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segunda-feira, 7 de maio de 2012

HAICAIS DO MAR AO PAVÃO




Ouvi o mar gargalhar
sob o céu de chumbo
e o vento abrupto.

Olho o peito e a bunda
da menina molhada
entro em êxtase.

O gato miava
para a lua branca e cinza
pensava que era uma gata?

As folhas caem
com o ouro do outono
nas penas do pavão.




quinta-feira, 3 de maio de 2012

MARINHA





























MARINHA


Súbito, o azul do céu e o azul do mar.
Uma gaivota passa
entre a areia da praia e o céu azul.
Um corpo boia na água, respira.

Um relâmpago ilumina a montanha.
O homem nada, flutua de leve.
Uma borboleta beija o chão.

Impossível não pensar na morte. 




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O amor é cego




                                 O homem fica cego antes
                                 ou depois do amor?







terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

NAVEGAÇÃO






NAVEGAÇÃO

As gaivotas sobrevoam a embarcação.
Eu navego para o horizonte indeciso.
As gaivotas me acompanham. Sem memória,
surdo e cego, eu sei. A distância é o meu destino.





domingo, 19 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA DO MAR






























MEMÓRIA DO MAR


Do ventre do peixe, o mar lançou-me à praia.
O sol beijou-me os olhos. Eu me levantei
Sem saber quem fui ou quem sou.









sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O MAR E A MONTANHA










O MAR E A MONTANHA

 
O mar é irmão da montanha. Ambos beijam o azul do céu.
A águia encolhe a plumagem e mergulha da montanha para o mar.
Os náufragos saem das águas ostentando os seus despojos,
sentam-se nas ruas da cidade com os olhos vazios e a língua inútil.

O dia é uma pantera e afia as garras diante da terra ensolarada.
Eu sou o sobrevivente e componho a música do princípio e do fim.



 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kos de Hipócrates


Imagem da Wikipedia


Kos de Hipócrates

A concha do olhar ou memória
ignoram o seu nome, baço,
e seu espaço de teatro
ou ágora de antigo templo.

À sombra dourada de um plátano,
tronco de largo diâmetro,
Hipócrates lições ministra
de medicina aos seus alunos.

Nesta terra de sal e mar,
a cura da dor e da morte.
Feitas e desfeitas, as pegadas
se renovam na areia branca.

É tarde, Hipócrates é cinza.
Férteis águas ferruginosas,
centro irradiador de saúde,
a brancura absoluta dorme.

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sábado, 20 de novembro de 2010

Apocalipse de Drummond e meu pai






APOCALIPSE DE DRUMMOND E MEU PAI


Meu pai morreu no mesmo ano
que o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Era fevereiro e o mar rugia nos meus olhos,
mas ele morreu longe do mar.

(Drummond morreu olhando o mar? Umas
duas ou três gaivotas e o vai-e-vem das ondas).

As folhas caíam (não era outono) molhadas
do orvalho da noite, ao vento e ao sol.

Meu pai montava a cavalo e gritava
como um deus para a vida.

Drummond
lembrava o pai a cavalo como se pedisse perdão
do silêncio.

O meu pai e o poeta Drummond morreram
porque era hora.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

Sinto uma súbita alegria
ao me lembrar de meu pai
ao lado de Drummond
na eternidade.

A minha boca está seca, qualquer palavra
se quebraria.

O dia,
como a morte,
é uma fatalidade.

As crianças gritam
e não acordam meu pai,
que gostava de crianças dormindo.

Venta
neste momento
e em 1987.

Imagino o poeta sorrindo,
mesmo na morte, imóvel.

O morto é uma estátua
fria
na praia,
em qualquer lugar.

(Não deveriam fazer estátuas para os mortos.)

O poeta Drummond teve uma morte pública,
ônibus passam, a fumaça passa, os jornais anunciam
o feito histórico (o poeta morto como uma estátua).

O meu pai pediu um último cigarro, olhou a vela bruxuleante
(haveria vento no quarto? O vento do eterno
não se move).


O meu pai disse adeus,
e partiu a cavalo
sem se levantar do leito.


A cidade pequena
e os parentes sorriram contemplando o seu morto
particular.

O poeta e meu pai
(anônimos)
sorriem na eternidade
satisfeitos
com a poesia do fim dos tempos.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mucuripe



Mucuripe

Entre os barcos e as casas dos pescadores
Há uma mesa com seus bancos fincados no chão,
Alguns copos, um ou dois pratos, talheres
E bocas famintas e olhos arregalados.

Cachorros andam de um lado para o outro
Perseguindo a própria sombra,
Um resto de comida, a vida
Preguiçosa como os gatos pardos,

Que se esparramam por ali,
Na modorra de donos absolutos do lugar.
As árvores projetam a sua sombra verde
Sobre esse chão pobre, cheirando a lixo e dor.

Uma criança chora: é sinal de vida.
Um velho ergue uma garrafa de pinga
Enquanto exibe o peito coberto de tatuagens.
Uma mulher oferece um peixe e grita como louca: Viva a vida!

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O Sangue da Terra, 2010 - Fortaleza, CE.
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