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quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAIM




   
          Caim


Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é morrer, o que é acabar.
A morte é o silêncio de uma pedra.

Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com Abel?
Que é que se faz com um morto?
Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?

Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do que sou.
É a marca do homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu irmão morto me alimenta.


                                    J. C. M. Brandão, in O silêncio de Deus, 2009.


 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Poema para o dia dos namorados




CORPO


Eu te amo, te amo, te amo.
Três vezes bati na rocha:
jorrou sangue e amor.
O nome de Deus é o verbo,
o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo
como nomeio o amor: corpo.
Nomeio a vida
com o nome do amor: corpo.
Nomeio a beleza
com o nome do meu amor: corpo.
Corpo, corpo, corpo: amor.
Sangue que jorra da rocha: corpo.
Amor natural como o êxtase do corpo
no corpo.


- poema do meu livro Poemas de Amor, 1999.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

O PRÍNCIPE






























       O PRÍNCIPE



O príncipe é vermelho como sangue,
ou como o fogo de um rubi ao sol.
Chama-se príncipe ou verão, e brilha
incendiando o dia em chama rubra.

Traz uma capa negra sobre as costas
e o vermelho no peito e na cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.

Pousa nos galhos finos do cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.

O príncipe se torna mais sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do amor.
                                   Depois se apaga, sossegado, no ar.





terça-feira, 3 de abril de 2012

O CARDEAL





       O CARDEAL


Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.

A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.

O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

O ACORDO





O ACORDO


Adrian fez um acordo com a morte:
se pudesse dormir com Frida
mais uma vez,
ela poderia levá-lo mais cedo,
quando quisesse.

Frida tirou a roupa,
peça por peça,
deitou-se ao lado de Adrian
e disse:
A morte concordou.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O amor é cego




                                 O homem fica cego antes
                                 ou depois do amor?







sábado, 18 de fevereiro de 2012

A DEUSA FLORA (um epigrama)




A deusa Flora deita numa cama de flores
como a dizer o que é uma vida sem dores

aos pobres mortais que nasceram da dor
e pensam que vieram do sonho do amor.





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA DESENTRANHADO DO "DOUTOR FAUSTO", DE THOMAS MANN




HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA
DESENTRANHADO DO CAP. XXXI DO “DOUTOR
FAUSTO”, DE THOMAS MANN

Era uma vez um casal de gêmeos de estirpe real.
O irmão ama a irmã desmedida e estouvadamente.
Desse amor nasce um menino de grande beleza,
Filho e sobrinho de cada um dos progenitores.

O pai tenta expiar a culpa numa peregrinação
À Terra Santa e morre no caminho.
A criança sofre um destino incerto: indigna
Do batismo, é posta num barril e jogada ao mar.

Levada pelas ondas até um convento, um abade
A recolhe e batiza com o seu nome: Gregório.
A mãe jura jamais se casar, indigna
De um matrimônio cristão, e rejeita a mão

De um duque feroz, que lhe invade e conquista o reino,
Exceto a cidade fortificada onde ela se refugia.
Gregório cresce e conhece sua origem: quer
Peregrinar ao Santo Sepulcro, mas passa pelo país

De sua mãe, sabe de sua triste sina e propõe-se
Servi-la: mata o duque e liberta o reino.
Os conselheiros aconselham a rainha a casar-se
Com o jovem. Ela reflete por um dia e casa-se.

A mãe deita com o filho do pecado no leito nupcial.
Só depois sabem quer eram mãe e filho.
Felizmente a pobre rainha não deu à luz um irmão
Do seu filho e neto do seu irmão.

Cabe agora a Gregório a romaria expiatória.
Chega à casa de um pescador e ambos concordam:
A solidão é a solução. O pescador leva Gregório
Para o alto-mar e acorrenta-o num rochedo.

Gregório passa dezesseis anos em penitência.
Então morre o Papa em Roma.
Uma voz vem do céu e ordena que Gregório,
De seu opróbrio, deve ser o novo Vigário de Cristo.

Emissários chegam à casa do pescador, que pesca
Um peixe com a chave das correntes de Gregório
No ventre. O pescador leva os emissários da Igreja
À Pedra da Expiação entre as ondas do alto-mar.

