domingo, 31 de maio de 2009

Poesia mínima



VAN GOGH

Por que o corvo
nesse amarelo-ouro
me rouba a alma?


A COR

A luz cai na relva,
mistura-se à sombra
e cria a cor.


EMILY DICKINSON

O retrato antigo
na parede da casa
não envelhece.


TEIA

A mosca pousa
na teia de aranha.
Busca a dor.


A LAGARTIXA

A lagartixa deixa
a sombra na parede
fria como ela.


A CADEIRA

A cadeira navega
no assoalho escuro
como num mar.


AQUÁRIO

Peixes nadam no aquário
dos seus olhos parados
na morte.


A SEREIA

O piano de cauda
é como uma sereia
fora do mar.


O CUCO

Cuco! Canta o cuco
de madeira e metal
– com uma tristeza infinita.


IDÍLIO

A cinza das cartas
no fundo da gaveta
entre as baratas.


O BALDE

O balde de borco
brilha no escuro
entre as panelas velhas.


O RELÓGIO

O relógio parado
ainda marca o tempo
na casa abandonada.


DELÍRIO

No linho dos lençóis
o lírio delira.


POESIA MÍNIMA

Quero a poesia mínima
das ranhuras de uma pétala seca
entre as páginas de um livro.


AINDA

A formiga morta
no cimento frio
ainda é poesia.

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tempo Pascal



UNIDADE


O teu olhar me atravessou de lado a lado.
Dos meus olhos vazados, do meu peito
Saíram água e sangue e a luz mais pura –
A luz dos meus olhos vazados inundou o mundo.

Os homens céticos, as velhas, as mulheres,
Todos os desesperados do mundo se afogam
Na minha luz, na minha líquida iluminação –
E os anjos batem as asas brancas no céu azul.

Eu quero a plenitude da palavra amor.
Eu quero a plenitude do Ágape.
Deus me sustenta na sua mão absoluta.

As árvores cantam a música na lira do vento.
As tempestades levam as penas dos pássaros
E dos homens para a unidade de Deus.



TEMPO PASCAL


Espero a ressurreição dos mortos.
É tão simples a vida do homem puro
Que espera a segunda vinda do Senhor
Como quem espera o trem na estação.

O fogo dança nos lampiões, volta-se para o alto,
Os cadáveres das crianças sorriem beatíficos,
As flores crescem dos túmulos para o sol,
Os pássaros revoam com o delírio da luz.

O meu pai segue com o arado abrindo a terra,
A minha mãe cultiva as dálias da manhã
Nas fazendas de Deus, nos jardins do eterno.

Atravessei os areais do deserto na noite,
Mastiguei as pedras da aranha da angústia.
Espero a ressurreição como quem espera a chuva.


ANIVERSÁRIO

Hoje meu pai faz anos
dormindo sua morte,
mas não para sempre.

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Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 26 de maio de 2009

Migalhas



A MESA

Sobre a mesa rústica
pratos e copos de barro.
E o pão repartido.


LEVEZA

É azul a água do sono.
Meu corpo leve paira
sobre as nuvens brancas.


A ARGILA

A argila da morte
coroa-me de vida
a vida.



O COPO

O copo de bruços
sobre a mesa vazia.
Brilha o nada dentro.


INFINITUDE

Beber-te
não mata a minha sede.


ESMOLA

Que me dás, ó infeliz,
que eu não te tenha dado?



O PESCADOR

Leva o pescador
um peixe maior do que ele,
menor que sua dor.


OS PASSOS

Quem percorre o caminho?
Uma borboleta?
Os passos de ninguém?


LAGO

A lua mergulha
na água do lago.
Ou a rã?



A LAVADEIRA

Passarinho branco e preto,
a lavadeira pipila
no tambor de lixo.


POÉTICA

As palavras do poema
são como as duas conchas
de uma ostra.


AQUI

Estou parado
na beira da estrada.
Mais nada.



O FERRO

Está sem carvão
o ferro de passar roupa.
Brilha no tempo.


PAISAGEM VERDE

A sombra verde das árvores
sobre o chão dos pobres
cheirando a lixo e dor.


A LOUCA

Com um peixe na mão,
uma mulher louca grita:
– Viva a vida!
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Meu poemeto Polpa, foi postado pelo Moacy Cirne,
com muita honra, no Balaio Porreta 1986 - http://balaiovermelho.blogspot.com/

sábado, 23 de maio de 2009

A sombra da lata



A SOMBRA DA LATA

À beira do mato
a lata e sua sombra
sobre as folhas secas.


ANSEIO

Deitamos na areia
olhando o céu azul.
Sonhamos com o mar.


