sexta-feira, 20 de abril de 2012

O PRÍNCIPE






























       O PRÍNCIPE



O príncipe é vermelho como sangue,
ou como o fogo de um rubi ao sol.
Chama-se príncipe ou verão, e brilha
incendiando o dia em chama rubra.

Traz uma capa negra sobre as costas
e o vermelho no peito e na cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.

Pousa nos galhos finos do cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.

O príncipe se torna mais sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do amor.
                                   Depois se apaga, sossegado, no ar.





quinta-feira, 19 de abril de 2012

O interrogatório de Rosa Luxemburgo




O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.

Casimiro de Brito




quarta-feira, 18 de abril de 2012

RIDENDO CASTIGAT MORES




RIDENDO CASTIGAT MORES


Os falsos sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta Joseph Brodsky.

A minha poesia não deve ser humana,
os seus sentimentos são tudo menos falsos.

Nada do que é humano me é estranho,
já dizia o romano Terêncio.

A minha poesia é estranha para quem não é humano,
concluo, mostrando os dentes e as garras.


 

terça-feira, 17 de abril de 2012

A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS A MILLÔR FERNANDES




A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS
       A MILLÔR FERNANDES


A evolução das espécies segundo Raul Seixas
e Millôr Fernandes

tem o seu princípio na mosca,
passa pelo coelho

e deságua no homem – apenas mais um elo
mal resolvido da história.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

O OURIÇO



O ouriço eriça-se no vão da cerca
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta

contra o cão tão cruel que avança e morde,
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.

Os espinhos penetram, rasgam, matam
de dor. Nascemos para a dor: doemos.
Nascemos para a morte, mas queremos
a viagem sem fim: a morte é de outrem.

O cão é testemunha cega e vã,
sombra feroz à porta do destino.
O ouriço crispa e eriça seus espinhos
            contra essa fúria desse cão-enigma.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

A CHUVA, ORAS








                              



                            A CHUVA, ORAS


Chove lá fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos


e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro


e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe


quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.


É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia


é água furando a pedra dura.





quarta-feira, 11 de abril de 2012

A ARQUITETURA DE UM POEMA





A ARQUITETURA DE UM POEMA


A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas. 





segunda-feira, 9 de abril de 2012

O SAPO





O SAPO


O sapo veio da água, como a vida.
Como chegou do caos até aqui?
Que misteriosas sendas percorreu?
As estrelas explodem no jardim,

o bicho anfíbio busca a sua forma.
A luta pela vida continua:
o sapo caça a mosca com a língua,
a coruja contempla-o com fascínio

e gula, sob a noite iluminada.
O sapo foi, com a sua feiura,
o primeiro dos bichos do planeta.
Supérstite da Idade do Carvão,

carrega em sua pele dura a origem
da existência. Que Deus conceberia,
do nada, tal horrenda simetria?
Somos filhos de uma ancestral vertigem?






quinta-feira, 5 de abril de 2012

BORGES E PERON





BORGES E PERON


Quando Peron voltou ao poder
Borges despedido da Biblioteca Nacional

e nomeado para o cargo de inspetor de galinhas
disse dele É um miserável


Quando Peron pouco depois morreu
Borges disse dele É um miserável morto









terça-feira, 3 de abril de 2012

O CARDEAL





       O CARDEAL


Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.

A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.

O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.



domingo, 1 de abril de 2012

O UIRAPURU



O uirapuru é pássaro esquisito,
por exilar-se no seu próprio canto.
O seu voo com as árvores confunde-se,
o canto é o que fica do que passa.

Esse pássaro, como o conhecemos,
a sua imagem rara, quase mítica,
nasce do canto e perde-se no canto
e é memória do canto nunca findo.

O uirapuru disfarça-se de flor,
com pétalas douradas e uma estrela
no cinzento das costas, um sol lírico,
em sua concha cria a luz da dor.

O uirapuru se inclina para o rio:
é a pérola oculta na paisagem
e embala o silêncio da prata d’água,
fechando e abrindo o dia com seu canto.