Gritam: “Gregório, homem de Deus, Desce da Pedra
Para ser o Vigário de Deus na Terra.”
Gregório aceita: “Seja feita a vontade de Deus.”
É um santo o homem que sobe ao trono de Pedro.

Sua mãe vai a Roma confessar-se com o Santo Padre.
Gregório diz: “Ó minha doce mãe, irmã e esposa!
O Diabo quis dar-nos o Inferno, mas o Deus
Da Misericórdia encaminhou-nos para o Céu.”

Construiu um convento para a sua mãe nele
Se fechar, expiar e dirigir como abadessa.
Por pouco tempo: logo os dois devolveriam
Suas almas infelizes à glória de Deus.



domingo, 11 de dezembro de 2011

O Deus de Clarice Lispector





















                                                                               Clarice Lispector no Vesúvio em 1945


O DEUS DE CLARICE LISPECTOR


Há trinta anos morria Clarice Lispector, a escritora que abalou a literatura brasileira pela contundência de sua linguagem que tentava desvendar o mistério da existência com palavras claras e obscuras a um tempo, de grande beleza poética, de inquietação, de perturbação, espanto e maravilhamento. Com dezessete anos de idade escreveu “Perto do Coração Selvagem”, e era como se estivesse surgindo uma obra de gênio. Era como se valesse o adágio: “O gênio nasce feito.” Mas Clarice trabalha incansavelmente. A sua genialidade era uma busca contínua da palavra certa, que clarificasse os escaninhos obscuros do ser.
Comecei o meu conhecimento de Clarice com “A Paixão Segundo G. H.”: é o começo mais difícil, intrincado, um labirinto de luzes que se acendem umas sobre as outras e cegam o leitor. É muita claridade, e claridade entrando-se num mundo de trevas, alcançada com o estupor, com o nojo. É a epifania do ser diante do nojo, o ser se encontra, se descobre diante de outro ser, asqueroso, repulsivo, representado pela barata. Eu sou um mistério para mim mesma, dizia Clarice, e vivia desvendando os véus desse mistério, ofertando-nos a claridade que dele advinha. 
Foi no conto que Clarice mais se realizou, nessa arte da síntese que a levou e que ela levou ao âmago da problemática do homem, que se interroga, perplexo, à busca do que ele é em si. “Feliz Aniversário” é o melhor que ela criou, um triste retrato da solidão familiar, no tempo em que ainda havia grandes famílias, no entanto já mal estruturadas. Criou algumas peças notáveis, extraordinárias, mas vou hoje me deter sobre uma quase insignificante, de tão esquecida: “Perdoando Deus”. É bom lembrar esse encontro de Clarice com Deus, ela que, depois de tanto investigar o mistério, já penetrou no Mistério.
É a história de uma personagem que olhava distraída o mar e de repente se sente a mãe de Deus. Como o homem é o que ele escreve, vou dizer sem medo de errar que aquela personagem era Clarice. Quem se sentiu com o carinho de uma mãe pelo filho era Clarice. O interessante, o totalmente novo é que esse filho era Deus. Sabia que se ama a Deus com respeito, medo, solenidade. Mas o carinho maternal por Deus era absolutamente estranho. Assim como o carinho por um filho não o reduz, mas o alarga, diz, assim era maior o seu amor.
Foi quando quase pisou num rato morto. E entrou em pânico, controlando como podia o seu mais profundo grito. Desde o início do mundo sentia um pavor dos ratos, que a devoravam. E era como se Deus lhe lançasse na cara um rato. Ela amando-O com amor maternal, Ele insultando-a com brutalidade. Decidiu, então, vingar-se. Mas descobre que o rato é o mundo. Ela se julgava forte, porque, compreendendo, amava. Descobriu que se ama verdadeiramente somando as incompreensões, que amar não é fácil. É preciso amar primeiro a nossa própria natureza, depois o seu contrário, Deus.
Queremos amar a Deus só porque não nos amamos. É uma espécie de compensação. Conclui: “Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.” Dizem que o homem inventou Deus porque não consegue explicar o universo. Clarice aprende que isso está errado. Como Santo Agostinho, descobre que devemos procurar Deus dentro de nós.
O grande católico Alceu Amoroso Lima diz, dela, que a presença invisível de Deus não se expressa pela invocação do seu Nome, mas que o silêncio pode ser o sinal mais seguro de sua realidade. E conta que Clarice ofereceu-lhe o seu último livro com uma dedicatória, escrita um mês antes de morrer, terminando sua demonstração de afeto com estas palavras claras e decisivas: “Eu sei que Deus existe.”


