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quarta-feira, 28 de março de 2012

POETA TEM QUE SOFRER, disse Millôr Fernandes




Eu acabava de ser apresentado a Millôr Fernandes, em 1991, como um dos poetas premiados na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Ele me bateu nos ombros, dizendo como quem consola: “Poeta não precisa ganhar prêmio. Poeta tem que sofrer.”

Pouco depois estava no Centro de Convenções Rebouças dando o seu depoimento diante de uma plateia atenta de umas duas mil pessoas. E qual era o tema? Não mais que o enunciado acima: “O poeta tem que sofrer.”

Era como se Millôr falasse para mim mesmo. Como se continuasse a conversa mal iniciada.

Ele me ensinava que os prêmios são um reconhecimento da obra que o poeta faria de qualquer maneira. Ou quase de qualquer maneira: antes é preciso sofrer.


Não me lembro de uma palavra desse depoimento, mas tinha aprendido o essencial. Somente se escreve criticamente.

Millôr se dizia um escritor sem estilo. Numa de suas últimas entrevistas disse que escrever é fácil. Basta ter o que dizer.

O humorista ou o poeta sentem a dor de viver. Depois, escrevem.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA




ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA

Há tempos eu queria fazer um poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.

Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.

Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.

Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.

1-2-2012 - J. C. M. Brandão





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PRIMEIRO POEMA DO ANO






O MACACO


O macaco na jaula do zoológico
faz caretas, mostra os dentes, funga.
Incomodado com a minha presença,
talvez me olhe como num espelho.

Grita, num guincho dolorido, aflito.
Será meu ancestral?
Balança a cabeça, desaprovando.

Estende o longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura uma banana,
com outra um graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para mim.


1-1-2012 - J. C. M. Brandão