domingo, 18 de maio de 2008

A cisterna rachada











Deus encontrou a cisterna rachada.

Sou prisioneiro do universo negro.

Eu me deito sobre a pedra do silêncio.

Sinto o frio do abismo descendo sobre mim.


Como sair da concha? Como alçar vôo?

Ouvir a música das esferas e morrer.

Não é possível morrer para Deus.

A aflição da pérola é eterna.


Piso nos cântaros quebrados no caminho.

O menino morto bóia na água amarga.

Uma estrela afogada brilha ainda.


Os meus pés sangram na argila fina.

Deus vê as sombras no fundo da caverna.

A sombra da rosa não é a rosa.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A gruta
















1.


As pedras respiram o silêncio.

O mar é silêncio.


Estou só como um pássaro sem árvore.

Não conheço os caminhos da noite.


Meus olhos estão fechados.

Meu coração vigia.



2.


Entre anjos, arcanjos e potestades

estou onde deveria estar.


Pássaros brotam das pedras

para beber os meus olhos.


poema de Sônia Brandão


segunda-feira, 12 de maio de 2008

O oleiro e a argila











A aflição de Deus na minha aflição.

Noite, que noite! A dor de Deus na pedra.

Como consolar o Criador?

O universo é vazio, só existe o caos.


Quando foi o início? Houve uma largada

inicial no poço do absoluto?

Por que o exílio de Deus? Não se bastava?

O oleiro precisou do vaso de argila?


O nada não existe porque Deus existe.

O alimento de Deus no sacrifício

do pão e vinho agônico.


Deus se despoja da divindade

e contempla a harmonia das esferas.

O oleiro molda na argila o vaso e o oleiro.

A música do silêncio











Escrevo na areia, para o vento.

Escrevo a palavra do silêncio.

O enigma é claro como a mesa e o pão.

Existe para ser enigma.


O universo é perfeito como Deus.

O poema é composto no espelho:

a imagem criada pela imagem.

Quando a pedra entalhada resplandece.


Por que o demônio não se cala?

Ouvem-se estranhos gritos de morte.

O poeta inventa a sua música.


As sombras do crepúsculo se estendem,

as esferas criadas se conjugam.

Dou forma à rosa que assassino.

domingo, 11 de maio de 2008

Por quê?










Por que, ó Deus?

A argila volta-se contra o oleiro,

a cinza desafia a chama.

A árvore oferta frutos amargos.

Os vasos foram modelados para o inútil.

O menino é morto em sacrifício

aos deuses da cidade.

A casa é posta por terra.

A rosa sangra no cristal,

a minha face turva-se

na água enferma.

A estrela queima os meus olhos.

Por que falas no vento, ó Deus?

Por que eu não estava presente?

Remorso










As estrelas do crepúsculo se apagaram,

nuvens escuras cobriram a terra.

As figuras vermelhas no horizonte

eram o mar em chamas,

eram o sangue derramado.

O céu se apagou.

A terra era uma mancha doendo.

Eu me perguntava por que tinha nascido.

Estava só como um morto.

A vida não tinha sentido.

Eu era como um deus arrependido,

eu criava o mundo para a morte.

O homem é um poema frustrado

como um ovo podre.

O retorno










Quando despertei dentre os mortos

nada estava mudado.

O mundo continuava vazio:

nenhuma estrela, nenhuma rosa

sobre a pedra do altar.

O meu cachorro agonizava sob a porta

do frio tribunal.

O meu cavalo cantava triste

sob os salgueiros, à beira do rio.

Todos os meus amigos me viraram o rosto

disfarçando uma lágrima, talvez.

Ainda eram meus amigos,

nada estava mudado:

eu sempre fora estranho e culpado.

O meu medo













O meu medo não tem a voz de um morto,

não tem a minha própria voz.

O meu medo é uma folha em branco

como uma lápide fria.

O meu medo não é o quarto escuro,

não é a igreja vazia na noite.

O meu medo é a paisagem nua,

com o abismo da rosa sobre a pedra.

O meu medo não tem o peso de um morto,

os mortos são leves como plumas brancas.

O meu medo não é a ferida nos lábios,

não são os olhos vazados.

O meu medo é Deus não me encontrar,

o meu medo é a minha própria ausência.

Sob a cinza










A casa ficará sob a cinza,

os meninos ficarão sob a cinza,

os cavalos, o galo, o cão e o ouriço,

as árvores ficarão sob a cinza.


Eu desenhei o meu nome sobre a pedra,

o meu nome ficará sob a cinza.

Eu sonhei o teu corpo perfeito;

o teu corpo, frio, sob a cinza.


As tuas asas de anjo, a tua alma;

as penas caídas na fundo do poço,

a tua alma afogada na água negra.


A chave queima a minha mão;

a porta jaz, queimada, sob a cinza.

O meu pai e a minha mãe, sob a cinza.

sábado, 3 de maio de 2008

O espelho d'água

Deslizo pelo espelho d’água como um pássaro

O teu corpo era uma pétala dourada sobre a água

O teu perfume pairava no ar azul

Os teus pés se ergueram com asas mágicas.


Eu fiquei sem voz no alto da árvore

Eu tinha a lâmina de uma faca nos olhos

Enxergava além do ser, a sua alma musical

As flores acesas iluminavam a seda dos caminhos.


Um cão perdido chorava no barranco, entre as chamas

Eu tinha um limão verde escondido nas pupilas

Eu sepultava meu próprio corpo sob as águas.


Um anjo tocava harpa e cantava a minha elegia

Eu era o meu filho morto embalado nas mãos do eterno

Deslizo pelo espelho d’água como a alma de um pássaro.

Na ordem do eterno

O navio navegava como um sonho sobre as nuvens

O mar abria os seus lábios vermelhos para o naufrágio


Mas eu ainda não havia chegado ao horizonte

Eu trazia as mãos carregadas com o ouro do arco-íris.


