A poesia da terraO primeiro livro de poesia que li foi “Os simples”, de Guerra Junqueiro. Eu tinha 15 anos de idade e disse lá comigo mesmo algo assim: “Então eu posso ser poeta. Se as coisas simples da vida, a gente e os bichos e as plantas que eu conheço podem ser matéria de poesia, e se o poeta é alguém comum e não uma abstração (naquele tempo o poeta era uma entidade abstrata – Camões, Bocage, mesmo Cruz e Souza, Bilac, muito distantes da gente, do que entendíamos por gente), então eu também posso ser poeta.” E escrevi o meu primeiro poema.
Era um poema sobre a figueira que havia em frente da casa da minha infância. Era um poema péssimo e eu sabia disso. “Mais tarde eu aprendo a técnica do verso e reescrevo”, eu me disse. Uns 35 anos depois, quando pensava já ter aprendido a técnica do verso, aprendi também que o verso não é necessário – verso, métrica, ritmo, rima, estrofes, etc. são acessórios, o essencial na poesia é a imagem. Se o poeta não cria a imagem num poema, não criou poesia. E escrevi um poema em prosa sobre a figueira. Logo depois, um segundo poema – também em prosa.
Alguns anos depois, o poema “A figueira” que está em “Memória da terra”. Os dois últimos versos, que estão na capa do livro, são a única vez em que expresso uma ideia. A poesia não é feita para expressar nada, mas para criar imagens. Fiz uma concessão (ninguém é perfeito) ao escolher os poemas de “Memória da terra”, talvez porque é uma passagem significativa: a infância morreu, nós somos outros, a própria terra é outra, impossível recuperar o tempo passado. Apenas como memória, como Proust fez. Mas eu optei por cantar a terra no presente. Cantar a beleza da terra em si, como estou vendo hoje. Como uma homenagem à terra que eu conheci, ao menino que eu fui.
Não faço poesia sobre coisas antigas. Não pretendo recriar o passado. Crio imagens vivas, do aqui e agora. Como vi e senti no momento presente. A terra é o domicílio do homem neste universo. Impossível conhecer a complexidade do universo. Impossível conhecer a complexidade do próprio homem. Mais lógico cantar o que vejo e toco, coisas concretas e não abstrações, com palavras simples e diretas. Sem ideias, com imagens. Se estou mostrando o que vejo, estou criando imagens. É inócuo fazer elucubrações intelectuais sobre a vida ou o universo. Não estou escrevendo um ensaio, mas poesia. Poesia se faz com imagens. Só.
O poeta é quem acredita na frase “Uma imagem vale mais que mil palavras” – e dedica uma vida a transformar palavras em imagens.
Como concessão, incluí (ninguém é perfeito, repito) alguns elementos da memória. O terreiro de café, as jabuticabeiras, o grito do meu pai, os olhos da minha mãe, o bezerro Bito, a vaca Moela. O mais são imagens presentes, que acabei de ver. Costumo dizer que não tenho imaginação. Mas imaginação também pode ser definida como capacidade de associar imagens, que é o que faço, e portanto – tenho imaginação. Às vezes também o que vulgarmente se chama imaginação. Veja o poema “A argola”. Muita gente, a maioria, dirá que é memória. É pura invenção (nunca existiu argola nenhuma). Poesia é ficção. Muita gente, a maioria, costuma se esquecer de que poesia é ficção.
Essa é a minha poesia da terra. Simples, clara, visual – imagens para o leitor ver. Poesia não é feita para ser explicada. Não ponham palavras na minha boca. Eu escrevi apenas o que está ali no poema. Por que interpretar, querer deduzir o que eu disse? Se eu quisesse dizer, eu diria. Eu apenas escrevi um poema. Veja as suas imagens, extasie-se com elas. Um poema não quer interpretação, mas comunhão. Não é um enigma para ser desvendado, mas um objeto de arte que se oferece para a fruição estética.
