sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
POEMA NO CREPÚSCULO
POEMA NO CREPÚSCULO
A árvore queimava
E o homem
Levantava o dedo pingando
sangue
Era como se tivesse uma rosa
Na mão
Um espinho na ponta do dedo
Olha o vento
Como sopra na copa das
árvores
O vento parece dourado
Sobre a copa das árvores
O menino olha o homem
Olha a árvore
Olha a rosa
E sai voando com o
vento sobre a copa das árvores
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A CASA É UMA SOMBRA
A CASA É UMA SOMBRA
A casa é uma sombra do que
fora.
Mancha escura, ou nem tanto,
na paisagem.
Um pouco de caliça, entulho,
pó.
As raízes penetram as
paredes,
De um jeito ou de outro
querem persistir.
O que existe é uma página em
branco,
De tanto lida, gasta pelos
dedos
E olhos incertos, gastos por
sua vez.
O lápis, oco, não escreve
mais.
A alma, oca, não escreve:
esparze a sombra.
Não somos mais quem fôramos:
ninguém
É o que somos, no jardim
esconso.
A água flui.
O vento ajunta as folhas
amarelas
E varre para fora do possível.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA DESENTRANHADO DO "DOUTOR FAUSTO", DE THOMAS MANN
HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO
– POEMA
DESENTRANHADO DO CAP. XXXI DO
“DOUTOR
FAUSTO”, DE THOMAS MANN
Era uma vez um casal de gêmeos de estirpe real.
O irmão ama a irmã desmedida e estouvadamente.
Desse amor nasce um menino de grande beleza,
Filho e sobrinho de cada um dos progenitores.
O pai tenta expiar a culpa numa peregrinação
À Terra Santa e morre no caminho.
A criança sofre um destino incerto: indigna
Do batismo, é posta num barril e jogada ao mar.
Levada pelas ondas até um convento, um abade
A recolhe e batiza com o seu nome: Gregório.
A mãe jura jamais se casar, indigna
De um matrimônio cristão, e rejeita a mão
De um duque feroz, que lhe invade e conquista o reino,
Exceto a cidade fortificada onde ela se refugia.
Gregório cresce e conhece sua origem: quer
Peregrinar ao Santo Sepulcro, mas passa pelo país
De sua mãe, sabe de sua triste sina e propõe-se
Servi-la: mata o duque e liberta o reino.
Os conselheiros aconselham a rainha a casar-se
Com o jovem. Ela reflete por um dia e casa-se.
A mãe deita com o filho do pecado no leito nupcial.
Só depois sabem quer eram mãe e filho.
Felizmente a pobre rainha não deu à luz um irmão
Do seu filho e neto do seu irmão.
Cabe agora a Gregório a romaria expiatória.
Chega à casa de um pescador e ambos concordam:
A solidão é a solução. O pescador leva Gregório
Para o alto-mar e acorrenta-o num rochedo.
Gregório passa dezesseis anos em penitência.
Então morre o Papa em Roma.
Uma voz vem do céu e ordena que Gregório,
De seu opróbrio, deve ser o novo Vigário de Cristo.
Emissários chegam à casa do pescador, que pesca
Um peixe com a chave das correntes de Gregório
No ventre. O pescador leva os emissários da Igreja
À Pedra da Expiação entre as ondas do alto-mar.
Gritam: “Gregório, homem de Deus, Desce da Pedra
Para ser o Vigário de Deus na Terra.”
Gregório aceita: “Seja feita a vontade de Deus.”
É um santo o homem que sobe ao trono de Pedro.
Sua mãe vai a Roma confessar-se com o Santo Padre.
Gregório diz: “Ó minha doce mãe, irmã e esposa!
O Diabo quis dar-nos o Inferno, mas o Deus
Da Misericórdia encaminhou-nos para o Céu.”
Construiu um convento para a sua mãe nele
Se fechar, expiar e dirigir como abadessa.
Por pouco tempo: logo os dois devolveriam
Suas almas infelizes à glória de Deus.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
O SEGREDO DA BRISA
O SEGREDO DA BRISA
Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras
adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me
lembra
a paz de uma tumba.
A grama cresce entre as pedras,
como cabelo
de criança, em sua fragilidade e
inocência.
Uma pedra se destaca entre todas
as pedras:
é a memória, que cresce e
sangra.
Nesta minha biblioteca um livro
se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como
o homem.
Os animais despenham-se no
pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os
mortos.
Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas
verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das
montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão
para os homens.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A VÊNUS DE GESSO - o texto e o palimpsesto
A VÊNUS DE
GESSO
Eu tinha uns sete anos de idade e subi
Numa penteadeira
(Para ver minha imagem
No espelho?)
E quebrei em mil pedaços o busto de
Uma Vênus de gesso
Você só faz arte, disse
Minha mãe
Foi o vento, eu disse
Estou brincando com
a ideia de Gérard Genette de que todo texto tem o seu palimpsesto. Certo que
simplifiquei quase ad absurdum. Mas escrevi A Vênus de Gesso lembrando A
Estátua de Gesso, de um ano antes, que não me satisfazia.
