domingo, 23 de agosto de 2009

Nenpuku Sato, poeta visceralmente brasileiro

Dizer “visceralmente” parece exagerado, mas não sou eu quem o diz. Nenpuku Sato traz as vísceras no nome. Chamava-se Kenjiro, e adotou o nome literário Nenpuku – em que “nen” significa “sentir”, e “puku”, “vísceras”: “sentir com as vísceras”.

Chegou ao Brasil em 1927, incumbido por seu mestre Kyoshi de ensinar o haiku aos imigrantes.

Kyoshi era herdeiro de Shiki, o sucessor de Bashô, Buson e Issa. Shiki é responsável pela modernização do haiku, respeitando-lhe a tradição. Contra o que havia de zen em Bashô, aprovando a aproximação com a pintura em Buson, queria um haiku eminentemente literário.

Era essa a lição de Nenpuku: a simplicidade, sem nenhum pedantismo, a pintura com as palavras. Mantendo os princípios técnicos do haiku: um mínimo de 17 sons (pés ou sílabas, para nós) e o kigô, a notação sazonal.

Aí começa a dificuldade. A nossa natureza é diferente da japonesa. Quase não se percebem as estações do ano. Mas quanto mais Nenpuku se integra com a nossa terra, mais a conhece e a torna sua.

Não se pode dizer até que ponto a nossa terra se tornou a terra de Nenpuku, até que ponto ele se tornou brasileiro, mas é certo que sentiu a natureza do Brasil como sua.

Um dos seus mais belos haikus é o da via-látea:



Na trascrição fonética: “Happo ni nagaruru hoshi ya ama no gawa”

Se “ama no gawa” significa “via-látea”, e o poeta queria comparar a “via-látea” a um rio de estrelas, parece-me que uma tradução fiel ao espírito da letra seria esta:

a via-látea
é um rio de estrelas
fluindo suave

Um poema essencialmente poesia.

Outro poema que me chamou a atenção é o da flor do café dominando a cor da paisagem:



“nagare kuru kohii no hana ni sosogi keri”

Que seria mais ou menos:

a flor do café
no rio a roupa lavada
flutua mais branca

Ou então, quando o poeta levanta os seus olhos para o cafezal:



“kohii no haha akari yori ideshi tsuki”

que eu poderia interpretar como:

a lua se inclina
na brancura perfumada
do café em flor

E me lembro dos meus tempos de criança...

Eu sempre tive um certo constrangimento em chamar de haiku ou haikai certos poeminhas meus. Eu não tenho a mentalidade oriental. Sou incapaz de sentir como um japonês. A minha sensibilidade tem uma longa retaguarda greco-latina, ocidental, cristã. Posso fazer poemetos epigramáticos, um pensamento animando um elemento da natureza, as palavras dando forma a uma concepção de mundo milenar, oposta de outra milenar concepção de mundo, vinda do oriente, do Japão.

Mas no fundo estava a terra. No fundo, a mesma dificuldade de Nenpuku Sato. Como sentir a terra do Brasil? Nenpuku abrasileirou-se. Era um lavrador trabalhando a terra, com o seu suor, que a tornou sua.

Por que os haikus do café me chamaram particularmente a atenção? Eu fui criado numa fazenda de café. Eis tudo. Usei e abusei na minha poesia do sintagma “verde e vermelho”. Num poema dedicado a Mário de Andrade, deixei escapar um “verde e vermelho”, e um amigo (cheio de boas intenções) viu no “vermelho” uma alusão ao comunismo de Mário (que não era comunista). Só faltou ver no “verde” qualquer absurda alusão ao integralismo de não sei quem. O verde e vermelho que colore a minha poesia é a cor da minha terra – interior de São Paulo, terra vermelha – e o verde da natureza, dos cafezais da minha infância.

Faltou falar no branco dos cafeeiros, de que Nenpuku Sato, um japonês, vem me lembrar. As flores brancas e perfumadas dos cafeeiros. Aquele verde e vermelho do café nos pés de café, e depois nos terreiros de café brilhando ao sol, e o branco perfumado das suas flores, eram a maior maravilha do mundo. A minha memória afetiva vibra com mil sensações.

Esse verde e vermelho, e esse perfume branco, não caberiam num haiku?

Nenpuku Sato não foi receber a comenda que o imperador do Japão lhe ofereceu. Talvez porque estava muito longe e velho, já fora do Japão há mais de 50 anos. Talvez porque se sentisse brasileiro. Os japoneses que para cá vieram, seus filhos e netos, já eram brasileiros. Talvez visceralmente brasileiros. Não usamos essa expressão, “visceralmente”, para dizermos profundamente, com todo o corpo, alma e espírito, integralmente? Nenpuku escolheu-a quando escolheu seu nome, de poeta até às vísceras.

Dia 22 de outubro fará vinte anos que Nenpuku Sato faleceu, em Bauru, no Brasil, deixando aqui as suas raízes brasileiras.

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Texto-base: Trilha forrada de folhas - Nenpuku Sato / Um mestre de Haikai no Brasil, Maurício Arruda Mendonça, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O estranho matou os pássaros



O estranho matou os pássaros com um martelo.
Eu o tranquei no fundo calabouço.
Estava vestido de penas, nuvens e espumas,
Sonhava no seu leito de pregos com o paraíso.

Os mortos sabem as palavras cifradas,
A chave rolou para o fundo do poço.
O estranho se dizia possuído dos dons do espírito,
Mas trazia a morte na ponta dos dedos

E o seu sopro era seco como o pó dos sepulcros.
O céu veio abaixo, arrebentou o seu peito.
Restam as cinzas dos delírios sobre as pedras,
Mas a sua visão ainda incendeia as estrelas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

mundo haiku



Entre os verdes caniços
o arco-íris sorri.

Saltita no fio
o passarinho vermelho
rindo de mim.