Como no momento estou tomando notas para uma palestra (estou escrevendo algo como um ensaio, que é terreno de trabalho intelectual), vou sugerir umas ideias. Se estivesse escrevendo um poema, deveria criar apenas imagens. Aqui, vou lembrar a epígrafe do meu livro: “Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espetáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno” (Miguel Torga, Diário II). Li essa passagem depois de terminado o livro. Não escrevi minha poesia para justificá-la. Ela justifica minha poesia. É como se eu estivesse falando de mim mesmo. Interessante que a li depois de fazer meus poemas.
A capa do livro deveria ser uma foto da figueira. Caiu um raio sobre a figueira, não é a mesma. Como eu não sou o mesmo. Mas continua lá, no Matão – a Fazenda São José do Matão – da minha infância. Na contracapa estou abraçando uma de suas raízes, pode-se ver como a figueira ainda é enorme. Na capa, a figueira e a casa onde vivi os meus primeiros oito anos. A figueira centenária, como um símbolo do Matão. A casa também centenária, também resistindo ao tempo implacável.
Vou mostrar um vídeo: “Matão, raízes”. Quero dizer que escrevi poemas telúricos porque vivi no Matão e, ali, aprendi a amar a terra. Não aprendi com poetas ou religiões do Japão, China ou Índia. Aprendi com a terra que conheci. Influências? Todos temos. Telúricas, em poesia, tive principalmente de Raul Bopp e seu “Cobra Norato”. Imagens da terra, dos bichos, das árvores, da vegetação exuberante da Amazônia – imagens anímicas, antropomorfizadas.
Davino Ribeiro de Sena disse que eu, em meu livro “Presença da Morte”, premiado na V Bienal Nestlé de Literatura, tinha uma característica bem pessoal de escrever – que usava o sujeito sem o artigo (desde o primeiro poema: “Lâmpada falava, mariposa ouvia. (...) Escorpião se aproxima...”). Eliminei logo essa minha característica “pessoal”, que era de Raul Bopp. Não tinha sentido usar um recurso acessório de Raul Bopp. O que de essencial aprendi dele foi como, em minha poesia, dar vida, sentimento, alma às coisas da terra.
No projeto que apresentei à Lei de Estímulo à Cultura, propus dar um banho de natureza no leitor, com poesia de qualidade. Confiram o que eu entendo por "poesia de qualidade"; ninguém poderá negar o “banho de natureza”. São cem poemas telúricos, cem poemas de exaltação da terra. Somente em Manoel de Barros você vai encontrar tão forte presença da terra, mais do que em “Memória da terra” – mas Manoel de Barros é o maior poeta brasileiro. Conheci primeiro Raul Bopp, mas é uma honra ver lembrarem Manoel de Barros quando leem minha poesia (apenas lamento Raul Bopp ficar tão esquecido).
Em 1989 eu estava datilografando os originais da primeira versão de “Memória da terra”, para o concurso da Bienal Nestlé de Literatura. Deram mais um mês de prazo. Nesse mês escrevi “Presença da morte”, poemas telúricos. E não da morte, góticos, com gosto pelo macabro. Era a morte das coisas da terra, que permaneciam presentes ainda em mim. Os poemas são o reflexo da presença da terra. A pressa (lembre-se: fiz o livro, setenta poemas, em um mês) levou-me a essa falha.
“Memória da terra” começou a ser escrito em 1989. Em 1991, fiz “Sol no umbigo”, que recebeu o Prêmio Brasília de Literatura. A maior parte dos poemas do “Memória da terra” atual são bem recentes – a exceção (10%) são alguns poemas de 1989 (da primeira versão de “Memória da terra”), de “Sol no umbigo” e outros escritos há uns dez anos. Venho aperfeiçoando a minha poética neste tempo todo. Este “Memória da terra” que entrego aos leitores é o melhor que posso dar de mim, em técnica e esforço. Começou a ser escrito naquele primeiro poema, “A figueira” (portanto, há 48 anos), incipiente, tateando o caminho que se estende até hoje, pesquisando, aprendendo aos poucos. É obra de uma vida.
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(O vídeo estará no YouTube depois do dia 22, com link
aqui.)
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