segunda-feira, 30 de junho de 2008

A velha da maçã
















O menino repousa sobre um barco

Coberto de palha e panos.


Um boi, um burro e um cão guardam o sono

Do menino deitado no seu berço


Que é um barco e navega com as estrelas

Nas vastas águas da noite.


O homem medita no mistério azul

Do menino nascido de um peixe de luz.


Uma velha mulher trouxe uma maçã

Para a mãe do menino.


Era uma estranha e veio do outro lado do tempo

Com a maçã para a mãe do menino.


Era Eva e voltava do Paraíso

Com a maçã e a serpente na mão.


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Fluir














Um rio flui da montanha, outro da estrela.

Deságuam no meu peito velho de milênios.


Estou imóvel, à beira da estrada, como um rochedo.

Uma árvore me envolve com os braços verdes.


Tenho os pés plantados na terra como raízes.

A seiva densa escorre nas minhas veias.


Os gaviões se agarram aos meus cabelos

E gritam desesperados para o céu


E bicam os meus olhos, a minha língua.

O meu cachorro já se converteu em pedra.


O meu cavalo espera o meu chamado,

Mas tanta água flui dos meus pulmões.


Um peixe navega nas minhas entranhas.

Revolve, dentro de mim, a memória de Cristo.


domingo, 22 de junho de 2008

Caim















Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.

Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.


Aprendo o que é morrer, o que é acabar.

A morte é o silêncio de uma pedra.


Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.

É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.


Que farei com Abel? Que é que se faz com um morto?

Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?


Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.

No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.


O sangue do meu irmão não clama por vingança:

É um espelho. É a essência do que sou.


É a marca do homem, seu direito e avesso.

O sangue do meu irmão morto me alimenta.


quinta-feira, 19 de junho de 2008

O instrumento

A jovem cantora (27 anos) Ana Cañas, como por acaso, diz: “Descobri o canto como um instrumento”. Foi quando se descobriu cantora. O poeta também se descobre poeta quando descobre a língua como um instrumento. Se você tirar música de sua língua, se o seu poema cantar, se for autônomo, valer por si só, você é um poeta.

Como eu sei isso? Basta você ouvir alguém cantar para saber que é um cantor. Assim com o poeta: basta lê-lo. Quem desafina, não “tem voz” ou “canta muito bem”, apenas, certamente não é um cantor. O poeta também: não basta escrever muito bem. O seu poema deve soar como perfeito. Não deve ser como o “cantor de banheiro” ou como quem canta para um grupo de amigos.

Por isso não é fácil saber se alguém é um poeta: seus primeiros leitores são os parentes e os amigos. Péssimos julgadores. Sempre é preciso que outrem lhe diga se é um poeta. O problema é que esse “outrem” é um grande mentiroso.

Feliz ou infelizmente, é preciso publicar. É preciso que “outrem” seja de fato outrem, alheio, indiferente. Se o seu poema não o deixou indiferente, você é um poeta.

Mas como saber se ele entende mesmo do assunto? Se não está enganado? Não importa: você é um poeta para ele.

Assim, os concursos literários são um mal necessário. Embora haja apadrinhados, como em qualquer lugar, os jurados vão lê-lo com olhos críticos. Vão lê-lo comparando-o a cem, duzentos, trezentos ou mais outros poetas: se sobreviver a esse teste, você é um poeta.

Veja bem: é preciso sobreviver aos erros desses jurados, a seus subjetivismos, suas idiossincrasias, a algumas cartas na manga. Muitas vezes à burrice desses jurados. Podem estar julgando, como os críticos, porque não sabem criar.

Vou terminar saindo um passo ou dois do assunto. Citando Betty Milan (de ouvido): “O artista poderia ser chamado de Salvador, como Cristo. A arte salva.”

Depois, André Gide (segundo a mesma Betty Milan): “Quanto mais entraves, mais perfeito o texto”. Lembro que esses entraves não devem aparecer, num texto, em sua arte final. É o que dizia Olavo Bilac, no seu Arte Poética. Apesar de ser um parnasiano superficial, era um artista da palavra. O poeta tem que ser um artista da palavra.