A gota de orvalho
no cálice róseo
da flor do ipê.

À beira da estrada
é mais bela a paisagem.

Tinha uma pedra na mão,
voaram dois pássaros
da alma.

O gato preto sonolento
ronrona como um besouro.

O tiê-sangue
respinga sangue
nos meus olhos.

A imagem do pássaro
voa como o pássaro.

A flor do ipê
é um cálice de luz
na manhã.

A flor-cálice de luz
do ipê
multiplicada.

O gato me olhou
com os olhos verdes
como a paisagem.

O canto do pássaro
inventa o pássaro.

O pássaro é o coração
da árvore.

O poema é natural.
A árvore, sobrenatural.



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A foto do arco-íris é minha.
A do tiê-sangue, no voo, mágica, é da Sônia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

algum haiku



A libélula beija a água
com os dois olhos abertos.

Descanso na clareira.
O esquilo de cauda no ar
voa na floresta.

À beira da estrada
o homem parado
é paisagem.

O sol pesa no céu.
Uma estrela de fogo
na cabeça da serpente.

A gaivota beija o mar
inventa um peixe no bico
brilho de sal e sol.

Uma estrela cai no banhado
as rãs coaxam
os juncos tremem no escuro.

Os meninos e as abelhas
sonham o mel
das pitangueiras vermelhas.

O grito do quero-quero
desperta o banhado.
O capim cintila em festa.

A lua sobre a mesa
e as estrelas no chão
da casa na floresta.

O monte de lenha.
Um grilo no escuro
tece redes de estrelas.

Flores de água brilham
na superfície do lago.
Tudo é calmo e limpo.

Olhar uma árvore
é multiplicar o olhar.

sábado, 8 de agosto de 2009

para o dia dos pais




OS GALOS

O galo debulha a espiga da manhã.
Seu grito trepa as árvores,
o chifre das vacas, as esporas do meu pai.
O velho calça as polainas, amola a faca na pedra negra,

enfia na bainha, na cinta.
Bate o isqueiro de pederneira, acende o cigarro
e monta com um grito na garganta.
Como um galo.

Meu pai e o galo debulham o milho da manhã.
O dia trepa no terreiro,
na invernada,
com o gado mugindo,

soberbo,
único,
para os galos.


JACARANDÁ

Nesta colina está enterrado meu pai:
Emudeceu à sombra de um jacarandá.
Sua voz estrondava, dominava o mundo.
Apagou-se na fumaça do entardecer.

Que noite podre se abaixou sobre nós
Quando se foi o dono da terra, o senhor.
O pasto, a roça, o mato, os bichos existiam
Na sua voz, que é cinza escura dormindo.

Nós todos existíamos na sua voz.
Perdemos a noção de ser no mundo:
Estar, simplesmente, como os bichos estão.

Um homem existe plantado na terra
Ou é nada. Nós sabemos, mas essa verdade
Emudeceu à sombra do jacarandá.

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Foto de Trevor Hart - Flickr

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ai, cai - para o alto



A areia da praia.
O menino exibe ao sol
um peixe de luz.

A lua entre as pedras
faz cair da montanha
uma avalanche.

Um beija-flor azul
mergulha de repente
por meus olhos a dentro.

Um pássaro num sino
na alta montanha
tange as nuvens.

A pétala na água.
A aranha desce da árvore
na réstia do sol.

A flor negra na parede
da casa branca na praia.
Uma gaivota morta.

Os cravos rosados
na água brilhante de um jarro.
O dia claro é simples.

Venha beijar comigo
o orvalho dos nenúfares.
Do alto a baitaca abençoa.

Bebe de meus lábios,
na clara luz da manhã,
o êxtase do olhar.

Entre as folhas verdes
o canto do pássaro
inventa o pássaro.

Saboreio a amora roxa.
Todo se acabaria
se eu não cantasse.

Um pássaro de ouro
canta na palmeira.
Queimam as penas ao sol.

Delírio.
O lago reflete
o incêndio de um lírio.

As cerejeiras em flor.
Contemplo encantado
uma abelha.

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A ilustração é o projeto do cartaz para a exposição
do aniversário dos 10 anos do grupo Expressão Poética, no Centro de Cultura de Bauru. Por isso o nº 10 ano centro da paisagem.
E apenas alguns haicais.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O céu no espelho



Olho o céu no espelho, azul, terrível.
Era a face de Deus multiplicada
e alheia à minha humanidade frágil.
Quem sou eu? Quem verei, talvez, no espelho?

No cristal vejo Deus, que não me vê,
alheio no alto azul, distante e frio.
Por que vejo, no espelho, Deus estranho?
Serei eu, gralha gritalhona, o estranho?

Quebro o espelho. Não quero a minha imagem
compartilhar com Deus. Quero os meus cacos
no chão ensanguentado, com as flores

inúteis, como a minha poesia.
Se Deus não me responde, quebro Deus.
O céu em chamas queima-me num sopro.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poente



Fui milagrado de garça no poente.
O sol deslizava na água calma do rio.
Eu voava, bicava uma nuvem que não era, me espreguiçava,
azeitava o bico, contemplava.

A rãzinha conversava com o joão-grande, ele nem ligava, cismava.
Grandes cismas as nossas. Eu com um pé dentro da água
que passava, passava sem sair do lugar.
Água é coisa que nunca sai do lugar,
diferente do sol, que cai, se machuca para ser outro.

Eu cismava e voava com uma nuvem no bico, coloria, contemplava.
Ser Deus é essa graça – essa garça levada.
Paira sobre a água, leva a água: desenha o poente
como quem põe um ovo fragílimo abrindo um arco-íris, garça-íris.

