terça-feira, 18 de novembro de 2008

NÃO ME ENSINEM A MORRER, DIZIA MEU AVÔ

No meio da noite

deitado

em decúbito dorsal

como um morto


no escuro

quase líquido de tão escuro

quase me afogando entre os peixes e as estrelas

apagadas


como quem não quer nada

(não queria nada)

eu me descobri mortal


como se já não o soubesse

como se fosse mentira

que vamos todos morrer


e só eu não o soubesse

e como se saber mudasse alguma coisa

na loisa ou lousa (são complicadas as palavras)

do destino


a lua entrava enorme pela janela aberta

entrava a via-láctea com todo o leite das estrelas

apagadas, esfumaçadas, leite feito bruma

no mar-alto baixando dentro de mim


falei Vou morrer

e era como se estivesse morto

não conseguia me mexer

os olhos escorriam pela face


me lembrei da tão bela morte na sua face

mas a minha não poderia estar morta


eu estava morto

embora não me mexesse

um morto se mexe terrivelmente

para cá e para lá, não se aquieta na cova

mesmo que não haja cova


eu estava morto no espelho

mesmo que não houvesse espelho

para eu me ver morto


eu estava morto sobre o mármore de um túmulo

não meu


o dono do túmulo me expulsava

eu queria ir embora

com meus quatrocentos cavalos

mas não me mexia


fora só me descobrir mortal

para estar morto

sobre o mármore inútil

com nenhum pássaro pousado sobre meu cadáver


e o além?

as dúvidas do além-túmulo?

um cadáver repousa quieto como uma árvore sem mar

como uma enxada enferrujada debaixo da escada

como uma pedra quando é mais pedra a

pedra na mesa da sala de visitas


o além-túmulo estava aquém

e eu dormia finalmente

e ressonava ressonava como um morto não ressona


quando me levantei no dia seguinte e me olhei no espelho

não estava lá

mas já não me importava


tinha aprendido a lição de morrer:

um morto cala a boca.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alba e Mattina

“Alba” é a minha leitura de “Mattina”, o poema mais famoso de Giuseppe Ungaretti (1888-1970). “Mattina” é a prova de que poesia é intraduzível. Como recriar em outra língua a beleza e a amplitude de visão daquele punhadinho de palavras?


Quem não se lembra de imediato (e para quem se lembra, para se deliciar mais uma vez com o encantamento dessas palavras), o poema é isto:


Mattina


M’illumino

d’immenso.


Um poema completo, que vai tão longe, de perder o fôlego. Como recriá-lo em português? E já usei duas vezes o verbo “recriar”. Não gosto muito desse termo para me referir à tradução, mas que outro usar? Transcriação? Augusto de Campos traduziu: “Deslumbro-me / de imenso.” Onde fica a iluminação, que desde Rimbaud, é uma explosão nas entranhas do universo?


Prefiro pensar em tradução como um subsídio para o leitor ler o original. Há casos dificílimos, como esse de “Mattina”. A minha seria básica: “Ilumino-me / de imensidade.” Mas falta nela, como em todas que conheço (não por deficiência dos autores, mas pela dificuldade da realização), a magnitude e a iluminação do texto de Ungaretti.


Eu preferiria falar na possibilidade de traduzir-se o espírito do texto, como queria Borges. Na prática, a gramática da criação (Steiner) é outra.


Prefiro dizer que “Alba” é um poema meu, criado d’après “Mattina”, de Ungaretti.


Alba


A dor das ameixas

abrindo-se à luz.


*


Não gosto de explicações de poesia, principalmente da minha (da do próprio poeta). O autor apresenta o poema, o leitor frui a poesia ou ela flui por ele.


A comparação é feia, mas costumo lembrar a piada. Perde toda a graça se você precisa explicar. Verdade que há maus contadores de piada, mas é freqüente encontrar-se maus ouvintes. É a mesma coisa com a poesia.


Mas pensei em contar a história de meu pequeno poema quando li o comentário do Aldy Carvalho a “Alba”: “E a luz se fez e toda claridade absorvida na retina / Em toda claridade dos sentidos”. Era como se ele estivesse falando de “Mattina”. Talvez estivesse.

