sábado, 29 de março de 2008

Nelson Rodrigues

  1. Quem diria?! Começar uma crônica, ou melhor, escrever uma crônica como Nelson Rodrigues. Qual é a semelhança? Ora!, direis, ouvir estrelas! Nelson Rodrigues numerava, sem nenhuma lógica, sem nada que justifique tal processo, os parágrafos. E ficava bem! Suas crônicas sabiam às do velho mestre Machado de Assis. Mais terra a terra, nem que fosse só porque mais século vinte, mais contemporaneidade. Machado começou o século – mas fez suas crônicas na segunda metade do outro. Nelson estourou o meio do século – estourou é o termo, as famílias bem comportadas do século vinte mostraram a sua cara despudorada.

  1. Nelson estourou a boca do balão, ele, o cronista esportivo, que se esquecia do futebol amado para fazer filosofia, não a filosofia de alcova que disseminava nos seus contos trágicos, romances folhetinescos não menos trágicos e peças de teatro muito mais trágicas. A vida era um pão caído no chão com a manteiga para baixo que o pobre levantava e lambia deliciado. Nelson não falou da miséria, dos miseráveis da sarjeta da vida: não era necessário. A vida era uma cabra vadia num terreno baldio – e lasca entrevista! Toda entrevista é imaginária – não era preciso dizer. E o entrevistador é uma dama – que dama! – vadia. Era preciso uma cabra para dizer o óbvio ululante.

  1. Nelson era uma flor de obsessão. Como soa bem essa frase – flor de obsessão! O cara era um fazedor de frases. Estou chovendo no molhado, todo mundo sabe disso, mas não é porque a terra já está molhada que a chuva não é bem-vinda. Que doces as obsessões de Nelson Rodrigues! Mesmo quando não eram nada doces, amargas, azedas, – eram o sal, o tempero da vida. Que seria de mim sem as minhas repetições! Também vou repetir muito que o homem era um grande repetidor. Drummond era um grande repetidor, Dostoievski, que ele reverenciava, era um grande repetidor. Temo o homem de um só livro, temo o homem de uma só idéia! Nelson era o homem de um só livro, de uma só idéia. Foi um homem que abalou o mundo.

  1. A professora mandou o molequinho fazer uma redação, ele tinha apenas sete anos de idade, era uma flor ainda em botão – de obsessão, mas flor em botão! E não é que o molequinho conta uma história de adultério, com o conseqüente assassinato da adúltera e do amante pelo marido cornudo – mas honrado! “Foi a minha primeira ‘A vida como ela é’”, conta Nelson. O lambe-lambe da vida, o retratista dessa rameira desavergonhada – como ela é, sem retoques – nasceu formado, de berço. Apressado, escrevendo para jornais, não tinha tempo para literatices, para embelezar a linguagem ou a vida, que, antes de ser bela, era trágica. A vida como ela é – é trágica.

  1. Nelson Rodrigues viveu uma vida trágica – não vou contar aqui, não gosto de histórias trágicas. E, naturalmente, acabei de contar uma mentira. Todos os homens gostam de histórias trágicas e todos os homens contam mentiras, os escritores mais ainda. A mentira é a forma da verdade na arte.

  1. Nelson era um homem religioso, sabia que a Bíblia é o Livro. É onde “a vida como ela é” está cuspida e escarrada. A Bíblia conta a história de um povo, de uma grande família com todos os defeitos, todas as taras, todas as distorções que há numa grande família. Criticam a Palavra de Deus por isso, que um livro que se diz a Palavra de Deus não pode ter tanta sacanagem. Ora, pois! Nelson Rodrigues mostra a família burguesa do século vinte com taras e neuroses saindo pelos fundilhos, quem diria a família de Deus, enorme, grande como as areias do mar, vivendo ao longo de séculos e séculos! E dizem que o Deus do Antigo Testamento era cruel!

  1. Certo, sei que o Deus do Amor veio depois, no Novo. Mas o Velho, quero dizer, o Deus do Velho Testamento – como era paciente, como era misericordioso, como perdoava! Não abandonou aquele povo teimoso, recalcitrante, que só vivia para pecar – O meu destino é pecar! Era como se fosse uma tragédia – não uma tragédia grega, com a sua catástrofe e sua purificação espiritual, e ponha catarse nisso! – mas a tragédia comezinha, as pequenas grandes dores beirando o ridículo das mulheres e seus maridos postas a nu – Toda nudez será castigada! – por Nelson Rodrigues.

  1. Outro dia foi preso um cara que matou o amante da esposa, lavou a sua honra, porque era um homem honrado. Conta sem nenhuma emoção como entrou lá e fez – “entrei e fiz” –, mais nada. No braço do personagem, desse marido honrado, está tatuado um caixão de defunto bem visível, com as letras bem visíveis do nome do morto, o amante da mulher, e com a data do crime. A mulher continua bela e formosa. O marido vai preso sem nenhum arrependimento, faria outra vez, contra o fazedor de chifres, não contra a mulher, coitada. A frieza, meus caros, da Vida Como Ela É. Nelson Rodrigues se revira na tumba – “Essa história é minha! Plágio, plágio!”

  1. A vida imita a arte, que a tempera.

  1. Nelson Rodrigues disse que o homem não é triste por causa da morte, mas da vida. A morte é libertação. A vida é que faz sofrer, a morte livra-nos de todos os males. Todas as mulheres gostam de apanhar, disse. Todas as mulheres e todos os homens, Nelson. E não adianta corrigir que só as mulheres normais e os homens normais – nem os neuróticos reagem mais, Nelson.

  1. Plínio Marcos aprendeu a escrever com Nelson Rodrigues, foi um excelente teatrólogo, foi, para completar o quadro, uma personalidade complexa. Mas não fez bem a lição de casa. Suas taras estão no lugar de taras, nas celas de prisão, nos bordéis, nos prostíbulos baratos. Seus personagens são prostitutas e prostitutos, marginais, a escória da sociedade. Não entendeu nada do mestre: os personagens e o cenário de Nelson são a santa e respeitável família burguesa. O discípulo esculhambou com o esculhambado, com a escória. O mestre esculhambou com o bom comportamento das salas de visita de nossa sociedade. Que nunca mais foi a mesma: mostrou a sua cara, ridícula, de dramalhão de segunda, escória como a mais reles escória.

  1. A família que é espezinhada em “Senhora dos Afogados” tem um belo sobrenome: Drummond. Alguma segunda intenção? Alguma referência velada ou nem tanto? Mas Drummond tem algo de um título de nobreza, e a peça não revela nobreza nenhuma: Nelson foi um trágico, mas não à maneira dos clássicos gregos. O mar não traz nenhum afogado à praia, afogado nenhum bóia nesse mar: quem morreu, acabou. A morte é para sempre. Sem nenhuma nobreza. Com todo o ridículo de um dramalhão de segunda categoria. Essa é a tragédia brasileira.

  1. Eras uma flor de obsessão, sempre repetindo as mesmas obsessões, assumindo essas obsessões, assumindo o reacionarismo mais ordinário, embora até bonito, e a vanguarda da devastação da condição humana, terra desolada, terra de ninguém. A Cabra Vadia nos faz confessar que ninguém, mas ninguém mesmo é inocente depois de Nelson Rodrigues. Quem não tem um crime para confessar, uma injúria e uma blasfêmia, um adultério na família, o sangue derramado, um amor de bordel vagabundo ou elegante? Quem tem a vida, toda a história da vida impoluta, limpa como a água do Batismo? Oh, demo-nos as mãos, meus semelhantes, meus irmãos na infâmia da Vida Como Ela É!


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