Estou dentro da água, milagrado de garça.
O poente bóia na fogueira acesa com o sangue do sol degolado.

domingo, 26 de julho de 2009

Beira-rio



A formiga se ajoelha para o tamanduá.
Sobe um gemido de princípio de mundo,
do monjolo monótono moendo a estrada.
Cupim-menino estuda arquitetura.

A margem do rio linda com a aurora.
Chove no meu olho a cor das coisas sem nome.
A garça se equilibra no brilho da água.
O rio transborda de pétalas e penas.

Mulheres e porcas estão parindo.
O azul relincha no dia das potrancas.
Uma vaca morta vem navegando

com o seu urubu-pirata em cima.
Emas no capinzal tinem as esporas,
num vôo rasante contra os tições do sol.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O jardim do fim do mundo




Os pássaros voaram com a explosão do sol,
As árvores dançaram com as raízes para o ar,
Os cavalos galoparam na praia agônica.
A minha mesa se abre como uma flor,

O meu espelho se parte como as estrelas no caos.
De repente me descubro no jardim do fim do mundo.
Nada mudou, mas o mundo não há mais.
Depois do horizonte não há um outro horizonte.

Estou à beira do poço,
Estou no deserto escuro de areia,
Estou só na montanha seca. Sou uma pedra.

Um beduíno chega morto de sede, atira a pedra
Dentro do poço e fica esperando o barulho na água,
Fica esperando. Eu nunca chego ao fundo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

As águas do poema




A HERÁCLITO

As águas do rio
estão dentro dos meus olhos.
Nunca acabam de passar.


DIA DE GRAÇA

Era domingo e eu andava
sobre as águas rumo ao sol.


REPOUSO

O barco repousa
de borco na areia
sob a luz da lua.


O RELÓGIO

O poeta fotografa,
na falsa imobilidade do relógio,
o tempo imóvel.


O GIRASSOL

O poema é um girassol –
claridade para todos os lados.


AS ESTRELAS

Olhei o abismo da noite
e as estrelas queimaram os meus olhos.


SACO DE PANDORA

Enfiei a mão no saco de palavras
e tirei as palavras água, pedra,
árvore, azul e um pássaro saiu voando.


O RIO

O poema é um rio:
suas águas defluem
e lavam as dores do mundo.


OS PULMÕES

O poeta tem o céu nos pulmões,
a árvore com os pássaros de Deus.


O FIM DO MUNDO

Chovia a cântaros
quando o mundo acabou.
E sobrevivemos.


QUIETUDE

Como almas quietas,
as pedras no fundo d’água
por toda a eternidade.


IDENTIDADE

Não sou quem sou,
mas quem me invento.

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Testemunho

A Pedro Luso de Carvalho



Escrevo sobre o presente.
Tenho um saco de moedas na cintura
E os ombros curvos com a dor do meu tempo.
Escrevo para um tempo que nem papel tem mais?

Para um tempo que não existe, senão no mundo virtual?
Escrevo para o meu tempo, real como o sangue
Que escorre para a sarjeta, que as bocas-de-lobo engolem.
Qual é a minha febre? De onde vem?

Qual é o meu pavor? De que tenho medo?
Qual é a minha dor? Por que estou sofrendo?
A dor do mundo é a minha dor, e sangra

No momento em que escrevo, no presente.
Sou o homem emparedado no meu tempo,
Sou uma tocha a arder na noite, como o meu nome.

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Este poema é meu comentário ao poema Pedra de Toque, de Egito Gonçalves, que Pedro Luso de Carvalho publicou no seu blog (para visitá-lo, clique no título acima - Testemunho).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Catarse




CATARSE

Um pássaro voa
nos ares lavados
da tarde que coa
o seu canto exato.

Canto que penetra
a alma desta tarde
como se uma seta
contra a sua carne.

Carne que descansa
à espera do alarme
da memória fálica.

Fálica tal lâmina
na tarde em catarse
de verde ou luz, cálida.


ÊXTASE

Devoram as grinaldas da paisagem
Os venenos do tempo derrocado.
Como num sortilégio de fecundo
Mistério que se exala e nos consome,

Ferem as faces em nudez agônica
E nos comovem dentes de serpentes.
Num mergulho de trágica aventura,
Na suculenta polpa escura de

Um ofego de mar contra os espaços,
Um vórtice de línguas inquietantes
Sorve o sangue da aurora degolada

Pelas espadas rubras dos olhares.
Contempla o canto limo de agonia
A glória do êxtase e o anseio grave.

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Se o poema não provoca alguma espécie de catarse,
não cumpre a sua função.

sábado, 11 de julho de 2009

O homem cego de si



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Curta-metragem do GRUPO BONEQUINHO, com roteiro e câmera de Amanda, namorada de meu filho, Aran, responsável pela edição e trilha sonora (banda bonequinho), com o ator Hesso Maciel, e de quebra um poeminha meu, do livro Exílio, 1983. Inverno, 2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dois sonetilhos do falso



RETRATO

Em presságio e astúcia
Teço a minha angústia,
Rebeladas tochas
Acendo nas rochas

Da minha cratera
De sombras e febre.
Ó festa de sustos,
Luzes, quedas bruscas,

Ó tempos confusos,
Ó vácuos, ó fusos,
Imagem secreta

Em que se enovela
Esta minha musa,
Verdade profusa.


OS OFÍDIOS

Na concha das noites,
Sendas do olvido
E breus do ofício,
A cruz e os açoites,

Perdemos o lenho
Do sonho que somos,
Sem vôo no espelho
Que o recomponha,

Mas prosseguimos,
Solertes ofídios,
No pó que fala.

Perenes, eternos,
Nós voltaremos
À carne da alma.
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Drummond publicou um "Sonetilho do falso Fernando Pessoa".
Eu venho com dois, mas apenas sonetilhos do falso - e a lembrança respeitosa de Pessoa e Drummond.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lenda da Igreja Matriz de Paraty




A SERPENTE E MENINO

A serpente dorme sossegada
Sob o chão da velha igreja.
De seu sono de fábula
Não acorde a serpente prateada.