Falando em entraves, lembro-me de Cioran, que, romeno, lutou contra os entraves da língua francesa até escrever no mais puro francês.

Mais uma observação. O escritor precisa, inclusive, violar a gramática. Proust violava. Não é o quanto basta para se fazer um Proust. Não basta, mas é uma condição sine qua non.

Por fim. A nota final. Decisiva. A poesia deve exprimir a eternidade. O poeta só escreve para lutar contra a morte. Se você não pode deixar de escrever, tem que derrotar essa inimiga fatal, a morte, em nome da eternidade, você é um poeta.

Grande coisa?! Grande condenação. O poeta é um condenado a lutar contra a língua, seu instrumento musical, para tornar palpável a eternidade. Uma missão impossível.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O filho pródigo


O meu grito para a árvore da infância:

“Sou o filho pródigo que volta do exílio,


Fustigado pelos temporais e secas do deserto.

Senhor, o esquecimento pesa sobre os meus ombros,


Não me reconheço na cozinha ou na varanda

Da minha casa. Sou outro. Sou ninguém.


A solidão foi o meu alimento de todo dia,

O meu prato sempre cheio até a borda.


A cisterna amarga foi testemunha

Da minha angústia, do meu silêncio.”


Somente a árvore da infância continuava ali,

Compassiva, chorando folhas amarelas,


Os braços abertos ao longínquo horizonte,

Esperando, materna, por minha volta impossível.


Intertextualidade


A idéia não é nova, mas este texto é sobre isso mesmo: Não há idéias novas. Nada se cria, tudo se copia – já dizia Chacrinha, o gênio da televisão. Vejam: o assunto é tão banal que é preciso citar gente banal.

Não que eu menospreze Chacrinha. Digo o que ele gostaria que dissessem dele: que não é intelectual, mas povo. Portanto, banal. O povo – preciso dizer? – não se diminui por ser banal. É um organismo vivo, não uma abstração. Banal, cabal.

Vou fazer também uma releitura de Lavoisier: Na arte nada se perde, tudo se transforma? Não: Tudo se come. É a Antropofagia de Oswald de Andrade: Tudo se come, se copia, e, assim, entra velho – sai novo.

Camões copiou “Sôbolos rios que vão...” de São João da Cruz, grandíssimo poeta seu contemporâneo, além de santo. Não ao pé da letra: deu-lhe o toque camoniano. “Sôbolos rios...” tem todo o sabor camoniano, apesar de nascer de outra mente e coração.

Como “Alma minha gentil...” nasceu do estro de Lope de Vega, para a obscuridade das excelentes obras perdidas nos desvãos do tempo, não fosse Camões se apropriar dela, degluti-la, fazê-la sua. Um poema delicadíssimo sobre o amor perdido. Um poema conhecidíssimo de todos nós graças a Camões, que a tirou do limbo para a glória.

Camões virou Vergílio do avesso, tomou o seu “arma virumque cano” e tornou-o “as armas e os barões assinalados”, tomou a história de Roma e cantou a história de Portugal. Foi só um ponto de partida, mas devorando a Eneida para parir Os Lusíadas.

Hoje damos esses nomes elegantes – intertextualidade, diálogo com outras obras, citações – a processos antigamente naturais, mas que há pouco eram puro plágio, roubo, crime intelectual.

A arte, afinal, nasceu anônima. Era propriedade humana. Existia para ser fruída pelo homem. Não importava quem tinha feito. Por isso a dúvida se Homero teria existido, embora alguém certamente tenha escrito as histórias fabulosas que aquele cego cantava de cidade em cidade.

Até de Shakespeare, muito mais próximo de nós, há gente que chegou a negar-lhe a existência. Claro que alguém escreveu aquelas peças essenciais que elevaram a literatura a seu nível mais alto, mas ainda se questiona: Quem foi Shakespeare? Teria um outro nome?

