quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ostras ao vento



Ao Vasqs

Quando encontro
no meu silêncio
uma pérola
é escavado na minha vida
como um abismo.
(Ungaretti)


Conheço que uma ostra ao vento
É muito mais do que uma ostra.
Canta com um ouvido afinadíssimo:
Uma ostra ao vento é toda ouvidos.

Uma ostra ao vento é gozada
Como uma rã, um grilo colorido.
Um cara de cócoras atrás da moita
Tem as ostras ao vento batendo palmas.

Uma ostra ao vento é como um pássaro,
Mas sem asas e sem gaiola.
Uma ostra ao vento nem existe
De tão gozada.

A ostra no mar guarda a dor da pérola,
As ostras ao vento dão risada.
As ostras ao vento batem uma contra a outra,
Quebram os dentes de tanto chacoalhar.

As ostras ao vento são para quem quiser
Morrer de dar risada.
A vida não é uma piada, mas devia.
As ostras ao vento são uma gargalhada.


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O Vasqs é o criador da coluna de humor Ostras ao Vento. (Está escondido no Overmundo: clique no título acima para abrir seu perfil.)
Desde a 1ª vez que vi esse título, pensei em poesia.
O humorista é primo-irmão do poeta. Grandes poetas têm senso de humor. Drummond ou Manoel de Barros têm. Há exceções: não vejo humor em Ferreira Gullar, poeta imenso apesar disso. Um humorista imenso, Millôr, faz questão de ser também poeta, embora assim não se autodenomine.
Por essas e outras, acabei escrevendo o meu poema Ostras ao Vento.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Os ossos do dia




Os ossos do dia

A maritaca eletrocutada
Pende do fio de alta-tensão.
Dois cachorros disputam um osso,
Rosnam, mordem, sangram.

Os urubus caminham pela estrada,
Confundem-se ao asfalto negro, líquido.
Os bem-te-vis atacam o gavião,
A pomba cai ferida, destroçada.

As vacas ruminam a morte
No pasto dos carrapatos.
A coruja guarda a imagem da dor
Na névoa dourada dos olhos.

A borboleta pousa sobre a sombra
Da lagartixa amarela na parede.
Um carreiro de formigas carrega,
Aos pedaços, os ossos do dia.

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domingo, 20 de junho de 2010

Na tarde de sol




1. Na tarde de sol

Na tarde de sol, sem nenhuma sombra,
O canto da cigarra quebra pedras.
O capim gordura cintila.
O pássaro se ajeita no ninho.

A árvore cabe na palma da minha mão.
As garças velam o sol refletido no lago.
O vento encrespa a água.
O martim-pescador se exibe na margem.

As amoras vermelhas pendem de um galho.
O pinheiro em chamas com tanto sol.
Uma teia de aranha equilibra-se
Entre a árvore e o telhado da casa.

Caminho na areia molhada.
Meus olhos revoluteiam com as folhas secas.


2. Composição

As vacas no pasto ao sol, sob tanto azul,
Pastam o verde com paciência.
Nem se importam com a sombra das árvores,
Foram fisgadas pelo anzol do pasto verde.

A árvore eleva a copa ao céu.
As folhas brilham, o sol escorre pelo tronco.
A pomba era tão azul
Marchando na grama verde.

A roda d’água é mágica.
A água brilha tanto, a roda gira.
A vida gira tanto, a vida brilha.

O sanhaço azul contra o verde das folhas
Degusta um a um os coquinhos amarelos.

Sinto o perfume e o sabor de tanta cor na paisagem.


3. Sombra verde

A sombra das nuvens sobre os montes
Torna mais vivo o verde próximo.
As árvores esplendem.
A montanha esplende ao sol.

O céu muito azul,
Poucas nuvens, paina branca, esfiapada.
A paisagem do campo verde.
O pinheiro e eu ansiamos pelo céu azul.

Várias árvores, muitas árvores.
Uma cerca no horizonte
Limitando o campo verde.

Outra cerca no meio do campo
E alguma sombra esparsa.

Um boi solitário rumina a manhã.