Essa serpente um dia foi um menino
Abandonado pela mãe.
O menino mamou o leite da Virgem,
Transformou-se na serpente adormecida

Deitada no lençol de terra fofa
Da igreja maternal.
Não acorde a serpente furiosa

No seu leito de penas de anjos brancos.
Olha a serpente! Com o rabo e os dentes
Vai derrubar a igreja no mar.

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Quem conta um conto aumenta um ponto, mas eu estou apenas cantando uma lenda maravilhasamente terrível como o povo conta: um menino foi abandonado no porão da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, de Paray, mamou nos seios da Virgem Maria e transformou-se numa serpente. O poema tem um ano, a lenda é secular, a serpente ainda dorme sossegada. Que a Flip não faça muito barulho!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Prelúdio



I reason, Earth is short –
And Anguish – absolute
" - Emily Dickinson

Cai a noite de junho na sarjeta,
Cheira a fritura, bacalhau, carniça.
Eu me encolho na minha capa preta
E desafio para a mesma liça

A cruz e a rosa, o abismo das estrelas.
Corre a vida encardida como um rio
Nevoento aos meus pés, sob as janelas
De ninguém, no universo vão, vazio.

O vento chicoteia o corpo inútil,
Com os círios do nada ele me invoca:
Queima a chama o silêncio que me impus.

O tempo que me resta a mais deglute-o
Uma voraz lagarta e sua roca,
Mas a rosa floresce sobre a cruz.

domingo, 28 de junho de 2009

Meu reencontro com Rachel de Queiroz





















Eu tinha nove anos de idade quando mudamos para a cidade. Lembro-me de que minha mãe me dava um cruzeiro para comprar um Cruzeiro (a velha moeda e a velha revista daquela época). Na última página do Cruzeiro vinha uma crônica de Rachel de Queirós. A minha mãe me ensinou a procunciar aquele ch do nome dela como qu - Raquel, que eu começara pronunciando errado.
Interessante como a minha mãe, mulher da roça - o lugar onde morávamos antes nem luz elétrica tinha -, sabia quem era Rachel de Queirós. Não sei se a entendia, mas acompanhava, com admiração.
Depois li O Quinze, gostei muito mais de João Miguel, e por fim, já no fim da vida de dona Rachel, o apaixonante Memorial de Maria Moura. Lia de vez em quando uma crônica. Dona Rachel me acompanhou a vida inteira.
Em 1991 eu a encontrei na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Passamos uma semana no mesmo hotel, tomávamos o café da manhã, almoçávamos e jantávamos juntos. Passávamos o dia no Centro de Convenções Rebouças, em palestras intermináveis sobre literatura. Não apenas nós dois, naturalmente, mas dezenas e dezenas de escritores do Brasil inteiro. Mas estávamos juntos, eu vivia a glória literária - estar ali convivendo com todos aqueles escritores, e principalmente com Rachel de Queiroz.
Era admirável como à noite, que varávamos numa conversa descompromissada de amigos, ela, bem mais velha do que a maioria ali, tinha disposição para ir a um teatro ou a um outro programa fora.
Eu olhava a sua cara doce e pensava em minha mãe. Penso em minha mãe ainda hoje quando penso em Rachel de Queiroz. Não eram parecidas - a minha mãe era bem mais gorda... Eram parecidas - a mesma doçura. Aquela doçura de mãe.
Reencontrei-me com dona Rachel em abril deste ano, em Fortaleza. Um encontro frio, de gelar. Na Praça dos Leões, em frente à Igreja do Rosário, sentada num banco de madeira, dona Rachel envelhece de tristeza. Quem tinha tanta vida, como o bronze é triste!
Pedi a uma menininha que conversasse com ela - a foto ficou linda. Eu conversei com ela, ensaiei abraçá-la - com vergonha. As folhas caíam no chão, o dia estava cinzento, tudo estava triste.
Dali fomos ao centro cultural Dragão do Mar, onde não tive coragem de falar com Patativa do Assaré, dizendo seu poemas sertanejos em pé no pátio. Respeito e admiro a arte desse passarinho do sertão, mas é muito diferente da minha. Eu também vim da roça, mas abastardei-me bebendo de tudo que fosse cultura ou pseudocultura, intelectualismos bestas.
E eu ainda estava triste de meu reencontro com dona Rachel.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Poemas de Gregório Vaz



Apresento-lhes meu outro eu: Gregório Vaz. Um heterônimo que criei há uns 30 anos. Das três partes de meu segundo livro, é dono de duas. Aparecem depois uns 10 poemas dele em uma antologia, mas com meu nome. Me sacanearam. Mas não matei Gregório. Ele escreveu um romance, um livro de aforismos, um livro de poemas revoltados... Os poemas de um revoltado seriam a cara do Gregório Vaz, mas no fim o cara estava a minha cara. Fiz com que hibernasse. Como se não existisse. Na realidade continuava escrevendo. Linguagem desleixada. No Exílio escreveu até alguns sonetos, sem desleixo, mas numa linguagem muito diferente da minha. A sua aversão à cidade podre - título de uma das partes de Exílio: Poemas da Cidade Podre...

Não adianta explicar um poeta. Ainda mais um poeta que não existe. Pretendia mostrar poemas antigos de Gregório Vaz. Talvez alguns aforismos. Mas esta semana ele escreveu dois poemas. Criei um blog para ele. Fiz bem? Confiram os poemas: http://gregoriovaz.blogspot.com

..........link ao lado..............

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Obama e a mosca...




A RESINA

A resina brilha
no tronco da árvore
como ouro.


PEDRAS

Caminho de pedras
subindo a montanha
e água fresca descendo.


