quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O MAR E A MONTANHA
O MAR E A MONTANHA
O mar é irmão da montanha. Ambos
beijam o azul do céu.
A águia encolhe a plumagem e
mergulha da montanha para o mar.
Os náufragos saem das águas
ostentando os seus despojos,
sentam-se nas ruas da cidade com
os olhos vazios e a língua inútil.
O dia é uma pantera e afia as
garras diante da terra ensolarada.
Eu sou o sobrevivente e componho
a música do princípio e do fim.
domingo, 15 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
O INSTANTE ESSENCIAL
O INSTANTE
Onde estão as árvores que estavam aqui
ainda ontem, ainda hoje de manhã?
Costumavam passear nos braços da névoa,
mas sempre voltavam... Não voltarão mais desta vez?
O que as árvores têm a me dizer? O que os pássaros
tanto sussurram? As flores caem, os frutos se abrem
e as águas correm álacres no córrego inquieto.
Eu fico à espreita da fulguração de um instante essencial.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER
O poste de ferro diante das
ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha
de pedra
queima os pássaros da morte.
Viver ou morrer com a relva que
se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um
sinal de vida
antes da morte.
Descasquei a cebola torcendo o
nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o
osso.
Uma a uma iam caindo as faces
sobrepostas
alheias e ainda íntimas.
A cidade multiplica suas
esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as
magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.
12-23-2011 J.
C. M. Brandão
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
PRIMEIRO POEMA DO ANO
O MACACO
O macaco na
jaula do zoológico
faz caretas,
mostra os dentes, funga.
Incomodado com
a minha presença,
talvez me olhe
como num espelho.
Grita, num
guincho dolorido, aflito.
Será meu
ancestral?
Balança a
cabeça, desaprovando.
Estende o
longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre
os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura
uma banana,
com outra um
graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para
mim.
1-1-2012 - J. C. M. Brandão
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
OS BURACOS NEGROS
OS BURACOS NEGROS
Deus dialoga
com o diabo
sentado na
ponta de uma tábua, o diabo na outra ponta.
A tábua
estendida como uma gangorra sobre um buraco negro.
“O Senhor
criou tudo que existe, o sol e as outras estrelas
e os buracos
negros, que um dia vão destruir toda a Criação
e o Criador
junto?” – disse o diabo.
“Vou cuidar
disso” – disse Deus e levantou-se da tábua
deixando o
diabo ser sugado pelo buraco negro.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
O MENINO E A MENINA
O menino e a menina
caminham pela estrada
com um sorriso cúmplice
nos olhos e nos lábios.
A estrada é torta e larga,
com árvores e pássaros,
terra, pedra e alegria
à direita ou à esquerda.
Ninguém conhece ao certo
a alegria do menino
e a alegria da menina
na estrada empoeirada.
O menino dá a mão
para a mão estendida
da menina feliz
e suas almas caminham.
Não há maior prazer
no mundo do que olhar
essas duas crianças
na estrada nessa tarde.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
NATAL EM BAGDÁ
Natal em Bagdá (1998)
A bomba desenha uma cruz em Bagdá,
A estrela explode antes de nascer,
A mulher rasga com as unhas o ventre ressequido,
Dois olhos vazios me olham de lugar nenhum.
As árvores estão despidas como esqueletos,
A rosa não tem mais nenhuma pétala,
A raposa e outros bichos tristes choram no deserto,
O universo é um cogumelo gotejando.
Profeta sobrevivente do exílio,
Já não tenho voz e canto à beira da estrada.
Todas as crianças têm a garganta cortada,
O sangue das crianças colore a aurora.
Um menino queima sobre a palha,
Das suas cinzas o novo homem vai renascer.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
NATAL 1999
NATAL 1999
”O menino
nasceu morto”
(Natal
1964, Murilo Mendes)
Deus
nasceu na estrebaria.
A
estrela brilha no alto céu
e
ilumina o universo.
Os
pastores seguem a estrela,
os
reis magos seguem a estrela.
Deus
nasceu e essa verdade
é
tudo e nada.
Sobre
o feno,
Deus
respira
com
um burro, uma vaca,
alguns
animais.
O
rito
que
é nada e tudo
se
veste de palha.
Uma
estrela se apaga,
outra
nasce.
A
vida prossegue.
Os
homens não seguem
a
estrela.
A
palha queima
e
nenhuma estrela desce
para
a minha companhia.
Deus
não cresce
na
estrebaria.
Os
homens não são mais sábios
nem
mais naturais.
A
vida prossegue
com
a poesia
dos
animais.
Somos
feitos de adeuses,
uma
pouca cinza fria.
Deus
perece
na
estrebaria.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
A PARTÍCULA DE DEUS
A PARTÍCULA DE DEUS
Não sei se
existe uma partícula de Deus
ou a primeira
massa
depois do Big
Bang.