NUVEM

Tenho uma nuvem na mão
densa como uma pedra,
mas chove.


PEGADAS

As minhas pegadas na areia
permanecem muito além
do vento e do tempo.


ESTRELA

Nada levo da vida
senão uma estrela
caída na água.


ENCONTRO

Perdi-me no bosque
para achar a poesia.


AS ÁGUAS

As águas do rio
são pedras ainda líquidas.


FIAT

Deus criou a luz.
Depois nada mais era preciso.


FUI

Fui como pedras.
A água e a terra leve
me poliram.


COMPLETUDE

Cortaram as árvores.
Mataram os pássaros.
O meu exílio é completo.


POLPA

Como a polpa de uma fruta,
o teu corpo.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

O mar em Fortaleza





Dia e noite ouço a música do mar.
Do 13º andar ouço as ondas
Voando como loucas no mesmo lugar.
Batem as asas, assopram, engolem.

Os navios no porto estão parados eternamente
Como uma garça sobre uma perna só.
As jangadas são verdes como o mar.
O tigre da manhã ruge feroz.

Ao meio-dia, à meia-noite o mar ruge.
Ouço o mar rugindo no outro mundo,
Ouço o grasnido de uma gaivota, ouço as pedras,

As árvores afogam-se no mar e gritam felizes.
Ouço o meu quarto navegando nas ondas do outro mundo.
Tenho todas as palavras na mão e desfolho o abismo.

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

O deserto do poeta



O deserto fala comigo, grita, esperneia.
Sou areia ao vento, dunas, miragem.
Preencho o meu vazio com palavras
Como um poema, aceito o arco da forma.

Aprendo o silêncio com a música,
Carrego pássaros de sangue nos ombros,
Contemplo a rosa até queimar os olhos.
A minha vida é o violino do abismo.

Estou só como uma pedra sem árvore.
O poeta lavra a palavra com terra na boca,
Com espirais de areia e sol nos olhos.

O poeta é um cão, ladra na noite,
Disputa o osso do caos e perde.
Cavalgo para sempre o cavalo da loucura.

sábado, 16 de maio de 2009

Memória da terra



CENTRO

O centro da terra é o céu.


VOO

Na memória da terra
delira o azul do céu.


SERENIDADE

A pedra é serena.
Aceita a origem como água
e o fim como terra.


ETERNIDADE

O céu azul brilha
sobre o abismo das águas.
Nascemos para o eterno.


AUSTERIDADE

As pedras são estrelas
austeras caindo
sobre a terra e as águas.


HORIZONTE PERDIDO

O sol brilhava na minha alma.
Entre pedra e céu, achei-me.


FORMA

Qual a forma do poema?
A água e o espinho do cacto
contra o céu azul.


CAOS

Na memória da terra
a paisagem do eterno
e a pedra do caos.


DIAMANTE

Diamante contra o azul,
a beleza revela-se na morte.

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Foto: Sônia Brandão

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gritos e sussurros



O GRITO

Quem me ouvirá
se eu gritar no escuro
quando os anjos dormem?


O SUSSURRO

A aranha devorou
a pequena abelha
e a ordem do universo não mudou.


A REVELAÇÃO

Sempre leio o Apocalipse
à procura das últimas notícias.
Encontro as primeiras.


GÊNESE

Poesia se faz com palavras
e sangue pulsando.
Do sangue nascem as palavras.


O GAVIÃO

Primeiro ouve-se um grasnido.
Depois um gavião leva-me os olhos
para que eu veja o sangue do alto.


VÊNUS

Quando criança quebrei uma Vênus de gesso.
Foi minha primeira obra de arte
e a constatação: o criador destrói a criatura.


A ÁRVORE E A CRUZ

O poeta vai ao dentista
mas não deixa a poesia do lado de fora.
A poesia senta-se com ele na cadeira de tortura,
abre a boca com ele, geme, sofre,
às vezes ganha a forma de um poema.

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Foto: Sônia Brandão

sábado, 9 de maio de 2009

Homenagem às mães



A MÃE

Quando a última batida do coração
Tiver feito cair o muro de sombra,
Para me conduzir ao Senhor, ó Mãe,
Como outrora me darás a mão.

De joelhos, decidida,
Serás uma estátua diante do Eterno,
Como eu já te via
Quando ainda eras viva.

Levantarás tremente os velhos braços,
Como quando expiraste
Dizendo: Meu Deus, estou aqui.

E só quando eu for perdoado,
Terás o desejo de me olhar.

Recordarás de me ter esperado tanto,
E terás nos olhos um leve suspiro.