O SOL

O grito do sol
atravessa a névoa branca
entre as ruínas.


O SILÊNCIO

O silêncio cai
sobre as pétalas da rosa
como o olhar de Deus.


A VELA

Ninguém apaga
a vela acesa
no dia claro.


A BAITACA

Era uma ferida
na pele do dia
a baitaca eletrocutada.


A MOSCA DE OBAMA

Barack Obama, num lapso,
não salvou o mundo,
mas matou a mosca.


A ROMÃ

Uma gota de orvalho
na romã vermelha
parada no galho.


FLORES AMARELAS

Flores amarelas
pendem aos cachos
dentro dos meus olhos.


O CARNEIRO

O carneiro no capinzal
me olha triste
com os olhos azuis.


UMA ROSA NÃO É SÓ UMA ROSA

No tronco de uma árvore,
num buraco escuro,
nasceu uma rosa.


A GOTA DE ORVALHO

A gota de orvalho
nas pétalas da rosa.
A beleza chora.


A ORELHA-DE-PAU

A orelha-de-pau
ouve o silêncio
e sorri para mim.


FOLHAS VERDES

As folhas verdes
na água da piscina azul
nadam em silêncio.

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"Obama e a mosca... ou de como o poeta fazia seus poeminhas quando a política e suas mixórdias se intromete na poesia, na figura do imperador com os chifres e sua real sensatez, que fulmina a pobre de uma mosca com um golpe fatal, durante uma entrevista no dia 17 de junho"

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cristal




Cultivo a minha rosa no mais puro
cristal, mas uma febre me rói pétala
a pétala com uma fome louca
e da flor resta a jarra solitária.

Um cavalo galopa no meu peito,
com seus cascos de fogo me transporta
ao delírio, à neblina da memória.
Tenho uma cruz na boca, tenho terra

nos olhos e uma noite me solapa
cruel, sorrindo escárnio e pus e campa.
Leva-me a insânia numa sem regresso

viagem pelos pântanos escuros
da alma em sua procura esconsa e azeite
e sei quem sou na forma do poema.

domingo, 21 de junho de 2009

Vigília




Quem é a terra? Quem é o cavalo
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.

Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Me esquece e uiva à loucura da vida.

A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro da memória

Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.

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Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 16 de junho de 2009

Exercícios de admiração



ARTE DE MORRER

Os corpos se entendem
mas as almas não
no frio do caixão.


E AGORA, JOSÉ?

A rosa agoniza
na palma da mão.
Mas você não morre, José.


JUAN RAMÓN JIMENEZ

Atira a pedra na água
e esquece. Você nunca mais
será o mesmo.


GOETHE

Qual a forma do meu poema?
Ainda estou elaborando
o nome da rosa.


ROBERT BROWNING

A pedra cai na água,
o pássaro imóvel no galho.
A rosa, ao sol, se renova.


WALLACE STEVENS

Os melros na relva,
os melros dentro de mim.
Onde estão? Quem fui?


CECÍLIA MEIRELES

Em que espelho ficaram perdidas
as pétalas da rosa?


FRANCIS PONGE

As coisas são as coisas:
não têm alma, não vivem,
mas me fazem mais vivo.


Rosalía de Castro

Vozes verdes, verdes ventos.
Elaboro o meu poema
como um cavalo ruminando.


ANTONIO MACHADO

Caminho na tarde verde
à beira da água clara
onde as nuvens se miram.


JOÃO CABRAL

A cabra magra
resiste comendo pedra.


MANOEL DE BARROS

O rio engole a palavra
e espera a rosa
se mirar em suas águas.


BECKETT

Na luz negra do exílio,
falo com uma pedra
na língua.


WILLIAM BLAKE

Não sou do céu, não sou da terra,
mas comungo, com meu corpo, a flor da alma.


E. A. POE

No silêncio do mar,
o corvo apaga o farol
e sangra a aurora.


DEUS

Abismo.

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Fausto Cunha publicou, in “A luta literária”, uma seção de ensaios com o título “Exercícios de admiração” (em 1964 – mas eu o li em 1970 ou 71). Lembro-me de que um dos homenageados era Mário Quintana, a quem poetas e críticos “intelectualizados” torciam o nariz (existem vacas de nariz sutil – lembrando o romance de Campos de Carvalho).

Em 1986, E. M. Cioran publica “Exercices de admiration”. Até o filósofo do azedume – de uma linguagem delicada, de poeta, que enleva, mas sem nunca deixar de ser azeda – se rendeu ao prazer e dever de tecer belas homenagens aos santos pagãos do seu Panteão.

A mim me ocorreu juntar nesta página alguns de meus exercícios de admiração, mínimos, mas frequentes.

No último poema, “Deus”, não fica evidente a quem é dedicado. Oswald de Andrade e Adriana Godoy. Li esses dias que Oswald é autor do menor poema do mundo: “AMOR // Humor.” Não quis ficar atrás e examinei minha memória, meio fraca, mas nem tanto. Lembrei-me de um poemeto que fiz há uns dois anos “O SILÊNCIO // da rosa. / Abismo.” Curto, mas nem tanto. Então, lendo a última palavra, me lembrei de Adriana, que leu meio incredulamente, mas muito humanamente, meu poema “O abismo de Deus”, e num estalo, numa iluminação, estava pronto o poema: a palavra “abismo” não é uma palavra, mas uma imagem, mais, uma multiplicação de imagens, uma alegoria do universo, que cabe nela, embora, e por isso mesmo, não a explique.

sábado, 6 de junho de 2009

O abismo



O abismo das estrelas, o abismo do mar, o abismo.
Sempre estamos no abismo, irremediavelmente.
Com o silêncio das estrelas, dentro de uma concha.
Ouvindo o grito agônico de uma gaivota ferida.

