quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A gata




A gata

A gata me olha com seus olhos náufragos.
Era como se seu olhar viesse
do outro mundo. Lançava com os olhos
um grito silencioso, que gelava.

Havia gigantescas ondas, monstros
marinhos, corais, conchas e florestas
submersas em seus olhos de âmbar e ouro
líquidos, mal velando o abismo fundo.

Neles boiava o sal da eternidade.
Deus neles mergulhara na criação.
A luz primeira Deus criou nos olhos

da gata imemorial. O seu miado
surdo traz ecos dos enigmas do homem
diante do absoluto mar da origem.

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Poema detentor do 1º Prêmio “Cassiano Nunes” de Poesia, da Universidade de Brasília, junto a O cachorro e O cavalo (2º lugar, 2010), que postarei aqui nos próximos dias.

A gata é a da foto – é uma gata que apareceu em casa faz tempo, nem parece que já está velhinha. Não escrevi “gata imemorial”? Ela é capaz de sugerir muito.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Escusa – um poema de Manuel Bandeira




Escusa

Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant’Ana.

Sou poeta da cidade,
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o
[gás carbônico das salas de cinema.

Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.

Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores
[das madrugadas

Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.

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Manuel Bandeira, in Belo Belo, Estrela da Vida inteira.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma canção esperada







O amor é inefável.
Os crisântemos são eternos por causa do amor.

A gente sua estrelas quando ama.
Isto não é sexo, mas poesia.

Isto não é poesia, é registro de maravilha.
Amar é adoração, divindade, êxtase.

Ficamos tão estúpidos quando amamos,
que nem percebemos.

Eu quero tocar os guizos da alegria.
O amor é um banquete. É um sino dentro dos olhos.

O amor quebra vidraças. Estamos moendo estrelas.
O amor é alto. Conhecemos o amor como diamante.

A Via-Láctea chove sobre nós. Pisamos as brasas do amor.
Limões explodem. Somos verdes com o sumo por toda a pele.

Laranjas e estrelas dançam no alto. Poalha levíssima chove sobre nós.
A mão do pilão socando até o êxtase. A mão do pilão como o coito.

Coito, essa palavra bonita. Os teus lábios são bonitos. Vermelhos.
Colho mel entre as tuas pernas com os marimbondos vermelhos.

O nome de Deus é o verbo, o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo como nomeio o amor: corpo.

Amor natural como o êxtase
do corpo no corpo.

O amor inventa
a morte.

O universo se ajoelha
diante do amor.

Não existe nada antes do amor.
Nem depois.

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À maneira de Manuel Bandeira, que fez o poema "Antologia" com seus versos mais significativos, fiz este poema-antologia com versos do livro "Poemas
de amor", Joarte Editora, Bauru, SP, 1999. Li-o em público algumas vezes, por ocasião do lançamento do livro; agora, lembrei-me de que não o mostrara para ser lido.

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sábado, 28 de agosto de 2010

À beira do lago

Flores sobre o lago



À beira do lago

Um peixe salta, um som verde-escuro
Na sombra da montanha. As águas correm
Com a aragem da terra. Entro no lago
Sob o olhar dos marrecos e das garças.

O dia sobe e desce com os lírios
E a sua dança delicada, lívida.
O orvalho cai no dorso das lagartas.
Flores de cerejeira esparsas, róseas.

Um pica-pau nervoso canta e grita.
Nós nos olhamos, eu e um sapo enorme.
Já saí da água e rezo para as árvores:
Eu me lembrei de Deus, como um perfume.

A flor da noite pende a fronte e cai.
Um espantalho, cômico, gargalha.
A aranha diligente tece a teia.
Os pássaros, com as estrelas, cantam.




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Poema do meu heterônimo Gregório Vaz aqui.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A paineira




A paineira

Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.

Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.

Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.

Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

A cigarra




A cigarra

Estrídula, a cigarra chia e canta.
A cabra dorme à sombra do mourão.
A menina boceja na varanda.
A manhã é tranquila, entre os crisântemos.

A lagarta se sonha borboleta.
A libélula pousa no barranco.
Uma minhoca cava em silêncio
A sua alcova úmida no barro.

Ouço a quietude da moringa d’água.
A melancia fresca de orvalho.
O aroma das ameixas no pomar.
O cafezal ressona sob a névoa.

O cavalo urina no jardim.
A garça voa sobre os bois, revoa.
A coleirinha salta no capim.
A rã caça mosquitos no laguinho.

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mamar



A vida é esse leitinho quente que sai das tetas da minha mamãe.

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Vídeo e legenda: Sônia Brandão

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sábado, 21 de agosto de 2010

O paraíso




O paraíso

Mais belas que as águas da minha terra
Somente a minha terra mesmo. A minha terra
E as árvores e as garças, e um boi e um bezerro.
As águas e tudo mais são parte da minha terra.

Quero que me enterrem debaixo de uma árvore
Para escutar os passarinhos da manhã à noite.
Talvez qualquer hora dessas eu saia voando.
Já aconteceu, voei até cansar, depois virei louco de novo.

Uma vez um gato me desfolhou de todas as penas,
Saí voando pela janela como um anjo pelado.
Os anjos vêm do iníco do mundo, depois ganharam penas
Coloridas como os passarinhos, e trinaram nas árvores.

Voltando a falar de beleza, tem o orvalho na flor de cereja,
Numa pétala de rosa. É um diamante líquido, mas trina.
Um passarinho vira uma palavra dourada e trina na gaiola,
Mas fora dela, no mato, que é um lugar chamado paraíso.

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Foto: O mato visto do fundo de casa (da casa da minha infância).

