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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMÉM






AMÉM


Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.

Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.

A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.

A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.

Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.  
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.





quarta-feira, 25 de julho de 2012

ÊXTASE

                                                                                                                Ouro Preto, 2007




Êxtase


Quando voltou, a mulher
estava transformada em pedra.

E sorria, não com os lábios
nem com os olhos, mas com a alma

que se elevava do seu corpo
de pedra.

Um sino de ouro tocava. 





terça-feira, 24 de julho de 2012

MAPA - MURILO MENDES




MAPA


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.


Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos". ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Murilo Mendes

_____________

Leio este poema como se eu o tivesse escrito. Penso, até, em emendar aqui ou ali. Em lugar de Colégio, escreveria Seminário. Girassóis? Por que não hortênsias? O quarto modesto de Botafogo seria o quarto da pensãozinha de Duartina, onde escrevi os três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado. Viva são Francisco, mas onde estão os poetas suicidas?
Brincadeira à parte, este poema tem muito da minha biografia espiritual, intelectual, artística.  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAIM




   
          Caim


Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é morrer, o que é acabar.
A morte é o silêncio de uma pedra.

Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com Abel?
Que é que se faz com um morto?
Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?

Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do que sou.
É a marca do homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu irmão morto me alimenta.


                                    J. C. M. Brandão, in O silêncio de Deus, 2009.


 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A QUEDA DE ÍCARO





A QUEDA DE ÍCARO


A Queda de Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida continua.
A Queda de Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico pensando
no que o pastor vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao mar.
Se Ícaro não caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o lavrador com o seu arado.
Acabamos olhando, com o pastor, para lugar nenhum.




sexta-feira, 6 de julho de 2012

O rio - Manuel Bandeira




























O Rio
               Manuel Bandeira

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Era um cavalo todo feito em lavas - Jorge de Lima


Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.


                                               Jorge de Lima - "Invenção de Orfeu"