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sábado, 14 de janeiro de 2012

O INSTANTE ESSENCIAL

                                




                                O INSTANTE


                                Onde estão as árvores que estavam aqui
                                ainda ontem, ainda hoje de manhã?
                                Costumavam passear nos braços da névoa,
                                mas sempre voltavam... Não voltarão mais desta vez?

                               O que as árvores têm a me dizer? O que os pássaros
                               tanto sussurram? As flores caem, os frutos se abrem
                               e as águas correm álacres no córrego inquieto.
                               Eu fico à espreita da fulguração de um instante essencial.












sábado, 17 de dezembro de 2011

CANTO DA PRIMAVERA





CANTO DA PRIMAVERA


É primavera na terra transverberada.
As palavras cantam como fontes infatigáveis.
Tudo move as palavras.
Um trator,
um pássaro,
uma estrada,
uma estrela.
O perfume dos jacintos paira no ar
e cai
com a luz do sol fertilizando o sangue.

As raízes elevam-se leves
com o ofício dos espinhos e a defesa dos marimbondos.

Ouço o martelo da primavera polindo as flores e as estrelas
e os esqueletos dos cavalos
dos poetas – os cavalos transverberados
na noite líquida.
A loucura me guia, com a sua imanência e a teia do êxtase.

O silêncio da candeia sobre a mesa, as grandes sombras
esvoaçantes
e uma gota
de óleo
no escuro.
A primavera explode, uma serpente se enleia
nos meus braços, na garganta. 

E eu canto.
Eu canto com a voz das coisas, que nunca se calam.
A rosa ilumina o sangue.
A pedra ilumina a rosa.
Os mortos iluminam a vida.
A primavera cresce na ponta dos dedos.
A primavera cresce na ponta da língua transverberada.

José Carlos Mendes Brandão




segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma canção esperada







O amor é inefável.
Os crisântemos são eternos por causa do amor.

A gente sua estrelas quando ama.
Isto não é sexo, mas poesia.

Isto não é poesia, é registro de maravilha.
Amar é adoração, divindade, êxtase.

Ficamos tão estúpidos quando amamos,
que nem percebemos.

Eu quero tocar os guizos da alegria.
O amor é um banquete. É um sino dentro dos olhos.

O amor quebra vidraças. Estamos moendo estrelas.
O amor é alto. Conhecemos o amor como diamante.

A Via-Láctea chove sobre nós. Pisamos as brasas do amor.
Limões explodem. Somos verdes com o sumo por toda a pele.

Laranjas e estrelas dançam no alto. Poalha levíssima chove sobre nós.
A mão do pilão socando até o êxtase. A mão do pilão como o coito.

Coito, essa palavra bonita. Os teus lábios são bonitos. Vermelhos.
Colho mel entre as tuas pernas com os marimbondos vermelhos.

O nome de Deus é o verbo, o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo como nomeio o amor: corpo.

Amor natural como o êxtase
do corpo no corpo.

O amor inventa
a morte.

O universo se ajoelha
diante do amor.

Não existe nada antes do amor.
Nem depois.

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À maneira de Manuel Bandeira, que fez o poema "Antologia" com seus versos mais significativos, fiz este poema-antologia com versos do livro "Poemas
de amor", Joarte Editora, Bauru, SP, 1999. Li-o em público algumas vezes, por ocasião do lançamento do livro; agora, lembrei-me de que não o mostrara para ser lido.

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