O caramujo

Uma mulher parou, depois outra, e outra, enfim uma dúzia de senhoras curiosas contemplavam o caramujo. Talvez fossem apenas quatro, mas ainda assim, eram mulheres pra caramba. O caramujo era grande, era enorme, mas não justificava tanto interesse. Nunca viram?

Veio com a chuva de ontem, alguém explicou. O Aran ajoelhou-se diante do caramujo, observou-o atentamente (as mulheres tinham se afastado). Olha que distância caminhou, disse, deve estar numa velocidade fenomenal.

Veio uma boa alma, na figura de uma velha algo caricata. Logo pegou de uma sacola plástica, queria por tudo salvar o pobre habitante daquela carcaça. Mas a lesma, pegajosa, com toda a sua gosma, adstringia-se ao solo.

Aproximei-me, toquei com o pé o caramujo. A velha enfureceu-se. Saia de perto, não machuque o coitado.

Queria levá-lo para a praça próxima, para que não morresse. Mas como desgrudá-lo do solo? Alguém sugeriu que se jogasse água. Inútil. A lesma, com a sua casa às costas, estava grudada definitivamente ao chão.

E não adiantava ninguém tentar ajudar. A velha o escorraçava. Era preciso salvar o bichinho, o que, ela deixava claro, não incluía arrebentá-lo.

O Aran filosofava, como se lembrasse Zenão e a tartaruga, outro bicho que carrega a casa às costas. O que é o tempo? O tempo não existe. Quando você pensa em medi-lo, quantos segundos, talvez minutos, se passaram desde a última investida do caramujo em direção a seu destino, eis que ele se locomoveu um outro tanto, invisível, mas existente.

Um outro jovem se aproxima, tira uma embalagem do bolso, tira um cd da embalagem, e usa-a como alavanca para deslocar o caramujo. Não de um lugar para outro, isso ele o faz sem ajuda, invisivelmente. Mas para deslocá-lo do calçamento. E realiza a façanha.

Entregue o animal à vetusta senhora, amiga dos caramujos indefesos, pensa que ela lhe agradeceu? Pisou-lhe no pé, com raiva. E quando uma outra senhora perguntou-lhe quem desgrudara o molusco do cimento, sabem o que ela respondeu? Foi aquele bundão ali!

Faça o bem sem olhar a quem, seja um Bundão. Assim com maiúsculas, para enfatizar bem o nome do praticante de uma boa ação às cegas.

A agradecida senhora afastou-se com o caramujo na ponta dos dedos. Como se carregasse uma carga preciosa.

E era. Uma lesma, lenta, lenta, que se deslocava como se não saísse do lugar, prova de que não só o tempo, mas também o espaço e o movimento não existem.

Todos os filósofos do mundo não valem um caramujo ao sol da tarde escaldante. Algo no universo foi transformado com a mudança do habitat desse caramujo. Tivesse morrido esmagado por alguma botina incauta, não seria maior o estrago.

O homem, com o concurso daquela vetusta senhora, interferiu na existência de um molusco. A vida no universo não será mais a mesma.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Nonsense, Ensaio sobre a Cegueira

O problema do nonsense é que sempre faz muito sentido.


Costumo dizer que sempre é muito tempo, mas não é do tempo que pretendo falar aqui. Aliás, escrever. A vantagem em se escrever, é que se podem encher laudas e laudas de papel sem dizer nada. Também se pode falar sem dizer nada: é o que todo mundo faz.


É mais uma tautologia. Fala-se e escreve-se demais sem dizer nada.


A inutilidade da linguagem é um fato incontestável. Talvez pareça absurdo, pelo menos ninguém quer admiti-lo.


A inutilidade das ações humanas é incontestável. Há um número minimamente certo de ações necessárias: comer e defecar, por exemplo. Mas as grandes decisões humanas? Ou as pequenas decisões (que não se pode medir o peso de uma decisão)? Trabalhar, realizar ações repetitivas e sem sentido (olha aí o nonsense!). Conviver, amar o meu semelhante, esse estúpido. Amar a mulher, ou no caso dela, amar o homem, esse estúpido e essa estúpida.


O meu semelhante é um estúpido, portanto eu sou um estúpido.