Escrevi A Estátua
de Gesso e postei no blog do Gregório Vaz em fevereiro de 2011. Lembrando-me do poema, lembrei-me de que o
achava palavroso, pretensioso, etc. – ruim o suficiente para ir apenas para o
blog do Gregório.
Escrevi A Vênus de
Gesso com a intenção de tirar um pouco da gordura do primeiro poema. Como
magreza não é sinal de qualidade, vejo no poema um tanto gordo uma força que
este não tem. As garras da poesia?
Quem quiser
comparar, aqui está o primeiro poema, muito a grosso modo o palimpsesto:
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Vou
falar mais uma vez da estátua de gesso
que
eu quebrei quando era criança.
Disse
à minha mãe que o culpado foi o vento,
eu
não era um artista,
nem
sabia o que era isso.
Esse
é o destino dos poemas: foi o vento.
Os
poetas nem sabem mais o que é isso.
Gozado
como continuam fazendo poesia
com
um ar de intelectuais
que
dominam a sua arte
de
intelectuais.
Como
se a arte fosse um objeto intelectual.
Pior,
como se isso fosse uma condição sine qua non
para
um poema ser um poema.
Havia
um espelho por detrás da estátua de gesso.
O
espelho refletia a estátua de gesso
e
refletia a minha cara de espanto e medo infantil.
Eu
não sabia,
mas
começava a conhecer o espanto e o medo –
essas
condições para um poema ser um poema.
Há
outras, mas o mundo caminha para o fim tão depressa
que
não há tempo para enumerá-las
nem
adianta.
(Se alguém quiser vê-lo
no blog do Gregório:
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
MEU (DES)ENCONTRO COM MANUEL BANDEIRA
MEU (DES) ENCONTRO COM MANUEL
BANDEIRA
Eu vi Manuel Bandeira parado
na frente do Banco...
Não me lembro de que banco,
mas era um prédio antigo
e o poeta exibia seus famosos
dentes que eram teclas de piano.
Eu contemplei o poeta com
admiração, quase com devoção,
e não tive coragem de me
aproximar, cumprimentá-lo, quem sabe
ajoelhar-me a seus pés.
O poeta pairava com
displicência no mesmo lugar
como se não esperasse nada,
apenas que a vida passasse
e as coisas continuassem com a
sua insignificância e a sua poesia.
Eu fiquei tão encantado
contemplando o poeta, imbuído
de tanta timidez em minha
veneração quase estúpida
que não pude dizer nada, fazer
nada.
Até se poderia ouvir a música
das teclas de piano do poeta
que, naquele distante 1969,
quando eu o via em carne e osso
e poesia, há muito já
partira para outras encantadas esferas.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
CEMITÉRIO DE ELEFANTES
As árvores sussurram na noite vasta.
Os elefantes caminham pesados na avenida,
seguem um sino inaudível para o abismo.
Portas se abrem e fecham.
Os mendigos estão tocando piano.
A noite se move lentamente, com a música.
As mariposas se beijam no escuro,
mostram-se na suave claridade do bar
e se vão, infelizes.
O silêncio de Deus como um túnel.
Estrelas geladas caem.
Carros arrancam, explodem.
As águas correm, negras, sob as pontes.
Os mendigos solícitos se deitam para a morte.
A Dalton Trevisan
23-11-2011 - José Carlos Brandão
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA
ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA
Há tempos eu queria fazer um
poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.
Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.
Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.
Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Poema em memória dos três edifícios que desabaram no Rio
Victor R. Caivano AP
AS ASAS DA LIBERDADE
A Liberdade implodiu.
O chão
logo ficou coberto
de caliça, entulho, ferro, pó
e sangue.
A Liberdade,
como um castelo de cartas,
implodiu o Colombo sem
nenhuma nau, nenhum mar mais
para navegar,
e outro edifício menor, que
nem nome tinha.
Resta uma árvore, com suas
folhas verdes,
sobre a desolação.
Alexandre sentiu que o chão
lhe faltava
e entrou no elevador,
procedimento menos correto que
possa haver.
O elevador
despencou com o prédio
e
Alexandre se salvou sem um arranhão.
Maria
(vou chamá-la apenas
Maria, agora ela
não pode se importar com mais
nada),
Maria também sentiu que o
chão lhe faltava
e procurou a escada.
Era o procedimento correto,
mas a escada despencou e
Maria só pôde dizer
Meu Deus
e tudo estava consumado.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
OS PATOS, OS MENINOS
OS PATOS, OS MENINOS
Os meninos levaram o pato e a
pata para nadar
No rio Tietê. Fazia sol,
apesar de algumas
Nuvens. Os patos estavam
eufóricos, quase mais
Que os meninos. Que riam,
olhavam para o pato,
Olhavam para a pata, olhavam
um para o outro,
E riam, riam a mais não
poder.
Os patos mergulharam na água
e gritaram,
Gritaram até perder o fôlego.
Como não perderam
O fôlego, anoiteceu e ainda
estavam gritando.