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Bichos





Bichos

O peru estica o pescoço e solta,
Do fundo das entranhas, o grito.
Os porcos, fuçando a lama, grunhem.
O burro pasta preguiçosamente.

O chupim se equilibra
Sobre o dorso do velho cavalo.
A garça sobrevoa as vacas
E os jumentos à beira do riacho.

As galinhas, displicentes, ciscam o chão.
A pata nada com seus patinhos.
A cadela corre e mergulha na água.
O joão-de-barro remexe a lama.

Os bezerros presos mugem.
E o carneirinho, sacudindo desesperado
As tetas da mãe, mama que mama,
Como se viver fosse apenas mamar.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

No bosque




No bosque

Qual é a causa da tristeza da arara?
A arara ri, gargalha de tanta tristeza.
Uma garça pousada em cima do boi
Faz pose, exibe a sua beleza branca.

O sabiá na paineira procura a luz.
O sol escorre pelo tronco, como ouro.
Você se encosta ao tronco da figueira,
Sente a casca dura na sua pele delicada.

O musgo sobe pelo tronco, envolve-o,
No entremeio das parasitas floridas.
Um tucano no alto, num galho fino,
Resmunga, e se mexe de lá e para cá.

Um pica-pau confunde-se com as rugas
Do velho tronco, em busca de alimento.
Você caminha atenta, e contempla
A festa dos galhos cruzados no azul.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A corruíra




A corruíra

A pequena corruíra salta
Da raiz da figueira para o chão.
Venta. As folhas gargalham.
O sol gargalha nos galhos da figueira.

O cupim construiu o seu cupinzeiro
No tronco partido em dois por um raio.
As abelhas voejam, entrando
E saindo, entre as parasitas, no tronco.

O vento derruba as folhas da figueira.
A corruíra voa de folha em folha.
Esfolo o pé entre as raízes.
As formigas em fila, atarefadas.

As formigas diligentes carregam
Todas as pétalas do mundo na cabeça.
A corruíra salta do chão para a raiz
Iluminada pela réstia de sol.

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sábado, 14 de agosto de 2010

O dia da Criação




O dia da Criação

Todas as pedras floriram na primavera.
As flores ouviam o silêncio do orvalho.
Os passarinhos ouviam a conversa dos ventos,
Depois iam contar para as árvores à beira d’água.

Um gavião explode o azul. O céu parte-se.
Um barco inútil descansava numa enseada.
Eu tinha um beija-flor me bicando os olhos.
Dava vontade de morder a carne da manhã.

Eu era um caracol grudado numa pedra, com limo
Na boca, na língua e nos dentes. Eu era verde.
Eu não conhecia nenhuma palavra, como um sábio.
Todas as palavras eram novas, eu soprava e inventava.

Quando uma palavra se gasta, é preciso chorar e enterrar.
Mas para cada palavra morta nasce outra viva, esperneando
Como um lambari. As palavras pedem para nascer,
Voar e trinar. As palavras quando nascem são poesia.

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"O dia da Criação" - uma homenagem a Vinicius de Moraes.
Porque hoje é sábado.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mato




O mato

O capão de mato ao fundo me fascina.
Nenhum mistério, apenas a beleza
Das árvores e da água bem no centro.
Existe uma pureza que não se explica.

Animais, pássaros raros se agasalham
Entre seus recantos mais escondidos?
Apenas a beleza de uma orquídea
No alto de uma peroba brilhando ao sol.

Ouço o sibilo dourado dos guizos
De uma cascavel? Uma jaguatirica
De tocaia ruge? A arara gargalha?
O esquilo salta num raio de luz.

Depois é tudo quietude, silêncio verde.
Os marimbondos zumbem alvoroçados
Na sua cachopa à beira de um barranco.
A sombra do mato me acolhe nos braços.

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Desde a minha infância esse mato, bem ao lado de casa, me fascina (é o mesmo da foto do cabeçalho do blog).

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Aquarela







Aquarela

As flores-de-São-João dão vida à arvore seca,
O ipê roxo se eleva entre a estrada e o pasto.
A água escorre de uma montanha de pedra
E é como sangue resplandecendo ao sol.

O céu límpido ao fundo dói de tão azul,
Um gavião carcará passa voando e grita.
As plantações de vários tons de verde
Brilham enfileiradas nos montes em frente.

A fumaça espirala-se das casas nas encostas.
Um jumento cansado rumina o universo
Com os olhos tristes, mas com paciência.
E o vento silva sem pressa no capinzal.

Uma capelinha branca na montanha mais alta,
Um inviável barco a vela no pequeno lago,
A água cai, em festa, de uma calha de bambu.
Colhemos, nos olhos abertos, a calma do dia.

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Fotos: em Pocinhos do Rio Verde, Caldas, MG.

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Visite meu outro eu: http://gregoriovaz.blogspot.com/2010/08/aniversario.html

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terça-feira, 10 de agosto de 2010

O jardim à beira d'água




O jardim à beira d’água

A garça branca e a garça preta
No topo da árvore sobre o rio.
As águas passam, fazem uma enseada
Em volta do jardim e do pomar.

A borboleta bailarina entre as flores,
As margaridas e os amores-perfeitos.
Por que tem tantas cores o amor-perfeito?
No galho da roseira o canário trina.

As garças refletidas nas águas
São levadas pelo cristal do rio.
O cachorro late, late para as garças,
Chora de leve, desiste e persegue as vacas.

As garças grunhem como porcos no chiqueiro.
Os espinhos da roseira selvagem
Tornam mais belas as rosas. Um melro
Pousa no telhado, olha o rio, e canta.

