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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NOTURNO DOLORIDO




NOTURNO DOLORIDO


Atrás da janela escura, como no fundo de um lago,
uma criança dorme.
Um avião cruza o céu, sacode o quarto da criança.

Os homens na rua transformaram-se em pedra
e vestem armaduras de metal
que o vento chacoalha.

Ninguém se lembra, ninguém foi testemunha
do meu sofrimento.
E um grito aflito atravessa a noite, as estrelas, as almas.

Os telhados pendem, pesados, aterradores.
As mulheres têm sangue nas garras e nas asas cortadas.
As casas navegam nos nevoeiros, adernam, naufragam.




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

POEMA NO CREPÚSCULO




POEMA NO CREPÚSCULO


A árvore queimava
E o homem
Levantava o dedo pingando sangue

Era como se tivesse uma rosa
Na mão
Um espinho na ponta do dedo

Olha o vento
Como sopra na copa das árvores

O vento parece dourado
Sobre a copa das árvores

O menino olha o homem
Olha a árvore
Olha a rosa


E sai voando com o vento sobre a copa das árvores





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA É UMA SOMBRA





A CASA É UMA SOMBRA




A casa é uma sombra do que fora.

Mancha escura, ou nem tanto, na paisagem.

Um pouco de caliça, entulho, pó.

As raízes penetram as paredes,

De um jeito ou de outro querem persistir.



O que existe é uma página em branco,

De tanto lida, gasta pelos dedos

E olhos incertos, gastos por sua vez.

O lápis, oco, não escreve mais.

A alma, oca, não escreve: esparze a sombra.



Não somos mais quem fôramos: ninguém

É o que somos, no jardim esconso.

A água flui.

O vento ajunta as folhas amarelas

                                   E varre para fora do possível.




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A VÊNUS DE GESSO - o texto e o palimpsesto







A VÊNUS DE GESSO





Eu tinha uns sete anos de idade e subi

Numa penteadeira



(Para ver minha imagem

No espelho?)



E quebrei em mil pedaços o busto de

Uma Vênus de gesso



Você só faz arte, disse

Minha mãe



Foi o vento, eu disse








Estou brincando com a ideia de Gérard Genette de que todo texto tem o seu palimpsesto. Certo que simplifiquei quase ad absurdum. Mas escrevi A Vênus de Gesso lembrando A Estátua de Gesso, de um ano antes, que não me satisfazia.
Escrevi A Estátua de Gesso e postei no blog do Gregório Vaz em fevereiro de 2011.  Lembrando-me do poema, lembrei-me de que o achava palavroso, pretensioso, etc. – ruim o suficiente para ir apenas para o blog do Gregório.
Escrevi A Vênus de Gesso com a intenção de tirar um pouco da gordura do primeiro poema. Como magreza não é sinal de qualidade, vejo no poema um tanto gordo uma força que este não tem. As garras da poesia?
Quem quiser comparar, aqui está o primeiro poema, muito a grosso modo o palimpsesto:

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A ESTÁTUA DE GESSO

Vou falar mais uma vez da estátua de gesso
que eu quebrei quando era criança.
Disse à minha mãe que o culpado foi o vento,
eu não era um artista,
nem sabia o que era isso.

Esse é o destino dos poemas: foi o vento.
Os poetas nem sabem mais o que é isso.
Gozado como continuam fazendo poesia
com um ar de intelectuais
que dominam a sua arte
de intelectuais.
Como se a arte fosse um objeto intelectual.
Pior, como se isso fosse uma condição sine qua non
para um poema ser um poema.

Havia um espelho por detrás da estátua de gesso.
O espelho refletia a estátua de gesso
e refletia a minha cara de espanto e medo infantil.
Eu não sabia,
mas começava a conhecer o espanto e o medo –
essas condições para um poema ser um poema.

Há outras, mas o mundo caminha para o fim tão depressa
que não há tempo para enumerá-las
nem adianta.


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(Se alguém quiser vê-lo no blog do Gregório:


terça-feira, 22 de novembro de 2011

A GÊNESE DAS COISAS





GÊNESE DAS COISAS

No princípio era o nome. Eram as coisas.
O sangue tinge as coisas de luz.
Deus não permita que eu morra sozinho, sem as coisas.
Sou uma criatura com veneno nas unhas,
sou uma criatura com veneno na língua.

Vivo com uma alegria feroz a inocência das coisas.
Que fazer com o mundo?
A máquina das coisas gira nos eixos.
O vento faz música no bambual.
O vento faz música nos ossos.
O vento articula o nome das coisas.

São belas as coisas como gênese da terra.
A terra é iluminada com as flores nos chifres das vacas.
A terra é amor.  Deus é doce.
A criação sorri, os dentes das criaturas estralam.
Criar e morrer. Sou feliz como um louco quando crio.

Manipulo as coisas, com sangue nos dedos.
Eu me reconheço nos troncos das árvores.
A minha loucura explode as árvores.
As minhas mãos sangram com o peso das coisas.





sábado, 20 de novembro de 2010

Apocalipse de Drummond e meu pai






APOCALIPSE DE DRUMMOND E MEU PAI


Meu pai morreu no mesmo ano
que o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Era fevereiro e o mar rugia nos meus olhos,
mas ele morreu longe do mar.

(Drummond morreu olhando o mar? Umas
duas ou três gaivotas e o vai-e-vem das ondas).

As folhas caíam (não era outono) molhadas
do orvalho da noite, ao vento e ao sol.

Meu pai montava a cavalo e gritava
como um deus para a vida.

Drummond
lembrava o pai a cavalo como se pedisse perdão
do silêncio.

O meu pai e o poeta Drummond morreram
porque era hora.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

Sinto uma súbita alegria
ao me lembrar de meu pai
ao lado de Drummond
na eternidade.

A minha boca está seca, qualquer palavra
se quebraria.

O dia,
como a morte,
é uma fatalidade.

As crianças gritam
e não acordam meu pai,
que gostava de crianças dormindo.

Venta
neste momento
e em 1987.

Imagino o poeta sorrindo,
mesmo na morte, imóvel.

O morto é uma estátua
fria
na praia,
em qualquer lugar.

(Não deveriam fazer estátuas para os mortos.)

O poeta Drummond teve uma morte pública,
ônibus passam, a fumaça passa, os jornais anunciam
o feito histórico (o poeta morto como uma estátua).

O meu pai pediu um último cigarro, olhou a vela bruxuleante
(haveria vento no quarto? O vento do eterno
não se move).


O meu pai disse adeus,
e partiu a cavalo
sem se levantar do leito.


A cidade pequena
e os parentes sorriram contemplando o seu morto
particular.

O poeta e meu pai
(anônimos)
sorriem na eternidade
satisfeitos
com a poesia do fim dos tempos.

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