RETRATO 2/8
Sou apenas um poeta manco
não sou nem amarelo nem preto nem branco
sou um poeta manco a chiar
sou um poeta manco que se esqueceu de mancar
a chiar mas não sou nenhuma chaleira
sou um poeta vesgo sem eira nem beira
não tive nenhum anjo mocho no começo da estrada
que me mandasse ser roto na vida esburacada
nascer é muito esquisito
ainda não me acostumei com o cachimbo nem com o pito
não sou alegre nem como alpiste
nem invejo o mito para onde subiste
escrevo porque não sei cantar
a palavra é tão dura como o mármore
sou sempre o outro no diálogo impossível
sou só um poeta de meia tigela e o rato rói o edifício
José C. M. Brandão / Gregório Vaz
POEMA NADA ORIGINAL SOBRE O MEDO
tenho medo das palavras
tenho medo da falta das palavras
tenho medo de boi bravo
tenho medo de marimbondos
tenho medo de política
tenho medo da falta de política
tenho medo da morte, a ineludível
tenho medo da covid-19, a incógnita
tenho medo dos militares
tenho medo das armas
tenho medo dos imbecis
tenho medo do verde, da falta do verde
tenho medo da terra, da falta da terra
do ar, mais ainda da falta de ar
do fogo, da borboleta, do abismo que a borboleta sobrevoa
do céu azul, do sol, do abismo, repito, é preciso ter medo do abismo
José C. M. Brandão
Eu nasci em 1947. Hoje é meu aniversário,
estou completando os meus felizes 79 anos de vida
e estou fazendo uma prece pedindo paz para os homens.
Todos nós precisamos de paz para viver e para morrer.
Eu nasci no final da 2ª Guerra para repovoar o mundo.
Meus irmãos nasceram em 1934, 1936 e 1938,
eu esperei impacientemente o fim da guerra para nascer.
Eu nasci com a bandeira da paz na alma e nas mãos.
Eu nasci para destruir as armas, para preservar o homem.
Eu nasci para cultivar a beleza da paz acima de todas as coisas.
Eu nasci em um já longínquo 1947 e estou cansado.
Estou muito cansado e muito feliz com a vida que vivi.
Estou cansado, mas ainda tenho grandes expectativas.
Os homens não vão deixar o mundo se acabar.
Acredito que os homens ainda vão caminhar juntos
e gritar forte para muito alto a sua grande esperança.
Eu ainda acredito fervorosamente na paz.
Ao vencedor as batatas, disse o velho bruxo.
Os homens precisam se unir pela paz, não pelas batatas.
Ainda somos crianças, nós vamos sobreviver.
Ainda somos crianças alegres no jardim da infância.
Ouçam os sinos, ouçam como tocam os sinos felizes.
Olhemos para o alto, olhemos para a montanha
e subamos cantando a nossa incrível sobrevivência.
José C. M. Brandão - 28/01/2026