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A postagem anterior,“O calor do sol”, é de 9-6-10.
Na de hoje, “Na tarde de sol”, os primeiro poema é de 1-5-10, e os dois outros são de 8-5-10.
“Composição”, anoto aqui porque acho que é um bom título, foi nome dado pela Sônia. Ela disse simplesmente: “É uma boa composição”. Esse é um nome que eu poderia ter dado a muitos de meus poemas. Fica para este.
O verso “O pinheiro e eu ansiamos pelo céu azul” já apareceu aqui neste blog, numa foto.

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

O calor do sol




1. O calor do sol

Os patos marcham na água do riacho.
O peru grita, protesta, contra o sol
E a solidão de ser um bicho entre os bichos.

Os bezerros pastam à sombra das jabuticabeiras.
Um mais afoito deita-se e espera, enquanto
Os outros mugem e se coçam, inquietos.

A lenha verde queima no fogão.
As labaredas sobem pelas paredes,
Estralam, estouram e caem por terra.

A água cai do alto da caixa d’água
Para o pequeno lago das carpas douradas.
A água canta e valsa entre a folhagem.

Contemplo as rosas vermelhas no galho.
A laranja explode com o calor do sol.



2. Alguns bichos

O peru caminha no pasto
Perto do lago onde a pata
Navega com os seus patinhos.

A ovelhinha malhada
Mama com desespero amoroso
Na tetas da mãe.

O porco me olha com olhos humanos
E fuça e rola e extasia-se
Com a lama do chiqueiro.

O cavalo olha para trás
Antes de beber a água do rio.
Tem as costelas da dor à mostra.

As vacas penetram no mato
Seguidas da imponência das garças.




3. A nudez e a sede

A corruíra na raiz da velha figueira.
A maritaca no alto do telhado.
O leque da pomba abana o tempo.

O homem se encontra, como num espelho,
Ruga a ruga, no tronco da figueira.
O sol estrala refletido nas folhas verdes.

À frente a paineira despida, seca, nua
Como se fosse morrer. A maior nudez
É a nudez da morte.

A estrada esburacada perde-se ao longe.
Ninguém vai, ninguém vem. Solitária,
Conversa com seus próprios buracos.

Os cactos partem-se ao sol, com sede.
Um cão chega, cheira e urina num cacto.

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Coisas da poesia




Coisas da poesia

O bule de café fumega no fogão.
O queijo frige na palha de milho.
A polenta na frigideira.
Na panela de ferro a banana são-tomé.

A velhinha sorri para mim.
O picumã pende do telhado.
O fogo crepita com a lenha verde.
Eu olho as estrelas entre as labaredas.

Um sapo de castigo num canto da parede.
Um caranguejo toma sol no quintal.
Havia um cheiro de mato
E um cheiro de pão no forno.

A minha língua era torta.
Coisas da poesia.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

O monte em chamas




O monte em chamas

O sol incendiava as árvores.
As casas se balançavam nas chamas.
Os cavalos queimavam na estrada.
Os meus olhos estavam acesos no barranco.

O mato era uma fogueira fumegando.
As vacas flutuavam com as labaredas.
Eu pisava o carreiro das formigas loucas.
O vento levava o fogo das coivaras.

O touro escarvava o chão das figueiras.
Os cachorros vermelhos ganiam.
O grito do sabiá engravidava o dia.

Eu bebia o leite e o sangue da terra
Abraçado à árvore alta do horizonte
No dia grande sobre o monte em chamas.

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sábado, 12 de junho de 2010

Amanhecer no bosque




Amanhecer no bosque

Os meus passos na terra úmida do bosque,
Nas fundas pegadas fica um pouco de mim.
Caminho entre as árvores desviando-me,
Os galhos caem com as folhas molhadas

E pairam diante dos meus olhos em êxtase.
Pairo fora do tempo, num istmo do eterno.
O sangue de uma rosa escorre no meu peito.
Um melro me traz uma estrela nas asas.

As borboletas valsam entre as flores.
Um cachorro fareja a margem da água.
As abelhas carregam o ouro ao sol.

Um cavalo relincha na minha garganta
E eu cavalgo para a água limpa do dia
Insensato e lírico como um galo no anzol.

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Este poema tem alguns anos.Mas pertence aos meus poemas telúricos, está no livro Memória da Terra (que está saindo do prelo).
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quinta-feira, 10 de junho de 2010

O lírio da madrugada




O lírio da madrugada

No escuro da madrugadinha
As vacas soltam fumaça pelas ventas.
Cai o sereno sobre os bezerros
Chorando ao longe.

