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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMÉM






AMÉM


Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.

Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.

A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.

A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.

Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.  
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.





domingo, 25 de março de 2012

A TARTARUGA




 

     A TARTARUGA


A tartaruga vai tão devagar
como se imóvel fosse – eppur si muove.
Nasce na areia condenada à morte,
só por um fio consegue escapar

e, solerte, se apega tanto à vida
que bem parece não morrer jamais.
Essa é a lentidão da tartaruga.
Move-se devagar porque o horizonte

é sempre mais além de outro horizonte.
Existir é memória. Um ovo ao sol
cozinhando na areia ao som do mar.
A sua casca é dura como a pedra

e é o seu próprio corpo, pele e osso.
A tartaruga pesa como o mundo.
Leva nos ombros a beleza e a dor,
o êxtase e o mistério de existir.





(poema do "Livro dos bichos", Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. - RJ)






quarta-feira, 7 de março de 2012

A LÍNGUA BÍFIDA






A LÍNGUA BÍFIDA


                        1. 
Por que sou um estranho entre os homens?
Antes que o sol me ilumine, é noite.
                        
                        2.
A lagartixa desaparece numa fenda da parede.
Fico só, embaralhando a minha perplexidade.

                        3.
 Um silêncio súbito me paralisa.
A montanha parte-se com a luz e a água.
                     
                        4.
A única coisa que se movia entre as pedras
era a serpente e a sua língua bífida.








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA




ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA

Há tempos eu queria fazer um poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.

Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.

Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.

Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.

1-2-2012 - J. C. M. Brandão





terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O SOBREVIVENTE





O SOBREVIVENTE


O longo muro de pedras sobe a montanha.
Numa das pedras vejo as letras do meu nome
gastas, apagadas pelo tempo.

Mas eu sobrevivi.






sábado, 26 de novembro de 2011

O POÇO DA CIDADE




O POÇO DA CIDADE

1
Mergulhou no poço da cidade,
mas não para se suicidar.
A lua e as estrelas o chamavam.

2
É natural que venha a velhice.
É natural que venha a morte.
Só não quero perder a minha loucura.

3
Precisei matar os dois homens.
Levei comigo a mulher.
Nova vida começava para nós.

4
Na casa velha havia um homem sem cabeça,
uma mulher com o ventre aberto
e três crianças em volta, mumificadas.
E pediram-me para não escrever sobre isso.

5
A sua pele negra era de uma beleza estonteante.
À noite descobri-lhe os cotos das asas de anjo.
Foi preciso matá-la.

6
Fui encarregado de exterminar os ovos.
Já imaginaram uma proliferação de anjos
nesta terra desolada?

7
Deus não é possível.
Os anjos não são possíveis.
Os homens estão entregues à própria sorte.

8
Não sei nada da minha vida ou da minha morte.
Carrego o silêncio de uma pedra na cabeça.

9
Querem que eu faça parte disto e daquilo.
Eu sou sozinho como os ossos de um crânio sobre uma pedra.
Eu sou uma sombra ao vento.

10
Fui um cavalo selvagem.
Fui uma rosa frágil, uma pedra, um rio.
Duvido que eu seja um homem.

11
Não reconheço a forma da minha cidade.
Estas pedras, estes ferros retorcidos, estes fios soltando fogo
e a fumaça saindo do ventre da terra à medida que as pessoas respiram.








sábado, 4 de dezembro de 2010

Fábulas de Natal (2)





O MENINO NASCEU

O menino nasceu ao meu lado.
Um halo de luz fendia as trevas,
Vinha do alto e se expandia.
O galo arrebentou a garganta.

O cavalo cantou as palavras do poema.
Uma frágil parede nos separava do mundo.
O cavalo escarva o chão soltando fogo pelas ventas:
Era o meu poema queimando a noite.

O sangue inundava o quarto.
A caçamba do tempo vem do fundo do poço,
transbordando água limpa e fresca.
Trago o estigma na fronte.

Sou lavado pelo batismo do menino.
Vejo os ossos brancos sobre a pedra.
O menino ergue a chave com a mão pequena
E me abençoa.


