sábado, 17 de dezembro de 2011

CANTO DA PRIMAVERA





CANTO DA PRIMAVERA


É primavera na terra transverberada.
As palavras cantam como fontes infatigáveis.
Tudo move as palavras.
Um trator,
um pássaro,
uma estrada,
uma estrela.
O perfume dos jacintos paira no ar
e cai
com a luz do sol fertilizando o sangue.

As raízes elevam-se leves
com o ofício dos espinhos e a defesa dos marimbondos.

Ouço o martelo da primavera polindo as flores e as estrelas
e os esqueletos dos cavalos
dos poetas – os cavalos transverberados
na noite líquida.
A loucura me guia, com a sua imanência e a teia do êxtase.

O silêncio da candeia sobre a mesa, as grandes sombras
esvoaçantes
e uma gota
de óleo
no escuro.
A primavera explode, uma serpente se enleia
nos meus braços, na garganta. 

E eu canto.
Eu canto com a voz das coisas, que nunca se calam.
A rosa ilumina o sangue.
A pedra ilumina a rosa.
Os mortos iluminam a vida.
A primavera cresce na ponta dos dedos.
A primavera cresce na ponta da língua transverberada.

José Carlos Mendes Brandão




Um comentário:

A. disse...

Por aqui, a distância que nos separa dessa frondosa Poesia faz dos nossos Poemas mais frios... ainda que não menos poéticos!... Cai chuva, há-de cair neve e o vento leva muitas palavras, essas mesmas que soprarão fortes rajadas de Poesia!...




Bom fim de semana



Abraço