A lua ainda está no céu
Pesado de bruma.
Vem uma brisa do lado do rio,
Traz o cheiro dos salgueiros.

As águas correm no ribeiro abaixo
Do quintal das jabuticabeiras floridas.
A cabra chacoalha o cincerro.
Os porcos grunhem, fuçam a lama.

O dia nasce devagar. Um lírio
Floresce num monte de estrume.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

Os raios de sol




Os raios de sol

Os pardais ciscam o capim entre as pedras.
A maritaca grita no telhado,
Depois se pendura pelas patas, com o biquinho aberto.
As flores do pessegueiro caem com tristeza.

Um rato corre, espia do buraco.
Atravesso descalço o córrego ao lado de casa.
Uma libélula me acompanha.
Sinto um cheiro de alecrim no ar.

Olho ao longe o cafezal florido.
O espantalho cai, com tantos pássaros.
Um menino canta, chora e canta de novo.
A graça dos crisântemos brancos.

A garça caminhando solene entre os bois.
Os raios de sol e a sombra da figueira.

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domingo, 6 de junho de 2010

O boi




O boi

O boi pastava borboletas no jardim.
Esse boi é tudo quanto eu quero.
Os bagres puseram o córrego de bruços
E escovaram os dentes com inhame.

A rã se ajoelha de toalha no pescoço.
O bem-te-vi repete a mesma paisagem,
As mesmas palavras têm anzol dentro.
O lagarto conhece cada gomo da pedra.

À beira da estrada uma árvore reza.
O poema se concentra nas coisas,
De ser coisa se basta como um moirão.

Carrego uma cobra no bolso da calça,
Com uma embira prendo na paisagem.
Na minha língua um boi está pastando.

19-2-2003
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Relíquias




RELÍQUIAS

Vidrinhos de remédio, bolinhas de gude.
Um canivete enferrujado, minúsculo.
Duas pedras que foram instrumentos de índios.
Quatro dentes de aço, pontudos, polidos.

Duas páginas manuscritas em iídiche.
Uma armação de óculos de tartaruga.
Uma certidão de nascimento rasurada, ilegível.
Três estribos de prata e duas lupas.

Um bule azul com flores brancas e vermelhas.
Um punhal de cortar fumo com a lâmina gasta.
Um prego exilado da sua parede.

Um dedo seco com uma aliança de ferro.
Uma cruz com o Cristo preso pelos pés.
Um soldadinho de chumbo sem pernas.

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O meu Tear está também no Cariricaturas (clique aqui para ver)

O meu Tear com muita honra está no Inscrições, da Dade Amorim (clique aqui para ver)


Quando eu era árvore




Quando eu era árvore

Esse vento me lembra de quando eu era árvore.
À beira do córrego, no fundo do quintal.
Os peixes espiavam curiosos
A orquestra de pássaros entre as folhas.

Como era bom sentir as minhas raízes
Sumarentas dentro da terra.
O musgo me subia pelo tronco.
O sol beijava as minhas orquídeas.

O sol depois da chuva era gostoso.
Os pica-paus me bicavam a pele
E davam risada. Árvore!

O dia nascia nos meus galhos.
Eu ouvia a água, o sol, o vento.
A terra era a minha alma.

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

O tear





O tear

Estou no meio da ponte, olhando o rio.
As águas negras regurgitam lá embaixo
Como um pulmão. As árvores, as estrelas
E os peixes pulsam.

A mulher tem um pinheiro na língua e canta.
O menino relincha como um cavalo.
A lua se admira no espelho d’água.
Contemplo o espetáculo do mundo.

Os cães disputam o osso da tarde.
A sombra é pouca para tanta luz.
É minha a paisagem.

O tear tece a trama de Deus.
Vai nascer o pássaro do êxtase.
Eu sigo arando a terra com a palavra.

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Com muita honra, o meu tear está no blog
Inscriçoes - http://inscries.blogspot.com
e cariricaturas.blogspot.com
Veja os links nas próximas postagens.

domingo, 30 de maio de 2010

Retrato




Retrato

Cresci com o mato, dentro de um caramujo.
Tinha a boca cheia dos ovos do arco-íris,
De meus poros brotava barro feito rãzinhas caolhas,
O limo me cobre quando durmo.

