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quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAIM




   
          Caim


Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é morrer, o que é acabar.
A morte é o silêncio de uma pedra.

Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com Abel?
Que é que se faz com um morto?
Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?

Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do que sou.
É a marca do homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu irmão morto me alimenta.


                                    J. C. M. Brandão, in O silêncio de Deus, 2009.


 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A QUEDA DE ÍCARO





A QUEDA DE ÍCARO


A Queda de Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida continua.
A Queda de Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico pensando
no que o pastor vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao mar.
Se Ícaro não caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o lavrador com o seu arado.
Acabamos olhando, com o pastor, para lugar nenhum.




terça-feira, 24 de abril de 2012

A DEUSA CAÍDA





                                   A DEUSA CAÍDA

A deusa caída,
mais que caída, despedaçada.
A deusa no chão, à sombra do pé de jatobá,
sobre a grama verde e as folhas secas.

A deusa caída, e nada mais importa.
A deusa caiu, que mais poderemos dizer?
O quanto havia de vida?
O quanto a sua existência, em si, prenunciava?
A deusa caiu, com a vida.

Os cacos da vida no chão, como os cacos da deusa.
O quanto de nós são cacos,
o quanto de nós ainda brilha como os cacos?
A indiferença da deusa caída, despedaçada,
mas com o braço erguido como quem não se importa
com nada (um braço, o outro está quebrado – oh, quanto
de nós está quebrado, no chão ou sob o chão, aos vermes).

O pedestal ao lado da deusa, caído também.
Vivemos caindo de nossos pedestais, que também caem.
Os cacos brilham como estrelas na memória.
Nós subsistimos, lutando contra o esquecimento.
Evoé!





sábado, 18 de fevereiro de 2012

A DEUSA FLORA (um epigrama)




A deusa Flora deita numa cama de flores
como a dizer o que é uma vida sem dores

aos pobres mortais que nasceram da dor
e pensam que vieram do sonho do amor.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A VÊNUS DE GESSO - o texto e o palimpsesto







A VÊNUS DE GESSO





Eu tinha uns sete anos de idade e subi

Numa penteadeira



(Para ver minha imagem

No espelho?)



E quebrei em mil pedaços o busto de

Uma Vênus de gesso



Você só faz arte, disse

Minha mãe



Foi o vento, eu disse








Estou brincando com a ideia de Gérard Genette de que todo texto tem o seu palimpsesto. Certo que simplifiquei quase ad absurdum. Mas escrevi A Vênus de Gesso lembrando A Estátua de Gesso, de um ano antes, que não me satisfazia.
Escrevi A Estátua de Gesso e postei no blog do Gregório Vaz em fevereiro de 2011.  Lembrando-me do poema, lembrei-me de que o achava palavroso, pretensioso, etc. – ruim o suficiente para ir apenas para o blog do Gregório.
Escrevi A Vênus de Gesso com a intenção de tirar um pouco da gordura do primeiro poema. Como magreza não é sinal de qualidade, vejo no poema um tanto gordo uma força que este não tem. As garras da poesia?
Quem quiser comparar, aqui está o primeiro poema, muito a grosso modo o palimpsesto:

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A ESTÁTUA DE GESSO

Vou falar mais uma vez da estátua de gesso
que eu quebrei quando era criança.
Disse à minha mãe que o culpado foi o vento,
eu não era um artista,
nem sabia o que era isso.

Esse é o destino dos poemas: foi o vento.
Os poetas nem sabem mais o que é isso.
Gozado como continuam fazendo poesia
com um ar de intelectuais
que dominam a sua arte
de intelectuais.
Como se a arte fosse um objeto intelectual.
Pior, como se isso fosse uma condição sine qua non
para um poema ser um poema.

Havia um espelho por detrás da estátua de gesso.
O espelho refletia a estátua de gesso
e refletia a minha cara de espanto e medo infantil.
Eu não sabia,
mas começava a conhecer o espanto e o medo –
essas condições para um poema ser um poema.

Há outras, mas o mundo caminha para o fim tão depressa
que não há tempo para enumerá-las
nem adianta.


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(Se alguém quiser vê-lo no blog do Gregório:


sábado, 21 de janeiro de 2012

O POETA URINA ENTREAS RUÍNAS








O POETA URINA ENTRE AS RUÍNAS

O poeta urina entre as ruínas da cidade,
atrás de um muro,
talvez perto de onde foi um templo.
Um pássaro azul canta num galho seco.
Nuvens brancas brincam de carneiros,
galinhas,
coelhos
e pavões.
O poeta urina.
Tudo é efêmero, diz.
Vê um vaso, algum objeto que um dia foi um vaso.
Estranha: um menino e uma menina pintados
na parede côncava do vaso.
Não se vê nenhuma imagem do mar,
mas podem-se ouvir as suas ondas – basta
aproximar o vaso dos ouvidos.
E é pouco mais da metade de um vaso
que o poeta tem nas mãos.
Não há mar próximo, mas pode-se ouvir
todo o mistério do mar,
o seu
abismo
sem
fundo,
nesse antiquíssimo vaso quebrado.
Tudo é efêmero, diz o poeta,
menos o mar.
O inominável
mar das idades, mar anterior a todas as idades.
O poeta olha a pequena poça
de urina
efervescente
e imagina as ondas do mar inumerável.
O pássaro azul deixou de cantar.
O poeta está só.
E é como se estivesse nu.
Tudo é efêmero, menos as areias do mar.
Tudo é efêmero, menos as estrelas do universo.
Tudo é êxtase.
Apesar de tanta solidão.
Nem é preciso haver um pássaro azul.
Nem é preciso haver mais que ruínas.
Tudo é efêmero e mistério e êxtase.

6-1-12 – José Carlos Brandão

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Musa afinando duas liras


 
                                                                                                     

A musa afina duas liras:
uma para o desejo,
outra para o delírio.




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Musa afinando duas liras

Interior de taça ática de figuras vermelhas e fundo branco de Erétria.

Data: -470 / -460

Paris, Musée du Louvre

Créditos: Marie-Lan Nguyen, 2005




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kos de Hipócrates


Imagem da Wikipedia


Kos de Hipócrates

A concha do olhar ou memória
ignoram o seu nome, baço,
e seu espaço de teatro
ou ágora de antigo templo.

À sombra dourada de um plátano,
tronco de largo diâmetro,
Hipócrates lições ministra
de medicina aos seus alunos.

Nesta terra de sal e mar,
a cura da dor e da morte.
Feitas e desfeitas, as pegadas
se renovam na areia branca.

É tarde, Hipócrates é cinza.
Férteis águas ferruginosas,
centro irradiador de saúde,
a brancura absoluta dorme.

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