Cervantes, seu contemporâneo, chega a brincar com essa história de autoria. No segundo volume do seu Quixote, inventa um árabe que teria escrito as aventuras do fidalgo nascido num lugar da Mancha e seu escudeiro Sancho Pança, dizendo ser ele mesmo, o autor, apenas um tradutor.

Hoje, com a Internet, embaralha-se outra vez a questão da autoria. Não se sabe mais quem é quem, vivemos num mundo virtual em que, virtualmente, tudo é de todo mundo.

Os antigos praticavam a intertextualidade – com uma certa antropofagia oswaldiana – a seu bel prazer, sem citar os nomes das obras ou autores citados, como uma homenagem, estaria firmado um acordo de cavalheiros do espírito de que todos sabiam a propriedade da obra copiada com engenho e arte, para se tornar nova e com nova autoria.

Depois, banalizou-se o processo e surgiu o problema do plágio, como crime.

Hoje o autor é ninguém, uma entidade virtual, portanto inexistente na vida real. Embaralham-se os autores, cita-se uma obra atribuindo-se sua propriedade intelectual a esse ou aquele aleatoriamente, tanto faz, ninguém é ninguém.

Voltaremos ao estágio primitivo em que a arte não tinha dono, era criada para a fruição estética de todos, para o prazer, a elevação do homem? Não se criava por dinheiro, fama, nem por nenhum motivo torpe ou nobre que foi surgindo ao longo dos séculos. O criador era, como diria Borges, um amanuense do Espírito.

Quem dera estivéssemos regredindo a esse mundo ideal...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Imagens a Crusoé





                                      Imagens a Crusoé


Lá pela página 100 de sua obra centenária “Ortodoxia”, G. K. Chesterton fala da lista dos objetos resgatados do naufrágio de Robinson Crusoé. E conclui que o maior dos poemas é um inventário. Cada utensílio torna-se ideal porque Crusoé poderia tê-lo perdido no mar. Assim, o nosso grande poema é tudo o que temos, o inventário dos salvados do naufrágio do nosso universo.

Pensei fazer o meu inventário. Não posso resistir ao convite de compor um poema. Mas me previno: tudo que tenho. Não pretendo lembrar tudo que tive. “Funes, o Memorioso”, de Borges, é a história de um personagem que lembra tudo, cada folha, cada nuvem, cada palavra que vira ou ouvira. É enlouquecedor. Por isso a nossa memória é seletiva. Lembramos o mínimo, para que não enlouqueçamos.

Vou fazer o inventário dos objetos que tenho. O horizonte que vejo pela janela à minha direita, onde o sol se põe pintando as nuvens e as árvores, é meu – mas é muito vasto. Preciso falar das coisas pequenas do meu cotidiano. À minha esquerda está a estante com os meus livros, os objetos mais preciosos que compõem o meu mundo. Embora não tenha muito mais que 400 livros, número que estabeleci há uns 40 anos segundo sugestão de Dantas Motta, como ideal para ler e reler em minha vida, - não poderia falar sobre cada um deles. São muitas recordações. Um livro é um homem, é um mundo.

Machado e Graciliano, paternais, severos, me olham enviesado. Os poetas? Não posso preterir nenhum: são muitos mestres que me acompanharam a vida inteira. Maternais, digamos, ao contrário dos prosadores, mas também severos, também me olhando enviesado. Dois livrões amarelados, feios, a ligá-los somente um monossílabo vermelho na capa: “Eu” e “Só”.

