quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O navio dos mortos

O navio dos mortos deixa o porto

À deriva, entre os calhaus


Uma estrela doente cai do céu

Agoniza na areia da praia


A fuligem das chaminés inunda o mar

E a minha garganta


Ajoelhado em folhas de sal

Acaricio a ossada do último cavalo


Os olhos secos afastam-se na bruma

São como um farol dançando no rochedo


Ergo o cálice de ouro negro

E bebo o vinho da dor


Os dedos sangrando seguram a linha

Da pandorga do eterno.


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Chão de passarinhos

E me beijei de sol, me salguei com as andorinhas

E o guaxo era preto e era vermelho


Era vermelho e revoluteava como um diabo coxo

O sapo dá uma cambalhota e assopra


Cachimbo de sapo nunca se apaga

Sapo mija atrás da moita


Abre caminho para boi, para boiada passar

Sapo gosta de pau e pia-piou folharada d’água


Pó de pau, cupim, caruncho chamando o boi sozinho

Fazendo o sol arrebentar


Capivara fabricava chão por onde meu umbigo rastejava

Eu sou esse chão de passarinhos


Venho comer na minha mão, venho beber água no meu umbigo

Quebro uma e duas garrafas e o demônio se escapa


Nas asas do guaxo que redemunha e redemunha.


Sol no umbigo

Eu tinha um sol no umbigo cheio de passarinhos

A cobra rasteja com as perninhas nervosas


Para debaixo de mim

Eu era um lambari sentado no alto de uma árvore


E cantava tangendo as cordas da viola

Com os passarinhos me acompanhando


Eu nadava vermelho com o sol incendiando o rio

Capim-gordura pegava fogo, passarinhada despencava do céu


Meu umbigo era um ninho vermelho de guaxo vermelho

Estuprado de marimbondos


Pegava o vento como um peixe pelo rabo

A cara colada no chão ouvia o vento vindo


Ouvia o vento indo na terra verde

Com as perninhas tortas como uma cobra apressadinha.


O espelho do tempo

A vaca Moela e o bezerro Bito babujam o sonho
Sonhado da infância até agora

O ribeirão não tinha peixes
Tinha lágrimas na areia e nos espinhos do barranco

Onde um pé de cabeça-de-negro se dependurava
A morte sorria como uma orquídea

No alto de um jacarandá
A esmeralda brilhava numa pétala de sol

No fundo do poço, a minha face
Degolada pela guilhotina do espelho do tempo

A minha face vai e vem, vem e vai continuamente
Como um pêndulo sem fim

Os cavalos, no alto das patas traseiras, relinchavam
Traziam o sol nas patas e relinchavam e cantavam.

A madeira estrala no eterno

Os meus olhos desmoronam com os telhados,
As teias de aranha, os morcegos e as raposas

A estrada se esfarelou no horizonte
Com as nuvens e as fogueiras do anoitecer

As formigas levaram as folhas das roseiras para nunca mais
Eu quero o verde, o verde, o verde

Eu quero o sol, eu quero o azul do céu
Eu quero subir a árvore do tempo

Na montanha em chamas da infância eterna
As escadarias apodreceram

Mas a minha árvore é sempre verde
Acendo a fogueira na casa desmoronada

Com as pedras de fogo dos meus olhos
Os olhos do meu pai estão nos meus olhos

Os meus olhos estão nos olhos do meu filho
O fogo queima a madeira, que estrala, rubra, no eterno.

A bilha quebrada


Outra vez te revejo, Dois Córregos, mais uma vez

Caminhamos lado a lado como dois estranhos


Não me reconheces e eu não te reconheço

Mas o mesmo sangue corre nas nossas veias


A mesma estranheza aos olhos de fora, tão outros

A mesma alma nos habita, como uma casa muito antiga


Os seus fantasmas esquecidos passeando pelos corredores

O menino que fui, homem de barro, cacos pelos caminhos


Tudo foi dado ao menino e tudo tirado ao homem

Mas permanece, pulsando dentro, como boa paga


Estendo a mão aberta, vazia. Somente eu sinto o peso

Do homem que ela carrega, um tição queimando na noite


A terra vermelha e a árvore verde cantam com todos os pássaros

Eu sozinho, menino e homem, como uma bilha quebrada


E com toda a inteireza de ainda ser bilha, no espaço

E na terra, matéria humana e quase divina.