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domingo, 8 de agosto de 2010

O canário



O canário

Olha o canário: canta, depois voa.
A libélula cai de uma haste fina.
O capim brilha à beira da lagoa.
O sol beija de leve as folhas verdes.

O vento esconde-se no bambual.
O gavião soberbo na manhã.
Refresco os pés nas águas do riacho.
Os lambaris, lavados e prateados.

Olha o canário: vai morrer, mas canta.
E olha a borboleta como dorme.
Olha os patos selvagens como gritam.
E as águas correm verdes entre as pedras.

Um grilo grita muito fracamente.
Um sagui se pendura num cipó.
Os pica-paus martelam o coqueiro.
O céu e as nuvens são um rio sem água.

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Cromo




Cromo

A garça branca ergue muito o pescoço
E olha do alto, solene, a vaca preta.
A vaca pasta com resignação
O capim verde à beira do mato.

Perto, com seus espinhos, um pé de limão.
A água corre escondida, não muito longe.
Um tucano passa agitado, aos gritos.
Dois coqueiros se ajeitam entre as árvores.

Nuvens brancas esparsas no céu azul
Lembram a paina das paineiras nuas
Ou a lã das ovelhas tosquiadas.
Quase as ouço balir à distância.

Os cavalos pastam sossegados:
Sabem que o verde nunca terá fim.
Os cachorros descansam à sombra
E prossegue o trabalho das formigas.

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A B. Lopes. Eu era quase criança quando conheci os "cromos" de B. Lopes. Depois, quando comecei a fazer poesia, fiz algums "cromos" à maneira de B. Lopes - ou que eu pretendia que fossem à maneira, quando eram apenas péssimos. Dia 27 de julho último escrevi este poema e ocorreu-me o nome Cromo – somente então me ocorreu que muitos poemas que tenho escrito poderiam ter esse nome, usado por B. Lopes. Bom. Não tenho intenção de ser "moderno", nem "inovador". Sem nenhuma intenção premeditada, escrevo cromos, como B. Lopes, embora à minha maneira.
Se alguém quiser comparar, conhecer ou recordar: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/b_lopes.html

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A ruazinha




A ruazinha

É uma ruazinha estreita, para pedestres
E carrinhos de mão, jumentos e cachorros.
Quem vem? Ninguém. Inúmeras vezes ninguém
Transita na ruela magra de outros tempos.

Velhos vasos de flores descansam aos lados.
Algumas plantas sobem até os telhados,
Refletidas nas poças d’água entre as pedras
Da minha rua torta, esguia, em declive.

O céu cinzento acima dos telhados sujos,
As paredes com limo verde escorrendo.
É de ferro a sacada, velha, para nada
Se ver, da vida pobre, parada num canto.

Duas ou três janelas dão para os porões
Que aprisionam mistérios nenhuns: bolor, mofo,
Silêncio e escuridão. A vida dorme aqui.
À sombra da memória, o pêndulo do sol.

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"A ruazinha" é uma brincadeira - um exercício proposto pelo blog http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2010/08/exercicio-de-criacao-1.html do poeta Edson Bueno de Camargo.

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Veja também: http://gregoriovaz.blogspot.com/2010/08/o-poema-perfeito.html

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As palavras e o mito




Irmão

Estrondeia livremente por onde passa.
Tivesse botas de sete léguas
Seria o jaburu planando sobre as águas.
Sabe a gabiroba no entardecer,

Sabe o beiço roxo da amora.
Tudo festagens da felicidade.
Quer rasgar todas as palavras,
Sabe o nome das coisas sem palavra no meio.

É um gigante que ninguém sabe,
Mato sabe e comunga.
Nasce um lago onde pisa
Com bagres e tizius floridos.

É criança e chora com todos os dentes
E ri com todos os olhos.
Tem doze olhos na ponta dos dedos,
Mais um para ver por dentro.


Irmã

Sentava no jardim.
Mastigava pétalas de rosa,
Comia bocados de terra,
Alguma raiz.

Quebrava caracol nos dentes,
Saboreava.
Estudava horas com o sapo
Meneios da língua,

Palavra em larva.
Atrás de casa desovava
Uma lagarta de fogo.
A pedra floresce do limo,

Do meu cuspe verde-negro.
Comia um carreiro de formigas.
Formiga na língua esperta a palavra,
Palavra com gosto de formiga inebria.

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Estes poemas têm dez anos mais ou menos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poema de aniversário





Poema de aniversário

A areia branca escorre entre os dedos,
O suor escorre na minha face exausta.
Ninguém conhece o Ribeirão das Flores,
O Rio Batalha foi contra quem mesmo?

Vou buscar gabiroba no aeroporto,
Entre as cabras, há quarenta anos.
Venta no descampado sem limites,
Ao longe o trem apita como um navio.

O Vitória Régia resplende ao sol,
As pandorgas cabriolam no céu azul.
Os cachorros nadam na água suja,
Os meninos mergulham aos gritos.

O verde cresce na terra e nas almas,
O gavião voa sobre o campanário,
Deus sorri para as ruas e as casas.
A cidade faz anos e bate palmas.

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A foto foi tirada no Parque Vitória Régia, onde, partir de hoje, acontecem as festividades do aniversário de Bauru, que comemora 114 anos no dia 1º de agosto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Matão, raízes

https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s

Vídeo de lançamento do livro "Memória da terra" (22-07-10), de JCMBrandão, mostrando que o autor faz poemas telúricos porque tem suas origens na terra.

Acesse o link:  https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s
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terça-feira, 27 de julho de 2010

Coisas da terra




Coisas da terra

Eu falo das coisas da terra
Das plantas e dos bichos simples
A figueira na frente de casa
Os caracóis subindo na parede.

