sábado, 31 de janeiro de 2026

Poema de aniversário


 

 
 
 
POEMA DE ANIVERSÁRIO

 

 

Eu nasci em 1947. Hoje é meu aniversário,

estou completando os meus felizes 79 anos de vida

e estou fazendo uma prece pedindo paz para os homens.

Todos nós precisamos de paz para viver e para morrer.

 

Eu nasci no final da 2ª Guerra para repovoar o mundo.

Meus irmãos nasceram em 1934, 1936 e 1938,

eu esperei impacientemente o fim da guerra para nascer.

Eu nasci com a bandeira da paz na alma e nas mãos.

 

Eu nasci para destruir as armas, para preservar o homem.

Eu nasci para cultivar a beleza da paz acima de todas as coisas.

Eu nasci em um já longínquo 1947 e estou cansado.

Estou muito cansado e muito feliz com a vida que vivi.

 

Estou cansado, mas ainda tenho grandes expectativas.

Os homens não vão deixar o mundo se acabar.       

Acredito que os homens ainda vão caminhar juntos

e gritar forte para muito alto a sua grande esperança.

 

Eu ainda acredito fervorosamente na paz.

Ao vencedor as batatas, disse o velho bruxo.

Os homens precisam se unir pela paz, não pelas batatas.

Ainda somos crianças, nós vamos sobreviver.

 

Ainda somos crianças alegres no jardim da infância.

Ouçam os sinos, ouçam como tocam os sinos felizes.

Olhemos para o alto, olhemos para a montanha

e subamos cantando a nossa incrível sobrevivência.

 

                 José C. M. Brandão - 28/01/2026

 

 

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O gato preto


     

                                O GATO PRETO 

 

O poema é um quarto escuro
onde você entra procurando um gato preto
que não está lá
 
É uma beleza esse quarto escuro
existe apenas em razão dessa beleza
que não está lá
 
É fantástico esse quarto escuro
fantástico como um gato preto
que não está lá
 
Não decifrem o poema
não decifrem o gato preto
o poema é uma oração no escuro 
 
José C. Brandão

 

    

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os amigos são infiéis

 



OS AMIGOS SÃO INFIÉIS

 

 

Os amigos são infiéis como a noite grande.

Os amigos vão morrer

como a água que cai desmorona.

Eu reencontrei os amigos e eram outros

e eram os mesmos.

A mesma indiferença nos unia nos separava

nós nos demos as mãos no escuro

e eram cobertas de escamas como as mãos dos répteis

nós não éramos os mesmos

nós não éramos outros.

Todas as palavras são insensatas

nós nos assassinamos com a ausência das palavras.

Os amigos enlouqueceram e estão me chamando

estão me chamando com insistência.

Eu enlouqueci e estou chamando ninguém na noite grande

pedras caem me sepultam.

Eu penetro no fogo não quero encontrar os amigos mortos

eu sou um morto clamando na eternidade.

Só a paixão me salva

só a paixão me condena irremediavelmente.

Penetro no fogo e morro

o fogo me salva

e o silêncio.

 

J. C. Brandão


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O olho mágico

 


                                             https://cronicascariocas.com/olho-magico/

 

 

                    O olho mágico

  

            A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.

            – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.

            O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.

            Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”

            Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.

            – Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.

            – Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.

            – De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.

            Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:

            – É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!

            Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:

            – É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim.  Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:

– Amorzinho!