Os meus olhos estavam molhados do azul do céu

As águas do mar escorriam assustadas dos meus olhos


As minhas lágrimas não conheciam as praias desertas

Não era a hora do medo, da noite, do abismo final.


O meu navio ainda vai navegar por longes ondas

O mar vai crescer e se transformar ao meu comando


O meu sonho se desdobra maior do que o universo.

Tudo estará perfeito como uma pedra, como uma estrela


São meus todos os caminhos, são minhas todas as paisagens

Os meus pés pararão quebrados, em cruz, na ordem do eterno.

No alto da montanha

No alto da montanha,
carregando o sol no lombo,
o velho cavalo.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Escrever como as lavadeiras de Graciliano


Eu pretendia ficar com a última, ou as duas últimas frases do Mestre Graça, o enfezado Graciliano Ramos, que escrevia com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol, segundo João Cabral, e lhe bastava, porque escrevia com uma peixeira na mão para ter a certeza de que diria bem, mas a citação ficaria incompleta, perderia a delicadeza que o sábio bruto não tinha, aliás, não mostrava de ordinário, à flor d’água ou à flor da pele, e ficaria fora a real introdução para o que eu pretendo dizer.

Então lá vai. Afiai os ouvidos e ouvi. Se eu souber que ouviram, lendo, apenas ao que diz Graciliano, dou-me por bem pago. Apurai os ouvidos:

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Há quem pense que escrever é fácil. E é: basta juntar uma palavra atrás da outra, pesar, sopesar, ver se soa bem, se não se está dizendo besteira... Compliquei? É tão fácil dizer besteira. É tão fácil não dizer coisa nenhuma.

O que eu queria dizer é que é fácil escrever hoje, com o computador, que faz tudo por nós, ou quase tudo, facilita a vida que é uma maravilha. Eu queria ver você escrever no tempo de Graciliano, de Machado, Vieira, Santo Agostinho.

No tempo de Machado escrevia-se com pena de ganso – coitados dos gansos! Talvez de pato – e lixem-se os patos! Havia pouco e difícil papel, pouca e difícil pena – que, como o nome diz, doía. Havia pouca tinta, tudo tinha que se economizar: pena, papel e tinta – e, conseqüentemente, palavras, idéias, já que tudo era restrito.

Mas ao que sabemos, nem idéias nem palavras não se economizavam. Se tudo faltava naquele tempo, havia um elemento que sobejava: precisamente o tempo, o essencial, o ser responsável pela criação, pela elucubração do pensamento, o nó-górdio da questão.

Decifra-me, desata-me, corta-me com a espada ou com a técnica – e nada mais resta, e estamos no tempo da pressa, do descartável, do virtual. Ah, belos tempos em que se tinha tempo! O pensamento desenrolava-se palmo a palmo, pacientemente, no papel desdobrado na madeira carinhosa da mesa. A obra de arte era burilada interminavelmente.

Imaginem Vieira escrevendo, à luz da vela, cuidando para a pena de um bípede, o animal mais semelhante ao homem, porque se sustém sobre duas pernas e carrega uma cabeça pequena, de idéias, sobre a cabeça, cuidando para que a dor não respingue tinta no papel precioso, parando com a mão no ar e repetindo dezenas de vezes a frase que gravaria, repetindo até que soasse bem, com musicalidade, com harmonia de sons e idéias, dizendo exatamente o que pretenderia dizer, repetindo até a exaustão, tanto que, quando chegasse ao final do longuíssimo sermão, soubesse-o de cor, como o diria no púlpito.

Imaginem Agostinho escrevendo, nos estertores da Antiguidade, final do século IV, início do V, sob as espadas dos bárbaros destruindo os templos de Deus ou do saber, da palavra, considerada um ser vivo, de tão poderosa. Não ficava pedra sobre pedra do Império Romano, mas ficaria a obra que ele laboriosamente levantava com a pena – nem de ganso nem de pato! Imaginem escrever quando não havia sido inventada a tinta nem o papel e o escritor tinha que sofrer o martírio de esculpir a palavra mentalmente horas e horas antes de esculpi-la no pergaminho que se desenrolava gemendo sob seus dedos hábeis.

Dizem que Agostinho escreveu trezentas e trinta e duas obras, dizem outros que foram mais de mil e quinhentas, mas, em qualquer caso, escreveu muito mais e bem do que a maioria dos escritores, num idioma rude como o dos romanos, mas tornando-o maleável, apto à perquirição filosófica, e poético, porque se encantava com as palavras e com a beleza do que dizia.

Como um pobre escrevinhador de hoje se sairia dessa empreitada colossal, acima das forças humanas, que era escrever? Escreveríamos? Acomodados à facilidade do computador, conseguiríamos desenvolver essa habilidade tão primária que parece estarmos pela primeira vez na história formulando uma frase, gravando-a de forma que transmita uma idéia, torne-a viva, e que as suas palavras soem com beleza, como se para esse encantamento fossem feitas?

Tornou-se tão sofisticado e artificial escrever, que só mesmo lembrando as lavadeiras de Graciliano. Um viva à simplicidade do mestre, que busca na natureza as suas imagens, as suas parábolas. A comparação com as lavadeiras vale por uma parábola.

Fizesse o escritor com sua página escrita o que faz a lavadeira com a roupa suja à beira do riacho, que molha e torce, e novamente molha e torce, coloca anil, ensaboa, para de novo torcer e torcer, e, enfim, enxaguar, dar mais uma molhada, tirar a água excedente com a mão, surrar com raiva na laje, torcer novamente duas e três e mais vezes, até não pingar do pano uma só gota. Somente então pendura a roupa lavada para secar ao sol, sabendo que, por um acaso freqüente, uma sujeira de um bicho, da própria água, do vento, de uma distração, poderia levá-la a repetir toda a operação.