As jabuticabeiras pretas
Os sabiás com o mamão no bico
O bezerro Bito no pasto
Com o dia verde nos dentes.

Falo palavras redondas e úmidas
O café no terreiro ao sol
A água limpa vinda do mato
E a vaca Moela mugindo.

O cavalo cavalga no sonho
Tenho terra nos olhos e na língua
O milharal e os cafezais floridos
E o galo com o sol na garganta.

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sábado, 24 de julho de 2010

A figueira



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O jornal Bom Dia, em Bauru, na matéria sobre o lançamento do meu livro "Memória da terra", publicou o poema "A figueira" na foto do tronco da minha figueira. Gostei tanto que quis repetir o feito aqui - mas não consegui trabalhar bem com as cores, para deixar o texto bem legível. Se não conseguir ler após clicar para ampliar o texto, leia-o abaixo.


A figueira

Deito num vão no tronco da minha árvore.
É uma grande figueira velha de um século.
Estou deitado no meio de folhas amarelas
Com um cheiro bom pelo meu corpo inteiro.

Réstias de sol desenham figuras no ar.
Pássaros voam, pousam e cantam.
A claridade doce me envolve e sonho
A sombra do bezerro e a sombra da vaca.

Essa figueira foi minha desde que nasci.
O meu mundo eram os seus galhos e folhas.
O meu mundo eram suas raízes sobre a terra,

Seu tronco e sua sombra como um colo de mãe.
Envelheci, sou outro, a minha figueira envelheceu,
Não nos reconhecemos. O tempo não volta atrás.

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Convite e palestra de apresentação do livro "Memória da terra"




A poesia da terra

O primeiro livro de poesia que li foi “Os simples”, de Guerra Junqueiro. Eu tinha 15 anos de idade e disse lá comigo mesmo algo assim: “Então eu posso ser poeta. Se as coisas simples da vida, a gente e os bichos e as plantas que eu conheço podem ser matéria de poesia, e se o poeta é alguém comum e não uma abstração (naquele tempo o poeta era uma entidade abstrata – Camões, Bocage, mesmo Cruz e Souza, Bilac, muito distantes da gente, do que entendíamos por gente), então eu também posso ser poeta.” E escrevi o meu primeiro poema.

Era um poema sobre a figueira que havia em frente da casa da minha infância. Era um poema péssimo e eu sabia disso. “Mais tarde eu aprendo a técnica do verso e reescrevo”, eu me disse. Uns 35 anos depois, quando pensava já ter aprendido a técnica do verso, aprendi também que o verso não é necessário – verso, métrica, ritmo, rima, estrofes, etc. são acessórios, o essencial na poesia é a imagem. Se o poeta não cria a imagem num poema, não criou poesia. E escrevi um poema em prosa sobre a figueira. Logo depois, um segundo poema – também em prosa.

Alguns anos depois, o poema “A figueira” que está em “Memória da terra”. Os dois últimos versos, que estão na capa do livro, são a única vez em que expresso uma ideia. A poesia não é feita para expressar nada, mas para criar imagens. Fiz uma concessão (ninguém é perfeito) ao escolher os poemas de “Memória da terra”, talvez porque é uma passagem significativa: a infância morreu, nós somos outros, a própria terra é outra, impossível recuperar o tempo passado. Apenas como memória, como Proust fez. Mas eu optei por cantar a terra no presente. Cantar a beleza da terra em si, como estou vendo hoje. Como uma homenagem à terra que eu conheci, ao menino que eu fui.

Não faço poesia sobre coisas antigas. Não pretendo recriar o passado. Crio imagens vivas, do aqui e agora. Como vi e senti no momento presente. A terra é o domicílio do homem neste universo. Impossível conhecer a complexidade do universo. Impossível conhecer a complexidade do próprio homem. Mais lógico cantar o que vejo e toco, coisas concretas e não abstrações, com palavras simples e diretas. Sem ideias, com imagens. Se estou mostrando o que vejo, estou criando imagens. É inócuo fazer elucubrações intelectuais sobre a vida ou o universo. Não estou escrevendo um ensaio, mas poesia. Poesia se faz com imagens. Só.

O poeta é quem acredita na frase “Uma imagem vale mais que mil palavras” – e dedica uma vida a transformar palavras em imagens.

Como concessão, incluí (ninguém é perfeito, repito) alguns elementos da memória. O terreiro de café, as jabuticabeiras, o grito do meu pai, os olhos da minha mãe, o bezerro Bito, a vaca Moela. O mais são imagens presentes, que acabei de ver. Costumo dizer que não tenho imaginação. Mas imaginação também pode ser definida como capacidade de associar imagens, que é o que faço, e portanto – tenho imaginação. Às vezes também o que vulgarmente se chama imaginação. Veja o poema “A argola”. Muita gente, a maioria, dirá que é memória. É pura invenção (nunca existiu argola nenhuma). Poesia é ficção. Muita gente, a maioria, costuma se esquecer de que poesia é ficção.

Essa é a minha poesia da terra. Simples, clara, visual – imagens para o leitor ver. Poesia não é feita para ser explicada. Não ponham palavras na minha boca. Eu escrevi apenas o que está ali no poema. Por que interpretar, querer deduzir o que eu disse? Se eu quisesse dizer, eu diria. Eu apenas escrevi um poema. Veja as suas imagens, extasie-se com elas. Um poema não quer interpretação, mas comunhão. Não é um enigma para ser desvendado, mas um objeto de arte que se oferece para a fruição estética.