Uma faca me degola para que eu me esqueça,
Mas no gume frio o sangue lembra.
A água me lava até às raízes.
Sou feliz de tarde com o sol se pondo

Ou no fim da chuva, na mágica do pássaro.
Sou torto como o tiziu amoroso de costas,
Meu pulo ninguém vê, nem minha lira.

Pouso na árvore como uma estrela e canto,
Com as mãos trêmulas converso o êxtase da minha terra.
Os meus pés andam os caminhos e voltam.

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O jardim do ocaso



O jardim do ocaso

As formigas em procissão fazem penitência,
Carregam o ocaso como um rio nos ombros.
A roseira reza de costas com o outono nas mãos.
O menino se ajoelha com um martelo e bate firme

Na cabeça de cada formiga trabalhadeira.
As formigas são vermelhas fugindo da coivara
Com o besouro por cima zunindo, meditando.
A árvore toca em sua flauta a história das rãs.

O menino sabe dos mistérios esconsos dos jardins.
O pássaro num galho desfia com o bico o crepúsculo.
O horizonte cochila,

Se encolhe num ninho de guaxo.
O barranco é uma cama e boceja com muito sono.
O menino ajeita em cruz as formigas sacrificadas.

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

O tempo parou



O tempo parou

O tempo parou. Nada se move.
O vento grita como louco,
Mas tudo permanece no mesmo lugar.
As águas correm, mas são sempre as mesmas.

São os mesmos bezerros, as mesmas vacas,
O mesmo pasto verde, os coqueiros,
As paineiras, a cerca de arame farpado.
A terra não mudou neste lugar.

O sol nasce e morre no horizonte.
O galo canta com um anzol no bico.
Os pássaros e os peixes cantam.

As sementes morrem e nascem.
A figueira renasce, resiste.
O tempo não existe no paraíso.

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Este poema é do Vasqs. A ideia é dele, eu só escrevi.
Ele disse sentir-se lisonjeado e que me fez voltar à
metafísica – mas eu nunca saí, a metafísica está nas coisas
mais simples. É só extasiarmo-nos com a beleza – e estamos
fazendo metafísica.

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terça-feira, 25 de maio de 2010

Raízes




Raízes

A árvore tem um corte no tronco.
Sangra, um líquen dourado brilha.
Uma flor branca brota da ferida da árvore.
Um beija-flor dança diante da dor e da beleza.

Pássaros vêm e vão entre as folhas, cantam.
Um cavalo vem descansar à sombra da sua copa.
Cachorros latem para as vacas cansadas.
Uma cascavel passa sacudindo os guizos.

O chão está coberto de folhas douradas.
Um ouriço se esconde no vão de uma raiz.
Um gafanhoto verde e amarelo pousa na flor branca.

Um bando de borboletas azuis revoluteia no ar.
Um homem chega, sorri e deita-se à sombra.
A árvore se eleva no céu azul com a luz do sol.

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sábado, 22 de maio de 2010

A lâmpada de argila



A lâmpada de argila

Chego ao lago sereno com suas flores e pássaros.
Deito-me ao sol dourado, sob o verde das árvores.
A brisa ergue no ar a poeira fina dos estames
E a terra fertiliza-se como num encantamento.

Tomo da palavra como uma chave mágica.
As estrelas cantam nas folhas ainda escuras.
O sino toca na montanha acordando o dia.
O meu tronco de árvore floresce e frutifica.

A lagarta carrega uma flor nas costas, torta de dor.
A aranha tece a sua teia, caça e devora a mosca.
O limo escorre entre as pedras do barranco.

Uma cortina de água flui na entrada da gruta.
A casa da poesia é a única morada de Deus.
A lâmpada de argila brilha ainda.

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

A coleção de caracóis




A coleção de caracóis

Tenho uma coleção de caracóis
Que a minha gata me ofereceu.
Os caracóis nunca se exilam:
Caminham com a casa às costas.

Estão mais próximos da terra.
As águas deslizam sobre a pedra,
Na trilha viscosa dos caracóis.
O limo líquido brilha no barranco.

Deixam os caracóis a sua marca
Nas árvores, nas pedras e na terra.
As águas saltam como pássaros.