Acrescentei esse final, a parte que leva a repetir a operação, não para corrigir o mestre, que sabia disso, mas para alertar os leitores de que um texto muitas vezes sai falho, uma pequena sujeira pode levar os escritor a reescrever o texto – como a lavadeira a lavar novamente a roupa se descobriu uma pequena imperfeição.

E por fim a última lição do mestre: a palavra não foi feita para brilhar, mas para dizer. Amo a beleza da palavra, mas a sua função é, antes de tudo, dizer. Está bonito o texto, portanto bom? A beleza é enganosa, temos que nos lembrar de que o homem criou a palavra porque precisava dizer alguma coisa. O texto é belo e coerente com o quero dizer? Esta deve ser a questão.

Há quem pense que escrever é fácil. Vá lavar roupa na beira do rio para ver se é fácil.


quarta-feira, 30 de abril de 2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

Quando eu morrer


        
     
   














 Os cavalos cantarão quando eu morrer,
        Cantarão em cavalgadas pelas invernadas
        Livres, leves, encantados, finalmente
        Longe das contingências humanas.
 
        A noite virá com o seu orvalho puro
        Abençoando as casas e as árvores do caminho.
        Os pássaros dormirão em silêncio
        Sob o perfume das orquídeas e das dálias.
 
        A minha alma se olhará no espelho da lua,
        Verá uma estrela se multiplicando,
        Inventando os clarins da alvorada.
 
        Eu serei uma pedra dormindo no fundo d’água,
        Serei polido pelas águas que passam e passam,
        Rolando e me anulando sem fim na eternidade.  
                


segunda-feira, 28 de abril de 2008

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Cronista, esse espécime anacrônico











De que cronista devemos nos lembrar? Do pai de todos, o maior de todos, Machado de Assis, que criou essa tradição de cronicar em nosso país, e cronicou como ninguém. Não que aquela forma de fazer crônica fosse nova, invenção dele, mas ele a tornou nova, a reinventou, tornou sua.

Alencar fazia o mesmo tipo de crônica, não era novidade. Mas lembrando o louco do Pound (sempre imagino Pound na gaiola em que o puseram no fim da 2ª Guerra Mundial, às vezes no hospício numa camisa-de-força, arrastando as longas mangas brancas e escrevendo os Cantos com os pés), “Literatura é novidade que permanece novidade”... As crônicas de Machado permanecem novidade. É um prazer renovado ler e reler aquelas idas e vindas, aquelas idéias enviesadas, aquele pegar uma idéia como ao acaso, como se não fosse dar em nada, e era o tema da crônica, se é que a crônica, como Machado a entendia e realizava, tinha tema.

Tomar o ínfimo e tratá-lo como grandioso, ou o contrário, tomar assuntos grandiosos e tratá-los como ínfimos, Machado é o deus ex-machina, é ele quem manda e desmanda na realidade. Tratar a realidade como supra-realidade, e a supra-realidade como realidade, fazer o diabo com as coisas, enrolar Deus e o diabo no mesmo novelo, rindo de um e de outro, com cavalheirismo, para não ofender nem a um nem a outro.

Nelson Rodrigues faz o mesmo tipo de crônica de Machado. A linguagem é que já é outra, rápida, como quer o jornal, sem literatices, indo direto ao âmago. Mas fazia literatura também, disfarçada, com aparente desleixo, usando a técnica do teatro, da movimentação dos personagens, levando o leitor, distraído, para uma surpresa final. “A menina sem estrela” é típica disso. Como dói! Você vai distraído, se divertindo com as tiradas, um misto de humor e sarcasmo, e pá! De repente a porta na cara. A menina que nasceu sem estrelas, cega, não poderá jamais enxergar as estrelas. Nem precisou contar que nasceu também meio retardada, que iria viver pouco. Já tinha posto o leitor a nocaute.

Pôr o leitor a nocaute – esse deveria ser o objetivo de quem escreve.

Machado, campeão, diverte o leitor, distrai-o e distrai-o, até que ele, quando vê, perdeu por pontos – aliás, ganhou. Machado e o leitor ganham nesse ringue do espírito.

Rubem Braga vai tratar do ínfimo do jeito dele, que já não é o jeito de Machado, mas o do poeta que escreve em prosa. O ínfimo é poesia. Descobre poesia nos ínfimos recantos, nos ínfimos desvãos desta vidinha gozada e dorida. Trabalha como um contador de causos, descansado, com todo o tempo do mundo. Encantado com este mundo destrambelhado, que não tem jeito mesmo, mas que nessa falta de jeito guarda o seu fascínio. O Velho Braga narra a vida que podia ter sido, e foi, não como a de Bandeira, o Bardo, a vida pretérita feliz, e a futura encantada, um clima de nostalgia pairando por tudo.

Disseram que o Velho Braga não teria lugar nos jornais de hoje. Não há mais espaço para essa crônica descompromissada, esse armazém de miudezas da vida. Eta vida anacrônica! Não tem lugar, não tem tempo para a crônica – não tem tempo para o tempo! Pois se até a vida virou anacrônica! Lembra-se do silogismo de Zenão, a incrível velocidade da tartaruga? O coelho nunca alcançaria a tartaruga porque quando tivesse percorrido um tanto a tartaruga teria percorrido outro tanto. Isto é do tempo em que a vida era crônica.

Kafka narra a história da viagem impossível ao povoado mais próximo, que se distancia só ao ser imaginado, e nunca será alcançado. Isto é do tempo em que a vida era crônica.

Hoje é o tempo da pressa. Os deuses quebraram todos os relógios, os deuses do mercado, do consumismo, do espaço cibernético, pós-espaço e pós-tempo. Nós mesmos, pobres homens, somos anacrônicos.

Pus o leitor a nocaute? Pelo menos você não imaginava que eu fosse terminar com esse pessimismo. Salve, Cronos! Salve-nos, Cronos!