Como no momento estou tomando notas para uma palestra (estou escrevendo algo como um ensaio, que é terreno de trabalho intelectual), vou sugerir umas ideias. Se estivesse escrevendo um poema, deveria criar apenas imagens. Aqui, vou lembrar a epígrafe do meu livro: “Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espetáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno” (Miguel Torga, Diário II). Li essa passagem depois de terminado o livro. Não escrevi minha poesia para justificá-la. Ela justifica minha poesia. É como se eu estivesse falando de mim mesmo. Interessante que a li depois de fazer meus poemas.

A capa do livro deveria ser uma foto da figueira. Caiu um raio sobre a figueira, não é a mesma. Como eu não sou o mesmo. Mas continua lá, no Matão – a Fazenda São José do Matão – da minha infância. Na contracapa estou abraçando uma de suas raízes, pode-se ver como a figueira ainda é enorme. Na capa, a figueira e a casa onde vivi os meus primeiros oito anos. A figueira centenária, como um símbolo do Matão. A casa também centenária, também resistindo ao tempo implacável.

Vou mostrar um vídeo: “Matão, raízes”. Quero dizer que escrevi poemas telúricos porque vivi no Matão e, ali, aprendi a amar a terra. Não aprendi com poetas ou religiões do Japão, China ou Índia. Aprendi com a terra que conheci. Influências? Todos temos. Telúricas, em poesia, tive principalmente de Raul Bopp e seu “Cobra Norato”. Imagens da terra, dos bichos, das árvores, da vegetação exuberante da Amazônia – imagens anímicas, antropomorfizadas.

Davino Ribeiro de Sena disse que eu, em meu livro “Presença da Morte”, premiado na V Bienal Nestlé de Literatura, tinha uma característica bem pessoal de escrever – que usava o sujeito sem o artigo (desde o primeiro poema: “Lâmpada falava, mariposa ouvia. (...) Escorpião se aproxima...”). Eliminei logo essa minha característica “pessoal”, que era de Raul Bopp. Não tinha sentido usar um recurso acessório de Raul Bopp. O que de essencial aprendi dele foi como, em minha poesia, dar vida, sentimento, alma às coisas da terra.

No projeto que apresentei à Lei de Estímulo à Cultura, propus dar um banho de natureza no leitor, com poesia de qualidade. Confiram o que eu entendo por "poesia de qualidade"; ninguém poderá negar o “banho de natureza”. São cem poemas telúricos, cem poemas de exaltação da terra. Somente em Manoel de Barros você vai encontrar tão forte presença da terra, mais do que em “Memória da terra” – mas Manoel de Barros é o maior poeta brasileiro. Conheci primeiro Raul Bopp, mas é uma honra ver lembrarem Manoel de Barros quando leem minha poesia (apenas lamento Raul Bopp ficar tão esquecido).

Em 1989 eu estava datilografando os originais da primeira versão de “Memória da terra”, para o concurso da Bienal Nestlé de Literatura. Deram mais um mês de prazo. Nesse mês escrevi “Presença da morte”, poemas telúricos. E não da morte, góticos, com gosto pelo macabro. Era a morte das coisas da terra, que permaneciam presentes ainda em mim. Os poemas são o reflexo da presença da terra. A pressa (lembre-se: fiz o livro, setenta poemas, em um mês) levou-me a essa falha.

“Memória da terra” começou a ser escrito em 1989. Em 1991, fiz “Sol no umbigo”, que recebeu o Prêmio Brasília de Literatura. A maior parte dos poemas do “Memória da terra” atual são bem recentes – a exceção (10%) são alguns poemas de 1989 (da primeira versão de “Memória da terra”), de “Sol no umbigo” e outros escritos há uns dez anos. Venho aperfeiçoando a minha poética neste tempo todo. Este “Memória da terra” que entrego aos leitores é o melhor que posso dar de mim, em técnica e esforço. Começou a ser escrito naquele primeiro poema, “A figueira” (portanto, há 48 anos), incipiente, tateando o caminho que se estende até hoje, pesquisando, aprendendo aos poucos. É obra de uma vida.

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(O vídeo estará no YouTube depois do dia 22, com link aqui.)

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domingo, 18 de julho de 2010

É dia, Maria




É dia, Maria

Pôu! – e depois outra vez muito longe: Pôu!
A mão de pilão descendo pausadamente
O monjolo líquido moendo o tempo
O galo do sol bica a farinha da aurora.

O cavalo me olhava e relinchava
Me olhava e relinchava novamente
Os gansos deram o sinal de alarme
O dia nasceu da barriga do sapo.

Todas as pétalas do jardim sorriram
Com as pérolas do orvalho pulsando
A terra era um pulmão e regurgitava
As abelhas voaram com ouro nas patas.

O menino anda com as vacas no pasto
O cachorro corre na frente latindo
Os bezerros dão pinotes felizes
As garças brancas inauguram o dia.

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pôr-do-sol





Pôr-do-sol

O arame farpado na garganta do sol
O sangue mancha todo o horizonte
O arame pega fogo, solta faíscas
Incendeia as árvores, o mato inteiro.

As garças passam voando com as asas
Em chamas, caindo chispas das penas
As nuvens frigem na fogueira da tarde
O vidro do céu se embaça na fumaça.

As touceiras se agarram nos barrancos
As lágrimas do capim escorrem na terra
Os galhos verdes estralejam com a queimada
O negrume do carvão se espirala no ar.