As brumas do eterno


Dois Córregos sou eu e meus fantasmas envergonhados

Os paralelepípedos sérios, conversando nas esquinas


À sombra dos lampiões da fábula, com óleo inextinguível

Uma vez vi um lobisomem sobre um muro, tinha dentes de bicho


E vergonha de homem. Fugimos devagar, um olhando para o outro

Na rua as sombras dos parentes mortos dialogando no escuro


E se apalpando para ter certeza de que estão mesmo mortos

O saci-pererê não andou por aqui, nem a mula-sem-cabeça


Nem o unhudo da Pedra Branca e suas jabuticabas bravas

Andou por aqui o meu avô e, antes, o meu bisavô João Ventura


Que abriu o sertão de um mato enorme, que chamou de Matão

Virou uma fazenda, multiplicada para os descendentes, amém.


Dois Córregos é o meu pai caminhando com os mortos no bolso

Orgulhoso daqueles mortos todos, que vieram povoar esta terra


E agora dormem com ele, refestelados nas brumas do eterno.



Pombos caem


Pombos caem do céu

Como frutos estourando de maduros


A infância era azul, sem lápides

Os guizos da cascavel me encantavam


Nos ladrilhos quadriculados da varanda

Eu sonhava com a árvore dos dias


No jardim os gerânios vermelhos dançavam

Os copos-de-leite cochilavam


Nos canteiros de sombra

Os sabiás empurram as raízes da paisagem para agora


O mel inunda o pomar tranqüilo

Na roseira do êxtase um pássaro canta


Eu sonhava na varanda, no quarto

No alto do telhado eu sonhava.


Oficina da quietude


Morte, qual é o teu nome? Enguia, centelha?

Conjuro a preguiça da relva


A aranha tece a agonia com um grito além-cinza

Quebro a faca no escuro do poço


Quero a palavra da oficina da quietude

A garça bebe a água do crepúsculo


A morte é pouca para que a luz arrebente

O sapo coaxa, não encontra mais que o eco


Que reza como o pêndulo na noite

E a tesoura retalha e a enxada cobre


O meu cavalo me leva para as invernadas

Para o sol no abismo do mistério


Eu me aninho no ventre azul da luz

Esqueço a razão no corpo que me agasalha.


O monjolo do tempo

O monjolo marcava o tempo na água

O moinho moía a farinha e os galos


O canto dos pássaros bordava o dia

O arado tombava a carne da terra


As sementes sorriam prenunciando a flor e a espiga

A noite me embalava na copa da figueira


Longe os latidos dos cães loucos

Eu me aconchegava no seio da lua


Como no embalo de uma rede e sonhava

Os grilos brigavam com os vaga-lumes entre os coqueiros


As estrelas caíam com o sereno

O leite da madrugada era doce como a vaca Moela


O bezerro Bito mamava com sofreguidão

A Moela e o Bito, eu me dizia, sabem o meu nome.


O útero da terra

A faca da morte decepou a cabeça do carneiro

Sobre o riacho tranqüilo


Esta campa é de ninguém

E sangra nas ranhuras do mármore


Quem pisou na palavra?

Estava nua, porejava leite e orvalho


Quem pisou – para nunca mais?

O mundo caiu


Da figueira, da casa, do poço abandonado

Para onde quer que eu olhe


É morte

E a infância se me escapa por entre os dedos


Silencioso eu me deito na terra vermelha

Como no útero da minha mãe.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ofício de poeta

É inútil ficar com raiva do homem

É muito alta a montanha e pesada a pedra


Os olhos são duros, as lágrimas de vidro

Se quebram no espelho envergonhado


Vesti a minha máscara azul

Saí dando pinotes pela rua


As ranhuras na face de madeira

O mundo me ignorava como a um cão


A coleira me esfola o pescoço

Os meus latidos não acordam o sol


As palavras hipócritas na esquina

São o meu osso, o meu trigo, o meu vinho


As águas continuam a correr sob a árvore

É inútil ficar com raiva de Deus.


