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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMÉM






AMÉM


Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.

Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.

A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.

A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.

Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.  
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.





sábado, 28 de julho de 2012

A FERRUGEM E O OURO






A FERRUGEM E O OURO


A ferrugem nas chaves, nas fechaduras
e no gonzo das portas.
Refulge em silêncio o ouro das palavras.




quinta-feira, 26 de julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A QUEDA DE ÍCARO





A QUEDA DE ÍCARO


A Queda de Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida continua.
A Queda de Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico pensando
no que o pastor vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao mar.
Se Ícaro não caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o lavrador com o seu arado.
Acabamos olhando, com o pastor, para lugar nenhum.




quarta-feira, 27 de junho de 2012

ANUNCIAÇÃO - Cecília Meireles




Cecília Meireles – ANUNCIAÇÃO


Toca essa musica de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.


Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.


E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.


Toca essa musica de seda, entre areias e nuvens e espumas.


Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.


Cessará essa musica de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.


E a memória de tudo desmanchará sua dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.

                                 
                                   _______________


                                  in “Viagem”, 1930 

                                 Viagem foi o primeiro livro de poesia moderna premiado pela Academia  
                                  Brasileira de Letras.
                                  Anunciação foi o primeiro poema de Cecília Meireles que eu li, ainda na minha
                                  iniciação na poesia.


sábado, 16 de junho de 2012

A LARANJA


 
Uma laranja rola
no meio do rio

rola
entre os peixes
e a água.

O sol brilha no alto.

A laranja rola
sem destino.




terça-feira, 29 de novembro de 2011

OS FUMOS DA CIDADE






























OS FUMOS DA CIDADE


      1
Trouxe para a cidade o perfume do mato
e o perfume das ostras e das gaivotas.
Viverão comigo até eu morrer.
 
2
Nas ruas da cidade,
sob o céu negro, estou em casa.

3
  As ruas fedem a urina, fezes, óleo e fuligem.
Sombras me cobrem. Eu me encolho no meu canto.
Não posso viver sem medo.
 
  4
  Não somos mais eternos.
Habitamos engradados de plástico, nosso mundo é virtual.
Enviamos sinais de nossa solidão ao universo inteiro.

5
Quebraremos as taças, esvaziaremos o vinho e a dor.
As casas – os prédios com seus fios invisíveis – cairão por terra.
Restará, nos cacos de vidro, na fuligem, somente a poesia.
 
6
Senhor, dai-nos paciência, dai-nos um pouco de orgulho.
Chafurdamos demais na lama. É o fim do mundo.
Senhor, dai-nos o êxtase de uma última chama.
 
7
A pátina do silêncio escorre das juntas da arte.