Olha que vem o vento trazendo a lua
E a estrela Vésper como um balão azul
A noite se acende no grito dos grilos
Os vaga-lumes viram estrelas no céu.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mucuripe



Mucuripe

Entre os barcos e as casas dos pescadores
Há uma mesa com seus bancos fincados no chão,
Alguns copos, um ou dois pratos, talheres
E bocas famintas e olhos arregalados.

Cachorros andam de um lado para o outro
Perseguindo a própria sombra,
Um resto de comida, a vida
Preguiçosa como os gatos pardos,

Que se esparramam por ali,
Na modorra de donos absolutos do lugar.
As árvores projetam a sua sombra verde
Sobre esse chão pobre, cheirando a lixo e dor.

Uma criança chora: é sinal de vida.
Um velho ergue uma garrafa de pinga
Enquanto exibe o peito coberto de tatuagens.
Uma mulher oferece um peixe e grita como louca: Viva a vida!

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O Sangue da Terra, 2010 - Fortaleza, CE.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Pedra-Balão




A Pedra-Balão

Você subiu na Pedra-Balão.
Eu a vejo de vermelho
Numa moldura de flores vermelhas
Iluminadas pelo sol do inverno.

Os periquitos verde-amarelos gritam.
Você contempla o mundo do alto.
A pedra se ergue sobre o abismo.
O mundo é feito de pedra e verde.

Os raios do sol abençoam a pedra
Enorme como um meteoro.
O universo inteiro se concentra
Nessa pedra sagrada como um altar.

Num vão sobre a pedra eu vejo o azul.
O céu líquido no seu bojo materno.
O mundo é pedra, pedra, pedra. E flutua.
Montes vestidos de verde sob o céu azul.

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A seriema




A seriema

A seriema majestosa me olha
E marcha a meu lado no capinzal.
A árvore projeta a sua sombra
Sobre as pedras brancas da montanha.

Um pequeno pinheiro inclina-se
Na encosta, sobre o vale sossegado.
A neblina sonolenta dança no ar.
Você não olha para trás.

Olho a sua face séria sobre o abismo.
Você caminha decidida
Sobre a trilha de folhas secas.
Você leva a paisagem nos olhos.

O verde cobre as montanhas.
Lagos azuis espelham o sol.
A seriema grita para o abismo
E corre com as asas abertas.

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Entrevista a Marcelo Novaes (clique aqui para abrir)


Passeio





Passeio

A formiguinha passeava
Sobre as pétalas da camélia.
Uma gota de orvalho refletia
A minha cara e o bico de um sabiá.

As pedras eram verdes de limo,
Os caracóis sorriam ao sol.
As samambaias e as avencas pendiam
As folhinhas crespas para a água da mina.

As árvores conversavam comigo,
Contavam casos de raízes e líquenes.
Um ouriço trepava na figueira.
Os guizos da cascavel tilintavam.

O meu cavalo resfolegava na estrada.
O meu cachorro arfava de cansaço.
O sabiá-laranjeira cantava para mim.
Vinham tantos cheiros na minha língua.

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sábado, 3 de julho de 2010

Campo de névoa




Campo de névoa

Apenas as enxadas se erguem e abaixam
No campo coberto de névoa.
O orvalho cai suave
Sobre as melancias abertas.

Eu suspiro baixinho
Olhando as flores no alto das árvores.
O vento desenha arabescos
No capinzal.

Florinhas de capim
Crescem à beira do riacho.
Rolinhas voam da laranjeira seca
No meio da palhada.

O cachorro corre, latindo atrasado.
O boi velho muge sonolento.
A cobra se enrosca no moirão
Com preguiça e malícia.

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Caros amigos, desculpem a ausência.
Estou mesmo ausente: em viagem.
Logo, logo, retornarei.

sábado, 26 de junho de 2010

Berço




Berço

Fazia um silêncio bom debaixo da árvore.
Ela me abraçava com todos os galhos.
Um joão-de-barro construía a sua casa.
Um beija-flor pairou no ar, me beijava.

Caíam folhas muito devagar
Como se o tempo tivesse parado.
As réstias de sol teciam bordados mágicos
Que se transformavam ao meu olhar.

Pétalas brancas flutuavam.
Um sanhaço voava de galho em galho
E mudava de tom de azul quando pousava.
Uma corruíra pulava de uma a outra raiz.

O perfume me inebriava, eu flutuava.
A árvore me embalava, não dizia nada.
Uma aranha tecia a sua teia
Com paciência, sem pressa nenhuma.

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Foto: Flor sobre água

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cotidiano




Cotidiano

As folhas caindo na porta de casa.
Um grilo reclamando numa fresta.
Uma pipa pendurada no telhado.
A menininha cheia de picadas de pulga.

Estou na janela, o meu cachorro dorme
E o sol quente lá fora.
Um ganso espia através da cerca.
Que idade terá aquele peru tão enrugado?

Um caramujo sobe na parede sem pressa.
O vento farfalha o capim do pasto.
A borboleta revoluteia entre os canteiros.
O gato boceja com preguiça.

O mosquito zune contra a vidraça.
A árvore dança com a brisa morna.
O mesmo céu azul de todo dia.
A água cai, interminável, da caixa d’água.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ostras ao vento



Ao Vasqs

Quando encontro
no meu silêncio
uma pérola
é escavado na minha vida
como um abismo.
(Ungaretti)


Conheço que uma ostra ao vento
É muito mais do que uma ostra.
Canta com um ouvido afinadíssimo:
Uma ostra ao vento é toda ouvidos.

Uma ostra ao vento é gozada
Como uma rã, um grilo colorido.
Um cara de cócoras atrás da moita
Tem as ostras ao vento batendo palmas.

Uma ostra ao vento é como um pássaro,
Mas sem asas e sem gaiola.
Uma ostra ao vento nem existe
De tão gozada.