Resíduo

Os ratos e as baratas passeiam sob o assoalho

Comem o pó dos homens que por aqui passaram


Os fantasmas cozinham em seus caldeirões

A sopa dos restolhos do antigamente


Sobraram-nos as palavras, velhas, gastas

Caem sob as cortinas sem rumor, plácidas


As cortinas estão puídas, alimentam os percevejos

E os vermes do tempo implacável


A música já não toca. Os pássaros e seus cantos

Estão empalhados em algum quarto fechado


Uma parede nos separa da rua, de Deus

De quem somos resta um cântaro quebrado


A água toda se escoou. O vinho se escoou

Enquanto isso, no escuro, a aranha tece a teia.


Parusia

Penetro no fogo com os braços abertos

Trago o abismo nos olhos na ponta da língua


Cavalgo no campo das estrelas

Tendo a terra e a água por testemunha


Ofereço o meu espírito com sangue nas mãos

Ergo ao céu o candelabro da grande águia


Escrevo impelido pela força dos ventos

Com o trovão ribombando nos pulmões


O amor deixou a morte nas catacumbas

Trasladou-me para a vida das alturas


Converso com o peixe do mar alto

O que me foi segredado nas profundezas


A mesa está posta para a ceia do amor

Para a sua chegada no fim dos tempos.


Exílio

Os teus olhos fitam o céu para sempre

O azul penetra neles como um mar


Pássaros caem no chão seco

Um avião explode, destroços e sangue voam


O vento cruel fere os teus lábios

Não leva o pó incrustado nas ranhuras


As tuas mãos crispadas agarram o chão

O teu corpo hirto parte-se


O sol inclina-se sobre a tua face

A montanha desaba, o cavalo cala-se


A tua solidão é completa

É uma pedra no deserto


A tua alma exila-se devagar

Agora só Deus existe.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

No centenário de Machado de Assis

Hoje comemoramos o centenário da morte de Machado de Assis. Comemorar-se a morte? É meio estranho; no entanto, é o que temos. Tivemos e ainda temos este escritor enorme entre nós: isto é motivo de comemoração. Todo povo precisa de seus heróis; às vezes esquecemo-nos de que há heróis no campo do Espírito; pois os há, e Machado foi o maior deles, neste pobre Brasil.

Já afirmei que todos somos filhos de Machado de Assis; os que escrevem páginas magistrais e nós, os outros, que escrevemos páginas de discípulos geralmente envergonhados. Há os filhos que renegam o pai, como de hábito, mas como não é o hábito que faz o monge, são filhos, por eles mesmos proclamados bastardos, mas filhos. Há, e são legiões, os que se orgulham do pai. Machado era negro e pobre, o que nos é mais motivo de orgulho do pai que temos; venceu duas das maiores barreiras que o homem tem no seu caminho, o preconceito e a pobreza, uma filha da outra; uma prova de que não há barreiras para o gênio.

Somos filhos de um gênio. A sensibilidade brasileira, na língua que escrevemos, é machadiana. Com a sua tinta da galhofa e da melancolia, às vezes muito mais galhofa do que melancolia, ou vice-versa, uma querendo encobrir a outra, como se fossem emblemas vergonhosos.

A tinta da galhofa e da melancolia! Esta é a primeira passagem machadiana apontada como preferida por escritores e intelectuais. É boa, define bem a sensibilidade brasileira, mas eu quero botar a minha colher no angu e apontar a minha, que talvez não seja apenas minha. Rachel de Queirós, décadas atrás, quando eu era ainda um adolescente, disse que daria toda a sua obra para ter a honra de ter escrito os dois capítulos finais de Quincas Borba. Eu também. Por pequena que seja a minha obra, e quanto menor, mais o anseio, ah, como desejaria ter esse estilo enxuto e largo desses dois breves capítulos.

Costumo dizer que meu escritor preferido é Graciliano Ramos, embora reconheça a grandeza de Machado e de Guimarães Rosa. Digo que Graciliano tem maior carga de humanidade no que escreve, de sangue, de sentimento em seu estado natural, não conspurcado pelas impurezas do intelectualismo, como em Machado e em Rosa. Mas tenho que me desdizer observando esses dois capítulos mínimos: suas palavras estão em estado puro, foram elas que geraram um Graciliano; e a emoção vem também em estado bruto, polida, mas sem atingir a abstração dos polimentos intelectuais.