Não quero ser injusto com nenhum poeta. De quem me lembraria? Os meus olhos percorrem a estante. Paro em Saint-John Perse. E me lembro de que Sain-John Perse escreveu um livro chamado “Images à Crusoé”. Quê?! Vou conferir a data, sei que é um dos primeiros livros de S.-J. Perse, do início do século passado. Leio: 1909. Não é que foi publicado um ano depois da “Ortodoxia” de Chesterton?! Teria escrito “Images à Crusoé” sob a influência da “Ortodoxia”? Em sua nobreza, alta, senhora dos valores do espírito, último baluarte da grandeza humana – é obra elaboradíssima, de modo algum se pode dizer que foi feita às pressas. Vejo que há poemas datados de 1904, por exemplo. Mas é agradável reencontrar lá um poema ao papagaio, ou ao guarda-sol de pele de cabra, ou mesmo a Sexta-Feira. Como propôs Chesterton, é um inventário das coisas de Crusoé e do único ser humano com quem conviveu.

Nós trombamos todos os dias com dezenas, centenas de pessoas. Nem temos tempo de reparar nelas. Crusoé tinha apenas Sexta-Feira e todo o tempo do mundo para observá-lo intensamente. Crusoé tinha apenas um punhado de objetos, por isso essenciais. Nada podia ser desperdiçado. Crusoé tinha apenas um livro, por isso essencial. Um Homem e um Livro. Podia se dedicar inteiramente, de corpo e alma, a seus poucos pertences, ao Homem e ao Livro. Chego a ter inveja da miséria de Robison Crusoé. Senhor, que a minha miséria me seja leve, que eu saiba viver a minha miséria com todas as minhas forças. Senhor, que eu não seja menor que os objetos que me circundam, e que eu seja digno de conviver com os outros homens, meus irmãos. Todo o peso das pobres imagens de Robison Crusoé cai sobre mim – e me calo.




segunda-feira, 9 de junho de 2008

Luzes e trevas









A flor se inclina para a terra e para a noite

À beira do poço um anjo vela a minha morte.


Os segredos do abismo se revelam

E se escondem com os pássaros do caos.


A beleza sorri por si só

O anjo ergue a espada contra o homem na montanha.


A pedra jaz no fundo do rio

Entre os peixes e as algas cegas.


No princípio Deus separou a luz das trevas

As estrelas nasceram e morreram.


Os lábios se abrem para a pergunta:

E se o universo não existisse?


Quando despertei dentre os mortos

O sopro de Deus me elevou além do nada.


sexta-feira, 6 de junho de 2008

O silêncio das sereias










As ondas do mar apagarão o meu epitáfio

Não compreendo a paisagem que emerge do caos.


As palavras me fitam no escuro com seus olhos abertos

Rodopiam num vórtice azul que nasce do vazio.


A cornucópia revela o universo: os cavalos ao sol,

A baleia em alto mar e a estrela no abismo.


A gota de orvalho na orquídea é bênção e terror

Quero cunhar as palavras num monumento de bronze.


Navego encantado pelo silêncio das sereias

Uma faca cega me arranca a língua.


A rosa em chamas entre as árvores queimadas do jardim

A pedra me esmaga: sou cinza e ruínas antigas.


O espelho baço não reflete a minha imagem

As ondas nas areias da praia lavam o meu nome.


quarta-feira, 4 de junho de 2008

O mártir do êxtase










A estrela apagada da melancolia

Na torre solitária da meia-noite.


Acendo a minha lâmpada no óleo negro

O meu desejo se esgotou, no corpo e na alma.


Enclausurado na cisterna seca,

Ausculto o coração da Ursa nos céus estrelados.


Contemplo a beleza, as altas verdades

Bebo da fonte a essência da tristeza.


A solidão me esvazia, sou nada.

A esfinge me carrega para o abismo.


Sou o mártir do êxtase na solidão

A vida pulsa como um pulmão verde.


Sou o universo inteiro para mim mesmo

O meu silêncio fala o verbo essencial.


O silêncio do universo











Falo com o universo silencioso

Que nunca me responde.


É a solidão do cacto no deserto

É o mármore da tumba na noite.


Não encontro a chave no escuro

Onde a água para a minha sede?


Como libertar o ser fechado?

O claustro me cega e me ilumina.