A ostra no mar guarda a dor da pérola,
As ostras ao vento dão risada.
As ostras ao vento batem uma contra a outra,
Quebram os dentes de tanto chacoalhar.

As ostras ao vento são para quem quiser
Morrer de dar risada.
A vida não é uma piada, mas devia.
As ostras ao vento são uma gargalhada.


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O Vasqs é o criador da coluna de humor Ostras ao Vento. (Está escondido no Overmundo: clique no título acima para abrir seu perfil.)
Desde a 1ª vez que vi esse título, pensei em poesia.
O humorista é primo-irmão do poeta. Grandes poetas têm senso de humor. Drummond ou Manoel de Barros têm. Há exceções: não vejo humor em Ferreira Gullar, poeta imenso apesar disso. Um humorista imenso, Millôr, faz questão de ser também poeta, embora assim não se autodenomine.
Por essas e outras, acabei escrevendo o meu poema Ostras ao Vento.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Os ossos do dia




Os ossos do dia

A maritaca eletrocutada
Pende do fio de alta-tensão.
Dois cachorros disputam um osso,
Rosnam, mordem, sangram.

Os urubus caminham pela estrada,
Confundem-se ao asfalto negro, líquido.
Os bem-te-vis atacam o gavião,
A pomba cai ferida, destroçada.

As vacas ruminam a morte
No pasto dos carrapatos.
A coruja guarda a imagem da dor
Na névoa dourada dos olhos.

A borboleta pousa sobre a sombra
Da lagartixa amarela na parede.
Um carreiro de formigas carrega,
Aos pedaços, os ossos do dia.

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domingo, 20 de junho de 2010

Na tarde de sol




1. Na tarde de sol

Na tarde de sol, sem nenhuma sombra,
O canto da cigarra quebra pedras.
O capim gordura cintila.
O pássaro se ajeita no ninho.

A árvore cabe na palma da minha mão.
As garças velam o sol refletido no lago.
O vento encrespa a água.
O martim-pescador se exibe na margem.

As amoras vermelhas pendem de um galho.
O pinheiro em chamas com tanto sol.
Uma teia de aranha equilibra-se
Entre a árvore e o telhado da casa.

Caminho na areia molhada.
Meus olhos revoluteiam com as folhas secas.


2. Composição

As vacas no pasto ao sol, sob tanto azul,
Pastam o verde com paciência.
Nem se importam com a sombra das árvores,
Foram fisgadas pelo anzol do pasto verde.

A árvore eleva a copa ao céu.
As folhas brilham, o sol escorre pelo tronco.
A pomba era tão azul
Marchando na grama verde.

A roda d’água é mágica.
A água brilha tanto, a roda gira.
A vida gira tanto, a vida brilha.

O sanhaço azul contra o verde das folhas
Degusta um a um os coquinhos amarelos.

Sinto o perfume e o sabor de tanta cor na paisagem.


3. Sombra verde

A sombra das nuvens sobre os montes
Torna mais vivo o verde próximo.
As árvores esplendem.
A montanha esplende ao sol.

O céu muito azul,
Poucas nuvens, paina branca, esfiapada.
A paisagem do campo verde.
O pinheiro e eu ansiamos pelo céu azul.

Várias árvores, muitas árvores.
Uma cerca no horizonte
Limitando o campo verde.

Outra cerca no meio do campo
E alguma sombra esparsa.

Um boi solitário rumina a manhã.

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A postagem anterior,“O calor do sol”, é de 9-6-10.
Na de hoje, “Na tarde de sol”, os primeiro poema é de 1-5-10, e os dois outros são de 8-5-10.
“Composição”, anoto aqui porque acho que é um bom título, foi nome dado pela Sônia. Ela disse simplesmente: “É uma boa composição”. Esse é um nome que eu poderia ter dado a muitos de meus poemas. Fica para este.
O verso “O pinheiro e eu ansiamos pelo céu azul” já apareceu aqui neste blog, numa foto.

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

O calor do sol




1. O calor do sol

Os patos marcham na água do riacho.
O peru grita, protesta, contra o sol
E a solidão de ser um bicho entre os bichos.

Os bezerros pastam à sombra das jabuticabeiras.
Um mais afoito deita-se e espera, enquanto
Os outros mugem e se coçam, inquietos.

A lenha verde queima no fogão.
As labaredas sobem pelas paredes,
Estralam, estouram e caem por terra.

A água cai do alto da caixa d’água
Para o pequeno lago das carpas douradas.
A água canta e valsa entre a folhagem.

Contemplo as rosas vermelhas no galho.
A laranja explode com o calor do sol.



2. Alguns bichos

O peru caminha no pasto
Perto do lago onde a pata
Navega com os seus patinhos.

A ovelhinha malhada
Mama com desespero amoroso
Na tetas da mãe.

O porco me olha com olhos humanos
E fuça e rola e extasia-se
Com a lama do chiqueiro.

O cavalo olha para trás
Antes de beber a água do rio.
Tem as costelas da dor à mostra.

As vacas penetram no mato
Seguidas da imponência das garças.




3. A nudez e a sede

A corruíra na raiz da velha figueira.
A maritaca no alto do telhado.
O leque da pomba abana o tempo.

O homem se encontra, como num espelho,
Ruga a ruga, no tronco da figueira.
O sol estrala refletido nas folhas verdes.

À frente a paineira despida, seca, nua
Como se fosse morrer. A maior nudez
É a nudez da morte.

A estrada esburacada perde-se ao longe.
Ninguém vai, ninguém vem. Solitária,
Conversa com seus próprios buracos.

