sexta-feira, 9 de outubro de 2009

João Cabral de Melo Neto - dez anos




JOÃO DE PEDRA

João de pedra sentado no cais do Recife
lembra a sua poesia de pedra e água contida,
o sentimento mínimo no equilíbrio ígneo
exposto ao sol e ao sal marinho corrosivo.


EQUILÍBRIO

A palavra tem o equilíbrio da pedra
mesmo se ave no ar ou água de rio
e ao mesmo tempo tem sangue de objeto
e principia quando se lhe aparam as arestas.


A MULHER TEM

A mulher tem pinheiros na língua
e o princípio da noite, como um rio,
a forma líquida da água nos lábios,
margem circular de madeira ou limo.


A PALAVRA É SUBTERRÂNEA

A palavra é subterrânea, como um peixe
ou alga no espelho côncavo do oceano.
As pálpebras da imagem situam e limitam
o objeto anfíbio bebido como um teorema.


A PALAVRA ARDE

A palavra arde e escande a promessa da rosa,
tigre no voo e vertigem nas árvores do crepúsculo.
O seu nascimento coroa o incêndio da paisagem
sobre a cinza das ideias, mínimas e consequentes.


A BAILADORA ANDALUZA

A bailadora andaluza esconde, mais que revela,
o que vai mostrando, quando se despoja, não das vestes
mas do ser, exposto ao sol, tão nítido que não se vê.
É a imagem da poesia, que transcende o objeto.


JOÃO CABRAL

A cabra resiste
comendo pedra.

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Hoje é o aniversário dos dez anos da morte de João Cabral, o mais importante poeta brasileiro, que legou a consciência crítica ao fazer poesia entre nós.

Tenho me exercitado em elaborar poemetos em forma de quadras; acho que essa forma fica bem para homenageá-lo. O último poemeto, já publicado entre meus Exercícos de Admiração, achei que ficaria bem repetir aqui.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Homenagem a Mercedes Sosa




A primavera e suas pombas brancas
em meu peito inauguram uma flor.
A esperança se eleva em grito e luz
até o sol, num cântico de júbilo.

Contemplo a vida, o vértice do tempo:
seu brilho azul, o justo caminhar
de coisas e homens plenos de certeza,
na ordem da palavra renovada.

A estrada aberta para a paz dos olhos
cansados da procura de horizontes
onde repousem dos trabalhos áridos:

a luta contra as urzes do destino,
as cadeias do efêmero, e a angústia
presente sempre e sempre combatida.

Exílio, 1983.

domingo, 4 de outubro de 2009

Visita à nascente do São Francisco




Dois filetes d’água
e as pedras.

A água desliza na canastra de Minas,
canastra de pedra.

Um tamanduá abre os braços no caminho,
um gavião carcará vigia o horizonte,
um galito move o leme minúsculo,
um lobo guará sobe num monte
de pedras.

Tudo são pedras.

As pedras
e a água subliminar.

A casca da anta entre as pedras,
a água entre as pedras
e um pulmão explode
no ar.

A água de pedra
líquida
voa no ar
e corre entre as serras
de pedra.

E vai o Chiquinho
e doa
e abençoa.

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Visita à Nascente do São Francisco é o rascunho-plano de uma longa crônica que postei aqui há dois anos e pouco narrando a minha viagem à nascente do rio São Francisco. Humilde como o rio que vai nascendo e como o São Francisco que comemoramos hoje, ficou esquecida. Penso que a sua simplicidade vale a pena de ser apreciada.

Ah, essa foto foi batida na nascente do Chiquinho.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dois poemas




A MOEDA DE SILÊNCIO

Nos olhos cinzas de névoa
A moeda do silêncio.
Os pássaros petrificados
Nas árvores secas.

Os sapatos à beira da estrada
À espera dos pés de ninguém.
Uma fina lâmina de vidro
Quebra-se.

Deus de areia, noite escura
De Deus.
Uma lâmpada sem óleo,

A luz negra,
A chave enferrujada
E a pátina no chão do deserto.


ESTRANGEIROS

Era madrugada e velávamos.
Descemos a montanha com o peito deserto.
Estranhos como deuses.
Nem sabemos o nosso próprio nome.

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Dois poemas de O Silêncio de Deus. A Moeda do Silêncio foi o último escrito, e Estrangeiros é um dos primeiros, feito há uns 30 anos - é um poema que resistiu ao tempo, continuo prezando muito, vendo nele um estranhamento (faz jus ao seu tema) que o torna especial.

A foto é das falésias do Beberibe, no Morro Branco, de quando fomos a Fortaleza, em abril deste ano. É o mesmo lugar onde bati a foto da capa d' O Silêncio de Deus.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Imanência e transcendência na poesia do mestre Brandão


capa de O Silêncio de Deus, 2009.


IMANÊNCIA E TRANSPARÊNCIA NA POESIA DO MESTRE BRANDÃO


Prefácio de O Silêncio de Deus, de J. C. M. Brandão, por

Luiz Vitor Martinello*


A Poesia brota dos dedos de Brandão. E como disse certa vez: “palavras que são coisas, com o saber de experiência feito, com os mestres, a quem chamamos clássicos, aprendida.”

A Poesia brota dos dedos de Brandão, iluminada: “pau, pau e pedra, pedra; ou bichos, árvores, terra e sangue.” “O poeta não escreve para dizer coisa nenhuma” – afirma com convicção – “mas para fazer”. E citando Ionesco: “entregar mensagens é trabalho do carteiro.”

O poeta não escreve para dizer coisa nenhuma, mas para fazer. Para fazer-se? Ao fazer seus poemas, Brandão faz-se. E mais: faz outros poetas quando, ministrando um curso de poesia, sugeridas as palavras “olhos, água, caminho, pássaro, flor, mesa “– ele que é prestidigitador delas – escreve, ensinando o caminho das pedras, que burila como só o fazem os verdadeiros poetas:

olhos
no caminho

uma flor
na água

um pássaro
sobre a mesa

Já em sua primeira obra, O Emparedado, Brandão anunciava sua procura: “na pedra mais dura / forjar um estilo” em busca da “palavra mais pura”.

Intrometo-me em um de seus poemas, recorto-lhe alguns versos (pura heresia) a substância em minhas mãos, plena, cantiga de enamorados, numa dimensão outra, inefável, candidamente erótica, magia absoluta:

Você olhava o sol poente.
Você queimava.
Eu não olhava os seus olhos,
seria a perdição.
Eu segurava os seus seios,
queimavam.
Maçãs encarnadas
pulsando, derretendo os meus dedos.
Candelabros
iluminando a noite.

Aliás, já em Emparedado percebemos a variedade de formas de que Brandão se ocupa em seu ofício, cada poema como pedra preciosa exigindo particular artifício: redondilhas, decassílabos, alexandrinos, oitavas, sonetos, tercetos, dísticos, aliterações, e também versos brancos, rimas consoantes, toantes, e estrofes que são verdadeiros haicais:

Por breve momento:
O tempo não era o tempo:
de tão antigo.

Em seu segundo livro Exílio, dê-se registro às palavras de abertura: “Por toda a grandeza do universo, do tempo ou do amor, eu quis a mágica da ascese, um vôo secreto na febre do sangue. O poeta sonha a forma do espírito”.

Suponho, ao ler esse fragmento, que Brandão conceba dois mundos: este - o da nossa miserabilidade, um exílio desgraçado, no sentido de termos sido desprovidos da graça (não somos anjos caídos?) e o de nossa origem, qual o mundo das idéias de Platão - ao qual ansiamos por voltar. São palavras do poeta em Exílio:

Dura mão abateu-se sobre nós.
Feriu—nos, castrou-nos.
E somos pobres como o olhar de um animal acuado.

Por isso o poeta assinala:

Não durmo. Duro
na noite em que me encontro
de mim ausente.