Bem que Flaubert quis escrever, em Bouvard e Pecuchet, uma compilação de toda estupidez humana.


Bem que Stanislaw Ponte Preta escreveu o seu Febeapá, ou, por extenso, Festival de Besteira que Assola o País.


Felizmente morreram Flaubert e Ponte Preta. Tinham um trabalho interminável pela frente.


Não há suplício pior para o homem, esse Tântalo, do que um trabalho interminável e sem sentido. O caráter de interminável tira qualquer sentido de um trabalho.


Quando se fala em nonsense pensa-se em absurdo, quando se fala em absurdo, pensa-se em Kafka. Não contem isso para Kafka. O homem escrevia com a maior naturalidade como se não tivesse noção nenhuma de nonsense ou absurdo.


Nós é que somos absurdos, queremos uma lógica (nossa, como se fôssemos lógicos) para a realidade.


Saramago escreveu um Ensaio sobre a Cegueira, que estupidez! Meirelles fez um filme, outra estupidez.


Em terra de cego quem tem um olho é rei ou caolho? E quem tem os dois, que suplício! Agüentar a cegueira do mundo inteiro e achar-se anormal por isso. Conceber-se uma idéia dessas é sinal do fim dos tempos.


Um homem estava sentado com um porrete deste tamanho, uns dois metros e coisa, na porta de uma loja fechada do Calçadão. Quando passei, aconteceu de ele se levantar e o porrete quase me arrebenta a cabeça. Ergui os dois braços e abri a boca para gritar: “Parece cego, cara!”


Fui ruminando o grito por uns duzentos metros, quando me lembrei de voltar. Lá vinha o homem com o seu bordão que mais parecia um porrete, toque, toque, apalpando o chão. De repente, pá! Trombou com um poste.


Era um cego e nem sabia orientar-se com o seu bordão. Entrou na minha crônica para provar que não tinha nada a fazer aqui. Absurdos da vida.


Mas dizem que o cego é um homem feliz, vive rindo, de bem com a vida. O meu cego nem praguejou contra o poste, o prefeito, Deus ou o diabo. Deu dois passos à esquerda, mais para o meio do Calçadão, e seguiu seu caminho. Feliz?


É verdade que o surdo vive de cara amarrada e o cego sorri para a vida. Por quê? O surdo não sabe o que falam dele e vive enfezado. O cego tem os outros sentidos apurados, ouve muito bem o que falam dele e, como ainda por cima não vê a cara do adversário, sorri.


O cego tem a serenidade dos estóicos.


O surdo vive enfezado, isto é, cheio de fezes. E ainda querem que sorria?


Voltemos ao Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. Não somos todos cegos? Não sorrimos para a vida com a estultice dos cegos?


Podem chamar a essa atitude serenidade ou estoicismo, será sempre estultice.


Você nunca ouviu dizer que o mundo será dos estúpidos? Nós, que somos muito espertos. Nós, que nos amávamos tanto. Ou nos odiávamos, nos desprezávamos. Nós nos olhávamos com os óculos da indiferença, que é a forma mais elegante do ódio? Quem somos nós?


Chamamos o nosso semelhante de estúpido: somos estúpidos. O mundo será nosso, estúpidos? É estupidez querer apossar-nos deste mundo estúpido. Uma bela charada do absurdo.


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dentro da noite verde


Andamos dentro da noite quente, da noite verde, ouvindo os barulhos do escuro verde e quente. A Sônia queria fotografar a lua refletida nas águas do rio Tietê, e lá fomos nós através da longa ponte. Temerosos, sozinhos na ponte solitária. Como dois bichos, disse a Sônia. Como deuses, digo eu, que sou mais pretensioso.

É normal dos bichos a solidão escura. Interessante, indescritível: ouvir os barulhos da noite. As vozes, a estranha linguagem da noite. Porque a noite falava. Distinguíamos as cigarras, os grilos, mas ouvíamos mil outros sons – articulados, essa estranha linguagem. Não exagero ao dizer “mil outros sons”: uma infinidade de sons nos acompanhava.