Das incertezas da arte

António Lobo Antunes disse: “Só vale a pena começarmos um romance quando temos a certeza de que não somos capazes de o fazer”. É uma dessas frases de efeito. Mas não significará um pouco mais do que isso?

Costumo ver escritores dizendo que não valeria a pena escrever um livro, não teria graça, se soubéssemos o final de antemão. Há quem discorde, que o escritor digno desse nome deve planejar uma obra e realizá-la tim-tim por tim-tim como a tinha planejado. Sem segredos, sem mistérios. Matematicamente.

Bonito. Mas não é assim que funciona. A criação tem segredos e tem mistérios. Todos os grandes escritores reconhecem isso. São fascinados pelas surpresas e pelos milagres que o realizar de uma obra nos reserva. Sem graça é traçar um esquema e colocar a obra dentro desse esquema. E a obra só pode sair sem graça.

Os grandes escritores são capazes de realizar milagres. Não sabem como, mas realizam. Os outros são pequenos, são professores, são os críticos: não fazem, mas ditam as regras de como se deve fazer.

Há exceções, todas as regras têm as suas exceções. João Cabral de Melo Neto. Para o engenheiro da composição o poema é realizado segundo um projeto exato, sem inspiração, sem acasos, sem a ação do inconsciente. Anula-se a expressão, fica valendo apenas e tão-somente a construção.

É tão bela a proposta de João Cabral que parece verdadeira. A beleza é irmã da verdade. Eis uma bela afirmação, mas em desacordo com João Cabral e com os valores estéticos que orientam a arte há muito tempo. E por falar em valores estéticos e em orientação da arte, entramos novamente em desacordo com João Cabral. Não há valores, não há orientação: há construção.

Mas, na prática, é o que acontece? Acontece que existe o inconsciente, que por mais que se monte um esquema, há o papel do acaso, do imponderável, de uma iluminação que outrora chamaríamos inspiração, ditado das musas ou do espírito. Ficar apenas no esquema produz a arte dos professores, correta, sem surpresas, exata, feita com perfeição, mas sem criação. Na criação, o buraco é mais embaixo.

A arte de João Cabral e dos construtivistas, então, não é arte? Pode ser grande arte, apenas não reconhecem o papel do inconsciente, de uma visão especial, de uma intuição mágica, da epifania que pode acontecer num momento, e noutro não. Epifania é manifestação tão especial que está associada ao divino.

Nós diríamos que é a manifestação do inconsciente, que, de um acúmulo de experiências, de repente se acende uma faísca e o artista consegue concretizar esse instante numa obra de arte.

Permanece estranha a afirmação de António Lobo Antunes. Ter certeza de que não o conseguiríamos realizar? Lutar contra o impossível? Se sei que é impossível, por que gastar meu tempo e energia em tal obra? Não sei o que vai acontecer, não sei que obra irei realizar, que reações terão tais personagens, como dominarão o romancista, ou que imagens irei criar no poema, para onde as palavras me levarão.

Esse mistério me fascina e desvendá-lo pode se tornar a razão-de-ser da criação. Mas, se tenho certeza de que não conseguirei realizá-la, por que insistirei em criar tal obra? Estultície. Somente posso pensar em estultície. Mas porém, fica uma interrogação: e se ele tiver razão? Se, pelo menos para ele, não for esse o caminho?

Jorge Luis Borges conta que sofreu um acidente e decidiu escrever um conto para ver se ainda seria capaz de criar. Um poema não valia. Poemas ele tinha feito muitos. Tinha certeza de que os realizaria. Um conto era outra história. O conto era o desafio. E Borges escreveu o seu primeiro grande conto, que tem o nome mais ou menos, “Tlor, Uqbar, Orbis Tertius”. Assim nasceu um contista: de um desafio. Mas pode ser uma exceção.

Interessante que Borges acaba conseguindo notoriedade pelos contos fantásticos que cria, e não pelos poemas. O desafio é tudo. Mas, por outra, como Borges é um grande mistificador, pode ser que realizasse os contos fantásticos com esse desafio ou não.

Pode ser que António Lobo Antunes também seja um mistificador e também realizasse seus romances com ou sem desafio. Talvez o primeiro romance tenha sido um desafio, depois já saberia ao certo que realizaria os outros.

Talvez. Quem pode afirmar o que aconteceria se não acontecesse? E pode essa assertiva valer para António Lobo Antunes, não para outros. Pode valer para todo mundo ou para ninguém. Quem sabe dos escaninhos da criação, dos enigmas, das pedras-de-toque que um escritor usa, sabendo ou sem saber?

Todos temos o direito de, uma hora ou outra, dizermos besteiras. Por que não António Lobo Antunes, apesar de ser um grande escritor? O que pensamos que é besteira não pode ser uma bela verdade? E caímos na contradição que já citamos: a beleza da verdade ou a verdade da beleza? Tentar explicar a criação é tautologia apenas.

António Lobo Antunes é português e os portugueses, sábios, dizem que os artistas são artistas porque não sabem, mas fazem.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A aldeia de Tolstoi








É mais do que conhecida a frase de Tolstoi: “Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”. Verdade que frases são frases, valem mais pelo efeito que causam do que pela verdade do que dizem. Há quem não atina com essa evidência elementar e quer fazer de uma assertiva assim banal, só porque de Tolstoi, verdade universal. Todos os grandes autores cantaram primeiro sua região, apostrofam. Toda obra deve ter cor local. Como se fosse tão simples assim.

À primeira vista, é sugestiva a idéia. Drummond cantou Minas e Itabira. Murilo mostra bem sua mineirice. João Cabral é a terra seca de Pernambuco. Guimarães Rosa é Minas. Machado de Assis? Pois é, Machado pintou milimetricamente o Rio de Janeiro, mas diziam que ele não tinha cor local. O que é mesmo essa cor local? Cecília Meireles era outra filha do Rio de Janeiro – que não aparece em sua obra.