Ou, numa variação de imagens, o mesmo:

Um piolho
Mil piolhos me roem
O cérebro. Em frangalhos
Serei eu mesmo, o que escreve
Ou o que vive o estupor?

Só a ascese nos devolverá o Paraíso perdido, só a Arte pode, desejando criar o Belo, nos dar momentos de transfiguração, de transcendência para além desse mundo de sombras e espectros. Assim, para Brandão cada poema é uma elevação da alma, sua construção funcionando como um exercício de ascese, de elevação do espírito, uma verdadeira simbiose entre o aperfeiçoamento do poema e da alma.

No livro Poemas de Amor (que tem na contracapa um poema a mim ofertado, sempre meu muito obrigado, caríssimo Zé) parece-me que Brandão tirou umas férias dessa existência sacrificial, assumindo despudoradamente o cotidiano mais prosaico, e paradoxalmente, contente dele, elevando-o à mais alta poeticidade, talvez por que, escolhido o Amor como tema, seja este o único resíduo de nossa contingente e abatida divindade a nos possibilitar algum alento de antevisão do Eterno:

O amor ordena a casa apagada,
a mesa, o fogão, a cama aconchegante,
a fogueira à beira do lago,
os nossos corpos unidos,
a nossa alma que se eleva.

Ou:

Um dia você tirou a roupa,
eu abaixei os olhos.
Você tirou o corpo, me deu.
Eu me ajoelhei.
[...]
E o espírito de Deus pairou
Sobre as águas.

Sabedor, agora, de outro caminho, o da Plenitude (“os amantes cruzam o umbral do tempo: em breve seremos eterno”s) Brandão já não mais recrimina este mundo; faz mesmo dele ante-sala, tempo de espera e com ele se compraz:

Deus pasce do alto.
A ovelha bale fora do aprisco
e volta.
O mundo é grande
e calmo cristal
onde brilha a face de Deus.

Há mesmo em seus últimos poemas (ainda inéditos em livro) uma complacência serena e sábia com este mundo em que:

As siriemas bicam o dia
na porta
da cozinha.

Essa antevisão da Plenitude aqui e agora na mais cotidiana realidade é reveladora definitiva da ascensão do poeta, já então estranho aos mortais comuns:

A luz me libertou da pedra.
Atravessei o rio subterrâneo,
atravessei o túnel escuro.
Cego de tanta luz,
eu me prostrei: Estou pronto, Senhor.
Quando me levantei,
era mais um estranho na terra.

Dessa estranheza sagrada de que é feita a alma dos grandes poetas.

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*Luiz Vitor é o poeta mais conhecido de Bauru, autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”.

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Peço desculpas aos amigos, elogio em boca própria é vitupério, mas eu não pedi ao Vitor para falar bem de mim. Já que ele escreveu, eu mostro.

O Vitor fez este ensaio há uns dois anos, mas cabe bem como prefácio de O Silêncio de Deus.

O Vitor foi generoso demais, chega a chamar-me de grande poeta, porque é meu amigo, mas também soube captar o que há por trás ou por dentro do que escrevo: a ânsia de transcendência.

Estou lançando O Silêncio de Deus pela internet, com impressão sob demanda, um tipo de edição que chegou ao Brasil somente neste ano.

Quem quiser adquirir um exemplar, basta fazer o pedido que o seu livro será impresso em São Paulo e, dentro de 5 a 10 dias, chegará pelo correio.

O grande problema da poesia é a falta de divulgação. Com este método, os livros poderão ser bem divulgados em blogs e sites.

Quem quiser conhecer mais, pode clicar no título deste texto – Imanência e Transcendência... – ou na barra à esquerda do blog.

Um grande abraço.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ipês




Os ipês estão floridos como nunca.
É inverno, mas todos os ipês gritam.
Tanta vida na claridade do dia.
Flocos de paina brincam com a brisa,

a beleza breve me veste de alegria.
Quatro garças brancas na copa das árvores,
ao longe, como a imagem da quietude.
Os ipês estão carregados de pássaros

e cálices de flores que gritam.
Um cachorro late como o meu coração.
A claridade é o nome da beleza.

Os pássaros maduros pingam mel;
o sol, como um cálice, pinga luz
do alto dos ipês que gritam como nunca.


Presença da Morte, 1991.
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Não era minha intenção mostrar textos antigos, principalmente se já publicados. Mas ninguém viu esse livro, apesar do Prêmio da Bienal Nestlé. E não resisti à tentação de comemorar a Primavera - apesar de estar chovendo, de esfriar à noite... Os ipês são mesmo árvores que florescem no inverno, antecipando a Primavera, indicando a passagem de uma estação à outra.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A estrela da noite - poemetos




A ESTRELA DA NOITE

A estrela da noite,
branca e vermelha,
sorri para a cidade.


DILÚVIO

Espero um dilúvio
para inundar a minha garganta
seca de Deus.


ALVORADA

Quebrem as garrafas!
Quero um banho de luz verde,
quero me afogar no sol.


A ESTRELA DA MANHÃ

A estrela da noite
lívida, quase sangrando,
nasceu de manhã.


ESTRELA MORTA

Perdi a noite e a vida
contemplando uma estrela
que já morreu.


TERMÓPILAS

Depois do deserto,
depois do desfiladeiro,
o mar é belo.


ECLESIASTES

Vaidade das vaidades.
O jardim das delícias
e a morte do sol.


SARÇA ARDENTE

Montanha deserta.
Pássaros caem
com o sol.


ARANHA

Vou urdir a teia
em sua trama dourada.
Sou aranha-enigma.


CRIAÇÃO

Pensei uma rosa
no deserto escuro.
Floriu na minha mão.


ALIANÇA

Não comerei rosas,
não beberei vinho
no rio eterno.


BOSQUE

Na trilha do bosque
abraço o velho pinheiro,
que me abraça.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A iluminação dos poeminhas caindo na ampulheta




AMPULHETA

A areia na ampulheta não para.
Cada vez mais vazia
a praia.


ÁRVORES

a areia leve
o mar desenha árvores
passarinhos voam


SABEDORIA

Agora já não tem pressa.
Agora está com a boca
coberta de terra.


ESCURO

a areia cai no escuro
ninguém vê o tempo
ninguém vê o mar


O SAL DA PAISAGEM

As ondas do mar
e a música do silêncio
na areia da praia.


GRITO

Os olhos das crianças
assassinadas na rua.
Um grito de vidro.


ÓRFÃS

as crianças uivam
estranguladas
para uma estrela


CEIFA

A língua canta
os olhos no espinheiro
como flores do abismo.


PAISAGEM URBANA

cidade arrasada
trapos sangrentos
cadáveres de ninguém


PÉROLAS

pérolas nos olhos
asas loucas do mistério
vêm e vão na brisa


O GIRASSOL

Por que gira o girassol?
A terra gira porque o girassol gira,
o sol gira nas hastes do girassol,
o universo inteiro gira porque o girassol gira.


SUCATA

Uma rosa sangra.
Poesia na sucata
apesar da dor.


DOMINGO PEDE CACHIMBO

Há domingos tão belos que até os cachimbos florescem.


PUREZA

Chovia na vidraça e nos meus olhos.
A minha face estava pura como um coração.
Os pássaros de Deus semeavam margaridinhas na minha língua.


O TRIGAL DE VAN GOGH

Os grãos de ouro explodem.
Vincent corta a orelha, fura os olhos
em êxtase com tanta cor.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O êxtase da poesia


Santa Teresa d'Ávila, de Bernini

Escrevi num poema (Poética Essencial, 2008) que eu “Escrevo para entrar em êxtase. / Escrevo para ver Deus.” Muita pretensão? Ninguém diria isso se São João da Cruz ou Santa Teresa de Jesus, grandes poetas, além de santos, tivessem escrito esses versos. Santa Teresa dizia que se policiava para não entrar em êxtase, que, por qualquer descuido, sentia-se transportada, pela força da oração, para fora da realidade. E São João da Cruz era o enorme poeta da Mística, que cantou as núpcias da alma com Deus.