Tradução de José Carlos Brandão

LA MADRE

E il cuore quando d’un ultimo battito
Avrà fatto cadere il muro d’ombra,
Per condurmi, Madre, sino al Signore,
Come una volta mi darai la mano.

In ginocchio, decisa,
Sarai una statua di fronte all’Eterno,
Come già ti vedeva
Quando eri ancora in vita.

Alzerai tremante le vecchie braccia,
Come quando spirasti
Dicendo: Mio Dio, eccomi.

E solo quando m’avrà perdonato,
Ti verrà desiderio di guardarmi.

Ricorderai d’avermi atteso tanto,
E avrai negli occhi un rapido sospiro

Giuseppe Ungaretti
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Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O gari verde



O gari verde não madura nunca
Para que a sua dor não se perceba.
Empurra o seu carrinho com a cacunda,
Empurra a dor adunca da limpeza

Com a vassoura e o ancinho da desgraça.
Ninguém vê o gari verde sofrendo,
Gemendo como se fizesse graça.
O gari vai da Praia de Iracema

À Volta da Jurema se apagando.
A calça curta verde, as meias verdes
Com a camisa azul e verde vão

Compondo a imagem do gari doendo
Por onde passa, para a Fortaleza
Bela brilhar ao sol como as palmeiras.

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A foto foi batida pela Sônia na Volta da Jurema, Praia do Meireles.
Ouvi falar bem da polícia e mal da prefeita.
Não ouvi falar bem nem mal dos garis. Eu tento cobrir essa lacuna.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Parabéns, Fortaleza







Dia 12: show de aniversário de Fortaleza, 283 anos. Imaginava Fortaleza mais velha, mas é bela. Mona Gadelha, por falta de uma Mona Lisa, introduz o show. Mona Gadelha é a imagem de Fortaleza, juventude, vitalidade da juventude, e beleza.

Ednardo entra e comove o público por quase duas horas. Ednardo não deixou Fortaleza: leva-a no coração. Fortaleza não deixou Ednardo: canta com ele as suas músicas, leva Ednardo no coração.

Mona canta blues. Ednardo, mal entra, sente-se a voz do cearense. Linda a “Aurora” de Ednardo: “Abre as janelas, manhã.” Enfim, temos a presença da poesia. Imagens palpáveis, plásticas. Canta a bela “Calu”, de Humberto Teixeira.

Gostei do “Dono dos teus olhos” – ritmo e imagens fortes. Juntando-se a outras composições, comprova-se o gosto de cantar a dor de cotovelo. Não por acaso, uma das músicas chama-se Lupicínica, lembrando Lupicínio Rodrigues, que era o poeta de dor de corno. Grandes poetas, Lupicínio e Ednardo.

Outras músicas: “Reizado”, “Art. 26”, “Amor de Estalo”, “Longarinas”, “Terral”, “Carneiro”, “Enquanto engoma”. O povo, uma praia apinhada de admiradores, vibrou com “Maresia”, “Manga Rosa”, “Doroty L”Amour” e, por fim, “Pavão Misterioso”.

Um senhor cheio de graças atrás de mim – um gozador?, figura popular pitoresca? Ednardo dedica uma música ao Augusto – seria o irmão, ali perto de mim? Depois nova música, lembrando muitos artistas que mantiveram de pé a arte em Fortaleza, aglutinados no festival Massafeira – em especial o Augusto Fontes, não o companheiro alegre a meu lado, mas o grande compositor e animador cultural.

Massafeira pode ter sido apenas um festival, mas fez história – e a História merece ser respeitada. Ednardo merece ser e é respeitado: – a sua empatia com o público é grande, está na pele, está nas veias como seiva.

As ondas do mar cantam louvando Fortaleza. O vento canta fazendo dançar as folhas das árvores. Um pavão misterioso ajuda a cantar com o mistério do seu voar. Alguma coisa não é certa, não, mas a beleza persiste no canto e no voo do pavão chamado Ednardo.

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O CÁRCERE DE BÁRBARA DE ALENCAR















Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar.
No subsolo, a pequena cela de tortura:
Atrás das grades, pedras, paredes de pedras,
A cela onde um homem não cabe em pé.

Bárbara recebia uma só refeição por dia,
Mas era muito: alimentava-se de pedras
E de orgulho ferido e erguido como bandeira.
As pedras eram cabras mansas para Bárbara

Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.
“Quem me pedirá contas de meus atos?
Meu marido, meus filhos, o meu Ceará?

Quem combate o bom combate não sucumbe.
Eu colho na derrota toda a minha vitória.”
Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras.