Cecília nasceu universal. Seu livro “Viagem” foi a primeira obra modernista sem cor local, sem as tintas do nacionalismo verde-amarelo. Foi a primeira obra aceita pela Academia Brasileira de Letras, a primeira a cruzar o Atlântico. Cecília nasceu enorme e universal, sem cantar a sua aldeia.

Disseram que a sua poesia tinha mais sabor português. É pouco. Tinha sabor universal. Os grandes temas da poesia de todos os tempos, num tom, numa musicalidade, que poderia ser de qualquer lugar e de todos os lugares. Por que ninguém diz que Cecília Meireles é o maior poeta brasileiro? Por que era mulher, não era poeta, mas poetisa. Por causa apenas de nosso machismo.

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”, escreveu Fernando Pessoa, que não começou por pintar a sua aldeia. O quê? Você me diz que a sua aldeia era Portugal? Talvez, mas Fernando Pessoa ficou grande por tratar grandes temas de maneira grande, invulgar, particular e universal – e não por tratá-los à maneira portuguesa.

Concordo que é muito interessante a idéia: “começa por pintar a tua aldeia.” Foi por isso que me tornei poeta. Eu estudava no seminário, em Rio do Oeste, SC, e por acaso me caiu nas mãos um livrinho, “Os Simples”, de Guerra Junqueiro. Nesse livro, Guerra Junqueiro pinta a sua aldeia, eu decidi pintar a minha. Descobri que poeta não era uma entidade abstrata, mas um homem que tem sangue e terra nas veias, como eu. Ele falava das coisas que eu conhecia, árvores, animais, gente pobre da roça. Bastava falar das coisas que eu conhecia, para ser poeta.

Fiz meu primeiro poema: “A Figueira”. Compreendi de imediato que me faltava muita coisa: dominar a linguagem, trabalhar a linguagem, conhecer a vida com a linguagem. Como se eu já soubesse o que é literatura.

Pouco depois, conheci o mar. Encantou-me, fascinou-me, maravilhou-me. Foi o encontro com o milagre da beleza e do mistério. O sentimento do eterno e da finitude. Foi um chute no estômago da alma: instalou-se o caos primordial. Estavam definidos os meus grandes temas.

Até hoje, falo da terra a que estou ligado como uma árvore, pelas raízes, e do mar, a que estou ligado pela alma. As minhas imagens têm seiva das árvores, dos animais, dos homens que conheci, e têm água e sal e sargaços do mar maravilhoso, enigmático, efêmero e eterno. “No princípio, Deus pairava sobre as águas.” Antes de haver o mundo, havia as águas. Havia o eterno, o efêmero foi criado depois.

A minha aldeia? Faz tanto tempo que nasceu a idéia de Aldeia Global, que dá vergonha exigir que se fale de uma minúscula aldeia. Que se mostre cor local. Alguém pode me dizer qual é a cor da Aldeia Global? A maioria dos poetas cantou a sua aldeia, mas já morreram. Os poetas de hoje precisam cantar o mundo. Eu continuo a cantar a minha aldeia, mas estou deslocado, desfocado, errado. Tolstoi cantou a sua aldeia, Shakespeare também, mas morreram. Hoje não existem aldeias, mas a Aldeia, o mundo-universo.

Quem sobrevive é o homem, enquanto forma de linguagem. Shakespeare e Tolstoi sobrevivem além da morte porque criaram linguagem, não porque cantaram sua aldeia. O que ficou deles é o universal.

Todas as teorias são belíssimas enquanto teorias. Literatura é linguagem. Ou você cria linguagem ou ficará sonhando em cantar a sua aldeia. “Todos cantam a sua terra/ Também vou cantar a minha.” É bonito, mas se eu criar linguagem, farei literatura, poesia universal. Não porque cantei a minha terra, mas apesar disso.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ars Poetica

Quero escrever como o homem das cavernas.

Quero registrar nas paredes o pasmo e o encanto,

O domínio sobre as coisas e o banal dessas coisas.

Quero gravar Deus e a ausência de Deus.


Quero deixar a minha marca na pedra.

Quando o homem escrevia com o diamante,

Quando a palavra era um milagre.

Primeiro a figura dos animais na pedra,


Depois a mulher, o homem e o universo.

Quero pintar o negativo, a forma e o volume.

Quero registrar a árvore, o pássaro e a montanha,


O mar, o peixe e o abismo, as viagens sem retorno.

Quero gravar o bisão e o cavalo, as mãos e os chifres,

O fogo e a sombra, a geometria claro-escura da vida.


quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cerâmica


A cerâmica é limpa

Como o dia, como o sol.


Um sorriso japonês

Por detrás, às escondidas.


O cântico da água clara


E o cachorro abanando

A cauda para a montanha.


O pássaro tece o verde,

A flauta organiza o azul.


O brilho duro das pedras,

A memória do diamante.


Um fogo frio consome

A graça pura da vida.


Alto e súbito silêncio.

A rosa eterna

A rosa desliza no espelho.

Um bater de pálpebras, as pétalas vermelhas

Como sangue na água.

O perfume inebria, estonteia, mata.


Dobro os joelhos, caio por terra.

A voz embargada, os olhos turvos

E a alma em êxtase com a música leve.

A rosa paira no ar, com a dança de seda.


Um gafanhoto se perde nas pupilas abertas.

A morte cintila no cristal.

Os beija-flores bailam na janela.


Os anjos levam a alma da rosa

Batendo as asas brancas e douradas.

A rosa vai e permanece, eterna.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O outro mar

Joguei os dados da eternidade.

Cantei os mesmos números do jogo

Repetido à exaustão, na beira das águas.

Os cavalos pastam a calma das manhãs.


São perfeitas as estrelas e as anêmonas.

Despojei-me de ritmo, peso e medida.

Caminho com a minha nudez sem sentido

E com todas as fraquezas humanas.


No silêncio dos búzios, a memória de Deus.

O meu destino me convida: adiante.