O pato nadava placidamente
nas águas azuis
Como as do mar, a pata nadava
para o lado oposto
E os dois gritavam a alegria
da vida.
Um menino teria seus nove
anos de idade, o outro
Era quase um adolescente. O
mais velho parecia
Mais novo, com seu ar
efeminado e meio chorão.
Foi preciso voltarem no dia
seguinte para buscar
Os patos sumidos no rio
feliz. Mas nem nesse dia
Os patos quiseram voltar.
Aliás, os patos nem sabem
Querer ou não querer: os
patos sabem nadar
E gritar a alegria da vida.
Uma vez o menino mais novo
segurou a pata,
Mas a pata se chacoalhou toda
e saiu voando
E gritando. O menino mais
velho caprichou
Na cara de choro, mas porque
era seu costume
Essa cara delicada e
dolorida. Os meninos sabem
Que, quando os patos quiserem
(sem querer!)
Voltarão para casa, com eles
ou sem eles.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
O POETA URINA ENTREAS RUÍNAS
O POETA URINA ENTRE AS RUÍNAS
O poeta urina entre as ruínas da cidade,
atrás de um muro,
talvez perto de onde foi um templo.
Um pássaro azul canta num galho seco.
Nuvens brancas brincam de carneiros,
galinhas,
coelhos
e pavões.
O poeta urina.
Tudo é efêmero, diz.
Vê um vaso, algum objeto que um dia foi um vaso.
Estranha: um menino e uma menina pintados
na parede côncava do vaso.
Não se vê nenhuma imagem do mar,
mas podem-se ouvir as suas ondas – basta
aproximar o vaso dos ouvidos.
E é pouco mais da metade de um vaso
que o poeta tem nas mãos.
Não há mar próximo, mas pode-se ouvir
todo o mistério do mar,
o seu
abismo
sem
fundo,
nesse antiquíssimo vaso quebrado.
Tudo é efêmero, diz o poeta,
menos o mar.
O inominável
mar das idades, mar anterior a todas as idades.
O poeta olha a pequena poça
de urina
efervescente
e imagina as ondas do mar inumerável.
O pássaro azul deixou de cantar.
O poeta está só.
E é como se estivesse nu.
Tudo é efêmero, menos as areias do mar.
Tudo é efêmero, menos as estrelas do universo.
Tudo é êxtase.
Apesar de tanta solidão.
Nem é preciso haver um pássaro azul.
Nem é preciso haver mais que ruínas.
Tudo é efêmero e mistério e êxtase.
6-1-12 – José Carlos Brandão
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
IDENTIDADE
IDENTIDADE
Como Kafka, fui um inseto monstruoso.
Fui uma toupeira protegida e sufocada sob a terra.
Fui um abutre e devorava a minha vítima parte por parte
até chegar à mais sensível e essencial, a língua.
Fui um rato que não conseguia mais cantar.
Fui um macaco que perdeu a identidade,
da qual conserva apenas o ódio ao amestramento.
Fui um cachorro existencialista.
Fui um chacal que amava o deserto.
Como Empédocles, fui um jovem e uma jovem,
um arbusto e uma ave
e um peixe mudo no mar.
2-1-12 – José Carlos Brandão
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O MAR E A MONTANHA
O MAR E A MONTANHA
O mar é irmão da montanha. Ambos
beijam o azul do céu.
A águia encolhe a plumagem e
mergulha da montanha para o mar.
Os náufragos saem das águas
ostentando os seus despojos,
sentam-se nas ruas da cidade com
os olhos vazios e a língua inútil.
O dia é uma pantera e afia as
garras diante da terra ensolarada.
Eu sou o sobrevivente e componho
a música do princípio e do fim.
domingo, 15 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
O INSTANTE ESSENCIAL
O INSTANTE
Onde estão as árvores que estavam aqui
ainda ontem, ainda hoje de manhã?
Costumavam passear nos braços da névoa,
mas sempre voltavam... Não voltarão mais desta vez?
O que as árvores têm a me dizer? O que os pássaros
tanto sussurram? As flores caem, os frutos se abrem
e as águas correm álacres no córrego inquieto.
Eu fico à espreita da fulguração de um instante essencial.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O poste de ferro diante das
ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha
de pedra
queima os pássaros da morte.
Viver ou morrer com a relva que
se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um
sinal de vida
antes da morte.
Descasquei a cebola torcendo o
nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o
osso.
Uma a uma iam caindo as faces
sobrepostas
alheias e ainda íntimas.
A cidade multiplica suas
esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as
magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.
12-23-2011 J.
C. M. Brandão
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
PRIMEIRO POEMA DO ANO
O MACACO
O macaco na
jaula do zoológico
faz caretas,
mostra os dentes, funga.
Incomodado com
a minha presença,
talvez me olhe
como num espelho.
Grita, num
guincho dolorido, aflito.
Será meu
ancestral?
Balança a
cabeça, desaprovando.
Estende o
longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre
os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura
uma banana,
com outra um
graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para
mim.
1-1-2012 - J. C. M. Brandão
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