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Depois de quase um mês em Fortaleza, Ceará, aqui estou de volta.
Fortaleza é bela, belíssima. Voltei com os olhos transbordando de imagens, com a alma lavada, pura como as águas primitivas do mar e da chuva. Foram vinte e tantos dias de mar, sol e chuva: pureza, beleza, finitude e infinitude.
Um grande abraço a todos os amigos. Saudades.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Dia Internacional do Livro - 23 de abril. Dia em que Shakespeare, Cervantes e Inca Garcilaso embarcaram na Barca da Morte



Desde 1995, 23 de abril é o Dia Internacional do Livro. A data foi escolhida pela Unesco em homenagem a William Shakespeare e Miguel de Cervantes, dois grandes autores que morreram no mesmo 23 de abril de 1616. E o Inca Garcilaso de la Vega.
Quando soube da data, num 23 de abril de 2005, fiz este poema.
Deixo-o aqui numa comemoração antecipada – saio de viagem por quase um mês.


A BARCA DA MORTE

O mar lembra a morte.

O grande sineiro toca
o sino da montanha,

tange nuvens,
carneiros loucos,

bois que mugem
ruminando o milho do mistério.

Ó tempo,
timoneiro do destino esconso,

para onde me levas
nessa nau entre os vagalhões despedaçada?

A memória do mar,
a memória da morte

nas flores de abril cruel.

Levanto a rosa de fogo
diante de um velho crânio.

Cavalguei para a fábula
com a dor escorrendo nos lábios.

Sentado na barca
aguardo o último cálice de vinho.

Já vejo a minha face
na água da eternidade.

O mar vai e vem na praia
e apaga as pegadas

descomunais
na areia delicada.

Atrelo o arado a um tigre
e continuo lavrando o meu campo de estrelas.

O poema é um nó sereno sob a harpa quebrada
dos pássaros do crepúsculo.

Estou pequeno
esculpindo palavras toscas num tronco seco.

Eu sou o que não partiu.

Eu
fincado no chão como uma estaca.

Se fosse na infância
iria florir o meu bordão.

Já quebrei as pernas descuidadas
nas esquinas do mundo.

A ferrugem nas juntas
é o meu ouro.

A morte cose as minhas meias
junto ao fogão.

Nenhum fogo,
as cinzas frias

e a morte a fiar, a fiar
na roca que não pára.

Estendo a minha mortalha
entre as brumas e as escoriações.

Eleva-se a minha alma em êxtase na barca e canta
a água que vem e vai

com o estandarte do sol
e a terra ferida.

Diviso à minha frente o horizonte aberto
e a morte.

O sol sangra no mar da morte.

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Inutensílios







A chaleira vermelha, com pintinhas
brancas, aqui e ali descascada e amassada
como a lembrar o estrago do tempo cruel,
tem o cabo quebrado preso com arame.

O bule azul com suas flores brancas,
pintas vermelhas e pistilos amarelos
na folhagem de um verde-escuro triste,
exibe as marcas das pancadas e a ferrugem.

O lampião dependurado no alto
ilumina o passado dentro do presente.
Apresenta-se novo como o tempo

e antigo como a eternidade lívida.
Que mão brejeira reuniu objetos
perdidos para a forma do essencial?

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"Inutensílios" é um termo cunhado pelo grande Manoel de Barros.

terça-feira, 31 de março de 2009

A teia da aranha










DIANTE DO UMBRAL

Passo a mão pela fronte
E reconheço a noite nos olhos escuros.
Diante do umbral
Com a chave na fechadura

Tenho a dor do homem nos ombros
E sucumbo.
A máquina do mundo gira nos gonzos,
As águas da memória transbordam.

Teço a teia da minha fábula,
Suplico a Deus que me anule.
O pesadelo não termina no labirinto.

Entro e saio do espelho,
Sou sempre outro.
De bruços na metáfora, colho o universo.


O MONUMENTO

Construo um monumento de cristal
Com as minhas mãos nuas.
É ilusório o mundo que conhecemos.
Quem pagará o preço do esquecimento?

Perdido no claustro terrível,
Desenrolo o novelo da pirâmide.
Sou o mesmo sonho desdobrado.
A fonte rumoreja infinitamente.

De quem é essa voz que canta?
Quem toca essa música no labirinto?
Tenho trinta moedas na cintura

E sangro no abismo.
Adivinho nos olhos do falcão
Como é longa a eternidade.


PRIVILÉGIO

As pétalas de uma estrela
caíram no meu jardim

e brilham ainda.