Pairo no horizonte, entre a terra e o céu.


O mar me fala, sereno, completo.

Eu estudo a angústia do abismo:

Além do mar existe um outro mar.

A viagem do eterno

Não me canso de cantar o meu naufrágio.

A minha alma entre os destroços, a ferrugem

E os baús de memórias de um porto longínquo.

Quem é que fala? Que vozes estou ouvindo,


Os mortos insepultos clamando no abismo?

Sou ninguém e sou os mortos sobrenaturais

Com orações e peixes na garganta.

Derramei o meu sangue entre as pedras da praia,


Quero o mistério do mar inominável.

Vesti a túnica da ilusão do mar.

Quando deixar este mundo de ausência,


Dos ferros do meu naufrágio cantarei

O touro de sombra do mar.

Ensaio no meu canto a viagem para o eterno.

Merecimento


Ninguém merece a morte.

Inventamos a desgraça da guerra,

Tecemos rios de sombra, labirintos de tristeza

E angústia insondável.


O nosso sangue teceu o sangue.

Nada explica a nossa ambição sem medida.

Trazemos o fogo nos olhos, o ódio na alma

E apenas um pouco de palha nas mãos.


Erguemos até o céu o cálice.

Somos cúmplices de todos os pecados,

De todos os delírios do coração.


Mas não merecemos a morte.

Sofremos o deserto de Deus,

Cresce na areia seca a flor eterna.

domingo, 6 de abril de 2008

Os olhos da minha mãe

Uma flor nos chifres, uma fonte

De leite puro mugindo no pasto.

O orvalho da aurora me purifica.

Brotam da memória um bezerro e um touro


Voando sobre as árvores da infância.

Onde o cavalo do meu pai? Onde

O grito retumbando como o trovão?

Os centauros celestes fazem chover


Pétalas do delírio e borboletas azuis.

Um peixe curioso espia das locas na água verde

Do ribeirão correndo no fundo do pomar.


O eterno dorme ao meu lado como um cão.

Minha mãe chega à porta com pássaros nos ombros

E me mostra a face de Deus nos olhos.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A túnica de Deus


O poema pousou na bateia
Entre os cascalhos e o peixe vermelho.
A candeia ilumina a sala,
As vigas do telhado e os anjos


Com as asas abertas sobre nós.
Uma toalha de linho e uma pedra sobre a mesa:
Tomo a cruz, o cálice dourado,
O vinho e o pão. Abro o Livro.


Não sei como te chamas, nas águas do espelho.
Foi-se o tempo de semear, foi-se o tempo de colher,
É o tempo da morte doce, do barco e do cisne.


Eu navego sem medo sobre o abismo.
As chamas da rosa nos lábios em silêncio,
Minha mãe tece a túnica de Deus.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As flores de pedra

Quando as dores do mundo são a dor.

Na minha língua vai florindo a flor da loucura.

A lagarta cega entre as folhas da árvore

Fia a forma do efêmero.


O galo tece as cores da alvorada

Com os cabelos dos mortos.

As palavras eram de pedra

Quando morreram os últimos jacintos.


O arco-íris assinala o lugar das covas,

A minha língua está seca de tanto contar os mortos.

Meu pai ordenhava as vacas na madrugada;


Ao anoitecer, ordenha a morte.

O silêncio da rosa: abismo.

Uma aranha metafísica me anula.

Homenagem a Magritte

Falo palavras claras, vejo com clareza.

Mordi a língua, minhas palavras sangram.

As idéias cheiram, sabem a mulher, a pássaro.

As idéias não são nada diante do corpo da mulher.


Os espelhos quebrados são múltiplos espelhos.

Nuvens voam. Sai das nuvens a mulher sem face.

A minha língua apunhalada não se cala.

A língua voa, verde pássara.


Uma folha que se queima é uma floresta que se queima.

Uma pedra é nítida como só uma pedra é nítida.

Quero o meu poema nítido como uma pedra.


No chão desolado do poema cresce uma flor de pedra.

Quando a nuvem se tornar nítida, sólida e nítida

Como uma pedra, meu poema estará terminado.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Usina de Sonhos

1. Quando digo que sou de Dois Córregos, logo, querendo elogiar-me como poeta, dizem: “Só podia ser!” Tudo isso por causa do meu amigo José Eduardo Camargo, que inventou uma Usina de Sonhos para produzir poesia, elemento em falta no mundo de hoje. Não vou explicar o que é a Usina de Sonhos porque não sou a pessoa mais indicada para fazê-lo, sou até a menos indicada, tanto que impliquei com o seu onirismo. Porque não posso conceber que poesia seja sonho, eu que a quero tão real, concreta, viva. Implicâncias.

2. Mas a Usina de Sonhos do José Eduardo, sem me deter em explicá-la, pretendia levar os jovens a produzir poesia, depois os mais velhos, depois os detentos, as detentas, e as paredes e muros que os prendiam, como as paredes e os muros dos cidadãos livres da cidade, floriam e cantavam com as palavras de poemas. Palavrões pichados, gestos obscenos? Não; poemas. A poesia é a linguagem da liberdade. O sonho floresceu, as crianças voaram com asas de anjos, os adultos tornaram-se crianças, as grades não doíam tanto, a imaginação passava além, sonhando com um mundo melhor, de mais alegria, onde tudo é possível, porque a poesia é possível.

3. Implicâncias minhas, repito. Implico até com o verbo “produzir”: poesia deve ser criada, embora o poeta não seja Deus, e não produzida, que é próprio da máquina, e o poeta certamente não é uma máquina. Mas eu orientei uma oficina (olhem como a língua é traiçoeira: “oficina”, coisa de máquina) de poesia no Sesc aqui de Bauru e, seguindo as sugestões de meus textos, o coordenador cultural da entidade montou um cd muito bonito expondo os resultados do trabalho, os poemas criados pelos discípulos, com... Uma máquina! Sim, senhores: as engrenagens de uma máquina fazendo saltar as letras, as palavras, os poemas – não criados, mas produzidos em série. Ficou bonito – e qualquer um pode ver que os poemas são formas autônomas, que nada ficam a dever às maquinas.