Quem somos, quem seremos, quem fomos? Memória.
Somos (seremos, fomos) escravos do tempo cruel.
Girando as engrenagens do relógio, nosso domicílio.
Não somos mais que um peixe fora d’água, esperneando.

E vivemos perdidos dentro desse peixe, nosso universo.
Sufocamos sem ar no escuro desse peixe impossível.
A vida é impossível, sabemos. A concha e as pérolas.

O que vemos além das estrelas? Além do mar original?
Nós esperamos uma resposta, mas Deus, magnânimo,
Criou-nos livres como gaivotas voando sobre o abismo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Poemas breves




O CARAMUJO

O caramujo
entre as pedras e as flores
dorme a meu lado.


ASSASSINATO

Matei a lagarta
e a rosa vermelha
na minha roseira.


A VELA

A vela entre as flores
do altar na colina
queima em silêncio.


NA ESTAÇÃO

Murcha nas ruínas
da estação de trens
um ramo de flores.


A PAPOULA

A papoula floresce
nos meus olhos loucos
e morre.


A SOMBRA

Na sala vazia,
no espelho quebrado,
cai a sombra.


A RÃ

Uma rã coaxa
namorando a lua
na minha lagoa.


O CAVALO

Caído num buraco,
o cavalo morreu
de velhice.


OS CACHORROS

As casas no escuro
e os latidos dos cachorros
sob a chuva.


O LIMO

O limo escorrendo
no muro do quintal.
Saudades da infância.


A LAGARTA

A lagarta carrega
uma flor nas costas,
torta de dor, ao sol.


A ARANHA

Matei uma aranha
na parede da varanda.
Fiquei mais só ainda.


O RATO

Deitado na rede,
fiquei ouvindo um rato
que chiava no escuro.


O CACHORRO

Encontrei o meu cachorro
no cemitério entre os túmulos
a minha espera.


O COGUMELO

Vida branca ao sol,
cresce o cogumelo
entre os sabugos, no pasto.


A TAMPA

A tampa cobrindo
nada, nenhuma aparência,
enterrada no canteiro.


O PENSADOR

Macaco diante da morte,
em solidão no universo,
o homem pensa há muito tempo.


O REI E O POETA

O meu reino por um cavalo!
O meu reino por uma palavra!
A diferença entre o rei e o poeta.

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“Poemas breves” é o título de uma das seções com... poemas breves, oras – de um livro com meus melhores poemas dos últimos 20 ou 30 anos que pretendo publicar, não sei se ainda este ano.

“Poesia mínima” é muito bom – e eu terei umas três seções de poemas breves nesse livro... – mas explica muito já no título.

Gostei do nome “poemínimos” – mas até uma antologia de poemas de Beckett em português tem esse título. E vai lembrar “poesia mínima”, “minimalismo”, teorias sobre a poseia com o mínimo de recursos – que pode ser o que tento fazer, mas não preciso confessar já no título.

“Poemas breves” me parece o ideal – não diz nada, apenas que são curtos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Cesare Pavese - uma tradução




A MORTE VIRÁ E TERÁ OS TEUS OLHOS

A morte virá e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.

A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.

22 de março de 1950.

Trad. – José Carlos Brandão

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VERRÀ LA MORTE E AVRÀ I TUOI OCCHI -

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi -
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosí li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
.
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello psecchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.

22 marzo 1950

Cesare Pavese
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foto em http://www.bravagente.com/not01_0309/ital_not20090307a.htm

domingo, 31 de maio de 2009

Poesia mínima



VAN GOGH

Por que o corvo
nesse amarelo-ouro
me rouba a alma?


A COR

A luz cai na relva,
mistura-se à sombra
e cria a cor.


EMILY DICKINSON

O retrato antigo
na parede da casa
não envelhece.


TEIA

A mosca pousa
na teia de aranha.
Busca a dor.


A LAGARTIXA

A lagartixa deixa
a sombra na parede
fria como ela.


A CADEIRA

A cadeira navega
no assoalho escuro
como num mar.


AQUÁRIO

Peixes nadam no aquário
dos seus olhos parados
na morte.


A SEREIA

O piano de cauda
é como uma sereia
fora do mar.


O CUCO

Cuco! Canta o cuco
de madeira e metal
– com uma tristeza infinita.


IDÍLIO

A cinza das cartas
no fundo da gaveta
entre as baratas.


O BALDE

O balde de borco
brilha no escuro
entre as panelas velhas.


O RELÓGIO

O relógio parado
ainda marca o tempo
na casa abandonada.


DELÍRIO

No linho dos lençóis
o lírio delira.


POESIA MÍNIMA

Quero a poesia mínima
das ranhuras de uma pétala seca
entre as páginas de um livro.


AINDA

A formiga morta
no cimento frio
ainda é poesia.

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tempo Pascal



UNIDADE


O teu olhar me atravessou de lado a lado.
Dos meus olhos vazados, do meu peito
Saíram água e sangue e a luz mais pura –
A luz dos meus olhos vazados inundou o mundo.

Os homens céticos, as velhas, as mulheres,
Todos os desesperados do mundo se afogam
Na minha luz, na minha líquida iluminação –
E os anjos batem as asas brancas no céu azul.

Eu quero a plenitude da palavra amor.
Eu quero a plenitude do Ágape.
Deus me sustenta na sua mão absoluta.

As árvores cantam a música na lira do vento.
As tempestades levam as penas dos pássaros
E dos homens para a unidade de Deus.



TEMPO PASCAL


Espero a ressurreição dos mortos.
É tão simples a vida do homem puro
Que espera a segunda vinda do Senhor
Como quem espera o trem na estação.

O fogo dança nos lampiões, volta-se para o alto,
Os cadáveres das crianças sorriem beatíficos,
As flores crescem dos túmulos para o sol,
Os pássaros revoam com o delírio da luz.