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O título desta página é A Teia de Aranha justamente para chamar a atenção para as fotos, mais que para os poemas. Fica o dilema: Quem é o autor? A Sônia e eu fotografamos com a mesma máquina, um depois do outro, e no fim fica difícil saber quem fotografou - os nossos estilos (ou falta de, eu diria, no meu caso - mas aí complica), também na fotografia, se parecem. Vamos dizer que a maioria das fotos são da Sônia, que se dedica mais à fotografia que eu, mais preguiçoso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A alegria























A relva recobre o chão e viver é tão grande
O peixe me revela a cor das coisas
Sou a semente plantada na terra
Vejo na enxada o nome do universo

Vejo no perfume do pássaro a alegria
A música das águas abraça as árvores
Margaridas dançarinas cantarolam na luz
Um cavalo alazão relincha na invernada

São meus os horizontes das palmeiras
Tenho raízes e a infância grita no mato
Tenho estrume nas botas e grito para o dia

A cobra percorre o caminho da roça
O pincel do lagarto colore a paisagem
O pólen da beleza desenha a vida.

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A ALEGRIA (TAMBÉM) É MATÉRIA DE POESIA

Remexendo nos meus baús (tenho baús? Alguém ainda tem baús? Tenho um, lindo, na sala - como decoração. Mas você sabe que não é desse baú que falo), no baú de há uns 10 anos encontrei esse poema. Achei que não era de se jogar fora, tanto que não joguei. Serve no mínimo para lembrar, coisa de que eu mesmo costumo me esquecer, que a alegria - a alegria e as raízes são matéria de poesia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Réquiem




































Parem as máquinas, parem todos os motores
Queimem os livros, as enciclopédias, todas as cifras
Todos os poemas, as palavras e as imagens
Queimem o homem e a sua verdade implausível

Morreu o poeta, o mundo não é o mesmo
A memória do próprio tempo, das árvores e das águas
Desfaz-se ao contato humano, à vigília, ao clarão da aurora
As paredes caem, os olhos explodem no labirinto

O ouro da sombra desmorona, desmorona
O azul do céu e o azul do mar são muito frágeis
Não nos contaram que era tanta a solidão

Parem as máquinas, chegamos ao esquecimento
Queimem os poemas, as imagens continuam cegas e mudas
Nós continuamos perplexos diante da porta sem fechadura.


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Igreja Nossa Senhora do Carmo, Mariana, MG; altar e inscrição tumular no assoalho. Fotos e poema de JCBrandão.

domingo, 22 de março de 2009

Testamento



Deixarei meu olhar no olhar do meu filho
Deixarei minha voz estranha como a vida
Deixarei a minha estranheza nos gestos
Na minha difícil, impossível humanidade

Deixarei o meu sorriso tímido e atrevido
Um jeito enigmático para os outros
Uma correção, um espanto, um sim e não
Deixarei, imperfeita, a minha diferença

Deixarei a minha pele, a minha delicadeza
As minhas palavras ressoando no escuro
Deixarei meus erros e meus escuros acertos

Deixarei o sentido do êxtase, tão pouco
Deixarei o quanto tenho de alma e de absoluto
Deixarei Deus, no espelho, para o meu filho.

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Idéia do poema de Adriana Godói: "O que vou deixar para os meus filhos" http://driaguida.blogspot.com/

sexta-feira, 20 de março de 2009

Folhas do outono



CENA

Na rua molhada
o cachorro morde o rabo.
Cai na poça d’água.


ALVORADA

Os lençóis no varal,
as cerejas vermelhas
e os pássaros da aurora.


AMARELINHA

As crianças gritam
pulando amarelinha
nas sombras do sol.


FLAUTA

As andorinhas no fio
como numa pauta.
Até se ouve a música.


INFÂNCIA

Barcos de papel
navegam na enxurrada
para nunca mais.


FOME

O pardal no ninho
pia com fome da mãe
e da minhoca.


ADEUS

Como lenços brancos
barcos e gaivotas chegam
no mar da tarde.


O SALGUEIRO

O salgueiro chora
lágrimas de ouro e âmbar
na luz da tarde.


OS SINOS

Os sinos de bronze
nas ladeiras de Ouro Preto.
A alma resfolega.


OUTONO

As folhas do outono
no labirinto da vida
enfeitam o caminho.


MEMÓRIA

Na sombra das árvores
a dança da borboleta
e da memória.


FIAPOS

No anoitecer da vida
alguns fiapos de nuvens
e de palavras.


GAIOLA

A gaiola aprisiona
o pássaro,
não o canto.


ASSOMBRO

O gemido da sombra
da árvore que cai.


CAMINHADA

Por mais que caminhe
não chego ao mar
nem à terra.


CRISTAL

Vejo a tua face
na gota de orvalho.


IMAGEM

A libélula
à beira d’água
se procura.