Pássaros noturnos, que nos estranhavam. Vimos claramente visto, apesar do escuro, dois quero-queros nos enfrentarem: estávamos em seu terreno. Mas muitos outros pássaros não vimos: sabemos que fomos vistos e estranhados. Falamos dessa estranheza da noite: nós é que éramos estranhos. Nós, bichos da cidade, é que não estávamos no nosso elemento.

O gerente do hotel à beira rio nos animara: poderíamos caminhar à vontade, a ponte é monitorada, não há perigo. Alguma cobra poderia cruzar-nos a frente, mas não havia perigo. Não houve perigo. Houve maravilhamento.

Não vimos a lua refletida nas águas negras, lá embaixo, invisíveis. Vimos o brilho da lua multiplicado, num rodamoinho a um canto da ponte, multifacetada, como estrelas líquidas dançando nas águas inquietas, violentas e doces.

As águas iam e vinham, quebravam-se nas pedras, com estrondo. Longínquas, quase inaudíveis. Quase: nós as ouvíamos mais com a imaginação.

A Sônia fotografou a lua entre as árvores. Como a lua não veio mirar-se no espelho das águas, nós a contemplamos no espelho do ar da noite. Entre as árvores. Foi quando soubemos que a noite não é negra, mas verde. As fotos, batidas no escuro, deixam-nos ver o verde, nítido, forte, vívido. Como o verde é verde! Mesmo à noite. Porque a noite não é escura, mas verde.

O vento batia-nos nas faces. Havia apenas uma leve brisa, mas eu digo: o vento, o vento escuro batia-nos nas faces, nos olhos, no corpo todo. Sacudia-nos o corpo, talvez a alma.

O corpo não se mexia com essa brisa suave, esse ar quase parado. Mas a alma! A alma entrava em êxtase, eu diria, se o êxtase não fosse para os santos, em situações excepcionais. Não somos santos, mas vivíamos uma situação excepcional. A alma projetava-se para fora do corpo, com esse ar parado.

Filmei a Sônia caminhando no escuro: não se vê nem a sua sombra escura, a imagem de um fantasma caminhando. Mas ela está ali. Assim é a existência da alma: ela está ali.

No meio da ponte, entre o céu e a água, nós estamos perto de Deus. Por isso eu disse que éramos como deuses. Um fio muito tênue ligava-nos a Deus.

A alma estava ali. Levava-nos, num lance mágico, para perto de Deus.

Um fio muito tênue e firme, firmíssimo, ligava-nos a Deus.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O navio dos mortos

O navio dos mortos deixa o porto

À deriva, entre os calhaus


Uma estrela doente cai do céu

Agoniza na areia da praia


A fuligem das chaminés inunda o mar

E a minha garganta


Ajoelhado em folhas de sal

Acaricio a ossada do último cavalo


Os olhos secos afastam-se na bruma

São como um farol dançando no rochedo


Ergo o cálice de ouro negro

E bebo o vinho da dor


Os dedos sangrando seguram a linha

Da pandorga do eterno.


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Chão de passarinhos

E me beijei de sol, me salguei com as andorinhas

E o guaxo era preto e era vermelho


Era vermelho e revoluteava como um diabo coxo

O sapo dá uma cambalhota e assopra


Cachimbo de sapo nunca se apaga

Sapo mija atrás da moita


Abre caminho para boi, para boiada passar

Sapo gosta de pau e pia-piou folharada d’água


Pó de pau, cupim, caruncho chamando o boi sozinho

Fazendo o sol arrebentar


Capivara fabricava chão por onde meu umbigo rastejava

Eu sou esse chão de passarinhos


Venho comer na minha mão, venho beber água no meu umbigo

Quebro uma e duas garrafas e o demônio se escapa


Nas asas do guaxo que redemunha e redemunha.


Sol no umbigo

Eu tinha um sol no umbigo cheio de passarinhos

A cobra rasteja com as perninhas nervosas


Para debaixo de mim

Eu era um lambari sentado no alto de uma árvore


E cantava tangendo as cordas da viola

Com os passarinhos me acompanhando


Eu nadava vermelho com o sol incendiando o rio

Capim-gordura pegava fogo, passarinhada despencava do céu


Meu umbigo era um ninho vermelho de guaxo vermelho

Estuprado de marimbondos


Pegava o vento como um peixe pelo rabo

A cara colada no chão ouvia o vento vindo


Ouvia o vento indo na terra verde

Com as perninhas tortas como uma cobra apressadinha.


