Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens
sábado, 21 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com
toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do
poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas.
quinta-feira, 22 de março de 2012
O TUCANO
O TUCANO
O tucano ergue o longo bico
adunco
entre as árvores ralas na
canícula:
ausculta o tempo com sanguínea
verve
e dispersa o calor com sua
astúcia.
O tucano transpira pelo bico
como se fosse um radiador.
Controla
a sensibilidade do seu corpo
nos dias quentes e nas noites
frias.
O tucano colore o azul do dia,
as campinas, as árvores e as
águas.
Os pássaros se calam quando o
tucano
filtra a luz e o mormaço do
verão.
Agita e grita a cor de galho
em galho.
Com o suor do corpo no seu
bico,
o voo inquieto do tucano
enfeita
o verde da paisagem do poema.
Esta foi a última foto de um tucano que eu tirei. Em S. Bento do Sapucaí,
SP, perto da Cachoeira dos Amores, na semana passada.
A foto não corresponde ao poema, escrito uns dois anos antes.
In “Livro dos bichos”, Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. RJ (a
publicar).
José Carlos Mendes Brandão
quinta-feira, 15 de março de 2012
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
Pedra do Baú - S. Bento do Sapucaí - SP
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
Leio um poema
de Ted Hughes em que sua amada Sylvia Plath
Declama poesia
para as vacas
E fico
imaginando como seria interessante dizer meus poemas
Para os
cavalos, os cachorros, as borboletas,
Talvez para o
papagaio – dizem que o papagaio é ótimo ouvinte
E é disso que
o poeta precisa: ótimos ouvintes.
Os animais
podem muito bem ser melhores ouvintes
Do que os
homens ou as mulheres sonhadoras ou palradoras.
Sim: pelo
menos os animais não palram nem sonham.
Certo, alguns
animais palram
Mas nenhum
sonha
E um poema é
para ser ouvido muito acordado,
Com todos os
sentidos atentos.
O mal dos
homens e das mulheres é não terem os sentidos atentos.
O mal dos
animais é outro.
Os animais
também não servem para serem ouvintes de poesia.
É que o poeta
fala por imagens,
Diz vermelho e
azul e verde e amarelo,
Diz luz e
movimento,
Diz sangue e
céu,
Diz tanta
coisa para não dizer a ideia que está por trás das coisas.
Os animais
veem as coisas e pronto.
Os animais não
têm noção de beleza e efêmero,
De eterno e pó
e abismo e Deus.
A poesia
existe porque os homens complicam demais a vida.
Os animais
veem a vida como uma coisa simples.
Não precisam
de poesia.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA
ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA
Há tempos eu queria fazer um
poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.
Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.
Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.
Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O poste de ferro diante das
ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha
de pedra
queima os pássaros da morte.
Viver ou morrer com a relva que
se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um
sinal de vida
antes da morte.
Descasquei a cebola torcendo o
nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o
osso.
Uma a uma iam caindo as faces
sobrepostas
alheias e ainda íntimas.
A cidade multiplica suas
esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as
magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.
12-23-2011 J.
C. M. Brandão
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
UM COPO DE SILÊNCIO
UM COPO DE SILÊNCIO
Guardo no
meu poema, como num copo,
a imagem
líquida das coisas.
A tinta é
líquida, a tinta das minhas palavras.
As minhas
palavras escorrem dos lábios
ensanguentadas.
A faca desce
e se levanta
com o sangue
da vida, jubilosa.
O meu poema
tem todas as linhas da criação.
A loucura
justifica o meu poema como
justifica a
vida.
Vamos deixar
a melancolia para outra hora.
Por enquanto
a mulher não é uma estátua
de sal. O
olhar foi punido porque o olhar
é tudo.
Por mais que
aceitemos o esquecimento,
o olhar, que
também é esquecimento, preserva.
O olhar diz
que é a hora do silêncio.
Palavras,
palavras, palavras
e o
silêncio.
Como um
pássaro, o silêncio canta.
Com a voz do
esquecimento, o silêncio canta.
J. C. M. Brandão
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Poema, o cão
Poema
O nome do cachorro era Poema.
Morto o dono, chorara e uivara à lua
e às estrelas a sua dor ingente.
Morreria de dor, todos diziam.
Visitou a capela entre os pinheiros,
onde o dono elevava a alma a Deus,
e a biblioteca, o outro lugar sagrado,
e ante os dois, reverente, se prostrou.
Encontrou o menino na montanha,
contemplaram o abismo do universo
com suas maravilhas, e concluíram
que mais belo é o coração humano.
O menino seguiu o seu caminho
com o Poema ao lado para sempre.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Fábulas de Natal (2)
O MENINO NASCEU
O menino nasceu ao meu lado.
Um halo de luz fendia as trevas,
Vinha do alto e se expandia.
O galo arrebentou a garganta.
O cavalo cantou as palavras do poema.
Uma frágil parede nos separava do mundo.
O cavalo escarva o chão soltando fogo pelas ventas:
Era o meu poema queimando a noite.
O sangue inundava o quarto.