QUIETUDE

Ouve-se
o som da sombra
de uma folha.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

A harpa da palavra



INSCRIÇÃO

Passei por aqui
com o vento, as nuvens, o mar
e o sol ao crepúsculo.


À BEIRA

O poeta vive à beira
do abismo
e do êxtase.


EU SEI

Eu sei o que existe
além do arco-íris.
Mas não me importo.


KASPAR HAUSER

Sou um estranho entre os homens
com uma lua no bolso
e um punhal no coração.


D. QUIXOTE

Os moinhos de vento
não seriam nada
sem Sancho Pança.


INTERSECÇÃO

Faz sol lá fora,
mas dentro de mim
chove a cântaros.


O POETA

O bicho-da-seda
farta-se de folhas de amoreira.
Prepara o seu casulo.


KAFKA

Ficou junto à porta
até morrer.


OUTONO

Para onde quer que eu vá
sopra o vento do outono
sobre a água da tarde.


ORIGEM

O caranguejo
anda de lado na areia.
Volta-se para o mar.


NORTE

Onde o meu norte,
nuvens e folhas
ao vento da tarde.


UNGARETTI

Na harpa da palavra,
com os dedos em chamas,
vou tangendo o universo.


UM SINO

Um sino toca
e a noite cai
sobre as árvores.


OLHAR

No meu olhar
cai o orvalho
da manhã.


PEGADAS

Os meus passos na areia
cada vez mais fundos.
Como é longo o dia!


BARCOS

Nuvens brancas no céu azul.
No azul do mar os barcos
e suas velas brancas.


A SIRIEMA

A siriema passeia
no pasto verde
perto dos hibiscos.

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Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cacos



SER

Ser ou não ser?
No momento antes da aurora
tudo é sonho.


ALTAR

A rosa e o vinho sobre a mesa
como sobre um altar
esperam o poeta.


O PERFUME

Guardou na pele
o perfume daquela noite
como uma alma.


AS FOLHAS

As folhas giram no ar
e caem na água
entre as pedras e o silêncio.


O PIANO

As cordas caladas
do piano na noite.
A música em mim.


O HORTO

O horto em silêncio.
A lua entre as árvores
e o cheiro de alecrim.


DEGOLA

Degolo de um golpe
o poente e a aurora
e crio a beleza.


QUEM CASTROU

Quem castrou
o gorjeio do pintassilgo
no cipreste?


O VELHO

Sou um velho sem memória.
A minha casa caiu.
Cubro-me de cinza e morro.


A CHAVE

Como uma chave na porta,
pássaros, pedras e peixes
se inscrevem no meu desígnio.


XADREZ

Jogo xadrez
com as estrelas
no tabuleiro da noite.


COMPOSIÇÃO

Pedra a pedra o poema,
com a água, a argila
e as pétalas da rosa.


CACOS

Anterior ao paraíso,
somos os cacos do cântaro
ao sol e à chuva.

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia da Poesia



REGISTRO ANTECIPADO


Deu no jornal:
A POESIA MORREU.

Explodiram manchetes:
ENTERRADO O ÚLTIMO POETA E QUEIMADOS SEUS POEMAS.

Os governos baixaram leis:
PROIBIDO ESCREVER POESIA.

A ciência decretou:
A POESIA É INÚTIL. CAUSA CÂNCER E AIDS, ALZHEIMER E CEGUEIRA SÚBITA.

Todos os livros foram queimados. Perigo suas palavras se transformarem em poesia.

Todas as palavras foram canceladas. Proibido escrever ou simplesmente falar.

Ainda se estuda uma alternativa. O que substituiria a palavra? Imagens? Mas a imagem se transformaria em poesia, essa excrescência.

O homem fala por natureza. A fala por natureza se transforma em poesia. Impossível castrar-se a fala? Elimine-se o homem da face da terra. Elimine-se a ideia de homem.

Construímos máquinas tão perfeitas que se comportam como homens. Eliminem-se as máquinas: nada que lembre o homem. As máquinas acabariam criando poesia.

Tudo está solucionado:

A POESIA MORREU.

ENTERRADO O ÚLTIMO POETA
E QUEIMADOS SEUS POEMAS.

ELIMINADO O ÚLTIMO HOMEM.

ELIMINADA A MÁQUINA,
QUE SE COMPORTAVA COMO O HOMEM,

FALAVA E ESCREVIA
E CRIAVA POESIA.

Isto está sendo registrado antes que aconteça. Depois será impossível. A palavra, o homem, a vida serão impossíveis. Tudo culpa da poesia.


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Homenagem ao Dia Nacional da Poesia - 14 de Março - aniversário de Castro Alves.

O cheiro da terra



O ORVALHO

Não ouvi bem
o que a gota de orvalho
disse à pétala de rosa.