4. Nasci em Dois Córregos, com muito orgulho, e no Matão, uma zona rural do município, onde vivi os primeiros anos de minha vida, meus primeiros verdes anos, e o contato com a natureza fez-me poeta, e me sinto cada vez mais poeta, se isso é possível, quanto mais me sinto ligado à terra. Eu já disse: o mal do homem contemporâneo é ter perdido as suas raízes. As minhas estão lá, no Matão da minha infância. Lá enterrei o meu umbigo, que floresceu e floresce com o sol e com a chuva. Quando dizem – o umbigo do mundo!, penso logo no meu Matão. Quando dizem que alguém só olha para o próprio umbigo, penso no meu – florescendo na terra vermelha do Matão.

5. O José Eduardo fez tanto que Dois Córregos ganhou o mundo. Foi reconhecida pela Unesco como a Cidade da Poesia. Por isso me dizem: “É de Dois Córregos? Por isso é poeta – veio da Cidade da Poesia.”

6. Usina de Sonhos! Eu digo que não basta sonhar, que fazer um poema é um árduo trabalho com as palavras. Que um poema não é fruto da inspiração, mas é construído como se constrói uma peça material. Não é à toa que João Cabral insistia na materialidade da palavra. Vamos falar também da materialidade do poema, que não é nuvem etérea, mas forma, mas coisa.

7. Vamos falar da materialidade do sonho. Não vou negar mais que a poesia é sonho, mas insisto que existe uma materialidade do sonho. Como? Oras, no poema.

8. Eis uma bela definição de poema: O poema é a materialidade do sonho.

9. É piegas, concedo. É piegas, mas o sonho faz falta na vida. Como o sonho é abstrato, vamos materializá-lo no poema.

10. Entre versos, palavras, imagens, a poesia continua. “Nem todos se libertaram ainda”, disse Drummond; por isso a poesia é necessária. E quando todos tiverem se libertado? Então tudo será poesia. Piegas, mas belo.

11. Depois de Auschwitz a poesia não é mais possível? Então é que se torna mais necessária. O desespero do abismo transcendental, mais do que qualquer coisa, precisa ser cantado.

12. Depois que as cidades explodiram, transformaram-se em metrópoles, não é mais possível a poesia? O homem chega à transcendência da banalidade da vida pela poesia.

13. A poesia é a transcendência da coisa – ou do sonho – no poema.

14. Usina de Sonhos? Usina, porque tratamos de coisas concretas. Sonhos, para que a realidade não nos sufoque. Certo que Dois Córregos não é nenhuma grande metrópole, mas, por isso mesmo, lugar para a emoção recolhida na tranqüilidade, como queria Wordsworth ao trabalho do poeta, Dois Córregos merece ser chamada – Capital da Poesia.

sábado, 29 de março de 2008

Portinari

A pandorga azul entre as nuvens e os pássaros

Brinca no céu azul.

Os anjos batem as asas brancas

Sobre o campo de futebol.


São Jorge enfrenta o dragão na lua

Candinho aprende que a vida é fábula.

São José conversa com a Virgem

Na pequena capela da Nonna.


A morte é colorida?

De que cor será a outra vida?

A morte é azul como os olhos de Deus.


Uma flor se abre nos olhos do menino

Suspenso no cosmo como um balão.

Candinho bate as asas brancas no paraíso azul.

A passagem

A uva e o trigo, a rede e os remos crescem

No mapa calado na parede.

Contemplo a minha terra antiga e nova,

O arco da aliança de uma a outra ponta do céu.


O cordeiro agoniza sobre a pedra.

O anjo ergue a trombeta da anunciação,

Ergue a espada com uma luz sangrenta.

O menino cresce e morre na montanha.


Deus sai da pedra, caminha na terra

Marcada com a sua presença.

O mar obstinado chama.


Todos os povos são o meu povo.

O vinho e o pão navegam na parede,

O barco traz o cavalo e o peixe.

Nelson Rodrigues

  1. Quem diria?! Começar uma crônica, ou melhor, escrever uma crônica como Nelson Rodrigues. Qual é a semelhança? Ora!, direis, ouvir estrelas! Nelson Rodrigues numerava, sem nenhuma lógica, sem nada que justifique tal processo, os parágrafos. E ficava bem! Suas crônicas sabiam às do velho mestre Machado de Assis. Mais terra a terra, nem que fosse só porque mais século vinte, mais contemporaneidade. Machado começou o século – mas fez suas crônicas na segunda metade do outro. Nelson estourou o meio do século – estourou é o termo, as famílias bem comportadas do século vinte mostraram a sua cara despudorada.

  1. Nelson estourou a boca do balão, ele, o cronista esportivo, que se esquecia do futebol amado para fazer filosofia, não a filosofia de alcova que disseminava nos seus contos trágicos, romances folhetinescos não menos trágicos e peças de teatro muito mais trágicas. A vida era um pão caído no chão com a manteiga para baixo que o pobre levantava e lambia deliciado. Nelson não falou da miséria, dos miseráveis da sarjeta da vida: não era necessário. A vida era uma cabra vadia num terreno baldio – e lasca entrevista! Toda entrevista é imaginária – não era preciso dizer. E o entrevistador é uma dama – que dama! – vadia. Era preciso uma cabra para dizer o óbvio ululante.