O meu pai segue com o arado abrindo a terra,
A minha mãe cultiva as dálias da manhã
Nas fazendas de Deus, nos jardins do eterno.

Atravessei os areais do deserto na noite,
Mastiguei as pedras da aranha da angústia.
Espero a ressurreição como quem espera a chuva.


ANIVERSÁRIO

Hoje meu pai faz anos
dormindo sua morte,
mas não para sempre.

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Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 26 de maio de 2009

Migalhas



A MESA

Sobre a mesa rústica
pratos e copos de barro.
E o pão repartido.


LEVEZA

É azul a água do sono.
Meu corpo leve paira
sobre as nuvens brancas.


A ARGILA

A argila da morte
coroa-me de vida
a vida.



O COPO

O copo de bruços
sobre a mesa vazia.
Brilha o nada dentro.


INFINITUDE

Beber-te
não mata a minha sede.


ESMOLA

Que me dás, ó infeliz,
que eu não te tenha dado?



O PESCADOR

Leva o pescador
um peixe maior do que ele,
menor que sua dor.


OS PASSOS

Quem percorre o caminho?
Uma borboleta?
Os passos de ninguém?


LAGO

A lua mergulha
na água do lago.
Ou a rã?



A LAVADEIRA

Passarinho branco e preto,
a lavadeira pipila
no tambor de lixo.


POÉTICA

As palavras do poema
são como as duas conchas
de uma ostra.


AQUI

Estou parado
na beira da estrada.
Mais nada.



O FERRO

Está sem carvão
o ferro de passar roupa.
Brilha no tempo.


PAISAGEM VERDE

A sombra verde das árvores
sobre o chão dos pobres
cheirando a lixo e dor.


A LOUCA

Com um peixe na mão,
uma mulher louca grita:
– Viva a vida!
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Meu poemeto Polpa, foi postado pelo Moacy Cirne,
com muita honra, no Balaio Porreta 1986 - http://balaiovermelho.blogspot.com/

sábado, 23 de maio de 2009

A sombra da lata



A SOMBRA DA LATA

À beira do mato
a lata e sua sombra
sobre as folhas secas.


ANSEIO

Deitamos na areia
olhando o céu azul.
Sonhamos com o mar.


NUVEM

Tenho uma nuvem na mão
densa como uma pedra,
mas chove.


PEGADAS

As minhas pegadas na areia
permanecem muito além
do vento e do tempo.


ESTRELA

Nada levo da vida
senão uma estrela
caída na água.


ENCONTRO

Perdi-me no bosque
para achar a poesia.


AS ÁGUAS

As águas do rio
são pedras ainda líquidas.


FIAT

Deus criou a luz.
Depois nada mais era preciso.


FUI

Fui como pedras.
A água e a terra leve
me poliram.


COMPLETUDE

Cortaram as árvores.
Mataram os pássaros.
O meu exílio é completo.


POLPA

Como a polpa de uma fruta,
o teu corpo.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

O mar em Fortaleza





Dia e noite ouço a música do mar.
Do 13º andar ouço as ondas
Voando como loucas no mesmo lugar.
Batem as asas, assopram, engolem.

Os navios no porto estão parados eternamente
Como uma garça sobre uma perna só.
As jangadas são verdes como o mar.
O tigre da manhã ruge feroz.

Ao meio-dia, à meia-noite o mar ruge.
Ouço o mar rugindo no outro mundo,
Ouço o grasnido de uma gaivota, ouço as pedras,

As árvores afogam-se no mar e gritam felizes.
Ouço o meu quarto navegando nas ondas do outro mundo.
Tenho todas as palavras na mão e desfolho o abismo.

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

O deserto do poeta



O deserto fala comigo, grita, esperneia.
Sou areia ao vento, dunas, miragem.
Preencho o meu vazio com palavras
Como um poema, aceito o arco da forma.

Aprendo o silêncio com a música,
Carrego pássaros de sangue nos ombros,
Contemplo a rosa até queimar os olhos.
A minha vida é o violino do abismo.

Estou só como uma pedra sem árvore.
O poeta lavra a palavra com terra na boca,
Com espirais de areia e sol nos olhos.

O poeta é um cão, ladra na noite,
Disputa o osso do caos e perde.
Cavalgo para sempre o cavalo da loucura.

sábado, 16 de maio de 2009

Memória da terra



CENTRO

O centro da terra é o céu.


VOO

Na memória da terra
delira o azul do céu.


SERENIDADE

A pedra é serena.
Aceita a origem como água
e o fim como terra.


ETERNIDADE

O céu azul brilha
sobre o abismo das águas.
Nascemos para o eterno.


AUSTERIDADE

As pedras são estrelas
austeras caindo
sobre a terra e as águas.


HORIZONTE PERDIDO

O sol brilhava na minha alma.
Entre pedra e céu, achei-me.


FORMA

Qual a forma do poema?
A água e o espinho do cacto
contra o céu azul.


CAOS

Na memória da terra
a paisagem do eterno
e a pedra do caos.


DIAMANTE

Diamante contra o azul,
a beleza revela-se na morte.

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Foto: Sônia Brandão

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gritos e sussurros



O GRITO

Quem me ouvirá
se eu gritar no escuro
quando os anjos dormem?


O SUSSURRO

A aranha devorou
a pequena abelha
e a ordem do universo não mudou.


A REVELAÇÃO

Sempre leio o Apocalipse
à procura das últimas notícias.
Encontro as primeiras.


GÊNESE

Poesia se faz com palavras
e sangue pulsando.
Do sangue nascem as palavras.


O GAVIÃO

Primeiro ouve-se um grasnido.
Depois um gavião leva-me os olhos
para que eu veja o sangue do alto.


VÊNUS

Quando criança quebrei uma Vênus de gesso.
Foi minha primeira obra de arte
e a constatação: o criador destrói a criatura.