Sou purificado pela rosa do abismo

Os pássaros da memória me beijam a língua.


Penetro no mosaico da lucidez

Penetro no labirinto subterrâneo da linguagem.


É o prenúncio do silêncio e da solidão

É a concha, é a pedra, é o poço do afogado.

 

 

 

terça-feira, 3 de junho de 2008

A velhice do poeta











Cortei a minha língua, por inútil.

Os pássaros caem das árvores secas.


Deito-me na terra, entre as pedras,

Sob o lençol da minha miséria.


À beira do leito seco do rio,

Sinto-me queimar pelo fogo do sol.


Leio a minha sorte nas fezes quentes

De um animal morto, à minha imagem.


Estudo o enigma do silêncio

Nas estrelas longínquas do céu vazio.


O meu coração se esqueceu de quem era

E dialoga com o espelho quebrado.


A imagem turva não o reconhece.

Converto-me nas pedras, sobre a terra.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

pétalas











cereja


mulher deitada na terra

lábios vermelhos

cereja



marinha


a água na fonte clara

a mulher nua no cio


as gaivotas no azul

o céu e o mar e as risadas



os gansos


as rosas no lençol

e a minha

língua acesa


os gansos voaram

ao sol



os gerânios


os gerânios vermelhos

entre as folhas verdes e o sangue

ao sol


os morangos


morangos na garganta

tanta pressa na pele

nos lábios


o coração é um cachorro

pedindo água


a chuva o vento a folharada

andamos todos os caminhos


o amor bebe sôfrego

se afoga no abismo


nossos corpos resfolegam

absurdos



pitangas


eram tantas pitangas

no céu azul

na pitangueira verde


nós dois os

corpos estendidos quietos

ao pôr-do-sol


eu lhe mordi o pescoço

com as palavras nas mãos

e entre os dentes


o peito arfava

vegetal carne molhada

abismo

As mãos do oleiro











A poesia salta sobre a sombra.

As mãos do oleiro acariciam a argila,


O sopro dá vida ao cântaro úmido.

A semente por baixo do silêncio da pedra.


Ouça o solilóquio da água na terra.

O meu coração abraça o mundo


Gotejando argila e sangue.

As árvores se abaixam sobre o rio


Que passa cantando e gemendo:

Carrega as barrancas vermelhas com dor.


Um pássaro voa no azul do céu

Filtrando a luz do sol nas penas brancas.


A rosa bóia à flor d’água para sempre.

A poesia salta da sombra com a argila do oleiro.



A morte do artista











O meu quarto vazio jaz na penumbra.

Todos os espelhos estão quebrados.


Um velho me visita todas as noites

E me rouba os olhos e os sonhos.


Sofro dentro da noite atroz

Ou contemplo o sofrimento no sono,


Longínquo, entre as estrelas do abismo.

Não tenho mais contato com o chão da vida.


Cortei as minhas mãos inúteis,

Jazem no fundo da água pura dos rios do tempo.


Não me servem mais. Tocaram a beleza

E perderam-na. As ondas vêm e vão, com sangue.


O meu jardim canta ao sol, com flores e pássaros.

Eu é que não sirvo mais.

domingo, 18 de maio de 2008

A cisterna rachada











Deus encontrou a cisterna rachada.

Sou prisioneiro do universo negro.

Eu me deito sobre a pedra do silêncio.

Sinto o frio do abismo descendo sobre mim.


Como sair da concha? Como alçar vôo?

Ouvir a música das esferas e morrer.

Não é possível morrer para Deus.

A aflição da pérola é eterna.


Piso nos cântaros quebrados no caminho.

O menino morto bóia na água amarga.

Uma estrela afogada brilha ainda.


Os meus pés sangram na argila fina.

Deus vê as sombras no fundo da caverna.

A sombra da rosa não é a rosa.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A gruta
















1.


As pedras respiram o silêncio.

O mar é silêncio.


Estou só como um pássaro sem árvore.