Todavia não é outro o poder da poesia, a sua função é, em primeiro lugar, encantar, não pelo encanto em si, mas para, pelo encantamento, iluminar, extasiar, levar-nos a transcender a nossa pobre realidade. Não usei o verbo “extasiar”? Um verbo que usamos comumente para dizer que estamos encantados, iluminados, extasiados pela poesia. Extasiados, isto é, em êxtase.

A função da poesia é fazer-nos entrar em êxtase. É levar-nos a atingir a transcendência. O que é o Transcendente, em última instância? Deus. Por isso escrevi o nome Transcendente com maiúscula, porque estava escrevendo o nome de Deus. Por isso registrei que “Escrevo poesia para ver Deus.” É a pura e simples verdade. Ver Deus pode não ser tão extraordinário.

Li e reli várias vezes o capítulo “Êxtase em Óstia”, das “Confissões” de Santo Agostinho. Queria ver o que haveria de extraordinário nesse “Êxtase”. Santo Agostinho elevando-se do chão em companhia de sua mãe Santa Mônica, inebriados do amor de Deus, como se já não pertencessem a este mundo vil? Sem peso, etéreos, duas almas, dois corpos gloriosos, triunfantes, libertos das contingências da carne? Nada disso se via, nada de fora do normal estava acontecendo, nada do que achamos que é fora do normal. Apenas a mãe e o filho recém-convertido contemplavam a natureza de Deus.

Agostinho e sua mãe contemplavam a natureza, a beleza da paisagem, a criação maravilhosa de Deus. Não eram mais do que duas pessoas comuns olhando a natureza, encantadas, extasiadas com a poesia que viam no jardim e além, até o mais distante que poderiam imaginar. E esse mais distante que poderiam imaginar estava próximo, estava ali ao lado deles, mais do que isso, estava dentro deles. Compreenderam que o Criador, esse Ser tão distante, completamente inconcebível, estava ali junto deles, dentro deles.

Escrevi sem querer, mas acertando, que Agostinho e Mônica contemplavam a natureza de Deus. Eu me referia à beleza da paisagem que olhavam, que os rodeava. De fato o que Agostinho nos conta no seu “Êxtase em Óstia” é que ele e a mãe viram Deus. Não viram a natureza verde do jardim ou o infinito dos espaços azuis a se perder de vista, mas viram a natureza de Deus. Agostinho, quando escrevia, era poeta – e contou, com a mágica das palavras, como viram Deus.

Concordo que é muita pretensão, ver Deus. Mas qualquer conhecedor de poesia sabe que a sua função é transcender a realidade, é ver o invisível, é iluminar a noite escura da alma. A função da poesia é dar a ver Deus.

Não é preciso ser santo para ver Deus. É preciso ser poeta.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Sinfonia




Ela veio com os lábios abertos, o coração
com muita sede: os morangos eram vermelhos
de urgência, o sangue derramado do pássaro na mão.
Nós nos amamos sem a palha das palavras:

queimavam os corpos largados, a polpa explodia
dentro do espelho. Nós éramos amantes na praia
da meia-noite: o motor de popa, as hélices, a lâmina
do amor girava, cortava em fatias o desejo.

Ela se foi com os girassóis da madrugada,
pisando a terra vermelha das plantações,
a memória de quando éramos outros e ninguém.

Ela se foi para as águas e as colinas do cristal alado.
Na minha língua vai florindo a flor da loucura.
Com o mel do mito componho a sinfonia do absoluto.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A ponte impossível - pintando o sete




A PONTE

Sei que a poesia
é uma ponte impossível
com a luz à frente.


MATINADA

A casa quieta
acorda com os pássaros
à beira do lago.


LAVRA

Lavro a palavra,
planto a imagem,
germina o poema.


TÃO PURINHO

Pinto o paraíso
na porta da minha casa:
a cobra e a maçã.


ANTIPREGÃO

Não faço um poema
para vender na feira.


PREGÃO

Faço o meu poema
para encantar
a gaiola e o pássaro.


CANGA

Com a canga no pescoço
o homem mói a cana e o tempo
sob o céu azul.


ERGO SUM

Penso com imagens
fora do lugar.
Sou poeta.


CAVE CANEM

Nas Ilhas Canárias
os cachorros voam
e cantam nas árvores.


NO MEIO DO CAMINHO

Tinha uma pedra na mão.
Jurava que era um pássaro,
mas voou.


COGITUR

Borges, Homero e Milton eram cegos.
Logo, para ser poeta
é preciso ser cego.


POENINHO

Faço o meu poeminho
para o meu passarinho
no ninho.


CAVE POETAM

Na Casa do Poeta
em Pompeia, a inscrição:
CUIDADO COM O CÃO.


QUOD SCRIPSI, SCRIPSI

O que escrevi, escrevi.
Depois corrijo, emendo, rasgo e queimo.
– Se alguém mais fizer isso, leva uma patada.


MAIS UM

De gênio, poeta e louco
todo mundo tem um pouco,
muito pouco.
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Brincadeirinhas. Em frente à Casa do Poeta Trágico, na Pompeia destruída pelo Vesúvio, lia-se numa tabuleta: CAVE CANEM, cuidado com o cão.
Nas Ilhas Canárias, que têm esse nome não por seus belos pássaros, mas por suas matilhas de cães selvagens, foi brincadeirinha.
Mas não posso deixar de lembrar a frase de Elias Canetti: “O poeta é o cão do nosso tempo”. Então, não é só brincadeirinha.
Adorno se perguntava se a poesia ainda seria possível depois de Auschwitz. Pois é quando é mais necessária. Porque a função da poesia não é enfeitar, mas iluminar. “O poeta é o cão do nosso tempo. “
A poesia é um jogo, mas não inocente, nunca se joga impunemente.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Lenda de São Julião Hospitaleiro, segundo Flaubert




1

Julião ouve a maldição do veado:
“Matarás o teu pai e a tua mãe.”
E toda uma vida carregou
essas palavras nos ouvidos loucos.

Foi o guerreiro vil do desespero,
matou por reis e príncipes e damas.
Premiado com a mão de uma donzela,
vive feliz sem mais caçar, jamais.

Mas ele vai caçar, e é perseguido
pelos animais, pela maldição.
Volta nas mãos da angústia para casa

e mata em sua cama o homem deitado
com a sua mulher, sem saber que eram
o seu pai e a sua mãe – e a maldição.


2

Julião atravessa os viajantes
no seu precário barco, sobre o rio
terrível, por qualquer côdea de pão.
Cumpre a pena do seu pecado infame.

Um dia ouve o chamado entre as ondas,
era um leproso sob as trevas frias.
Julião leva o homem para o outro lado,
dá-lhe comida, dá-lhe de beber,

aquece-o com seu corpo, na sua cama.
Encosta bem o corpo ao corpo nu
para esquentá-lo – é tão gelado o pobre!

O pobre que abraçou, com as estrelas
nos olhos, a Julião extasiado
era Jesus que o arrebatava aos céus.