Não preciso
explicar a origem do universo.
Enquanto se
procura o bóson de Higgs
com o Grande
Colisor
de Hádrons
de Cern,
eu continuo a me extasiar com as panelas
da cozinha
ou com o infinito
das estrelas.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
UM COPO DE SILÊNCIO
UM COPO DE SILÊNCIO
Guardo no
meu poema, como num copo,
a imagem
líquida das coisas.
A tinta é
líquida, a tinta das minhas palavras.
As minhas
palavras escorrem dos lábios
ensanguentadas.
A faca desce
e se levanta
com o sangue
da vida, jubilosa.
O meu poema
tem todas as linhas da criação.
A loucura
justifica o meu poema como
justifica a
vida.
Vamos deixar
a melancolia para outra hora.
Por enquanto
a mulher não é uma estátua
de sal. O
olhar foi punido porque o olhar
é tudo.
Por mais que
aceitemos o esquecimento,
o olhar, que
também é esquecimento, preserva.
O olhar diz
que é a hora do silêncio.
Palavras,
palavras, palavras
e o
silêncio.
Como um
pássaro, o silêncio canta.
Com a voz do
esquecimento, o silêncio canta.
J. C. M. Brandão
sábado, 17 de dezembro de 2011
CANTO DA PRIMAVERA
CANTO
DA PRIMAVERA
É primavera na terra transverberada.
As palavras cantam como fontes infatigáveis.
Tudo move as palavras.
Um trator,
um pássaro,
uma estrada,
uma estrela.
O perfume dos jacintos paira no ar
e cai
com a luz do sol fertilizando o sangue.
As raízes elevam-se leves
com o ofício dos espinhos e a defesa dos
marimbondos.
Ouço o martelo da primavera polindo as
flores e as estrelas
e os esqueletos dos cavalos
dos poetas – os cavalos transverberados
na noite líquida.
A loucura me guia, com a sua imanência e a
teia do êxtase.
O silêncio da candeia sobre a mesa, as
grandes sombras
esvoaçantes
e uma gota
de óleo
no escuro.
A primavera explode, uma serpente se enleia
nos meus braços, na garganta.
E eu canto.
Eu canto com a voz das coisas, que nunca se calam.
A rosa ilumina o sangue.
A pedra ilumina a rosa.
Os mortos iluminam a vida.
A primavera cresce na ponta dos dedos.
A primavera cresce na ponta da língua
transverberada.
José Carlos Mendes Brandão
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Poema, o cão
Poema
O nome do cachorro era Poema.
Morto o dono, chorara e uivara à lua
e às estrelas a sua dor ingente.
Morreria de dor, todos diziam.
Visitou a capela entre os pinheiros,
onde o dono elevava a alma a Deus,
e a biblioteca, o outro lugar sagrado,
e ante os dois, reverente, se prostrou.
Encontrou o menino na montanha,
contemplaram o abismo do universo
com suas maravilhas, e concluíram
que mais belo é o coração humano.
O menino seguiu o seu caminho
com o Poema ao lado para sempre.
domingo, 11 de dezembro de 2011
O Deus de Clarice Lispector
O
DEUS DE CLARICE LISPECTOR
Há trinta anos morria
Clarice Lispector, a escritora que abalou a literatura brasileira pela
contundência de sua linguagem que tentava desvendar o mistério da existência
com palavras claras e obscuras a um tempo, de grande beleza poética, de
inquietação, de perturbação, espanto e maravilhamento. Com dezessete anos de
idade escreveu “Perto do Coração Selvagem”, e era como se estivesse surgindo
uma obra de gênio. Era como se valesse o adágio: “O gênio nasce feito.” Mas
Clarice trabalha incansavelmente. A sua genialidade era uma busca contínua da
palavra certa, que clarificasse os escaninhos obscuros do ser.
Comecei o meu conhecimento
de Clarice com “A Paixão Segundo G. H.”: é o começo mais difícil, intrincado,
um labirinto de luzes que se acendem umas sobre as outras e cegam o leitor. É
muita claridade, e claridade entrando-se num mundo de trevas, alcançada com o
estupor, com o nojo. É a epifania do ser diante do nojo, o ser se encontra, se
descobre diante de outro ser, asqueroso, repulsivo, representado pela barata.
Eu sou um mistério para mim mesma, dizia Clarice, e vivia desvendando os véus
desse mistério, ofertando-nos a claridade que dele advinha.
Foi no conto que Clarice
mais se realizou, nessa arte da síntese que a levou e que ela levou ao âmago da
problemática do homem, que se interroga, perplexo, à busca do que ele é em si. “Feliz
Aniversário” é o melhor que ela criou, um triste retrato da solidão familiar,
no tempo em que ainda havia grandes famílias, no entanto já mal estruturadas.