A ÁRVORE E A CRUZ

O poeta vai ao dentista
mas não deixa a poesia do lado de fora.
A poesia senta-se com ele na cadeira de tortura,
abre a boca com ele, geme, sofre,
às vezes ganha a forma de um poema.

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Foto: Sônia Brandão

sábado, 9 de maio de 2009

Homenagem às mães



A MÃE

Quando a última batida do coração
Tiver feito cair o muro de sombra,
Para me conduzir ao Senhor, ó Mãe,
Como outrora me darás a mão.

De joelhos, decidida,
Serás uma estátua diante do Eterno,
Como eu já te via
Quando ainda eras viva.

Levantarás tremente os velhos braços,
Como quando expiraste
Dizendo: Meu Deus, estou aqui.

E só quando eu for perdoado,
Terás o desejo de me olhar.

Recordarás de me ter esperado tanto,
E terás nos olhos um leve suspiro.

Tradução de José Carlos Brandão

LA MADRE

E il cuore quando d’un ultimo battito
Avrà fatto cadere il muro d’ombra,
Per condurmi, Madre, sino al Signore,
Come una volta mi darai la mano.

In ginocchio, decisa,
Sarai una statua di fronte all’Eterno,
Come già ti vedeva
Quando eri ancora in vita.

Alzerai tremante le vecchie braccia,
Come quando spirasti
Dicendo: Mio Dio, eccomi.

E solo quando m’avrà perdonato,
Ti verrà desiderio di guardarmi.

Ricorderai d’avermi atteso tanto,
E avrai negli occhi un rapido sospiro

Giuseppe Ungaretti
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Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O gari verde



O gari verde não madura nunca
Para que a sua dor não se perceba.
Empurra o seu carrinho com a cacunda,
Empurra a dor adunca da limpeza

Com a vassoura e o ancinho da desgraça.
Ninguém vê o gari verde sofrendo,
Gemendo como se fizesse graça.
O gari vai da Praia de Iracema

À Volta da Jurema se apagando.
A calça curta verde, as meias verdes
Com a camisa azul e verde vão

Compondo a imagem do gari doendo
Por onde passa, para a Fortaleza
Bela brilhar ao sol como as palmeiras.

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A foto foi batida pela Sônia na Volta da Jurema, Praia do Meireles.
Ouvi falar bem da polícia e mal da prefeita.
Não ouvi falar bem nem mal dos garis. Eu tento cobrir essa lacuna.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Parabéns, Fortaleza







Dia 12: show de aniversário de Fortaleza, 283 anos. Imaginava Fortaleza mais velha, mas é bela. Mona Gadelha, por falta de uma Mona Lisa, introduz o show. Mona Gadelha é a imagem de Fortaleza, juventude, vitalidade da juventude, e beleza.

Ednardo entra e comove o público por quase duas horas. Ednardo não deixou Fortaleza: leva-a no coração. Fortaleza não deixou Ednardo: canta com ele as suas músicas, leva Ednardo no coração.

Mona canta blues. Ednardo, mal entra, sente-se a voz do cearense. Linda a “Aurora” de Ednardo: “Abre as janelas, manhã.” Enfim, temos a presença da poesia. Imagens palpáveis, plásticas. Canta a bela “Calu”, de Humberto Teixeira.

Gostei do “Dono dos teus olhos” – ritmo e imagens fortes. Juntando-se a outras composições, comprova-se o gosto de cantar a dor de cotovelo. Não por acaso, uma das músicas chama-se Lupicínica, lembrando Lupicínio Rodrigues, que era o poeta de dor de corno. Grandes poetas, Lupicínio e Ednardo.

Outras músicas: “Reizado”, “Art. 26”, “Amor de Estalo”, “Longarinas”, “Terral”, “Carneiro”, “Enquanto engoma”. O povo, uma praia apinhada de admiradores, vibrou com “Maresia”, “Manga Rosa”, “Doroty L”Amour” e, por fim, “Pavão Misterioso”.

Um senhor cheio de graças atrás de mim – um gozador?, figura popular pitoresca? Ednardo dedica uma música ao Augusto – seria o irmão, ali perto de mim? Depois nova música, lembrando muitos artistas que mantiveram de pé a arte em Fortaleza, aglutinados no festival Massafeira – em especial o Augusto Fontes, não o companheiro alegre a meu lado, mas o grande compositor e animador cultural.

Massafeira pode ter sido apenas um festival, mas fez história – e a História merece ser respeitada. Ednardo merece ser e é respeitado: – a sua empatia com o público é grande, está na pele, está nas veias como seiva.

As ondas do mar cantam louvando Fortaleza. O vento canta fazendo dançar as folhas das árvores. Um pavão misterioso ajuda a cantar com o mistério do seu voar. Alguma coisa não é certa, não, mas a beleza persiste no canto e no voo do pavão chamado Ednardo.

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O CÁRCERE DE BÁRBARA DE ALENCAR















Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar.
No subsolo, a pequena cela de tortura:
Atrás das grades, pedras, paredes de pedras,
A cela onde um homem não cabe em pé.

Bárbara recebia uma só refeição por dia,
Mas era muito: alimentava-se de pedras
E de orgulho ferido e erguido como bandeira.
As pedras eram cabras mansas para Bárbara

Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.
“Quem me pedirá contas de meus atos?
Meu marido, meus filhos, o meu Ceará?

Quem combate o bom combate não sucumbe.
Eu colho na derrota toda a minha vitória.”
Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras.

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Depois de quase um mês em Fortaleza, Ceará, aqui estou de volta.
Fortaleza é bela, belíssima. Voltei com os olhos transbordando de imagens, com a alma lavada, pura como as águas primitivas do mar e da chuva. Foram vinte e tantos dias de mar, sol e chuva: pureza, beleza, finitude e infinitude.
Um grande abraço a todos os amigos. Saudades.