______________________

Isto é apenas um exercício, e um convite aos meus queridos leitores: releiam o conto São Julião Hospitaleiro, de Flaubert. Agora que relembraram a história, vejam o trabalho de linguagem de Flaubert - comprovando, agora e sempre: literatura é linguagem.

domingo, 6 de setembro de 2009

o haicai ensina que a beleza não morre



a coroa de gladíolos
em volta do chafariz
muros de musgo caem
___________

o mar era azul
nós dançávamos na chuva
árvores ventavam
________

o lagarto de vidro
como uma cobra verde
desliza na água
__________

cicio da ramagem
murmúrio da fonte
sossego noturno
____________

nesse momento
ouvindo a noite
sou eu o mundo
_________

no tronco da árvore
o ninho pequeno
quatro bocas aflitas
___________

a clara paisagem
na moldura da janela
canta um bem-te-vi
_____________

entre o musgo verde
o lírio roxo se inclina
para a água gelada
_________________

o sol poente
tece as nuvens
com sangue
__________

a beleza
flor da morte
não morre
________

as flores de limão
as abelhas zuniam
perfume doce
_______

nascemos doendo
a angústia escura
a luz cega
__________

coroada de sol
a nuvem iluminada
orlada de ouro
___________

mais luz mais luz
a miséria não tem fim
vejo Deus no azul
_________

carda e fia
doba e tece
e morre
__________

a beleza dói
como a sombra de Deus
sobre o universo
_______

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

a nudez de algumas piscadelas parecidas com haicais



NUDEZ

Nasci nu de espanto
com o mistério da vida.
Mais nu morrerei.
__________

o quero-quero
diante da água correndo
bebe o verde
_____________

A água pisca para o sol
ou o sol para a água?
___________

que claro mar
tantas gaivotas
seu grito branco

_________

a lua caiu
no fundo do mar
em silêncio
______________

o orvalho
doce nos olhos
memória
_____________

uma flor
no focinho do porco
infância
_________

tirei o espinho
da perna do cachorro
choramos
______________

tinha o silêncio
na palma da mão
brilhava
________

deitou-se na cama
como no fundo da cova
à espera
_________

o morto sorria
como se não soubesse
_______

a borboleta beija
as pedras da rua
como beija a flor
___________

um pássaro azul
canta na beira da estrada
vai morrer
____________

a flor do ipê
é um cálice
de cor e luz
_________

as abelhas
giravam loucas
sobre o girassol
_________

a aranha tece a teia
da árvore até a água
numa réstia de sol
_____________

num canto da calçada
na noite morta
a pombinha dorme
________________

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Epifanias do exílio – a Miroslav B. Dušanić



EXÍLIO

O cheiro de cipreste
lembra o esquecimento.

Vem do Norte
o frio da aflição.

As canções das laranjeiras floridas
viajam nas asas das andorinhas.

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SALMO

Logo será meu tempo:
o que eu tenho de céu
brilhará
sob as raízes das árvores.

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ELEGIA

O leve chuvisco das minhas lágrimas
molha a terra com doçura.
Aumenta a minha dor.

__________

ESTRANGEIRO

Todos me olhavam como um estranho.
Ninguém entendia a minha língua,
nem a minha angústia.

_________

AUTO-DE-FÉ

Pus as minhas asas para secar ao sol.
Queimaram.

Restou apenas um punhado de cinza
sob o céu de vidro.

_________

ENFORCADO

Enforcado no teto da minha casa,
conheço quanto é longa a morte.

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EPIFANIA

Proibido comer estes poemas.
Proibido beber.

São de algum pássaro louco,
são do fogo.

Você poderá, talvez,
ouvi-los uma vez
e depois morrer.

Poderá, enfim, vê-los queimando no fogo
na mesma fogueira
em que você estará se queimando.

__________

MEMÓRIA BRANCA

Uma faca cravada na parede.

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O primeiro destes poemetos foi comentário a um poema de Miroslav B. Dušanić - http://miroslavdusaniclyrik.blogspot.com/ -
e me sugeriu os outros.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

a roda d'água a roda da vida




INTIMIDADE

Entro no espelho
despido.


FARDO

Levo em cada ombro
D. Quixote e Sancho Pança.


CIPRESTES

Caminho ao longo
da alameda de ciprestes
com a morte no bolso.


PAZ

A rosa no altar
e a luz de uma pomba
sobre a pedra sagrada.


O MAESTRO

O velho carvalho
agita os ramos e acorda
o canto dos pássaros.


VÊNUS

Um busto de gesso
no jardim noturno
com o luar nos seios.


ESPELHO

Nas águas do lago
entre o verde das árvores
o universo refletido.


CLARIDADE

Tinha uma gota de orvalho
e uma orquídea nos olhos.


QUASE

No escuro da pedra
o silêncio de Deus.
Quase entrei em êxtase.


BUSCA

O menino perdido
estava agachado dentro
do pé de ameixas pretas.


A RODA D’ÁGUA

Ao sol de setembro
canta a roda d’água
a música da vida.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

a iluminação no jardim da tarde - poeminhos com sol, suor, sede e sangue



BRISA

A brisa leve
faz cair as pétalas
das flores de cereja.


SEDE

As uvas estão maduras.
Como é grande a sede
do menino ao sol.


VÔO

A árvore enfuna as velas,
no espaço, com as estrelas.


CINZA

As nuvens cinzentas.
O crepúsculo me espera
sob as árvores secas.


DISTÂNCIA

O horizonte ao longe.
É pesado este caminho
que ninguém percorre.


MARTELO

Na forja da tarde
o martelo da araponga.
Uma laranja cai.


SANGUE

Pitanga vermelha
como uma gota de sangue.
Tenho o sol nos olhos.


PÔR-DO-SOL

A lagarta numa pétala
da rosa no galho.


ALTURA

O sol ilumina
a estrada na montanha.
Caminho com orgulho.


FIGO

A menina na cerca.
O sanhaço azul
bica o figo maduro.


ACIDENTE NATURAL

A lagarta caiu da árvore.
Me manchou de verde
o peito vermelho.


CÁLICES

Cálices de flores
gritam no alto dos ipês.
Pássaros pingam mel.


DESCOBERTA DA DOR

A goiaba vermelha.
Queima o braço do menino
uma lagarta de fogo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

poeminhos para Aníbal Beça, que nos deixou hoje de manhã



deitado sob a árvore
o prisma das folhas
me entrega o universo

o tronco é grave
como o meu avô
dormindo a sua morte

quanto resplendor
o pássaro me traz o sol
nas asas, no canto

tenho estrelas nos olhos
minha estrada é larga
no horizonte de ouro

O silêncio e o pássaro.
O pássaro ia e voltava.
O silêncio, redondo.

A cor dos açafrões.
Giram no vento as folhas
e o grito dos pavões.

Estamos no outono.
O universo se concentra
numa folha seca.

O olhar se quebra.
Estrelas doidas
sobre o caos.

A madeira estrala.
A noite, como um morcego,
pende do telhado.

O raio partiu a árvore ao meio.
Foi como se o universo
tivesse desabado.

O luar penetra
na minha casa quieta.
Os lençóis são brancos.

A maçã repousa na mesa.
Nela pulsa a memória
da macieira.

É leve o meu caminho.
O perfume de uma árvore
me agasalha.

domingo, 23 de agosto de 2009

Nenpuku Sato, poeta visceralmente brasileiro

Dizer “visceralmente” parece exagerado, mas não sou eu quem o diz. Nenpuku Sato traz as vísceras no nome. Chamava-se Kenjiro, e adotou o nome literário Nenpuku – em que “nen” significa “sentir”, e “puku”, “vísceras”: “sentir com as vísceras”.

Chegou ao Brasil em 1927, incumbido por seu mestre Kyoshi de ensinar o haiku aos imigrantes.

Kyoshi era herdeiro de Shiki, o sucessor de Bashô, Buson e Issa. Shiki é responsável pela modernização do haiku, respeitando-lhe a tradição. Contra o que havia de zen em Bashô, aprovando a aproximação com a pintura em Buson, queria um haiku eminentemente literário.

Era essa a lição de Nenpuku: a simplicidade, sem nenhum pedantismo, a pintura com as palavras. Mantendo os princípios técnicos do haiku: um mínimo de 17 sons (pés ou sílabas, para nós) e o kigô, a notação sazonal.