O CHEIRO DA TERRA

A chuva sobre as flores
e o cheiro da terra úmida
na tua pele arfando.


DESERTO

Penetro no deserto
em busca da aurora
que engendro.


O TEU CORPO

Lembro o teu corpo
debaixo d’água
brilhando para mim.


SOMBRAS

À luz da lua
as nossas sombras
se misturam.


LUA NOVA

A lua nova
entra cantando
pela porta.


ÓBOLO

O poeta escreve na areia
as imagens da memória.
Um óbolo ao esquecimento.

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Leveza



MAS QUEM?

Quem pisou os espinhos,
deixou o sangue nas pedras
e voou com as andorinhas?


REMEMBER

Lembrai-vos da dor.
Depois nem de Deus-Abismo
será possível esquecer.


A ROSA DE OURO

Quero a rosa de ouro.
Quando o unicórnio do tempo
volta para Deus.


EXÍLIO

Exilamos a palavra,
a rosa e a pedra de Deus
e de nós fomos exilados.


ENTRE

Entre nascimento e morte
a solidão da pedra
sob o cipreste azul.


LEVEZA

A terra me seja leve.
Não me afaste do mar
nem de Deus.


LOUCURA

O poeta enlouqueceu
e nunca mais interrompeu seu canto.


(Foto: Sônia Brandão)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Junto à fonte



JUNTO À FONTE

A rosa floresce,
junto à fonte interminável
abre as pétalas de luz.


OFERTA

Ofereço os meus olhos
ao esquecimento.
Amo o deserto de Deus.


O VENTO

A vida me exclui.
Somente o vento ouve o meu grito
e a música dos meus ossos.


AMOR

Amo a rosa e a pedra.
Florescem no meu jardim
ao mesmo tempo.


QUIETUDE

A árvore cresce no deserto.
Na quietude da areia
a noite prepara a aurora.


O FIGO

O figo estourou.
O sol tocava a flauta
do vento.




Dizei uma palavra
e a pedra florescerá.
(Mas a pedra é uma flor.)

terça-feira, 10 de março de 2009

Ubi sum



UBI SUM

Que lugar é este?
Que plaga do mundo?
Tudo é mar no horizonte.


A ESFERA

Quem me deu esta forma?
A esfera do tempo me excede.


HORIZONTES

O barco me espera.
O sol brilha no horizonte
depois do horizonte.


VOO

O corpo floresce.
A alma dentro d’água
e a papoula na janela.


AVE MARIA

Rogai por nós, Senhora,
agora e na hora
do esquecimento.


PERSISTÊNCIA

Os jacintos floresceram
depois de mortos.


VERÃO

Só uma andorinha
com a luz do sol nas asas
faz todo o verão.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Menina Cega




Num lugar qualquer do mundo,
Uma menina cega, que eu não conheço, pensa em mim.
Olha para um lado, talvez para o outro,
E derrama uma lágrima num canto do olho

Por mim, que ela não conhece.
A menina cega pensa em mim
Como um morto anônimo, um fruto podre caído no chão,
Uma folha morta, uma árvore morta, um rio morto.

A menina cega pensa em mim
E vê a imagem de mil pássaros mortos à beira do rio,
Como pequenos anjos exterminados, sob uma única árvore morta.

O ar asfixia, mata; a terra se parte e esfarela, inútil.
Os homens morrem, inúteis.
A menina cega sabe e chora uma lágrima inútil, por mim.


(Foto de Sônia Brandão)

domingo, 8 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher




A ROSA

O seu perfume permanece mesmo depois que foi cortada
E repousa no vaso, na mesa da sala.
Ando na ponta dos pés para não acordá-la.
A casa paira no ar com o seu perfume.

É vermelha como sangue.
Eu me aproximo devagar
De uma pétala caída na tolha branca
E a levo com cuidado aos lábios.

A rosa no vaso é eterna,
A pedra do tempo não pode assassiná-la.
Entro em êxtase com o seu néctar.

É a imagem da mulher vinda do fundo do mistério
E modula com a língua do silêncio
A palavra essencial.


(Foto de Sônia Brandão)

sábado, 7 de março de 2009

O Paraíso do Matão



OS FRUTOS DA TERRA

Os frutos no chão,
as palmeiras, o mar
e as ondas na areia.


SAUDADES DO MATÃO

Nasci no Matão.
É o meu Paraíso Perdido.
Eu sou quem sou.


O PARAÍSO PERDIDO

Nasci à sombra da figueira
com as raízes na terra
e os olhos no céu.


A SARÇA ARDENTE

No mar de coral
encontrei a sarça ardente.
Deus está em todo lugar.