O espelho do tempo

A vaca Moela e o bezerro Bito babujam o sonho
Sonhado da infância até agora

O ribeirão não tinha peixes
Tinha lágrimas na areia e nos espinhos do barranco

Onde um pé de cabeça-de-negro se dependurava
A morte sorria como uma orquídea

No alto de um jacarandá
A esmeralda brilhava numa pétala de sol

No fundo do poço, a minha face
Degolada pela guilhotina do espelho do tempo

A minha face vai e vem, vem e vai continuamente
Como um pêndulo sem fim

Os cavalos, no alto das patas traseiras, relinchavam
Traziam o sol nas patas e relinchavam e cantavam.

A madeira estrala no eterno

Os meus olhos desmoronam com os telhados,
As teias de aranha, os morcegos e as raposas

A estrada se esfarelou no horizonte
Com as nuvens e as fogueiras do anoitecer

As formigas levaram as folhas das roseiras para nunca mais
Eu quero o verde, o verde, o verde

Eu quero o sol, eu quero o azul do céu
Eu quero subir a árvore do tempo

Na montanha em chamas da infância eterna
As escadarias apodreceram

Mas a minha árvore é sempre verde
Acendo a fogueira na casa desmoronada

Com as pedras de fogo dos meus olhos
Os olhos do meu pai estão nos meus olhos

Os meus olhos estão nos olhos do meu filho
O fogo queima a madeira, que estrala, rubra, no eterno.

A bilha quebrada


Outra vez te revejo, Dois Córregos, mais uma vez

Caminhamos lado a lado como dois estranhos


Não me reconheces e eu não te reconheço

Mas o mesmo sangue corre nas nossas veias


A mesma estranheza aos olhos de fora, tão outros

A mesma alma nos habita, como uma casa muito antiga


Os seus fantasmas esquecidos passeando pelos corredores

O menino que fui, homem de barro, cacos pelos caminhos


Tudo foi dado ao menino e tudo tirado ao homem

Mas permanece, pulsando dentro, como boa paga


Estendo a mão aberta, vazia. Somente eu sinto o peso

Do homem que ela carrega, um tição queimando na noite


A terra vermelha e a árvore verde cantam com todos os pássaros

Eu sozinho, menino e homem, como uma bilha quebrada


E com toda a inteireza de ainda ser bilha, no espaço

E na terra, matéria humana e quase divina.



As brumas do eterno


Dois Córregos sou eu e meus fantasmas envergonhados

Os paralelepípedos sérios, conversando nas esquinas


À sombra dos lampiões da fábula, com óleo inextinguível

Uma vez vi um lobisomem sobre um muro, tinha dentes de bicho


E vergonha de homem. Fugimos devagar, um olhando para o outro

Na rua as sombras dos parentes mortos dialogando no escuro


E se apalpando para ter certeza de que estão mesmo mortos

O saci-pererê não andou por aqui, nem a mula-sem-cabeça


Nem o unhudo da Pedra Branca e suas jabuticabas bravas

Andou por aqui o meu avô e, antes, o meu bisavô João Ventura


Que abriu o sertão de um mato enorme, que chamou de Matão

Virou uma fazenda, multiplicada para os descendentes, amém.


Dois Córregos é o meu pai caminhando com os mortos no bolso

Orgulhoso daqueles mortos todos, que vieram povoar esta terra


E agora dormem com ele, refestelados nas brumas do eterno.



Pombos caem


Pombos caem do céu

Como frutos estourando de maduros


A infância era azul, sem lápides

Os guizos da cascavel me encantavam


Nos ladrilhos quadriculados da varanda

Eu sonhava com a árvore dos dias


No jardim os gerânios vermelhos dançavam

Os copos-de-leite cochilavam


Nos canteiros de sombra

Os sabiás empurram as raízes da paisagem para agora


O mel inunda o pomar tranqüilo

Na roseira do êxtase um pássaro canta


Eu sonhava na varanda, no quarto

No alto do telhado eu sonhava.


