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domingo, 19 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA DO MAR






























MEMÓRIA DO MAR


Do ventre do peixe, o mar lançou-me à praia.
O sol beijou-me os olhos. Eu me levantei
Sem saber quem fui ou quem sou.









terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O MAR E A MONTANHA










O MAR E A MONTANHA

 
O mar é irmão da montanha. Ambos beijam o azul do céu.
A águia encolhe a plumagem e mergulha da montanha para o mar.
Os náufragos saem das águas ostentando os seus despojos,
sentam-se nas ruas da cidade com os olhos vazios e a língua inútil.

O dia é uma pantera e afia as garras diante da terra ensolarada.
Eu sou o sobrevivente e componho a música do princípio e do fim.



 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER





O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER


O poste de ferro diante das ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha de pedra
queima os pássaros da morte.

Viver ou morrer com a relva que se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um sinal de vida
antes da morte.

Descasquei a cebola torcendo o nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o osso.
Uma a uma iam caindo as faces sobrepostas
alheias e ainda íntimas.

A cidade multiplica suas esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.


12-23-2011   J. C. M. Brandão





sábado, 17 de dezembro de 2011

CANTO DA PRIMAVERA





CANTO DA PRIMAVERA


É primavera na terra transverberada.
As palavras cantam como fontes infatigáveis.
Tudo move as palavras.
Um trator,
um pássaro,
uma estrada,
uma estrela.
O perfume dos jacintos paira no ar
e cai
com a luz do sol fertilizando o sangue.

As raízes elevam-se leves
com o ofício dos espinhos e a defesa dos marimbondos.

Ouço o martelo da primavera polindo as flores e as estrelas
e os esqueletos dos cavalos
dos poetas – os cavalos transverberados
na noite líquida.
A loucura me guia, com a sua imanência e a teia do êxtase.

O silêncio da candeia sobre a mesa, as grandes sombras
esvoaçantes
e uma gota
de óleo
no escuro.
A primavera explode, uma serpente se enleia
nos meus braços, na garganta. 

E eu canto.
Eu canto com a voz das coisas, que nunca se calam.
A rosa ilumina o sangue.
A pedra ilumina a rosa.
Os mortos iluminam a vida.
A primavera cresce na ponta dos dedos.
A primavera cresce na ponta da língua transverberada.

José Carlos Mendes Brandão




sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A GALINHA MANCA





                              
                                   A GALINHA MANCA

A galinha atravessa vagarosamente o terreiro.
Cada passo é quase uma queda
(como a vida).

A galinha é torta,
tem uma perna mais curta que a outra.
É uma galinha manca.

Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse
calculando
cada
movimento.
O terreiro é largo,
clareado aqui e ali por algumas réstias de sol.
O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra
preta,
folhas, penas e dor.

A galinha é um bicho só.
Procura algum grão de milho, uma minhoca,
procura a sombra,
procura o sol.

A galinha conjuga os verbos da solidão.
Nenhuma outra galinha,
nenhum galo.
A vida parece sem sentido.

A galinha ergue a cabeça,
apruma o corpo,
soluça
e volta a caminhar.

É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado,
para o outro,
olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê.
E caminha.

Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala.
Mas caminha
tropeçando na própria perna,
caindo,
levantando.
Caminha.
A galinha mínima dominou o seu mundo mínimo.








quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O SILÊNCIO DAS COISAS





























O SILÊNCIO DAS COISAS

O silêncio dorme à sombra das árvores.
Os animais são obscuros como os homens.
O sol gira tanto, as estrelas giram, uma serpente
gira em torno do meu corpo.

A morte é real, concreta. A montanha é pesada.
É preciso falar do amor como uma coisa.
É preciso falar do amor.
As flores perfumam a terra, as flores iluminam a terra.
As flores enlouquecem.

Que pode uma criatura, entre criaturas, senão morrer?
É preciso partir. É preciso chegar ao fim da viagem.
Para onde vamos?
É preciso despedir-me. Vou sozinho.
Sou o abandono. A terra me espera.
Vivo com a terra no sangue. Um dia serei apenas terra.

A caverna me lembra a necessidade de ser e morrer.
A inocência dos filhotes caídos do ninho.
Os bois mugem, as estrelas mugem.
As estrelas sussurram distantes.
Sou inocente. Balbucio fracamente.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O arado de Deus



O arado de Deus

É manhã nos lençóis no varal,
As pombas brancas voam,
Eu vôo com as asas do Espírito,
O silêncio do mapa é azul.

Eu vôo pelas mãos dos anjos,
Abro as cortinas para o Verbo,
O vinho no copo é sangue,
O trigo na mesa é o corpo.

Minha mãe pinta uma árvore,
Meu pai cavalga um cavalo de luz,
Meus irmãos montam e desmontam
As portas e janelas da infância.

Eu aprendo a poesia do mundo,
Deus segue à frente com o arado.

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