POR QUÊ?

Por que a vida e a morte?
A vida é a árvore verde,
a morte é o céu azul.


ALHEAMENTO

Estava vivo
deitado embaixo da terra.
Como nós, não pensava na morte.


INQUIETAÇÃO

Quem pagará o aluguel
do meu túmulo?


ALEGRIA

As crianças gritavam de alegria.
O ribeirão voava sobre as casas
com toda a luz das suas águas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sempre o mar



DESTINO

Os homens, como os rios,
correm para o mar.


QUEM?

Quem ouve o meu grito?
Tomo o cântaro de barro
e sacio a sede.


A RÃ

Um inseto na língua,
a rã coaxa no lago
contra o espelho das águas.


A MEMÓRIA

A memória das árvores
permanece além das cinzas.
Um pássaro canta.


A VELHA

Sonhei com a velha.
Vinha vestida de branco
e me amortalhava.


SOMBRA

Uma ave obstinada tecia
com uma agulha azul
o círculo de sombra do relógio.


O MAR

O mar era o início.
O mar é alguém, ninguém.
Eu estarei no fim?


(Saco da Ribeira, em Ubatuba, SP.
Foto e poemetos de JCBrandão.)

quinta-feira, 5 de março de 2009

E agora, José?



SONO

Os olhos do andarilho
beberam todas as paisagens.
Deixa-os dormir, deixa-os dormir.


AS PEDRAS

As águas passam
e levam as folhas das árvores.
As pedras, polidas, ficam.


A CORUJA

Ouça a coruja
pendurada na janela.
Canta para mim.


REPOUSO

A pedra descansa
com as folhas do carvalho
e as patas dos cavalos.


E AGORA?

E agora, José?
No alto da montanha
cantas mais alto.


VIAGEM

Sob a figueira da manhã,
sob a água do ribeirão,
o meu cavalo me espera.


CREPÚSCULO

O toque do sino
e a coruja no sótão
encerram o dia.


Foto e poemetos de JCBrandão

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cinzas



MAS

Tinha a garganta cortada
e os olhos vazados,
mas ouvia os pássaros.


FÊNIX

Das cinzas da palavra
voa um pássaro.


AS CRIANÇAS

Os cabelos dourados
das crianças no pomar.
Cantam macieira acima.


O MELRO

O rio calmo.
O melro canta
imóvel como a água.


PERMANÊNCIA

Só restaram cinzas
sobre a terra nua,
mas era uma árvore ainda.


A PASSAGEM

As árvores esperam
a passagem do rio
que não passa, não passa.


NA NÉVOA

Na névoa do vale
as pedras à beira d’água
absorvem a luz.

terça-feira, 3 de março de 2009

Águas



O RIO

O rio deflui,
banha as folhagens do dia
e o corpo da mulher.


A MAÇÃ

A maçã repousa
com a macieira, o rio e o vento
no linho da mesa.


O SAL

O sal sobre a rosa,
a névoa sobre os pinheiros
e a terra sob o mar.


BUSCA

Mergulho no escuro,
busco o brilho das estrelas
no abismo de Deus.


A CONCHA

A casa é uma ostra
no fundo do mar.


SABEDORIA

Seja sábia de dia,
seja sábia à noite, ó alma.
Desce a névoa que esperas.


A ESFINGE

Decifra a pedra
da paisagem submarina
e morre enfim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

pedras



A PEDRA NO LAGO

A pedra no lago
de círculo em círculo
não deixa vestígio.


ASCENSÃO

A ascensão da encosta
passo a passo. Na subida,
o assobio do vento.


A LIBÉLULA

A libélula mergulha
com a montanha nos olhos.


AGONIA

A agonia da canoa
de borco na areia
para sempre.


AS RUGAS

Os passos na areia
como um caranguejo
as rugas na cara.


ESTRELA

Passei por aqui
plantei esta pedra
palavra de sombra.

domingo, 1 de março de 2009

Marcas



MARCAS

Os passos na areia
por mais que os apague o mar
indeléveis marcas.


ENCONTRO

No fundo do lago
os peixes dourados
e a imagem das árvores.


SOLIDÃO

Quando penso em solidão
penso numa pedra.
Espero florescer.


LÁGRIMAS

Lágrimas no olho do pássaro
o canto quebra a pedra
de tão belo.


AS CRIANÇAS

De onde vêm, para onde vão
as crianças rindo
ao pé da montanha?


VAI-SE O PÁSSARO

Vai-se da pedra o pássaro
como se não tivesse
mais esperanças.


AS RAÍZES

As raízes da árvore
dentro das paredes
da casa em ruínas.