Não é pouco escrever estas palavras, e eu ia dizer, e digo: palavras-cinzel, tanto cortam a matéria bruta, virgem, do que dizem, como se o não dissessem, como se tivessem vergonha de dizer tanto: “Não morreu súbdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, – uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas.”

É dizer demais, principalmente no final: “pegou em nada, levantou nada e cingiu nada”. O coitado do personagem, em sua pobre agonia, não pega, nem levanta, nem cinge nada, mas quanto o escritor, com a sua carga de criador descomunal, nos dá a ver com essas palavras mínimas. Nós, seus distantes e embasbacados leitores, vemos e apalpamos a ilusão do infeliz Rubião. “Onde os espectadores palpassem a ilusão.” Sim, senhores: nós acariciamos a ilusão, nessas palavras medidas.

E querem maior força no descrever a abdicação deste mundo desditoso? Já usei a palavra, que repito: abdicação. “A cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.” Dois minutos de agonia, dous! – é preciso dizer bem. Um trejeito horrível, e que outra careta esperavam de quem se despede no seu momento supremo? Horrível. Não é preciso explicar mais nada. “E estava assinada a abdicação.” Como se fôssemos imperadores desta nossa condição humana, e abdicássemos. Em favor de quem? Contrariados, mas por vontade própria, os imperadores assinam sua abdicação. Nós teremos alguma vontade, no último degrau?

Por fim, as derradeiras palavras do romance, e sua concludente filosofia da amargura contida: “Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.” A pena da galhofa e da melancolia era apanágio de Brás Cubas? Ri-te! Tristíssimo palhaço, leitor, homem, com a estrela do ideal tão longe, com o cruzeiro de Deus ou da indiferença perdido na imensidão! O riso e o choro se irmanam nessa elegia do homem, cantada com as tintas da galhofa e da melancolia, leitor, meu irmão, tristíssimo e risível palhaço.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Saída de Itaguá















O barco descansa na praia. A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol.

Urubus ao lado esperam inquietos. Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar. As ondas brancas quebram-se na areia, o peito branco dos atobás eleva-se muito alto.

Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas para os urubus e depois para os atobás no mar.

Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica, onde o mar desenhou árvores delicadas (procuro as flores e os frutos nos galhos).

Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha.

O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar.

Como um cachorro, o universo lambe os meus pés.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Crônica de primavera

Estamos na primavera. É inacreditável, mas estamos na primavera. Não parece, os dias continuam feios, cinzas, sem graça. O calendário deve estar errado. Não pode ser. Estamos em plena estação das flores, do verde, da vida, mas um ar triste paira sobre as coisas. O sr. Prefeito tomou a providência anual de enfeitar com coroas de flores os monumentos da cidade; reconheço a boa, ótima intenção, mas o caso é que não convence, é artificial, está nos dizendo que é o primeiro dia da primavera e ninguém vê mudança nenhuma, o estado de espírito é de inverno, dominando, teimoso.


As praias começam a ser procuradas, é verdade, às vezes enchem-se de gente; mas o sol, indeciso, custa a aparecer e não tarda a ir-se embora; mas o vento frio vai e vem, a temperatura cambiante oferta à população o direito à gripe e à melancolia. As ruas exalam mau-cheiro, homens e crianças torcem os narizes; é mais um motivo para fazer cara feia; um constipado pode ser conveniente, evita o contato com o podre, que polui até a alma. Onde está a primavera? Penso em Machado de Assis: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” E em Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.”


Falei acima em “estado de espírito”. Pois a primavera é um estado de espírito. Que infelizmente toldou-se de nuvens estranhas. Houve uma mudança, que deve ter sua causa. Primeiro mudam-se os tempos, depois mudam-se as vontades. O problema está no tempo e eu, o meu estado de espírito primaveril, vou encontrá-lo numa longínqua infância que a memória, por um impulso inadvertido, às vezes traz à tona da consciência.