Os cactos partem-se ao sol, com sede.
Um cão chega, cheira e urina num cacto.

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Coisas da poesia




Coisas da poesia

O bule de café fumega no fogão.
O queijo frige na palha de milho.
A polenta na frigideira.
Na panela de ferro a banana são-tomé.

A velhinha sorri para mim.
O picumã pende do telhado.
O fogo crepita com a lenha verde.
Eu olho as estrelas entre as labaredas.

Um sapo de castigo num canto da parede.
Um caranguejo toma sol no quintal.
Havia um cheiro de mato
E um cheiro de pão no forno.

A minha língua era torta.
Coisas da poesia.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

O monte em chamas




O monte em chamas

O sol incendiava as árvores.
As casas se balançavam nas chamas.
Os cavalos queimavam na estrada.
Os meus olhos estavam acesos no barranco.

O mato era uma fogueira fumegando.
As vacas flutuavam com as labaredas.
Eu pisava o carreiro das formigas loucas.
O vento levava o fogo das coivaras.

O touro escarvava o chão das figueiras.
Os cachorros vermelhos ganiam.
O grito do sabiá engravidava o dia.

Eu bebia o leite e o sangue da terra
Abraçado à árvore alta do horizonte
No dia grande sobre o monte em chamas.

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sábado, 12 de junho de 2010

Amanhecer no bosque




Amanhecer no bosque

Os meus passos na terra úmida do bosque,
Nas fundas pegadas fica um pouco de mim.
Caminho entre as árvores desviando-me,
Os galhos caem com as folhas molhadas

E pairam diante dos meus olhos em êxtase.
Pairo fora do tempo, num istmo do eterno.
O sangue de uma rosa escorre no meu peito.
Um melro me traz uma estrela nas asas.

As borboletas valsam entre as flores.
Um cachorro fareja a margem da água.
As abelhas carregam o ouro ao sol.

Um cavalo relincha na minha garganta
E eu cavalgo para a água limpa do dia
Insensato e lírico como um galo no anzol.

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Este poema tem alguns anos.Mas pertence aos meus poemas telúricos, está no livro Memória da Terra (que está saindo do prelo).
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quinta-feira, 10 de junho de 2010

O lírio da madrugada




O lírio da madrugada

No escuro da madrugadinha
As vacas soltam fumaça pelas ventas.
Cai o sereno sobre os bezerros
Chorando ao longe.

A lua ainda está no céu
Pesado de bruma.
Vem uma brisa do lado do rio,
Traz o cheiro dos salgueiros.

As águas correm no ribeiro abaixo
Do quintal das jabuticabeiras floridas.
A cabra chacoalha o cincerro.
Os porcos grunhem, fuçam a lama.

O dia nasce devagar. Um lírio
Floresce num monte de estrume.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

Os raios de sol




Os raios de sol

Os pardais ciscam o capim entre as pedras.
A maritaca grita no telhado,
Depois se pendura pelas patas, com o biquinho aberto.
As flores do pessegueiro caem com tristeza.

Um rato corre, espia do buraco.
Atravesso descalço o córrego ao lado de casa.
Uma libélula me acompanha.
Sinto um cheiro de alecrim no ar.

Olho ao longe o cafezal florido.
O espantalho cai, com tantos pássaros.
Um menino canta, chora e canta de novo.
A graça dos crisântemos brancos.

A garça caminhando solene entre os bois.
Os raios de sol e a sombra da figueira.

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domingo, 6 de junho de 2010

O boi




O boi

O boi pastava borboletas no jardim.
Esse boi é tudo quanto eu quero.
Os bagres puseram o córrego de bruços
E escovaram os dentes com inhame.

A rã se ajoelha de toalha no pescoço.
O bem-te-vi repete a mesma paisagem,
As mesmas palavras têm anzol dentro.
O lagarto conhece cada gomo da pedra.

À beira da estrada uma árvore reza.
O poema se concentra nas coisas,
De ser coisa se basta como um moirão.

Carrego uma cobra no bolso da calça,
Com uma embira prendo na paisagem.
Na minha língua um boi está pastando.

19-2-2003
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Relíquias




RELÍQUIAS

Vidrinhos de remédio, bolinhas de gude.
Um canivete enferrujado, minúsculo.
Duas pedras que foram instrumentos de índios.
Quatro dentes de aço, pontudos, polidos.

Duas páginas manuscritas em iídiche.
Uma armação de óculos de tartaruga.
Uma certidão de nascimento rasurada, ilegível.
Três estribos de prata e duas lupas.

Um bule azul com flores brancas e vermelhas.
Um punhal de cortar fumo com a lâmina gasta.
Um prego exilado da sua parede.

Um dedo seco com uma aliança de ferro.
Uma cruz com o Cristo preso pelos pés.
Um soldadinho de chumbo sem pernas.

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O meu Tear está também no Cariricaturas (clique aqui para ver)

O meu Tear com muita honra está no Inscrições, da Dade Amorim (clique aqui para ver)


Quando eu era árvore




Quando eu era árvore

Esse vento me lembra de quando eu era árvore.
À beira do córrego, no fundo do quintal.
Os peixes espiavam curiosos
A orquestra de pássaros entre as folhas.

Como era bom sentir as minhas raízes
Sumarentas dentro da terra.
O musgo me subia pelo tronco.
O sol beijava as minhas orquídeas.

O sol depois da chuva era gostoso.
Os pica-paus me bicavam a pele
E davam risada. Árvore!

O dia nascia nos meus galhos.
Eu ouvia a água, o sol, o vento.
A terra era a minha alma.

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