A caçamba do tempo vem do fundo do poço,
transbordando água limpa e fresca.
Trago o estigma na fronte.
Sou lavado pelo batismo do menino.
Vejo os ossos brancos sobre a pedra.
O menino ergue a chave com a mão pequena
E me abençoa.
O POEMA DO MILAGRE
Sou uma pedra no meio da casa
Com os ossos do cão cruzados em cima.
Quando chegará o inimigo?
Sentaremos juntos, conversaremos, sorriremos?
Comungaremos a minha casa antes de nos estranharmos?
A minha mãe chora atrás da porta,
A cabeça coberta com o pano da dor.
Um espinho me penetra nos olhos com o poema do milagre.
O nome do menino me queima a língua.
Os olhos do menino estão em brasa e iluminam a noite.
A casa cai com a luz.
As flores voam, as pétalas são gotas de fogo.
A mulher entrega o menino ao estrangeiro.
O velho ergue o menino nos braços e canta.
----------
( poemas de Natal, 2007)
--------------
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Um cão uivando para a lua
Um cão uivando para a lua
Abro a janela para o terreno baldio
cheio de mato, lixo e algumas cabras
(eu joguei fora todas as palavras)
– e vejo um cão uivando para a lua.
O cientista e o filósofo discutem
a origem do universo, o ser e o nada
e não sobram ideias nem palavras
– além de um cão uivando para a lua.
Latem os cães e a caravana passa,
passaram as carroças da desgraça
com as palavras da ambição dos homens
– só resta um cão uivando para a lua.
De tanto misturar o joio e o trigo,
de tirar da ostra a pérola da dor
e queimar as palavras no poema
– só resta um cão uivando para a lua.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Três paráfrases
1. O carrinho de mão vermelho
Quando criança eu tinha um carrinho
de mão vermelho
como William Carlos Williams.
Vivia marcado de cocô de pomba
branco
sobre o vermelho.
Eu enchia o carrinho de pedaços
de madeira e partia
para construir o mundo.
Nada mais tinha importância.
2.A PEDRA
Uma pedra é uma pedra, é uma pedra.
Não quero que a pedra seja outra coisa.
A pedra em si vale um poema.
Não é preciso dizer nada.
Nenhum símbolo, nenhuma imagem.
É uma forma completa, única, absoluta.
É um poema.
3. EM CRETA, COM O MINOTAURO
Em Creta, com o Minotauro
esquadrinho o labirinto.
Instauro o meu reino restrito.
O sol queima os sonhos.
Eu quebro o candelabro.
Desenrolo o novelo da dor.
A esfinge me decifra: sou
o poeta com a lira em delírio
em Creta, com o Minotauro.
___________________________________________
1. O Carrinho de Mão Vermelho talvez seja o mais famoso poema de William Carlos Willians. É certamente o que mais exemplifica a sua técnica de tirar do poema tudo que é excesso, usar palavras comuns, criando uma pintura clara, quase sem imagens. Não merecia que eu lhe acrescentasse nada, e não o fiz. Acontece que eu tive um carinho de mão vermelho, que enchia (uma amiguinha de infância, uns quarenta anos depois, me lembrou o caso) de pedaços de madeira, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Então, eu precisava registrar o fato.
O poema de WCW é lido fora do contexto. WCW era médico-pediatra e estava em visita ao uma menina doente, em agonia, quando viu pela janela o carrinho vermelho. Daí a sua importância, que, no meu caso, é simples memória.
Deixo abaixo o poema de WCW, para lembrar aos leitores – mais do que comparar.
THE RED WHEELBARROW
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
O CARRINHO DE MÃO VERMELHO
tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas
tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas
(Trad. José Paulo Paes)
2. O verso “Rose is a rose is a rose is a rose” deve ser mais conhecido do que todo o resto da obra de Gertrude Stein. E é vítima de uma falácia: faz parte de um poema de 1913, e o primeiro Rose refere-se ao nome de uma pessoa, - mas é outro texto lido fora do contexto, como a afirmação de que as coisas são o que são. É nesse sentido que empreguei no meu poema. Francis Ponge ensina no “Le parti pris des choses”, justamente esse “as coisas são o que são”, que eu já aprendera com João Cabral.
Tenho cansado de ver a citação dos versos de Adélia Prado: “Deus de vez em quando me castiga. / Me tira a poesia, olho para uma pedra e vejo uma pedra.” Elogiosamente. E são belos versos. Mas citados fora do contexto, um dos mais longos poemas de Adélia, que fala da condição humana, não da técnica poética. Quanto à técnica, ela sabe que a poesia é linguagem. Que as palavras se tornam especiais com o trabalho da linguagem no poema.
O meu poema refere-se a essa ideia.
3. “Em Creta, com o Minotauro” é o nome de um dos melhores poemas de Jorge de Sena. Vi à exaustão o Minotauro nos labirintos de Jorge Luis Borges. Já não era novidade para mim, por minha formação clássica. É o meu poema mais pessoal dos três acima, quanto a linguagem e visão do mundo.
______________
Assinar:
Postagens (Atom)