­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­__________



Quando eu iniciei o ginásio (há uns longínquos cinquentas anos), no livro de Português. havia um soneto de Humberto de Campos, “O uirapuru”. Havia algo de... poético, nesse soneto, que descobri que quase o sabia de cor ainda hoje: 

 
"Dizem que o Uirapuru, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranqüilo
O passaredo, rápido, a segui-lo
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá surta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.

O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta!"


Como eu estava escrevendo o meu “Livro dos bichos”, pesquisei e soube que o uirapuru é um pouco diferente da lenda e desse soneto. Então, escrevi o poema acima.





quinta-feira, 29 de março de 2012

O BODE































O BODE



O bode sobe a montanha, com os chifres
em riste.

A montanha é um trono para o bode.
Entre os rochedos, orgulhoso, ostenta
o poderio do seu domínio estrito.

Que é a vida? O que somos nós no pasto
do existir? Que capim, que ossos roemos?
O bode solta um grito nas alturas.
O grito preto e branco, seco, quebra-se

e, ricocheteando, reconhece
o território do rebanho, grei e reino.
O bode impera sobre os seus limites.



quarta-feira, 28 de março de 2012

POETA TEM QUE SOFRER, disse Millôr Fernandes




Eu acabava de ser apresentado a Millôr Fernandes, em 1991, como um dos poetas premiados na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Ele me bateu nos ombros, dizendo como quem consola: “Poeta não precisa ganhar prêmio. Poeta tem que sofrer.”

Pouco depois estava no Centro de Convenções Rebouças dando o seu depoimento diante de uma plateia atenta de umas duas mil pessoas. E qual era o tema? Não mais que o enunciado acima: “O poeta tem que sofrer.”

Era como se Millôr falasse para mim mesmo. Como se continuasse a conversa mal iniciada.

Ele me ensinava que os prêmios são um reconhecimento da obra que o poeta faria de qualquer maneira. Ou quase de qualquer maneira: antes é preciso sofrer.


Não me lembro de uma palavra desse depoimento, mas tinha aprendido o essencial. Somente se escreve criticamente.

Millôr se dizia um escritor sem estilo. Numa de suas últimas entrevistas disse que escrever é fácil. Basta ter o que dizer.

O humorista ou o poeta sentem a dor de viver. Depois, escrevem.


terça-feira, 27 de março de 2012

A GARÇA






     A GARÇA




A garça marcha devagar, solene,
na areia à beira d’água. Atenta, observa:
um peixe descuidado se aproxima.
De repente dispara, flecha, o bico


e volta após fisgado o alimento.
No cristal d’água a sua imagem dança
nívea, leve, com graça, ao crepúsculo.
Eu a contemplo à luz fraca do sol,


à distância, real, em sua nobreza
de ave e príncipe. Quem sou? Ela ignora.
Existo à parte, como observador,
alheio, inexistente. Sou, não sou.


Um homem não faz parte da paisagem.
A garça é a paisagem. Mais que uma árvore,
mais que uma flor e a imagem que passa, alva,
a garça permanece na memória.





domingo, 25 de março de 2012

A TARTARUGA




 

     A TARTARUGA


A tartaruga vai tão devagar
como se imóvel fosse – eppur si muove.
Nasce na areia condenada à morte,
só por um fio consegue escapar

e, solerte, se apega tanto à vida
que bem parece não morrer jamais.
Essa é a lentidão da tartaruga.
Move-se devagar porque o horizonte

é sempre mais além de outro horizonte.
Existir é memória. Um ovo ao sol
cozinhando na areia ao som do mar.
A sua casca é dura como a pedra

e é o seu próprio corpo, pele e osso.
A tartaruga pesa como o mundo.
Leva nos ombros a beleza e a dor,
o êxtase e o mistério de existir.