Aí começa a dificuldade. A nossa natureza é diferente da japonesa. Quase não se percebem as estações do ano. Mas quanto mais Nenpuku se integra com a nossa terra, mais a conhece e a torna sua.

Não se pode dizer até que ponto a nossa terra se tornou a terra de Nenpuku, até que ponto ele se tornou brasileiro, mas é certo que sentiu a natureza do Brasil como sua.

Um dos seus mais belos haikus é o da via-látea:



Na trascrição fonética: “Happo ni nagaruru hoshi ya ama no gawa”

Se “ama no gawa” significa “via-látea”, e o poeta queria comparar a “via-látea” a um rio de estrelas, parece-me que uma tradução fiel ao espírito da letra seria esta:

a via-látea
é um rio de estrelas
fluindo suave

Um poema essencialmente poesia.

Outro poema que me chamou a atenção é o da flor do café dominando a cor da paisagem:



“nagare kuru kohii no hana ni sosogi keri”

Que seria mais ou menos:

a flor do café
no rio a roupa lavada
flutua mais branca

Ou então, quando o poeta levanta os seus olhos para o cafezal:



“kohii no haha akari yori ideshi tsuki”

que eu poderia interpretar como:

a lua se inclina
na brancura perfumada
do café em flor

E me lembro dos meus tempos de criança...

Eu sempre tive um certo constrangimento em chamar de haiku ou haikai certos poeminhas meus. Eu não tenho a mentalidade oriental. Sou incapaz de sentir como um japonês. A minha sensibilidade tem uma longa retaguarda greco-latina, ocidental, cristã. Posso fazer poemetos epigramáticos, um pensamento animando um elemento da natureza, as palavras dando forma a uma concepção de mundo milenar, oposta de outra milenar concepção de mundo, vinda do oriente, do Japão.

Mas no fundo estava a terra. No fundo, a mesma dificuldade de Nenpuku Sato. Como sentir a terra do Brasil? Nenpuku abrasileirou-se. Era um lavrador trabalhando a terra, com o seu suor, que a tornou sua.

Por que os haikus do café me chamaram particularmente a atenção? Eu fui criado numa fazenda de café. Eis tudo. Usei e abusei na minha poesia do sintagma “verde e vermelho”. Num poema dedicado a Mário de Andrade, deixei escapar um “verde e vermelho”, e um amigo (cheio de boas intenções) viu no “vermelho” uma alusão ao comunismo de Mário (que não era comunista). Só faltou ver no “verde” qualquer absurda alusão ao integralismo de não sei quem. O verde e vermelho que colore a minha poesia é a cor da minha terra – interior de São Paulo, terra vermelha – e o verde da natureza, dos cafezais da minha infância.

Faltou falar no branco dos cafeeiros, de que Nenpuku Sato, um japonês, vem me lembrar. As flores brancas e perfumadas dos cafeeiros. Aquele verde e vermelho do café nos pés de café, e depois nos terreiros de café brilhando ao sol, e o branco perfumado das suas flores, eram a maior maravilha do mundo. A minha memória afetiva vibra com mil sensações.

Esse verde e vermelho, e esse perfume branco, não caberiam num haiku?

Nenpuku Sato não foi receber a comenda que o imperador do Japão lhe ofereceu. Talvez porque estava muito longe e velho, já fora do Japão há mais de 50 anos. Talvez porque se sentisse brasileiro. Os japoneses que para cá vieram, seus filhos e netos, já eram brasileiros. Talvez visceralmente brasileiros. Não usamos essa expressão, “visceralmente”, para dizermos profundamente, com todo o corpo, alma e espírito, integralmente? Nenpuku escolheu-a quando escolheu seu nome, de poeta até às vísceras.

Dia 22 de outubro fará vinte anos que Nenpuku Sato faleceu, em Bauru, no Brasil, deixando aqui as suas raízes brasileiras.

____________________________________

Texto-base: Trilha forrada de folhas - Nenpuku Sato / Um mestre de Haikai no Brasil, Maurício Arruda Mendonça, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O estranho matou os pássaros



O estranho matou os pássaros com um martelo.
Eu o tranquei no fundo calabouço.
Estava vestido de penas, nuvens e espumas,
Sonhava no seu leito de pregos com o paraíso.

Os mortos sabem as palavras cifradas,
A chave rolou para o fundo do poço.
O estranho se dizia possuído dos dons do espírito,
Mas trazia a morte na ponta dos dedos

E o seu sopro era seco como o pó dos sepulcros.
O céu veio abaixo, arrebentou o seu peito.
Restam as cinzas dos delírios sobre as pedras,
Mas a sua visão ainda incendeia as estrelas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

mundo haiku



Entre os verdes caniços
o arco-íris sorri.

Saltita no fio
o passarinho vermelho
rindo de mim.

A gota de orvalho
no cálice róseo
da flor do ipê.

À beira da estrada
é mais bela a paisagem.

Tinha uma pedra na mão,
voaram dois pássaros
da alma.

O gato preto sonolento
ronrona como um besouro.

O tiê-sangue
respinga sangue
nos meus olhos.

A imagem do pássaro
voa como o pássaro.

A flor do ipê
é um cálice de luz
na manhã.

A flor-cálice de luz
do ipê
multiplicada.

O gato me olhou
com os olhos verdes
como a paisagem.

O canto do pássaro
inventa o pássaro.

O pássaro é o coração
da árvore.

O poema é natural.
A árvore, sobrenatural.



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A foto do arco-íris é minha.
A do tiê-sangue, no voo, mágica, é da Sônia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

algum haiku



A libélula beija a água
com os dois olhos abertos.

Descanso na clareira.
O esquilo de cauda no ar
voa na floresta.

À beira da estrada
o homem parado
é paisagem.

O sol pesa no céu.
Uma estrela de fogo
na cabeça da serpente.

A gaivota beija o mar
inventa um peixe no bico
brilho de sal e sol.

Uma estrela cai no banhado
as rãs coaxam
os juncos tremem no escuro.

Os meninos e as abelhas
sonham o mel
das pitangueiras vermelhas.

O grito do quero-quero
desperta o banhado.
O capim cintila em festa.

A lua sobre a mesa
e as estrelas no chão
da casa na floresta.

O monte de lenha.
Um grilo no escuro
tece redes de estrelas.

Flores de água brilham
na superfície do lago.
Tudo é calmo e limpo.

Olhar uma árvore
é multiplicar o olhar.

sábado, 8 de agosto de 2009

para o dia dos pais




OS GALOS

O galo debulha a espiga da manhã.
Seu grito trepa as árvores,
o chifre das vacas, as esporas do meu pai.
O velho calça as polainas, amola a faca na pedra negra,

enfia na bainha, na cinta.
Bate o isqueiro de pederneira, acende o cigarro
e monta com um grito na garganta.
Como um galo.

Meu pai e o galo debulham o milho da manhã.
O dia trepa no terreiro,
na invernada,
com o gado mugindo,

soberbo,
único,
para os galos.


JACARANDÁ

Nesta colina está enterrado meu pai:
Emudeceu à sombra de um jacarandá.
Sua voz estrondava, dominava o mundo.
Apagou-se na fumaça do entardecer.

Que noite podre se abaixou sobre nós
Quando se foi o dono da terra, o senhor.
O pasto, a roça, o mato, os bichos existiam
Na sua voz, que é cinza escura dormindo.

Nós todos existíamos na sua voz.
Perdemos a noção de ser no mundo:
Estar, simplesmente, como os bichos estão.

Um homem existe plantado na terra
Ou é nada. Nós sabemos, mas essa verdade
Emudeceu à sombra do jacarandá.

_______________________

Foto de Trevor Hart - Flickr

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ai, cai - para o alto



A areia da praia.
O menino exibe ao sol
um peixe de luz.

A lua entre as pedras
faz cair da montanha
uma avalanche.

