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sábado, 28 de julho de 2012

A FERRUGEM E O OURO






A FERRUGEM E O OURO


A ferrugem nas chaves, nas fechaduras
e no gonzo das portas.
Refulge em silêncio o ouro das palavras.




quinta-feira, 26 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

MAPA - MURILO MENDES




MAPA


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.


Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos". ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Murilo Mendes

_____________

Leio este poema como se eu o tivesse escrito. Penso, até, em emendar aqui ou ali. Em lugar de Colégio, escreveria Seminário. Girassóis? Por que não hortênsias? O quarto modesto de Botafogo seria o quarto da pensãozinha de Duartina, onde escrevi os três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado. Viva são Francisco, mas onde estão os poetas suicidas?
Brincadeira à parte, este poema tem muito da minha biografia espiritual, intelectual, artística.  

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Era um cavalo todo feito em lavas - Jorge de Lima


Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.


                                               Jorge de Lima - "Invenção de Orfeu"


                                

 

terça-feira, 19 de junho de 2012

CONFISSÃO - Carlos Drummond de Andrade

 


Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

                                        Carlos Drummond de Andrade

domingo, 17 de junho de 2012

A MORTE ABSOLUTA



                                     Ninguém escreverá
                                     a minha elegia
                                     quando eu me for.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

A ÓTICA DO TEMPO



Por que o futuro está à nossa frente
e o passado atrás?
Não poderia ser o contrário?

Não poderia haver a um objeto à nossa frente
que vimos no passado?
Ou alguém no futuro
não poderia estar bem atrás de nós?

E porque não poderia estar o passado embaixo
e o futuro acima?
O passado no fundo de um vale
e o futuro nas altas montanhas?

O futuro é misterioso para nossos sentidos,
para a nossa visão. Está atrás,
onde não o vemos. O passado,
que conhecemos, está à frente.

Como podemos ter memória
do tempo passado,
se ele estiver à nossa frente?
Ele seria quase o nosso presente.

Por que vamos querer o passado atrás
e o futuro à frente?
Por que queremos prever o futuro
se ele pode estar atrás?

O tempo não é mais
que uma questão de ótica.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Poema para o dia dos namorados




CORPO


Eu te amo, te amo, te amo.
Três vezes bati na rocha:
jorrou sangue e amor.
O nome de Deus é o verbo,
o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo
como nomeio o amor: corpo.
Nomeio a vida
com o nome do amor: corpo.
Nomeio a beleza
com o nome do meu amor: corpo.
Corpo, corpo, corpo: amor.
Sangue que jorra da rocha: corpo.
Amor natural como o êxtase do corpo
no corpo.


- poema do meu livro Poemas de Amor, 1999.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O SILÊNCIO DA PEDRA





O SILÊNCIO DA PEDRA


A pedra fez silêncio.
A árvore deixou cair uma folha, uma fruta, um pássaro.
A folha pairava no ar, voava.
A fruta se esborrachou na pedra.

O pássaro pousou ao lado para comer a fruta.
Bicava o silêncio.
Canto fica para depois.
Agora a fruta, o chão verde, com poças d’água.

A água é vermelha e uma libélula beija.
Um menino caminha sozinho e chora uma lágrima quieta.
A pedra faz silêncio para ouvir a lágrima do menino.

O menino ergue o braço, o dedinho.
O pássaro vem sentar no dedinho, abre o bico,
mas faz silêncio, aprendeu com a pedra.






quarta-feira, 30 de maio de 2012

CANTO DE CISNE




     CANTO DE CISNE

1
Como um cisne, canto para morrer. Quanto escrevi, quanto falei é nada. O meu canto apodrece os jardins. Canto grave, com entonação esconsa.
Não fui o guardião da beleza. As rosas incendiaram-se. Deitei ao mar o meu trabalho. As coisas fulguram um instante, sublime, porque último. O sol ruirá com estrondo ensurdecedor.
Ninguém ouve o sol. Ninguém ouvirá mais nada.
O mar continuará o seu trabalho. Polir, esculpir conchas e pedras in eternum. Eu abandono as minhas pérolas. Abandono o meu cinzel.
Os meus olhos luzem no escuro. Estou falando da solidão. O universo fulgura, só. Quando eu morro. O silêncio da flor quando eu morro. Os pássaros pendem das árvores como frutos. Como estrelas. Terrivelmente silenciosos.
O cisne se apaga no lago.

2
Os olhos do peixe não olham. Paralisados no ar seco. Laterais como a vida. O silêncio dos olhos, ridículos, parados em solidão e beleza. Como o mármore.
Não temos mais nenhuma palavra. As palavras recolheram-se ao dicionário, sem poesia. Sangue nenhum.

3
Uma barata resplandece sobre a mesa enquanto escrevo. Ratos voam. Morcegos. Um relâmpago fende a treva. A minha treva.
Continuo, cabisbaixo, cantando.
Difícil fabricar a morte. Uma elaboração do frio. Aceitar o nada. As coisas de ar.
Deus se afasta com a luz do eterno. Somos somente solidão quando morremos.




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um poema de Bernardo Atxaga




A morte e as zebras




Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.


Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.


Bernardo Atxaga (poeta basco que devíamos conhecer mais)
Tradução de Luís Filipe Parrado.




quarta-feira, 2 de maio de 2012

O ROSEIRAL



























UM ROSEIRAL


A palavra é uma rosa encantada.
O poema é um roseiral.

A morte é uma lagarta
com fome e resignação.

As pétalas amam o fogo do sol,
as abelhas amam o ouro do néctar.

Tenho tanta sede, é preciso partir.
Uma formiga solitária me espera.





sábado, 21 de abril de 2012

PELICANO


                                         
                                  Abro o peito para o meu filho, o poema.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

RIDENDO CASTIGAT MORES




RIDENDO CASTIGAT MORES


Os falsos sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta Joseph Brodsky.

A minha poesia não deve ser humana,
os seus sentimentos são tudo menos falsos.

Nada do que é humano me é estranho,
já dizia o romano Terêncio.

A minha poesia é estranha para quem não é humano,
concluo, mostrando os dentes e as garras.