(poema do "Livro dos bichos", Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. - RJ)






quinta-feira, 22 de março de 2012

O TUCANO



      O TUCANO


O tucano ergue o longo bico adunco
entre as árvores ralas na canícula:
ausculta o tempo com sanguínea verve
e dispersa o calor com sua astúcia.

O tucano transpira pelo bico
como se fosse um radiador. Controla
a sensibilidade do seu corpo
nos dias quentes e nas noites frias.

O tucano colore o azul do dia,
as campinas, as árvores e as águas.
Os pássaros se calam quando o tucano
filtra a luz e o mormaço do verão.

Agita e grita a cor de galho em galho.
Com o suor do corpo no seu bico,
o voo inquieto do tucano enfeita
o verde da paisagem do poema.



Esta foi a última foto de um tucano que eu tirei. Em S. Bento do Sapucaí, SP, perto da Cachoeira dos Amores, na semana passada.
A foto não corresponde ao poema, escrito uns dois anos antes.
In “Livro dos bichos”, Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. RJ (a publicar).


                        José  Carlos Mendes Brandão



quinta-feira, 15 de março de 2012

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

























                                                                                                Pedra do Baú - S. Bento do Sapucaí - SP




A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

Leio um poema de Ted Hughes em que sua amada Sylvia Plath
Declama poesia para as vacas
E fico imaginando como seria interessante dizer meus poemas
Para os cavalos, os cachorros, as borboletas,
Talvez para o papagaio – dizem que o papagaio é ótimo ouvinte
E é disso que o poeta precisa: ótimos ouvintes.

Os animais podem muito bem ser melhores ouvintes
Do que os homens ou as mulheres sonhadoras ou palradoras.
Sim: pelo menos os animais não palram nem sonham.
Certo, alguns animais palram
Mas nenhum sonha
E um poema é para ser ouvido muito acordado,
Com todos os sentidos atentos.
O mal dos homens e das mulheres é não terem os sentidos atentos.

O mal dos animais é outro.
Os animais também não servem para serem ouvintes de poesia.
É que o poeta fala por imagens,
Diz vermelho e azul e verde e amarelo,
Diz luz e movimento,
Diz sangue e céu,
Diz tanta coisa para não dizer a ideia que está por trás das coisas.
Os animais veem as coisas e pronto.
Os animais não têm noção de beleza e efêmero,
De eterno e pó e abismo e Deus.
A poesia existe porque os homens complicam demais a vida.
Os animais veem a vida como uma coisa simples.
Não precisam de poesia.







sexta-feira, 9 de março de 2012

EM SILÊNCIO







EM SILÊNCIO


1.      As rosas brancas e lilases no vaso disputam espaço
      Com o verde das folhas, as abelhas e as lagartas.


2.      A lagarta na folha do limoeiro afia as armas
       Para o seu trabalho de destruir e devorar.


3.      As árvores retorcem-se na beira da estrada.
       Que ânsia as move? Que dor? Que desatino?


4.      As mulheres na cozinha sorriem em silêncio.
      Desnecessário compartilhar um segredo só delas.






quarta-feira, 7 de março de 2012

A LÍNGUA BÍFIDA






A LÍNGUA BÍFIDA


                        1. 
Por que sou um estranho entre os homens?
Antes que o sol me ilumine, é noite.
                        
                        2.
A lagartixa desaparece numa fenda da parede.
Fico só, embaralhando a minha perplexidade.

                        3.
 Um silêncio súbito me paralisa.
A montanha parte-se com a luz e a água.
                     
                        4.
A única coisa que se movia entre as pedras
era a serpente e a sua língua bífida.








sexta-feira, 2 de março de 2012

O PÁSSARO E O ORNITÓLOGO




          O ditado diz Um pássaro

Não é um ornitólogo.

Vivo a minha vida

E a minha poesia.

Os críticos vivam

A deles.

A terra gira

Como uma laranja,

Não quer dizer

Que a terra seja uma laranja.

É apenas a poesia

Nas palavras

Ou fora delas.

Não me pergunte por quê,

Eu não sou um ornitólogo.

Sou apenas um pássaro.