Salta um rio da minha língua
E chove tanto
Que os caracóis florescem.

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Visita ao Matão




Visita ao Matão

Eu me vejo no espelho da janela.
A minha velha casa me recebe,
A mesma casa antiga, familiar,
Com as mesmas paredes, que me abraçam.

Um raio destruiu meia figueira,
Mas ela continua na paisagem
Com os cupins, abelhas, parasitas
Vivendo de seu tronco e suas raízes.

As jabuticabeiras se renovam,
Crescem e multiplicam-se no tempo.
O peru, as galinhas, os bezerros,

O meu mundo me espera no quintal.
O ribeirão, o mato ao fundo, os pássaros
Embalam a minha infância ainda hoje.

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Visita à casa da minha infância, num lugar chamado Matão.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Canção do exílio




CANÇÃO DO EXÍLIO

A minha terra tem uma figueira
Na porta de casa, um cavalo inquieto
E os cachorros latindo para as vacas
E o meu pai apartando os bezerros.

As jabuticabeiras são infinitas,
O pomar tem todas as frutas
E todos os pássaros cantando.
Os sabiás, os melros, os canários

Disputam quem canta mais alto.
O sanhaço lambuza o bico no mamão.
O cafezal e o terreiro de café,

O milharal e a mata à beira d’água
Me lembram que eu sou criança ainda
Com a cara lambuzada de terra vermelha.

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Dia 12 último fui visitar a casa da minha infância.
Continua lá. Caiu um raio em cima da figueira, não está
mais inteira, mas continua lá.

sábado, 15 de maio de 2010

O louco




O louco

Tinha uma roseira e batia na janela
E as pétalas eram grudadas na vidraça.
Eu pensava no adubo para os canteiros
E pensava na terra regurgitando a vida.

Minha mãe erguia a saia cheia de rosas
E as pétalas eram borboletas e revoavam.
O meu pensamento tinha terra nos dentes
E o grito dos periquitos partia a vidraça.

Só minha mãe sabia que eu era louco.
Eu não tinha morrido e dava risada
Bebendo o leite verde das minhas vacas.

Tinha pimenta nos olhos para ver melhor.
Escrevia com pedras e picadas de abelhas.
A loucura me explica e brilha com a beleza.

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

O duplo



Ele

Comia o miolo dos macacos
Para espertar a inteligência.
Cochilava ao pé da fogueira
Embriagado de pirilampos e estrelas.

Vivia coberto de limo,
Era como um filho da terra brotando.
A água jorrava dos seus olhos
Como uma fonte de rosas e lua.

Eu era menino e ancião
Com um machado no pulmão perfumado.
Ele se chegava com terra na mão

Dizendo: Coma, meu filho.
Eu era ele de cócoras
Com a vida sangrando do beiço grande.

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O tema do duplo sempre me obcecou. Não seria o caso deste poema? Não foi a intenção, mas agora mesmo me ocorreu: não foi mesmo?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os castelos de pedra



Os castelos de pedra


Os castelos de pedra coroam o céu do sertão,

As araras devoram o pequi ou as espigas de milho,

Os urubus-rei se escondem nos buracos da serra.

A vida prossegue no equilíbrio natural das coisas.


Passa a nuvem branca pelo céu azul

Desenhando os seus animais delicados.

Ensina que a vida é passar, na altura,

Como os animais, ruminando a paisagem.


Dedilho a harpa do mito ao crepúsculo.

Resolverei meus teoremas sob os carvalhos

Antes que a noite apague o último pássaro.


Tenho penas e sangue nas mãos em cruz.

A esfera do círculo é perfeita e queima.

Deus é o geômetra do mistério azul.


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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ninho




Ninho

Meu lugar nasci.
A garupa da noite me levava a estrela
E um caju na boca.
O monjolo fazia longe o perto mim.

Grande fui cavalo à beira do mato.
Me escoro num tronco.
Espero naquilo, naquilo me sou.
Raiz sob a relva.

Sou galho pendente do azul escorrendo,
Os frutos não vinham,
As ervas subiam na boca, no casco.

Não soubesse a aurora.
Naquilo me sou.
Eu me essa raiz.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os olhos da minha mãe



Os olhos da minha mãe


Nasce uma flor nos chifres da vaca,

Uma fonte de leite puro muge no pasto.

