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quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAIM




   
          Caim


Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é morrer, o que é acabar.
A morte é o silêncio de uma pedra.

Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com Abel?
Que é que se faz com um morto?
Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?

Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do que sou.
É a marca do homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu irmão morto me alimenta.


                                    J. C. M. Brandão, in O silêncio de Deus, 2009.


 

quinta-feira, 29 de março de 2012

O BODE































O BODE



O bode sobe a montanha, com os chifres
em riste.

A montanha é um trono para o bode.
Entre os rochedos, orgulhoso, ostenta
o poderio do seu domínio estrito.

Que é a vida? O que somos nós no pasto
do existir? Que capim, que ossos roemos?
O bode solta um grito nas alturas.
O grito preto e branco, seco, quebra-se

e, ricocheteando, reconhece
o território do rebanho, grei e reino.
O bode impera sobre os seus limites.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NOTURNO DOLORIDO




NOTURNO DOLORIDO


Atrás da janela escura, como no fundo de um lago,
uma criança dorme.
Um avião cruza o céu, sacode o quarto da criança.

Os homens na rua transformaram-se em pedra
e vestem armaduras de metal
que o vento chacoalha.

Ninguém se lembra, ninguém foi testemunha
do meu sofrimento.
E um grito aflito atravessa a noite, as estrelas, as almas.

Os telhados pendem, pesados, aterradores.
As mulheres têm sangue nas garras e nas asas cortadas.
As casas navegam nos nevoeiros, adernam, naufragam.




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A gata




A gata

A gata me olha com seus olhos náufragos.
Era como se seu olhar viesse
do outro mundo. Lançava com os olhos
um grito silencioso, que gelava.

Havia gigantescas ondas, monstros
marinhos, corais, conchas e florestas
submersas em seus olhos de âmbar e ouro
líquidos, mal velando o abismo fundo.

Neles boiava o sal da eternidade.
Deus neles mergulhara na criação.
A luz primeira Deus criou nos olhos

da gata imemorial. O seu miado
surdo traz ecos dos enigmas do homem
diante do absoluto mar da origem.

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Poema detentor do 1º Prêmio “Cassiano Nunes” de Poesia, da Universidade de Brasília, junto a O cachorro e O cavalo (2º lugar, 2010), que postarei aqui nos próximos dias.

A gata é a da foto – é uma gata que apareceu em casa faz tempo, nem parece que já está velhinha. Não escrevi “gata imemorial”? Ela é capaz de sugerir muito.

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