mar.

O pescador mostra-me as chagas.
Esta é a noite da fé, a noite do milagre.
Toma o peixe e parte.

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Em 2007 fiz doze ou treze poemas de Natal. Várias fábulas de esperança. Vou postar aqui, aos poucos, neste Advento, esta minha preparação e espera pelo Menino.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O arado de Deus



O arado de Deus

É manhã nos lençóis no varal,
As pombas brancas voam,
Eu vôo com as asas do Espírito,
O silêncio do mapa é azul.

Eu vôo pelas mãos dos anjos,
Abro as cortinas para o Verbo,
O vinho no copo é sangue,
O trigo na mesa é o corpo.

Minha mãe pinta uma árvore,
Meu pai cavalga um cavalo de luz,
Meus irmãos montam e desmontam
As portas e janelas da infância.

Eu aprendo a poesia do mundo,
Deus segue à frente com o arado.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os gestos humanos






Os gestos humanos


Os caminhos são simples e pequenos, Sônia,
Levam à árvore em chamas do crepúsculo,
Aos cisnes sagrados brilhando no lago verde.

Você se lembra dos gansos, como grasnavam
Alertando-nos? As torres balouçavam-se
Com os bambuais, sobre a cidade adormecida.

Um relâmpago e as flores todas se abriram.
Ungimos com óleo e mel as nossas feridas,
Estávamos prontos para a arena da vida.

Os touros arrastavam o carro do sol e o mundo.
Nós conhecíamos as palavras apunhaladas,
Nós tínhamos sobre os ombros um lírio e uma forca.

Nós velávamos a pérola do enigma em sua concha
Enquanto os caranguejos e as aranhas, no escuro,
Extasiados, copiavam os nossos gestos humanos.


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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A paineira




A paineira

Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.

Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.

Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.

Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.

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