Para mim a primavera é o mato, o cheiro do mato, o orvalho, a terra molhada, o capim amassado, o estrume das vacas. É um mundo primitivo, feito de ingenuidade e força telúrica. Um mundo em que domina a voz de meu pai, gritando com as vacas ou com a chuva. E havia o grande terreiro de café, os passos medidos de meu pai manejando o rastelo e os grãos de café, vermelhos, muito vermelhos, alguns levemente avermelhados, ou verdes, amarelados, quase negros – e eu, menino, agachadinho num canto, um grande cacho de mamona na mão, gozando o espetáculo: era uma festa de cores, e eram as cores da minha primavera. Não me lembro particularmente das flores, embora minha mãe nunca tenha deixado de cultivar os seus jardins; talvez o bom moleque sempre prefira andar atrás dos seus passarinhos, em andanças sem fim, ou das frutas, as gordas jabuticabas, as mangas, as goiabas, os coquinhos... Minha ambição era conseguir trepar ao alto do mais alto coqueiro! E me lembro da quietude das noites, as estrelas e os pirilampos, os morcegos e as corujas, e os vultos dos bois no pasto, os vultos dos coqueiros, árvores, plantações ao longe, mais ao longe morros e casas, os muitos vultos da noite, e o sono, o corpo cansado e satisfeito. E o amanhecer, o frescor saudável das madrugadas, o leite espumante na mangueira, sob o mugido das vacas, pisando o barro vermelho, desviando dos montes de estrume...


Muito depois, mais de vinte anos depois escrevi um poema, e um verso enfatizava “o perfume quente dos estrumes”; meu amigo Heusner Tablas discordava: perfume? Mas eu o sentia assim, e ele tinha que saber: a imagem era boa, sugestiva, e verdadeira, pelo menos para nós, filhos do mato. Tornamo-nos citadinos, trabalhamos com palavras ou números, mas o nosso sentimento, na raiz da nossa intimidade com as coisas, a nossa verdade mais interior está, de qualquer modo, ligada à terra. Não importa que não saibamos expressá-la; nós, mesmo sem percebê-lo, a vivemos. E quando falamos em primavera, observando o simulacro de primavera civilizada na urbe moderna, os olhos voltam-se para o passado, nostalgicamente, dentro de nós.


(Crônica publicada no jornal "A Tribuna", de Santos, em 23 de setembro de 1978. O mal que dizem do homem, que transforma o planeta em que vive, já aparece nesta crônica de 30 anos.)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A INVENÇÃO DA PAISAGEM


O vermelho pinga no céu de alto a baixo, o barranco abre uma boca enorme e boceja. As flores brotavam da casa e das árvores de cócoras se penteando no espelho do rio. Sou menino pescando na minha varanda alta, os pés balançando sobre o baile das águas.

O limo vai subindo pelas paredes do poço, as samambaias bailarinas brilham cantando. O mundo é uma canoa de pássaros e peixes, as estrelas caem de banda ao sol do meio-dia. As vacas vêm beber com o verde na garganta. Um velho se agacha na beira d’água e sonha. Ergo nas mãos o meu farol e ilumino o mundo.

*

Eu tinha borboletas amarelas no olhar. Sementes e palavras me brotavam da boca.

Aquele lugar era meu como o meu corpo. Era meu o sol e eram minhas as árvores, era minha a água, era minha a terra, eram meus os bezerros e as garças da tarde.

O meu moinho mói o universo com doçura.

*

Eu andava no meio do mato, com o sol na frente e árvores ao lado, muitas léguas ao redor. Eu tinha o sol na frente e andava e as árvores andavam comigo. Eu estava muito bem acompanhado.

Ouvia sons vindo de toda parte, com a luz coada entre os galhos. Ouvia vozes me ensinando o caminho, eu sempre sabia por onde andava.

As folhas brilhavam nos meus olhos, a água clara cantava na minha língua. Eu sempre soube as palavras do mato, eu sempre tive sementes na língua.

*

Ainda fazia escuro, apenas se ouvia um ou outro pio de pássaro, como se também os passarinhos tivessem sono e se espreguiçassem nos seus ninhos ou nos galhos das árvores, os olhinhos assustados entre as folhas quase negras.