Não conheço os caminhos da noite.


Meus olhos estão fechados.

Meu coração vigia.



2.


Entre anjos, arcanjos e potestades

estou onde deveria estar.


Pássaros brotam das pedras

para beber os meus olhos.


poema de Sônia Brandão


segunda-feira, 12 de maio de 2008

O oleiro e a argila











A aflição de Deus na minha aflição.

Noite, que noite! A dor de Deus na pedra.

Como consolar o Criador?

O universo é vazio, só existe o caos.


Quando foi o início? Houve uma largada

inicial no poço do absoluto?

Por que o exílio de Deus? Não se bastava?

O oleiro precisou do vaso de argila?


O nada não existe porque Deus existe.

O alimento de Deus no sacrifício

do pão e vinho agônico.


Deus se despoja da divindade

e contempla a harmonia das esferas.

O oleiro molda na argila o vaso e o oleiro.

A música do silêncio











Escrevo na areia, para o vento.

Escrevo a palavra do silêncio.

O enigma é claro como a mesa e o pão.

Existe para ser enigma.


O universo é perfeito como Deus.

O poema é composto no espelho:

a imagem criada pela imagem.

Quando a pedra entalhada resplandece.


Por que o demônio não se cala?

Ouvem-se estranhos gritos de morte.

O poeta inventa a sua música.


As sombras do crepúsculo se estendem,

as esferas criadas se conjugam.

Dou forma à rosa que assassino.

domingo, 11 de maio de 2008

Por quê?










Por que, ó Deus?

A argila volta-se contra o oleiro,

a cinza desafia a chama.

A árvore oferta frutos amargos.

Os vasos foram modelados para o inútil.

O menino é morto em sacrifício

aos deuses da cidade.

A casa é posta por terra.

A rosa sangra no cristal,

a minha face turva-se

na água enferma.

A estrela queima os meus olhos.

Por que falas no vento, ó Deus?

Por que eu não estava presente?

Remorso










As estrelas do crepúsculo se apagaram,

nuvens escuras cobriram a terra.

As figuras vermelhas no horizonte

eram o mar em chamas,

eram o sangue derramado.

O céu se apagou.

A terra era uma mancha doendo.

Eu me perguntava por que tinha nascido.

Estava só como um morto.

A vida não tinha sentido.

Eu era como um deus arrependido,

eu criava o mundo para a morte.

O homem é um poema frustrado

como um ovo podre.

O retorno










Quando despertei dentre os mortos

nada estava mudado.

O mundo continuava vazio:

nenhuma estrela, nenhuma rosa

sobre a pedra do altar.

O meu cachorro agonizava sob a porta

do frio tribunal.

O meu cavalo cantava triste

sob os salgueiros, à beira do rio.

Todos os meus amigos me viraram o rosto

disfarçando uma lágrima, talvez.

Ainda eram meus amigos,

nada estava mudado:

eu sempre fora estranho e culpado.

O meu medo













O meu medo não tem a voz de um morto,

não tem a minha própria voz.

O meu medo é uma folha em branco

como uma lápide fria.

O meu medo não é o quarto escuro,

não é a igreja vazia na noite.

O meu medo é a paisagem nua,

com o abismo da rosa sobre a pedra.

O meu medo não tem o peso de um morto,

os mortos são leves como plumas brancas.

O meu medo não é a ferida nos lábios,

não são os olhos vazados.

O meu medo é Deus não me encontrar,

o meu medo é a minha própria ausência.

Sob a cinza










A casa ficará sob a cinza,

os meninos ficarão sob a cinza,

os cavalos, o galo, o cão e o ouriço,

as árvores ficarão sob a cinza.


Eu desenhei o meu nome sobre a pedra,

o meu nome ficará sob a cinza.

Eu sonhei o teu corpo perfeito;

o teu corpo, frio, sob a cinza.


As tuas asas de anjo, a tua alma;

as penas caídas na fundo do poço,

a tua alma afogada na água negra.