Um beija-flor azul
mergulha de repente
por meus olhos a dentro.

Um pássaro num sino
na alta montanha
tange as nuvens.

A pétala na água.
A aranha desce da árvore
na réstia do sol.

A flor negra na parede
da casa branca na praia.
Uma gaivota morta.

Os cravos rosados
na água brilhante de um jarro.
O dia claro é simples.

Venha beijar comigo
o orvalho dos nenúfares.
Do alto a baitaca abençoa.

Bebe de meus lábios,
na clara luz da manhã,
o êxtase do olhar.

Entre as folhas verdes
o canto do pássaro
inventa o pássaro.

Saboreio a amora roxa.
Todo se acabaria
se eu não cantasse.

Um pássaro de ouro
canta na palmeira.
Queimam as penas ao sol.

Delírio.
O lago reflete
o incêndio de um lírio.

As cerejeiras em flor.
Contemplo encantado
uma abelha.

_____________________

A ilustração é o projeto do cartaz para a exposição
do aniversário dos 10 anos do grupo Expressão Poética, no Centro de Cultura de Bauru. Por isso o nº 10 ano centro da paisagem.
E apenas alguns haicais.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O céu no espelho



Olho o céu no espelho, azul, terrível.
Era a face de Deus multiplicada
e alheia à minha humanidade frágil.
Quem sou eu? Quem verei, talvez, no espelho?

No cristal vejo Deus, que não me vê,
alheio no alto azul, distante e frio.
Por que vejo, no espelho, Deus estranho?
Serei eu, gralha gritalhona, o estranho?

Quebro o espelho. Não quero a minha imagem
compartilhar com Deus. Quero os meus cacos
no chão ensanguentado, com as flores

inúteis, como a minha poesia.
Se Deus não me responde, quebro Deus.
O céu em chamas queima-me num sopro.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poente



Fui milagrado de garça no poente.
O sol deslizava na água calma do rio.
Eu voava, bicava uma nuvem que não era, me espreguiçava,
azeitava o bico, contemplava.

A rãzinha conversava com o joão-grande, ele nem ligava, cismava.
Grandes cismas as nossas. Eu com um pé dentro da água
que passava, passava sem sair do lugar.
Água é coisa que nunca sai do lugar,
diferente do sol, que cai, se machuca para ser outro.

Eu cismava e voava com uma nuvem no bico, coloria, contemplava.
Ser Deus é essa graça – essa garça levada.
Paira sobre a água, leva a água: desenha o poente
como quem põe um ovo fragílimo abrindo um arco-íris, garça-íris.

Estou dentro da água, milagrado de garça.
O poente bóia na fogueira acesa com o sangue do sol degolado.

domingo, 26 de julho de 2009

Beira-rio



A formiga se ajoelha para o tamanduá.
Sobe um gemido de princípio de mundo,
do monjolo monótono moendo a estrada.
Cupim-menino estuda arquitetura.

A margem do rio linda com a aurora.
Chove no meu olho a cor das coisas sem nome.
A garça se equilibra no brilho da água.
O rio transborda de pétalas e penas.

Mulheres e porcas estão parindo.
O azul relincha no dia das potrancas.
Uma vaca morta vem navegando

com o seu urubu-pirata em cima.
Emas no capinzal tinem as esporas,
num vôo rasante contra os tições do sol.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O jardim do fim do mundo




Os pássaros voaram com a explosão do sol,
As árvores dançaram com as raízes para o ar,
Os cavalos galoparam na praia agônica.
A minha mesa se abre como uma flor,

O meu espelho se parte como as estrelas no caos.
De repente me descubro no jardim do fim do mundo.
Nada mudou, mas o mundo não há mais.
Depois do horizonte não há um outro horizonte.

Estou à beira do poço,
Estou no deserto escuro de areia,
Estou só na montanha seca. Sou uma pedra.

Um beduíno chega morto de sede, atira a pedra
Dentro do poço e fica esperando o barulho na água,
Fica esperando. Eu nunca chego ao fundo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

As águas do poema




A HERÁCLITO

As águas do rio
estão dentro dos meus olhos.
Nunca acabam de passar.


DIA DE GRAÇA

Era domingo e eu andava
sobre as águas rumo ao sol.


REPOUSO

O barco repousa
de borco na areia
sob a luz da lua.


O RELÓGIO

O poeta fotografa,
na falsa imobilidade do relógio,
o tempo imóvel.


O GIRASSOL

O poema é um girassol –
claridade para todos os lados.


AS ESTRELAS

Olhei o abismo da noite
e as estrelas queimaram os meus olhos.


SACO DE PANDORA

Enfiei a mão no saco de palavras
e tirei as palavras água, pedra,
árvore, azul e um pássaro saiu voando.


O RIO

O poema é um rio:
suas águas defluem
e lavam as dores do mundo.


OS PULMÕES

O poeta tem o céu nos pulmões,
a árvore com os pássaros de Deus.


O FIM DO MUNDO

Chovia a cântaros
quando o mundo acabou.
E sobrevivemos.


QUIETUDE

Como almas quietas,
as pedras no fundo d’água
por toda a eternidade.


IDENTIDADE

Não sou quem sou,
mas quem me invento.

______________________________

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Testemunho

A Pedro Luso de Carvalho



Escrevo sobre o presente.
Tenho um saco de moedas na cintura
E os ombros curvos com a dor do meu tempo.
Escrevo para um tempo que nem papel tem mais?

Para um tempo que não existe, senão no mundo virtual?
Escrevo para o meu tempo, real como o sangue
Que escorre para a sarjeta, que as bocas-de-lobo engolem.
Qual é a minha febre? De onde vem?

Qual é o meu pavor? De que tenho medo?
Qual é a minha dor? Por que estou sofrendo?
A dor do mundo é a minha dor, e sangra

No momento em que escrevo, no presente.
Sou o homem emparedado no meu tempo,
Sou uma tocha a arder na noite, como o meu nome.

________________________

Este poema é meu comentário ao poema Pedra de Toque, de Egito Gonçalves, que Pedro Luso de Carvalho publicou no seu blog (para visitá-lo, clique no título acima - Testemunho).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Catarse




CATARSE

Um pássaro voa
nos ares lavados
da tarde que coa
o seu canto exato.

Canto que penetra
a alma desta tarde
como se uma seta
contra a sua carne.

Carne que descansa
à espera do alarme
da memória fálica.

Fálica tal lâmina
na tarde em catarse
de verde ou luz, cálida.


ÊXTASE

Devoram as grinaldas da paisagem
Os venenos do tempo derrocado.
Como num sortilégio de fecundo
Mistério que se exala e nos consome,

Ferem as faces em nudez agônica
E nos comovem dentes de serpentes.
Num mergulho de trágica aventura,
Na suculenta polpa escura de

Um ofego de mar contra os espaços,
Um vórtice de línguas inquietantes
Sorve o sangue da aurora degolada

Pelas espadas rubras dos olhares.
Contempla o canto limo de agonia
A glória do êxtase e o anseio grave.

______________________

Se o poema não provoca alguma espécie de catarse,
não cumpre a sua função.

sábado, 11 de julho de 2009

O homem cego de si



_________________________________

Curta-metragem do GRUPO BONEQUINHO, com roteiro e câmera de Amanda, namorada de meu filho, Aran, responsável pela edição e trilha sonora (banda bonequinho), com o ator Hesso Maciel, e de quebra um poeminha meu, do livro Exílio, 1983. Inverno, 2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dois sonetilhos do falso



RETRATO

Em presságio e astúcia
Teço a minha angústia,
Rebeladas tochas
Acendo nas rochas

Da minha cratera
De sombras e febre.
Ó festa de sustos,
Luzes, quedas bruscas,

Ó tempos confusos,
Ó vácuos, ó fusos,
Imagem secreta

Em que se enovela
Esta minha musa,
Verdade profusa.