   O POEMA DO MILAGRE

Sou uma pedra no meio da casa
Com os ossos do cão cruzados em cima.
Quando chegará o inimigo?
Sentaremos juntos, conversaremos, sorriremos?

Comungaremos a minha casa antes de nos estranharmos?
A minha mãe chora atrás da porta,
A cabeça coberta com o pano da dor.
Um espinho me penetra nos olhos com o poema do milagre.

O nome do menino me queima a língua.
Os olhos do menino estão em brasa e iluminam a noite.
A casa cai com a luz.

As flores voam, as pétalas são gotas de fogo.
A mulher entrega o menino ao estrangeiro.
O velho ergue o menino nos braços e canta.


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                 ( poemas de Natal, 2007)

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Três paráfrases




                                
1. O carrinho de mão vermelho

Quando criança eu tinha um carrinho
de mão vermelho
como William Carlos Williams.

Vivia marcado de cocô de pomba
branco
sobre o vermelho.

Eu enchia o carrinho de pedaços
de madeira e partia
para construir o mundo.

Nada mais tinha importância.


2.A PEDRA

Uma pedra é uma pedra, é uma pedra.
Não quero que a pedra seja outra coisa.
A pedra em si vale um poema.

Não é preciso dizer nada.
Nenhum símbolo, nenhuma imagem.
É uma forma completa, única, absoluta.

É um poema.


3. EM CRETA, COM O MINOTAURO

Em Creta, com o Minotauro
esquadrinho o labirinto.
Instauro o meu reino restrito.

O sol queima os sonhos.
Eu quebro o candelabro.
Desenrolo o novelo da dor.

A esfinge me decifra: sou
o poeta com a lira em delírio
em Creta, com o Minotauro.


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1. O Carrinho de Mão Vermelho talvez seja o mais famoso poema de William Carlos Willians. É certamente o que mais exemplifica a sua técnica de tirar do poema tudo que é excesso, usar palavras comuns, criando uma pintura clara, quase sem imagens. Não merecia que eu lhe acrescentasse nada, e não o fiz. Acontece que eu tive um carinho de mão vermelho, que enchia (uma amiguinha de infância, uns quarenta anos depois, me lembrou o caso) de pedaços de madeira, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Então, eu precisava registrar o fato.
O poema de WCW é lido fora do contexto. WCW era médico-pediatra e estava em visita ao uma menina doente, em agonia, quando viu pela janela o carrinho vermelho. Daí a sua importância, que, no meu caso, é simples memória.
Deixo abaixo o poema de WCW, para lembrar aos leitores – mais do que comparar.

THE RED WHEELBARROW

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens.

 

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

(Trad. José Paulo Paes)

2.  O verso “Rose is a rose is a rose is a rose” deve ser mais conhecido do que todo o resto da obra de Gertrude Stein. E é vítima de uma falácia: faz parte de um poema de 1913, e o primeiro Rose refere-se ao nome de uma pessoa, - mas é outro texto lido fora do contexto, como a afirmação de que as coisas são o que são. É nesse sentido que empreguei no meu poema. Francis Ponge ensina no “Le parti pris des choses”, justamente esse “as coisas são o que são”, que eu já aprendera com João Cabral.
Tenho cansado de ver a citação dos versos de Adélia Prado: “Deus de vez em quando me castiga. / Me tira a poesia, olho para uma pedra e vejo uma pedra.” Elogiosamente. E são belos versos. Mas citados fora do contexto, um dos mais longos poemas de Adélia, que fala da condição humana, não da técnica poética. Quanto à técnica, ela sabe que a poesia é linguagem. Que as palavras se tornam especiais com o trabalho da linguagem no poema.
O meu poema refere-se a essa ideia.

3. “Em Creta, com o Minotauro” é o nome de um dos melhores poemas de Jorge de Sena. Vi à exaustão o Minotauro nos labirintos de Jorge Luis Borges. Já não era novidade para mim, por minha formação clássica. É o meu poema mais pessoal dos três acima, quanto a linguagem e visão do mundo. 

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