O orvalho da aurora me purifica.

Brotam da memória um bezerro e um touro


Voando sobre as árvores da infância.

Onde o cavalo do meu pai? Onde

O grito retumbando como o trovão?

Os centauros celestes fazem chover


Pétalas do delírio e borboletas azuis.

Um peixe curioso espia das locas na água verde

Do ribeirão correndo no fundo do pomar.


O eterno dorme ao meu lado como um cão.

Minha mãe chega à porta com pássaros nos ombros

E me mostra a face de Deus nos olhos.



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Homenagem ao Dia das Mães


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Foto: Minha mãe


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quarta-feira, 5 de maio de 2010

A casa verde



A casa verde


O meu cão ladra na porteira.

O meu cavalo canta para as vacas no pasto.

O meu galo cego acende as pedras do dia.


As galinhas festejam o milho no quintal

E fora dele, no curral do sol.

O pássaro abre as asas brancas no umbral

Da minha casa, sempre aberta.


A árvore cresce dentro das paredes,

Enrosca as raízes e os galhos

Nas portas e janelas, arrebenta o assoalho.

Posso ver o céu azul pelos vãos do telhado.


O sol entra na casa, acende labaredas

No fogão, na mesa, nas pedras do chão.

A casa é verde como uma semente ao sol.


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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Desenho




Desenho

Eu desenhava pássaros no mato.
As águas rebrilhavam sob a ponte.
O sagui balançava-se num galho.
O esquilo descascava um pinhão.

Os canários dourados como o sol
Voavam e cantavam na cascata.
Eu contemplava o córrego e os pinheiros.
Havia tanta luz no morro verde.

Um gavião cruzou o ar como uma faca.
O azul sangrou de dor e maravilha.
Minha alma se elevou no azul do céu.

Os cavalos ergueram-se nas patas
E galoparam para o horizonte.
As pétalas da flor caíram na água.

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

O brilho das águas




O brilho das águas


A sombra da nuvem na montanha

Torna mais verdes as árvores próximas.

As vacas pastam ao lado da cerca de pedras.

As cabras pastam do outro lado da cerca.


A terra, a árvore, o pássaro.

A roda d’água sobe até ao sol.

O monjolo sobe, a mão do pilão sobe

E cai como uma lâmina.


As águas brilham como diamantes.

O burro puxa a carroça, as rodas cantam.

O cachorro me morde o calcanhar.


Um galo passeia com a crista erguida.

Pinga sangue da crista. O cavalo relincha.

O sol queima o pássaro. A terra flutua na claridade.


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terça-feira, 27 de abril de 2010

A estrela da noite



A estrela da noite

Pensei uma flor no ventre da pedra.
As baitacas gritam, gargalham.
O pinheiro abre os braços para o céu.
O grito branco de espanto do gavião

Voa num átimo, instaura a claridade.
A minha flor se abre:
A estrela da noite, lívida, sangrando,
Sorri para a alvorada.

Quebrem as garrafas!
Quero um banho de luz verde,
Quero me afogar no sol.

Espero um dilúvio
Para inundar a minha garganta
Seca de Deus.

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domingo, 25 de abril de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os pássaros da aurora



Os pássaros da aurora

A siriema bica o ovo do dia
Na porta da cozinha, quebra a casca.
O cheiro do café coado grita.
O forno gordo estoura com os pães.

Estralam as estrelas no fogão.
As galinhas se agitam no terreiro.
O galo engasga com o sol e grita.
O cavalo relincha sob o arreio.

O meu pai tira leite das vacas
Coroado das flores da paineira.
Os bezerros invadem o pomar,

Os cães correm atrás e latem, latem.
Cantam todos os pássaros da aurora.
A luz inunda a terra como um mar.

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Hoje é o Dia da Terra. Para mim todos os dias são dias da terra. Estou preparando um livro com cem poemas telúricos, que vou lançar provavelmente em 19 de agosto. Telúricos, da terra. Em especial do lugar onde eu nasci, o Matão.

Miguel Torga é do Marão, eu sou do Matão. Diz Torga: “Do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e, de Portugal, abrange-se o mundo.”