OS OFÍDIOS

Na concha das noites,
Sendas do olvido
E breus do ofício,
A cruz e os açoites,

Perdemos o lenho
Do sonho que somos,
Sem vôo no espelho
Que o recomponha,

Mas prosseguimos,
Solertes ofídios,
No pó que fala.

Perenes, eternos,
Nós voltaremos
À carne da alma.
________________________

Drummond publicou um "Sonetilho do falso Fernando Pessoa".
Eu venho com dois, mas apenas sonetilhos do falso - e a lembrança respeitosa de Pessoa e Drummond.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lenda da Igreja Matriz de Paraty




A SERPENTE E MENINO

A serpente dorme sossegada
Sob o chão da velha igreja.
De seu sono de fábula
Não acorde a serpente prateada.

Essa serpente um dia foi um menino
Abandonado pela mãe.
O menino mamou o leite da Virgem,
Transformou-se na serpente adormecida

Deitada no lençol de terra fofa
Da igreja maternal.
Não acorde a serpente furiosa

No seu leito de penas de anjos brancos.
Olha a serpente! Com o rabo e os dentes
Vai derrubar a igreja no mar.

___________________________

Quem conta um conto aumenta um ponto, mas eu estou apenas cantando uma lenda maravilhasamente terrível como o povo conta: um menino foi abandonado no porão da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, de Paray, mamou nos seios da Virgem Maria e transformou-se numa serpente. O poema tem um ano, a lenda é secular, a serpente ainda dorme sossegada. Que a Flip não faça muito barulho!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Prelúdio



I reason, Earth is short –
And Anguish – absolute
" - Emily Dickinson

Cai a noite de junho na sarjeta,
Cheira a fritura, bacalhau, carniça.
Eu me encolho na minha capa preta
E desafio para a mesma liça

A cruz e a rosa, o abismo das estrelas.
Corre a vida encardida como um rio
Nevoento aos meus pés, sob as janelas
De ninguém, no universo vão, vazio.

O vento chicoteia o corpo inútil,
Com os círios do nada ele me invoca:
Queima a chama o silêncio que me impus.

O tempo que me resta a mais deglute-o
Uma voraz lagarta e sua roca,
Mas a rosa floresce sobre a cruz.

domingo, 28 de junho de 2009

Meu reencontro com Rachel de Queiroz





















Eu tinha nove anos de idade quando mudamos para a cidade. Lembro-me de que minha mãe me dava um cruzeiro para comprar um Cruzeiro (a velha moeda e a velha revista daquela época). Na última página do Cruzeiro vinha uma crônica de Rachel de Queirós. A minha mãe me ensinou a procunciar aquele ch do nome dela como qu - Raquel, que eu começara pronunciando errado.
Interessante como a minha mãe, mulher da roça - o lugar onde morávamos antes nem luz elétrica tinha -, sabia quem era Rachel de Queirós. Não sei se a entendia, mas acompanhava, com admiração.
Depois li O Quinze, gostei muito mais de João Miguel, e por fim, já no fim da vida de dona Rachel, o apaixonante Memorial de Maria Moura. Lia de vez em quando uma crônica. Dona Rachel me acompanhou a vida inteira.
Em 1991 eu a encontrei na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Passamos uma semana no mesmo hotel, tomávamos o café da manhã, almoçávamos e jantávamos juntos. Passávamos o dia no Centro de Convenções Rebouças, em palestras intermináveis sobre literatura. Não apenas nós dois, naturalmente, mas dezenas e dezenas de escritores do Brasil inteiro. Mas estávamos juntos, eu vivia a glória literária - estar ali convivendo com todos aqueles escritores, e principalmente com Rachel de Queiroz.
Era admirável como à noite, que varávamos numa conversa descompromissada de amigos, ela, bem mais velha do que a maioria ali, tinha disposição para ir a um teatro ou a um outro programa fora.
Eu olhava a sua cara doce e pensava em minha mãe. Penso em minha mãe ainda hoje quando penso em Rachel de Queiroz. Não eram parecidas - a minha mãe era bem mais gorda... Eram parecidas - a mesma doçura. Aquela doçura de mãe.
Reencontrei-me com dona Rachel em abril deste ano, em Fortaleza. Um encontro frio, de gelar. Na Praça dos Leões, em frente à Igreja do Rosário, sentada num banco de madeira, dona Rachel envelhece de tristeza. Quem tinha tanta vida, como o bronze é triste!
Pedi a uma menininha que conversasse com ela - a foto ficou linda. Eu conversei com ela, ensaiei abraçá-la - com vergonha. As folhas caíam no chão, o dia estava cinzento, tudo estava triste.
Dali fomos ao centro cultural Dragão do Mar, onde não tive coragem de falar com Patativa do Assaré, dizendo seu poemas sertanejos em pé no pátio. Respeito e admiro a arte desse passarinho do sertão, mas é muito diferente da minha. Eu também vim da roça, mas abastardei-me bebendo de tudo que fosse cultura ou pseudocultura, intelectualismos bestas.
E eu ainda estava triste de meu reencontro com dona Rachel.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Poemas de Gregório Vaz



Apresento-lhes meu outro eu: Gregório Vaz. Um heterônimo que criei há uns 30 anos. Das três partes de meu segundo livro, é dono de duas. Aparecem depois uns 10 poemas dele em uma antologia, mas com meu nome. Me sacanearam. Mas não matei Gregório. Ele escreveu um romance, um livro de aforismos, um livro de poemas revoltados... Os poemas de um revoltado seriam a cara do Gregório Vaz, mas no fim o cara estava a minha cara. Fiz com que hibernasse. Como se não existisse. Na realidade continuava escrevendo. Linguagem desleixada. No Exílio escreveu até alguns sonetos, sem desleixo, mas numa linguagem muito diferente da minha. A sua aversão à cidade podre - título de uma das partes de Exílio: Poemas da Cidade Podre...

Não adianta explicar um poeta. Ainda mais um poeta que não existe. Pretendia mostrar poemas antigos de Gregório Vaz. Talvez alguns aforismos. Mas esta semana ele escreveu dois poemas. Criei um blog para ele. Fiz bem? Confiram os poemas: http://gregoriovaz.blogspot.com

..........link ao lado..............

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Obama e a mosca...




A RESINA

A resina brilha
no tronco da árvore
como ouro.


PEDRAS

Caminho de pedras
subindo a montanha
e água fresca descendo.


O SOL

O grito do sol
atravessa a névoa branca
entre as ruínas.


O SILÊNCIO

O silêncio cai
sobre as pétalas da rosa
como o olhar de Deus.


A VELA

Ninguém apaga
a vela acesa
no dia claro.


A BAITACA

Era uma ferida
na pele do dia
a baitaca eletrocutada.


A MOSCA DE OBAMA

Barack Obama, num lapso,
não salvou o mundo,
mas matou a mosca.


A ROMÃ

Uma gota de orvalho
na romã vermelha
parada no galho.


FLORES AMARELAS

Flores amarelas
pendem aos cachos
dentro dos meus olhos.


O CARNEIRO

O carneiro no capinzal
me olha triste
com os olhos azuis.


UMA ROSA NÃO É SÓ UMA ROSA

No tronco de uma árvore,
num buraco escuro,
nasceu uma rosa.


A GOTA DE ORVALHO

A gota de orvalho
nas pétalas da rosa.
A beleza chora.


A ORELHA-DE-PAU

A orelha-de-pau
ouve o silêncio
e sorri para mim.


FOLHAS VERDES

As folhas verdes
na água da piscina azul
nadam em silêncio.