Oficina da quietude


Morte, qual é o teu nome? Enguia, centelha?

Conjuro a preguiça da relva


A aranha tece a agonia com um grito além-cinza

Quebro a faca no escuro do poço


Quero a palavra da oficina da quietude

A garça bebe a água do crepúsculo


A morte é pouca para que a luz arrebente

O sapo coaxa, não encontra mais que o eco


Que reza como o pêndulo na noite

E a tesoura retalha e a enxada cobre


O meu cavalo me leva para as invernadas

Para o sol no abismo do mistério


Eu me aninho no ventre azul da luz

Esqueço a razão no corpo que me agasalha.


O monjolo do tempo

O monjolo marcava o tempo na água

O moinho moía a farinha e os galos


O canto dos pássaros bordava o dia

O arado tombava a carne da terra


As sementes sorriam prenunciando a flor e a espiga

A noite me embalava na copa da figueira


Longe os latidos dos cães loucos

Eu me aconchegava no seio da lua


Como no embalo de uma rede e sonhava

Os grilos brigavam com os vaga-lumes entre os coqueiros


As estrelas caíam com o sereno

O leite da madrugada era doce como a vaca Moela


O bezerro Bito mamava com sofreguidão

A Moela e o Bito, eu me dizia, sabem o meu nome.


O útero da terra

A faca da morte decepou a cabeça do carneiro

Sobre o riacho tranqüilo


Esta campa é de ninguém

E sangra nas ranhuras do mármore


Quem pisou na palavra?

Estava nua, porejava leite e orvalho


Quem pisou – para nunca mais?

O mundo caiu


Da figueira, da casa, do poço abandonado

Para onde quer que eu olhe


É morte

E a infância se me escapa por entre os dedos


Silencioso eu me deito na terra vermelha

Como no útero da minha mãe.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ofício de poeta

É inútil ficar com raiva do homem

É muito alta a montanha e pesada a pedra


Os olhos são duros, as lágrimas de vidro

Se quebram no espelho envergonhado


Vesti a minha máscara azul

Saí dando pinotes pela rua


As ranhuras na face de madeira

O mundo me ignorava como a um cão


A coleira me esfola o pescoço

Os meus latidos não acordam o sol


As palavras hipócritas na esquina

São o meu osso, o meu trigo, o meu vinho


As águas continuam a correr sob a árvore

É inútil ficar com raiva de Deus.


Resíduo

Os ratos e as baratas passeiam sob o assoalho

Comem o pó dos homens que por aqui passaram


Os fantasmas cozinham em seus caldeirões

A sopa dos restolhos do antigamente


Sobraram-nos as palavras, velhas, gastas

Caem sob as cortinas sem rumor, plácidas


As cortinas estão puídas, alimentam os percevejos

E os vermes do tempo implacável


A música já não toca. Os pássaros e seus cantos

Estão empalhados em algum quarto fechado


Uma parede nos separa da rua, de Deus

De quem somos resta um cântaro quebrado


A água toda se escoou. O vinho se escoou

Enquanto isso, no escuro, a aranha tece a teia.


Parusia

Penetro no fogo com os braços abertos

Trago o abismo nos olhos na ponta da língua


Cavalgo no campo das estrelas

Tendo a terra e a água por testemunha


Ofereço o meu espírito com sangue nas mãos

Ergo ao céu o candelabro da grande águia


Escrevo impelido pela força dos ventos

Com o trovão ribombando nos pulmões


O amor deixou a morte nas catacumbas

Trasladou-me para a vida das alturas


Converso com o peixe do mar alto

O que me foi segredado nas profundezas


A mesa está posta para a ceia do amor

Para a sua chegada no fim dos tempos.


Exílio

Os teus olhos fitam o céu para sempre

O azul penetra neles como um mar


Pássaros caem no chão seco

Um avião explode, destroços e sangue voam


O vento cruel fere os teus lábios

Não leva o pó incrustado nas ranhuras


As tuas mãos crispadas agarram o chão

O teu corpo hirto parte-se


O sol inclina-se sobre a tua face

A montanha desaba, o cavalo cala-se


A tua solidão é completa

É uma pedra no deserto


A tua alma exila-se devagar

Agora só Deus existe.