Lembro mais uma vez Tosltoi: “Canta a tua aldeia e cantará o mundo.” E sigo cantando o meu pedaço de terra, o Matão, e sei que estou cantando a terra vermelha de São Paulo, e a terra branca de Bauru, e as falésias coloridas do Beberibe, e a areia monazítica de Itaguá, em Ubatuba, SP, e o barro de Santa Catarina (morei dois anos lá, há meio século, e chamavam a terra de barro), e estas terras abrangem as terras do mundo inteiro. O barro de que somos feitos, o limo original.

Dedico este poema à terra, neste dia, e todos os outros meus poemas, em todos os dias.

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

O silêncio



O silêncio

Fomos à ilhota no meio do lago
Para ouvir o silêncio.
Um pássaro de prata imóvel na luz
Abria o bico, não cantava.

O sol estourava a água.
Uma orquídea partia-se com o calor.
Um carreiro de formigas carregava
Uma roseira nas costas.

As pedras do caminho soltavam chispas.
Ouvia-se uma pétala no ar.
Ouvia-se a raiz da árvore sob a terra.

Um lagarto saboreava a claridade.
A libélula ouvia a borboleta.
Nós ouvimos o sol e a sombra.

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Visita ao velho pinheiro



Visita ao velho pinheiro

Volto a abraçar o meu velho pinheiro.
Os seus galhos se estendem para o azul.
Respiro o ar claro da manhã de Deus.
Os esquilos saltitam em busca da luz.

O sol coado de leve entre as folhas
Acaricia o húmus úmido da trilha.
Um bando de beija-flores dança
Numa coreografia de brilhos e cores.

Uma manada de cavalos marcha
Com o equilíbrio natural da raça.
Eu bebo a água da fonte do pinheiro.

O musgo cobre as pedras e o barranco.
Os jacus saltam, voam com estrépito.
Depois, apenas o silêncio verde.

Monte Verde, 15 de abril de 2010.

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Foto: Sônia Brandão

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Invenção do limo



Invenção do limo


O limo veio do córrego,
Do capão de mato onde as águas nascem.
Veio do parto da aurora, das chuvas,
Do medo sangrando no peito

Veio do poço, das tulhas, dos arados ancestrais,
Veio no rabo de um cometa, de uma estrela.
Veio da noite. Cobriu as roças, as árvores, a casa.

Me cobriu.

Sou vestido de limo como todos os caminhos.
As penas dos pássaros são limo,
O relincho dos cavalos, o mugido das vacas são limo.

A voz não diz nada: é limo.
Memória anterior à criação: limo.
Sem forma, sem nome: sou ungido de limo.


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A Henrique Pimenta, http://dobardo.blogspot.com/

que postou um poema chamado Limo e me fez lembrar desse meu... Foi difícil achar, perdido num blog desativado de 2002. Vai aqui (ninguém viu lá). Com a minha homenagem ao Bardo, que ressuscitou este poema.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Monte Verde



Monte Verde

Abraço o velho pinheiro na trilha do bosque.
A seiva verde corre no meu sangue.
O ipê me oferece seus cálices de flores,
Eu me embriago com a beleza do dia.

O bicho-preguiça se pendura num galho,
A arara voa, vaia e aplaude sem parar.
As garças são nuvens leves no céu azul.
O monjolo canta na sombra do vale.

A brisa suave balança as montanhas.
O verde se repete de árvore em árvore.
Os beija-flores dançam, os sabiás cantam.

O cavalo relincha na encosta dos esquilos.
As casas florescem à beira do caminho.
As águas caem, brilham, saltam nos olhos.

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"O poeta abraça o velho pinheiro", em Monte Verde, MG - foto de Sônia Brandão.

Dizem que o velho pinheiro tem mais de trezentos anos.
Foi uma experiência única.
Acho que na semana que vem vou a Monte Verde matar as saudades.

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domingo, 4 de abril de 2010

A caverna




A caverna

Uma cortina de gotas d’água
Na entrada da caverna.
A água vinha do barranco,
Das plantas acima,

E pingava no barro embaixo.
Através das gotas d’água em movimento
Víamos a terra nua
Iluminada pelo sol.

Às vezes folhas secas passavam
Levadas pelo vento do alto da serra.
A luz era agradável

Dentro da caverna:
Tinha um tom róseo,
Lembrava a água ou a terra.

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