  1. Nelson era uma flor de obsessão. Como soa bem essa frase – flor de obsessão! O cara era um fazedor de frases. Estou chovendo no molhado, todo mundo sabe disso, mas não é porque a terra já está molhada que a chuva não é bem-vinda. Que doces as obsessões de Nelson Rodrigues! Mesmo quando não eram nada doces, amargas, azedas, – eram o sal, o tempero da vida. Que seria de mim sem as minhas repetições! Também vou repetir muito que o homem era um grande repetidor. Drummond era um grande repetidor, Dostoievski, que ele reverenciava, era um grande repetidor. Temo o homem de um só livro, temo o homem de uma só idéia! Nelson era o homem de um só livro, de uma só idéia. Foi um homem que abalou o mundo.

  1. A professora mandou o molequinho fazer uma redação, ele tinha apenas sete anos de idade, era uma flor ainda em botão – de obsessão, mas flor em botão! E não é que o molequinho conta uma história de adultério, com o conseqüente assassinato da adúltera e do amante pelo marido cornudo – mas honrado! “Foi a minha primeira ‘A vida como ela é’”, conta Nelson. O lambe-lambe da vida, o retratista dessa rameira desavergonhada – como ela é, sem retoques – nasceu formado, de berço. Apressado, escrevendo para jornais, não tinha tempo para literatices, para embelezar a linguagem ou a vida, que, antes de ser bela, era trágica. A vida como ela é – é trágica.

  1. Nelson Rodrigues viveu uma vida trágica – não vou contar aqui, não gosto de histórias trágicas. E, naturalmente, acabei de contar uma mentira. Todos os homens gostam de histórias trágicas e todos os homens contam mentiras, os escritores mais ainda. A mentira é a forma da verdade na arte.

  1. Nelson era um homem religioso, sabia que a Bíblia é o Livro. É onde “a vida como ela é” está cuspida e escarrada. A Bíblia conta a história de um povo, de uma grande família com todos os defeitos, todas as taras, todas as distorções que há numa grande família. Criticam a Palavra de Deus por isso, que um livro que se diz a Palavra de Deus não pode ter tanta sacanagem. Ora, pois! Nelson Rodrigues mostra a família burguesa do século vinte com taras e neuroses saindo pelos fundilhos, quem diria a família de Deus, enorme, grande como as areias do mar, vivendo ao longo de séculos e séculos! E dizem que o Deus do Antigo Testamento era cruel!

  1. Certo, sei que o Deus do Amor veio depois, no Novo. Mas o Velho, quero dizer, o Deus do Velho Testamento – como era paciente, como era misericordioso, como perdoava! Não abandonou aquele povo teimoso, recalcitrante, que só vivia para pecar – O meu destino é pecar! Era como se fosse uma tragédia – não uma tragédia grega, com a sua catástrofe e sua purificação espiritual, e ponha catarse nisso! – mas a tragédia comezinha, as pequenas grandes dores beirando o ridículo das mulheres e seus maridos postas a nu – Toda nudez será castigada! – por Nelson Rodrigues.

  1. Outro dia foi preso um cara que matou o amante da esposa, lavou a sua honra, porque era um homem honrado. Conta sem nenhuma emoção como entrou lá e fez – “entrei e fiz” –, mais nada. No braço do personagem, desse marido honrado, está tatuado um caixão de defunto bem visível, com as letras bem visíveis do nome do morto, o amante da mulher, e com a data do crime. A mulher continua bela e formosa. O marido vai preso sem nenhum arrependimento, faria outra vez, contra o fazedor de chifres, não contra a mulher, coitada. A frieza, meus caros, da Vida Como Ela É. Nelson Rodrigues se revira na tumba – “Essa história é minha! Plágio, plágio!”

  1. A vida imita a arte, que a tempera.

  1. Nelson Rodrigues disse que o homem não é triste por causa da morte, mas da vida. A morte é libertação. A vida é que faz sofrer, a morte livra-nos de todos os males. Todas as mulheres gostam de apanhar, disse. Todas as mulheres e todos os homens, Nelson. E não adianta corrigir que só as mulheres normais e os homens normais – nem os neuróticos reagem mais, Nelson.

  1. Plínio Marcos aprendeu a escrever com Nelson Rodrigues, foi um excelente teatrólogo, foi, para completar o quadro, uma personalidade complexa. Mas não fez bem a lição de casa. Suas taras estão no lugar de taras, nas celas de prisão, nos bordéis, nos prostíbulos baratos. Seus personagens são prostitutas e prostitutos, marginais, a escória da sociedade. Não entendeu nada do mestre: os personagens e o cenário de Nelson são a santa e respeitável família burguesa. O discípulo esculhambou com o esculhambado, com a escória. O mestre esculhambou com o bom comportamento das salas de visita de nossa sociedade. Que nunca mais foi a mesma: mostrou a sua cara, ridícula, de dramalhão de segunda, escória como a mais reles escória.

  1. A família que é espezinhada em “Senhora dos Afogados” tem um belo sobrenome: Drummond. Alguma segunda intenção? Alguma referência velada ou nem tanto? Mas Drummond tem algo de um título de nobreza, e a peça não revela nobreza nenhuma: Nelson foi um trágico, mas não à maneira dos clássicos gregos. O mar não traz nenhum afogado à praia, afogado nenhum bóia nesse mar: quem morreu, acabou. A morte é para sempre. Sem nenhuma nobreza. Com todo o ridículo de um dramalhão de segunda categoria. Essa é a tragédia brasileira.

  1. Eras uma flor de obsessão, sempre repetindo as mesmas obsessões, assumindo essas obsessões, assumindo o reacionarismo mais ordinário, embora até bonito, e a vanguarda da devastação da condição humana, terra desolada, terra de ninguém. A Cabra Vadia nos faz confessar que ninguém, mas ninguém mesmo é inocente depois de Nelson Rodrigues. Quem não tem um crime para confessar, uma injúria e uma blasfêmia, um adultério na família, o sangue derramado, um amor de bordel vagabundo ou elegante? Quem tem a vida, toda a história da vida impoluta, limpa como a água do Batismo? Oh, demo-nos as mãos, meus semelhantes, meus irmãos na infâmia da Vida Como Ela É!