A chave queima a minha mão;

a porta jaz, queimada, sob a cinza.

O meu pai e a minha mãe, sob a cinza.

sábado, 3 de maio de 2008

O espelho d'água

Deslizo pelo espelho d’água como um pássaro

O teu corpo era uma pétala dourada sobre a água

O teu perfume pairava no ar azul

Os teus pés se ergueram com asas mágicas.


Eu fiquei sem voz no alto da árvore

Eu tinha a lâmina de uma faca nos olhos

Enxergava além do ser, a sua alma musical

As flores acesas iluminavam a seda dos caminhos.


Um cão perdido chorava no barranco, entre as chamas

Eu tinha um limão verde escondido nas pupilas

Eu sepultava meu próprio corpo sob as águas.


Um anjo tocava harpa e cantava a minha elegia

Eu era o meu filho morto embalado nas mãos do eterno

Deslizo pelo espelho d’água como a alma de um pássaro.

Na ordem do eterno

O navio navegava como um sonho sobre as nuvens

O mar abria os seus lábios vermelhos para o naufrágio


Mas eu ainda não havia chegado ao horizonte

Eu trazia as mãos carregadas com o ouro do arco-íris.


Os meus olhos estavam molhados do azul do céu

As águas do mar escorriam assustadas dos meus olhos


As minhas lágrimas não conheciam as praias desertas

Não era a hora do medo, da noite, do abismo final.


O meu navio ainda vai navegar por longes ondas

O mar vai crescer e se transformar ao meu comando


O meu sonho se desdobra maior do que o universo.

Tudo estará perfeito como uma pedra, como uma estrela


São meus todos os caminhos, são minhas todas as paisagens

Os meus pés pararão quebrados, em cruz, na ordem do eterno.

No alto da montanha

No alto da montanha,
carregando o sol no lombo,
o velho cavalo.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Escrever como as lavadeiras de Graciliano


Eu pretendia ficar com a última, ou as duas últimas frases do Mestre Graça, o enfezado Graciliano Ramos, que escrevia com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol, segundo João Cabral, e lhe bastava, porque escrevia com uma peixeira na mão para ter a certeza de que diria bem, mas a citação ficaria incompleta, perderia a delicadeza que o sábio bruto não tinha, aliás, não mostrava de ordinário, à flor d’água ou à flor da pele, e ficaria fora a real introdução para o que eu pretendo dizer.

Então lá vai. Afiai os ouvidos e ouvi. Se eu souber que ouviram, lendo, apenas ao que diz Graciliano, dou-me por bem pago. Apurai os ouvidos:

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Há quem pense que escrever é fácil. E é: basta juntar uma palavra atrás da outra, pesar, sopesar, ver se soa bem, se não se está dizendo besteira... Compliquei? É tão fácil dizer besteira. É tão fácil não dizer coisa nenhuma.

O que eu queria dizer é que é fácil escrever hoje, com o computador, que faz tudo por nós, ou quase tudo, facilita a vida que é uma maravilha. Eu queria ver você escrever no tempo de Graciliano, de Machado, Vieira, Santo Agostinho.

No tempo de Machado escrevia-se com pena de ganso – coitados dos gansos! Talvez de pato – e lixem-se os patos! Havia pouco e difícil papel, pouca e difícil pena – que, como o nome diz, doía. Havia pouca tinta, tudo tinha que se economizar: pena, papel e tinta – e, conseqüentemente, palavras, idéias, já que tudo era restrito.

Mas ao que sabemos, nem idéias nem palavras não se economizavam. Se tudo faltava naquele tempo, havia um elemento que sobejava: precisamente o tempo, o essencial, o ser responsável pela criação, pela elucubração do pensamento, o nó-górdio da questão.

Decifra-me, desata-me, corta-me com a espada ou com a técnica – e nada mais resta, e estamos no tempo da pressa, do descartável, do virtual. Ah, belos tempos em que se tinha tempo! O pensamento desenrolava-se palmo a palmo, pacientemente, no papel desdobrado na madeira carinhosa da mesa. A obra de arte era burilada interminavelmente.