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Esta crônica foi escrita há quatro anos. Lembro-a aqui, como minha participação nas homenagens a Clarice Lispector.




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O SILÊNCIO DAS COISAS





























O SILÊNCIO DAS COISAS

O silêncio dorme à sombra das árvores.
Os animais são obscuros como os homens.
O sol gira tanto, as estrelas giram, uma serpente
gira em torno do meu corpo.

A morte é real, concreta. A montanha é pesada.
É preciso falar do amor como uma coisa.
É preciso falar do amor.
As flores perfumam a terra, as flores iluminam a terra.
As flores enlouquecem.

Que pode uma criatura, entre criaturas, senão morrer?
É preciso partir. É preciso chegar ao fim da viagem.
Para onde vamos?
É preciso despedir-me. Vou sozinho.
Sou o abandono. A terra me espera.
Vivo com a terra no sangue. Um dia serei apenas terra.

A caverna me lembra a necessidade de ser e morrer.
A inocência dos filhotes caídos do ninho.
Os bois mugem, as estrelas mugem.
As estrelas sussurram distantes.
Sou inocente. Balbucio fracamente.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os gestos humanos






Os gestos humanos


Os caminhos são simples e pequenos, Sônia,
Levam à árvore em chamas do crepúsculo,
Aos cisnes sagrados brilhando no lago verde.

Você se lembra dos gansos, como grasnavam
Alertando-nos? As torres balouçavam-se
Com os bambuais, sobre a cidade adormecida.

Um relâmpago e as flores todas se abriram.
Ungimos com óleo e mel as nossas feridas,
Estávamos prontos para a arena da vida.

Os touros arrastavam o carro do sol e o mundo.
Nós conhecíamos as palavras apunhaladas,
Nós tínhamos sobre os ombros um lírio e uma forca.

Nós velávamos a pérola do enigma em sua concha
Enquanto os caranguejos e as aranhas, no escuro,
Extasiados, copiavam os nossos gestos humanos.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma canção esperada







O amor é inefável.
Os crisântemos são eternos por causa do amor.

A gente sua estrelas quando ama.
Isto não é sexo, mas poesia.

Isto não é poesia, é registro de maravilha.
Amar é adoração, divindade, êxtase.

Ficamos tão estúpidos quando amamos,
que nem percebemos.

Eu quero tocar os guizos da alegria.
O amor é um banquete. É um sino dentro dos olhos.

O amor quebra vidraças. Estamos moendo estrelas.
O amor é alto. Conhecemos o amor como diamante.

A Via-Láctea chove sobre nós. Pisamos as brasas do amor.
Limões explodem. Somos verdes com o sumo por toda a pele.

Laranjas e estrelas dançam no alto. Poalha levíssima chove sobre nós.
A mão do pilão socando até o êxtase. A mão do pilão como o coito.

Coito, essa palavra bonita. Os teus lábios são bonitos. Vermelhos.
Colho mel entre as tuas pernas com os marimbondos vermelhos.

O nome de Deus é o verbo, o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo como nomeio o amor: corpo.

Amor natural como o êxtase
do corpo no corpo.

O amor inventa
a morte.

O universo se ajoelha
diante do amor.

Não existe nada antes do amor.
Nem depois.

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À maneira de Manuel Bandeira, que fez o poema "Antologia" com seus versos mais significativos, fiz este poema-antologia com versos do livro "Poemas
de amor", Joarte Editora, Bauru, SP, 1999. Li-o em público algumas vezes, por ocasião do lançamento do livro; agora, lembrei-me de que não o mostrara para ser lido.

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