Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de março de 2012

A GARÇA






     A GARÇA




A garça marcha devagar, solene,
na areia à beira d’água. Atenta, observa:
um peixe descuidado se aproxima.
De repente dispara, flecha, o bico


e volta após fisgado o alimento.
No cristal d’água a sua imagem dança
nívea, leve, com graça, ao crepúsculo.
Eu a contemplo à luz fraca do sol,


à distância, real, em sua nobreza
de ave e príncipe. Quem sou? Ela ignora.
Existo à parte, como observador,
alheio, inexistente. Sou, não sou.


Um homem não faz parte da paisagem.
A garça é a paisagem. Mais que uma árvore,
mais que uma flor e a imagem que passa, alva,
a garça permanece na memória.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

NAVEGAÇÃO






NAVEGAÇÃO

As gaivotas sobrevoam a embarcação.
Eu navego para o horizonte indeciso.
As gaivotas me acompanham. Sem memória,
surdo e cego, eu sei. A distância é o meu destino.





domingo, 19 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA DO MAR






























MEMÓRIA DO MAR


Do ventre do peixe, o mar lançou-me à praia.
O sol beijou-me os olhos. Eu me levantei
Sem saber quem fui ou quem sou.









sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

UM COPO DE SILÊNCIO





























UM COPO DE SILÊNCIO


Guardo no meu poema, como num copo,
a imagem líquida das coisas.
A tinta é líquida, a tinta das minhas palavras.
As minhas palavras escorrem dos lábios
ensanguentadas.

A faca desce e se levanta
com o sangue da vida, jubilosa.
O meu poema tem todas as linhas da criação.
A loucura justifica o meu poema como
justifica a vida.

Vamos deixar a melancolia para outra hora.
Por enquanto a mulher não é uma estátua
de sal. O olhar foi punido porque o olhar
é tudo.
Por mais que aceitemos o esquecimento,
o olhar, que também é esquecimento, preserva.

O olhar diz que é a hora do silêncio.
Palavras, palavras, palavras
e o silêncio.
Como um pássaro, o silêncio canta.
Com a voz do esquecimento, o silêncio canta. 

J. C. M. Brandão




sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A goiabeira
















A goiabeira

Estendi a mão para apanhar uma goiaba
e uma lagarta de fogo me queimou o braço.
Doeu até a alma.

Estendi a mão e não encontrei nem a goiabeira,
era como se tivessem passado séculos ou milênios.
Doeu mais que a alma, se possível.

Hoje nem o pomar existe mais, nenhuma árvore.
A lagarta de fogo era a serpente, a goiabeira era a árvore
do bem e do mal no meu quintal-paraíso.


__________

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kos de Hipócrates


Imagem da Wikipedia


Kos de Hipócrates

A concha do olhar ou memória
ignoram o seu nome, baço,
e seu espaço de teatro
ou ágora de antigo templo.

À sombra dourada de um plátano,
tronco de largo diâmetro,
Hipócrates lições ministra
de medicina aos seus alunos.

Nesta terra de sal e mar,
a cura da dor e da morte.
Feitas e desfeitas, as pegadas
se renovam na areia branca.

É tarde, Hipócrates é cinza.
Férteis águas ferruginosas,
centro irradiador de saúde,
a brancura absoluta dorme.

_______________

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Matão, raízes

https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s

Vídeo de lançamento do livro "Memória da terra" (22-07-10), de JCMBrandão, mostrando que o autor faz poemas telúricos porque tem suas origens na terra.

Acesse o link:  https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s
__________

sábado, 24 de julho de 2010

A figueira



__________


O jornal Bom Dia, em Bauru, na matéria sobre o lançamento do meu livro "Memória da terra", publicou o poema "A figueira" na foto do tronco da minha figueira. Gostei tanto que quis repetir o feito aqui - mas não consegui trabalhar bem com as cores, para deixar o texto bem legível. Se não conseguir ler após clicar para ampliar o texto, leia-o abaixo.


A figueira

Deito num vão no tronco da minha árvore.
É uma grande figueira velha de um século.
Estou deitado no meio de folhas amarelas
Com um cheiro bom pelo meu corpo inteiro.

Réstias de sol desenham figuras no ar.
Pássaros voam, pousam e cantam.
A claridade doce me envolve e sonho
A sombra do bezerro e a sombra da vaca.

Essa figueira foi minha desde que nasci.
O meu mundo eram os seus galhos e folhas.
O meu mundo eram suas raízes sobre a terra,

Seu tronco e sua sombra como um colo de mãe.
Envelheci, sou outro, a minha figueira envelheceu,
Não nos reconhecemos. O tempo não volta atrás.

________