Era um rancho de boiadeiros, numa invernada perdida em lugar nenhum, sem nenhuma estrada por perto, sem nenhum sinal de vida humana. O silêncio escuro de antes da madrugada, uma harmonia simples, de quem não precisa refletir sobre nada. Quebra o silêncio a calha d’água, que cantava clara, iluminando o escuro.

A calha d’água, que era como se não existisse, se revela em toda sua pureza. Aquela música líquida, tão alegre, viva, íntima. A água fria, jovem, mal nascida, saindo das fraldas da noite, lavava e alimentava a terra. O dia flutuava leve sobre o orvalho, como se levado pela água da calha

*

Uma ponte sobre o córrego. Abaixo ficavam as pedras e a areia; acima, a ponte: grossas toras de madeira. A água e o ar são elementos naturais, estão em harmonia comigo no universo. O chão que piso é o meu domicílio.

Sou envolvido de claridade. Esta ponte faz parte da paisagem como as árvores fortes de onde veio. Essas coisas simples – a ponte, o córrego, as pedras, a areia, as árvores – compõem o universo.

*

A borboleta conversa com a árvore e o escorpião passeia entre as pedras. Estou na varanda olhando o tempo, o mormaço da tarde me envolve.

Uma taturana queima o meu olhar. O cabrito salta a porteira da cerca, os cavalos relincham no pasto e bebem o sol.

*

O flamingo equilibra a perna fina do silêncio. A árvore madura tem o sol no bico. Não acabei de fazer o meu pássaro, mas ele inventa a minha paisagem.


terça-feira, 9 de setembro de 2008

Fado Português

Estou lendo, aos trancos e barrancos, “Fado Alexandrino”, de António Lobo Antunes. A primeira observação que me faço é de que Lobo Antunes nos revela, mais uma vez, que não se lê um romance para descobrir o que acontece no final, mas para saborear o que acontece a cada passo. Lê-se pelo prazer de cada frase, de cada imagem, da movimentação das cenas, como quando se viaja e se tem prazer no próprio ato de viajar, não em chegar a determinado lugar.

A segunda observação é o quanto é risível a tentativa de unificar a língua portuguesa, por decreto. Anotei em algumas páginas palavras portuguesas que nenhum decreto tornará brasileiras. A ortografia é a mesma, mas... Você saberia me dizer o que são “cagufas”? Como você logo viu que o autor gosta de palavrões, teria aí embutido algum palavrão? E o que serão “mirones”, “miúfa”, “espalhanco”, “som mate”? Alguém poderia me dizer? Algum dicionário de Portugal, talvez, nunca uma nova ortografia.

Às vezes a expressão é inteligível pelo contexto: entendo que “grosso” é bêbado, “caraças” é caralho. “Não se agüentava nas canetas” posso entender o que é. “Paneleiros e “bicha” já me contaram, e não têm nada a ver uma com a outra. Leio “assaloiado” e me lembro do “Sargento de Milícias” em que a personagem era “salóia”, talvez por proceder de tal ou qual lugar, e por ser velhaca.

Mas nem maiores nem menores explicações encontro para “à rasca”, “tareia”, “esparregado”, “chiça”, “garranas”, “laracha”, “esparregado”, “camandro”, “arrecuas”, “pantanas”, “sarrabulho”, “sanitas”, “rebaldaria”, “alcofas”, “pagelas”, “magalhas”, “badagaio”, “pataleta”. É bem verdade que algumas dessas palavras estarão no meu dicionário. Encontrei “alcofas”, tipo de cesto de vime. Mas alguém poderia me dizer o que é um “roberto de feira”. Conheço o nome próprio Roberto, sei bem o que é uma feira, mas me diga – com todas as reformas ortográficas! –, o que será um “roberto de feira”?

Por isso falei que estava lendo “aos trancos e barrancos” o “Fado Alexandrino” de António Lobo Antunes. Não sei se os portugueses entenderiam a expressão “aos trancos e barrancos”. Eu não entendo boa parte das setecentas páginas do grande Lobo Antunes, que é um grande escritor, repito, mas muitas vezes incompreensível para os pobres brasileiros. E nenhuma reforma ortográfica vai nos aproximar da beleza da sua linguagem.