Criou algumas peças notáveis, extraordinárias, mas vou hoje me deter sobre uma
quase insignificante, de tão esquecida: “Perdoando Deus”. É bom lembrar esse
encontro de Clarice com Deus, ela que, depois de tanto investigar o mistério,
já penetrou no Mistério.
É a história de uma
personagem que olhava distraída o mar e de repente se sente a mãe de Deus. Como
o homem é o que ele escreve, vou dizer sem medo de errar que aquela personagem
era Clarice. Quem se sentiu com o carinho de uma mãe pelo filho era Clarice. O
interessante, o totalmente novo é que esse filho era Deus. Sabia que se ama a
Deus com respeito, medo, solenidade. Mas o carinho maternal por Deus era
absolutamente estranho. Assim como o carinho por um filho não o reduz, mas o
alarga, diz, assim era maior o seu amor.
Foi quando quase pisou num
rato morto. E entrou em pânico, controlando como podia o seu mais profundo
grito. Desde o início do mundo sentia um pavor dos ratos, que a devoravam. E
era como se Deus lhe lançasse na cara um rato. Ela amando-O com amor maternal,
Ele insultando-a com brutalidade. Decidiu, então, vingar-se. Mas descobre que o
rato é o mundo. Ela se julgava forte, porque, compreendendo, amava. Descobriu
que se ama verdadeiramente somando as incompreensões, que amar não é fácil. É
preciso amar primeiro a nossa própria natureza, depois o seu contrário, Deus.
Queremos amar a Deus só
porque não nos amamos. É uma espécie de compensação. Conclui: “Enquanto eu
inventar Deus, Ele não existe.” Dizem que o homem inventou Deus porque não
consegue explicar o universo. Clarice aprende que isso está errado. Como Santo
Agostinho, descobre que devemos procurar Deus dentro de nós.
O grande católico Alceu
Amoroso Lima diz, dela, que a presença invisível de Deus não se expressa pela
invocação do seu Nome, mas que o silêncio pode ser o sinal mais seguro de sua
realidade. E conta que Clarice ofereceu-lhe o seu último livro com uma
dedicatória, escrita um mês antes de morrer, terminando sua demonstração de
afeto com estas palavras claras e decisivas: “Eu sei que Deus existe.”
_________
Esta crônica foi escrita há quatro anos. Lembro-a aqui, como minha participação nas homenagens a Clarice Lispector.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Musa afinando duas liras
A musa afina duas liras:
uma para o desejo,
outra para o delírio.
__________________________________________
Musa afinando duas liras
Interior de taça ática de figuras vermelhas e fundo branco
de Erétria.
Data: -470 / -460
Paris, Musée du Louvre
Créditos: Marie-Lan Nguyen, 2005
Fonte: Wikimedia
Commons
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
RESÍDUO
RESÍDUO
Por trás de
tudo fica um pouco de terror.
As rosas
crescem com o terror nas pétalas.
Um campo de
rosas cresce
em torno de
minha casa: é o campo da morte.
Os pássaros
cantam no meu campo de rosas,
alimentam-se
das sementes da morte.
Olho uma
rosa,
sinto o seu
perfume, sinto a
rosa nos
lábios –
e é sempre
como se estivesse para morrer.
Penso que
poderia acordar, mas
também penso
que posso estar morto.
O sonho é um
ensaio da morte
com um
diretor
impertinente
andando em volta do leito.
As luzes se
acendem, o sol se acende, a vida
se ilumina.
É tanta a
luz que os olhos sangram.
O tempo não
perdoa.
A mó mói a
farinha
das horas.
O relógio
geme no poço.
Os espinhos
da alucinação me despertam.
É primavera
lá fora,
mas chove
como um dilúvio.
O que é um
dilúvio? Só de eu pensar
o dia se
esboroa no seu mastro, anjos desmoronam
montanha
abaixo, sem asas.
Bato
pálpebras, bato pálpebras e voo.
J. C. Brandão
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
A GALINHA MANCA
A GALINHA MANCA
A galinha atravessa vagarosamente o terreiro.
Cada passo é quase uma queda
(como a vida).
A galinha é torta,
tem uma perna mais curta que a outra.
É uma galinha manca.
Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse
calculando
cada
movimento.
O terreiro é largo,
clareado aqui e ali por algumas réstias de sol.
O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra
preta,
folhas, penas e dor.
A galinha é um bicho só.
Procura algum grão de milho, uma minhoca,
procura a sombra,
procura o sol.
A galinha conjuga os verbos da solidão.
Nenhuma outra galinha,
nenhum galo.
A vida parece sem sentido.
A galinha ergue a cabeça,
apruma o corpo,
soluça
e volta a caminhar.
É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado,
para o outro,
olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê.
E caminha.
Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala.
Mas caminha
tropeçando na própria perna,
caindo,
levantando.
Caminha.
A galinha mínima dominou o seu mundo mínimo.
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