Imaginem Vieira escrevendo, à luz da vela, cuidando para a pena de um bípede, o animal mais semelhante ao homem, porque se sustém sobre duas pernas e carrega uma cabeça pequena, de idéias, sobre a cabeça, cuidando para que a dor não respingue tinta no papel precioso, parando com a mão no ar e repetindo dezenas de vezes a frase que gravaria, repetindo até que soasse bem, com musicalidade, com harmonia de sons e idéias, dizendo exatamente o que pretenderia dizer, repetindo até a exaustão, tanto que, quando chegasse ao final do longuíssimo sermão, soubesse-o de cor, como o diria no púlpito.

Imaginem Agostinho escrevendo, nos estertores da Antiguidade, final do século IV, início do V, sob as espadas dos bárbaros destruindo os templos de Deus ou do saber, da palavra, considerada um ser vivo, de tão poderosa. Não ficava pedra sobre pedra do Império Romano, mas ficaria a obra que ele laboriosamente levantava com a pena – nem de ganso nem de pato! Imaginem escrever quando não havia sido inventada a tinta nem o papel e o escritor tinha que sofrer o martírio de esculpir a palavra mentalmente horas e horas antes de esculpi-la no pergaminho que se desenrolava gemendo sob seus dedos hábeis.

Dizem que Agostinho escreveu trezentas e trinta e duas obras, dizem outros que foram mais de mil e quinhentas, mas, em qualquer caso, escreveu muito mais e bem do que a maioria dos escritores, num idioma rude como o dos romanos, mas tornando-o maleável, apto à perquirição filosófica, e poético, porque se encantava com as palavras e com a beleza do que dizia.

Como um pobre escrevinhador de hoje se sairia dessa empreitada colossal, acima das forças humanas, que era escrever? Escreveríamos? Acomodados à facilidade do computador, conseguiríamos desenvolver essa habilidade tão primária que parece estarmos pela primeira vez na história formulando uma frase, gravando-a de forma que transmita uma idéia, torne-a viva, e que as suas palavras soem com beleza, como se para esse encantamento fossem feitas?

Tornou-se tão sofisticado e artificial escrever, que só mesmo lembrando as lavadeiras de Graciliano. Um viva à simplicidade do mestre, que busca na natureza as suas imagens, as suas parábolas. A comparação com as lavadeiras vale por uma parábola.

Fizesse o escritor com sua página escrita o que faz a lavadeira com a roupa suja à beira do riacho, que molha e torce, e novamente molha e torce, coloca anil, ensaboa, para de novo torcer e torcer, e, enfim, enxaguar, dar mais uma molhada, tirar a água excedente com a mão, surrar com raiva na laje, torcer novamente duas e três e mais vezes, até não pingar do pano uma só gota. Somente então pendura a roupa lavada para secar ao sol, sabendo que, por um acaso freqüente, uma sujeira de um bicho, da própria água, do vento, de uma distração, poderia levá-la a repetir toda a operação.

Acrescentei esse final, a parte que leva a repetir a operação, não para corrigir o mestre, que sabia disso, mas para alertar os leitores de que um texto muitas vezes sai falho, uma pequena sujeira pode levar os escritor a reescrever o texto – como a lavadeira a lavar novamente a roupa se descobriu uma pequena imperfeição.

E por fim a última lição do mestre: a palavra não foi feita para brilhar, mas para dizer. Amo a beleza da palavra, mas a sua função é, antes de tudo, dizer. Está bonito o texto, portanto bom? A beleza é enganosa, temos que nos lembrar de que o homem criou a palavra porque precisava dizer alguma coisa. O texto é belo e coerente com o quero dizer? Esta deve ser a questão.

Há quem pense que escrever é fácil. Vá lavar roupa na beira do rio para ver se é fácil.