____________________________________

"Obama e a mosca... ou de como o poeta fazia seus poeminhas quando a política e suas mixórdias se intromete na poesia, na figura do imperador com os chifres e sua real sensatez, que fulmina a pobre de uma mosca com um golpe fatal, durante uma entrevista no dia 17 de junho"

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cristal




Cultivo a minha rosa no mais puro
cristal, mas uma febre me rói pétala
a pétala com uma fome louca
e da flor resta a jarra solitária.

Um cavalo galopa no meu peito,
com seus cascos de fogo me transporta
ao delírio, à neblina da memória.
Tenho uma cruz na boca, tenho terra

nos olhos e uma noite me solapa
cruel, sorrindo escárnio e pus e campa.
Leva-me a insânia numa sem regresso

viagem pelos pântanos escuros
da alma em sua procura esconsa e azeite
e sei quem sou na forma do poema.

domingo, 21 de junho de 2009

Vigília




Quem é a terra? Quem é o cavalo
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.

Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Me esquece e uiva à loucura da vida.

A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro da memória

Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.

_______________________

Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 16 de junho de 2009

Exercícios de admiração



ARTE DE MORRER

Os corpos se entendem
mas as almas não
no frio do caixão.


E AGORA, JOSÉ?

A rosa agoniza
na palma da mão.
Mas você não morre, José.


JUAN RAMÓN JIMENEZ

Atira a pedra na água
e esquece. Você nunca mais
será o mesmo.


GOETHE

Qual a forma do meu poema?
Ainda estou elaborando
o nome da rosa.


ROBERT BROWNING

A pedra cai na água,
o pássaro imóvel no galho.
A rosa, ao sol, se renova.


WALLACE STEVENS

Os melros na relva,
os melros dentro de mim.
Onde estão? Quem fui?


CECÍLIA MEIRELES

Em que espelho ficaram perdidas
as pétalas da rosa?


FRANCIS PONGE

As coisas são as coisas:
não têm alma, não vivem,
mas me fazem mais vivo.


Rosalía de Castro

Vozes verdes, verdes ventos.
Elaboro o meu poema
como um cavalo ruminando.


ANTONIO MACHADO

Caminho na tarde verde
à beira da água clara
onde as nuvens se miram.


JOÃO CABRAL

A cabra magra
resiste comendo pedra.


MANOEL DE BARROS

O rio engole a palavra
e espera a rosa
se mirar em suas águas.


BECKETT

Na luz negra do exílio,
falo com uma pedra
na língua.


WILLIAM BLAKE

Não sou do céu, não sou da terra,
mas comungo, com meu corpo, a flor da alma.


E. A. POE

No silêncio do mar,
o corvo apaga o farol
e sangra a aurora.


DEUS

Abismo.

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Fausto Cunha publicou, in “A luta literária”, uma seção de ensaios com o título “Exercícios de admiração” (em 1964 – mas eu o li em 1970 ou 71). Lembro-me de que um dos homenageados era Mário Quintana, a quem poetas e críticos “intelectualizados” torciam o nariz (existem vacas de nariz sutil – lembrando o romance de Campos de Carvalho).

Em 1986, E. M. Cioran publica “Exercices de admiration”. Até o filósofo do azedume – de uma linguagem delicada, de poeta, que enleva, mas sem nunca deixar de ser azeda – se rendeu ao prazer e dever de tecer belas homenagens aos santos pagãos do seu Panteão.

A mim me ocorreu juntar nesta página alguns de meus exercícios de admiração, mínimos, mas frequentes.

No último poema, “Deus”, não fica evidente a quem é dedicado. Oswald de Andrade e Adriana Godoy. Li esses dias que Oswald é autor do menor poema do mundo: “AMOR // Humor.” Não quis ficar atrás e examinei minha memória, meio fraca, mas nem tanto. Lembrei-me de um poemeto que fiz há uns dois anos “O SILÊNCIO // da rosa. / Abismo.” Curto, mas nem tanto. Então, lendo a última palavra, me lembrei de Adriana, que leu meio incredulamente, mas muito humanamente, meu poema “O abismo de Deus”, e num estalo, numa iluminação, estava pronto o poema: a palavra “abismo” não é uma palavra, mas uma imagem, mais, uma multiplicação de imagens, uma alegoria do universo, que cabe nela, embora, e por isso mesmo, não a explique.

sábado, 6 de junho de 2009

O abismo



O abismo das estrelas, o abismo do mar, o abismo.
Sempre estamos no abismo, irremediavelmente.
Com o silêncio das estrelas, dentro de uma concha.
Ouvindo o grito agônico de uma gaivota ferida.

Quem somos, quem seremos, quem fomos? Memória.
Somos (seremos, fomos) escravos do tempo cruel.
Girando as engrenagens do relógio, nosso domicílio.
Não somos mais que um peixe fora d’água, esperneando.

E vivemos perdidos dentro desse peixe, nosso universo.
Sufocamos sem ar no escuro desse peixe impossível.
A vida é impossível, sabemos. A concha e as pérolas.

O que vemos além das estrelas? Além do mar original?
Nós esperamos uma resposta, mas Deus, magnânimo,
Criou-nos livres como gaivotas voando sobre o abismo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Poemas breves




O CARAMUJO

O caramujo
entre as pedras e as flores
dorme a meu lado.


ASSASSINATO

Matei a lagarta
e a rosa vermelha
na minha roseira.


A VELA

A vela entre as flores
do altar na colina
queima em silêncio.


NA ESTAÇÃO

Murcha nas ruínas
da estação de trens
um ramo de flores.


A PAPOULA

A papoula floresce
nos meus olhos loucos
e morre.


A SOMBRA

Na sala vazia,
no espelho quebrado,
cai a sombra.


A RÃ

Uma rã coaxa
namorando a lua
na minha lagoa.


O CAVALO

Caído num buraco,
o cavalo morreu
de velhice.


OS CACHORROS

As casas no escuro
e os latidos dos cachorros
sob a chuva.


O LIMO

O limo escorrendo
no muro do quintal.
Saudades da infância.


A LAGARTA

A lagarta carrega
uma flor nas costas,
torta de dor, ao sol.


A ARANHA

Matei uma aranha
na parede da varanda.
Fiquei mais só ainda.


O RATO

Deitado na rede,
fiquei ouvindo um rato
que chiava no escuro.


O CACHORRO

Encontrei o meu cachorro
no cemitério entre os túmulos
a minha espera.


O COGUMELO

Vida branca ao sol,
cresce o cogumelo
entre os sabugos, no pasto.


A TAMPA

A tampa cobrindo
nada, nenhuma aparência,
enterrada no canteiro.


O PENSADOR

Macaco diante da morte,
em solidão no universo,
o homem pensa há muito tempo.


O REI E O POETA

O meu reino por um cavalo!
O meu reino por uma palavra!
A diferença entre o rei e o poeta.

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“Poemas breves” é o título de uma das seções com... poemas breves, oras – de um livro com meus melhores poemas dos últimos 20 ou 30 anos que pretendo publicar, não sei se ainda este ano.

“Poesia mínima” é muito bom – e eu terei umas três seções de poemas breves nesse livro... – mas explica muito já no título.

Gostei do nome “poemínimos” – mas até uma antologia de poemas de Beckett em português tem esse título. E vai lembrar “poesia mínima”, “minimalismo”, teorias sobre a poseia com o mínimo de recursos – que pode ser o que tento fazer, mas não preciso confessar já no título.

“Poemas breves” me parece o ideal – não diz nada, apenas que são curtos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Cesare Pavese - uma tradução




A MORTE VIRÁ E TERÁ OS TEUS OLHOS

A morte virá e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.

A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.

22 de março de 1950.

Trad. – José Carlos Brandão

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VERRÀ LA MORTE E AVRÀ I TUOI OCCHI -

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi -
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosí li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
.
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello psecchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.

22 marzo 1950

Cesare Pavese
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foto em http://www.bravagente.com/not01_0309/ital_not20090307a.htm