sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lenda da Igreja Matriz de Paraty




A SERPENTE E MENINO

A serpente dorme sossegada
Sob o chão da velha igreja.
De seu sono de fábula
Não acorde a serpente prateada.

Essa serpente um dia foi um menino
Abandonado pela mãe.
O menino mamou o leite da Virgem,
Transformou-se na serpente adormecida

Deitada no lençol de terra fofa
Da igreja maternal.
Não acorde a serpente furiosa

No seu leito de penas de anjos brancos.
Olha a serpente! Com o rabo e os dentes
Vai derrubar a igreja no mar.

___________________________

Quem conta um conto aumenta um ponto, mas eu estou apenas cantando uma lenda maravilhasamente terrível como o povo conta: um menino foi abandonado no porão da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, de Paray, mamou nos seios da Virgem Maria e transformou-se numa serpente. O poema tem um ano, a lenda é secular, a serpente ainda dorme sossegada. Que a Flip não faça muito barulho!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Prelúdio



I reason, Earth is short –
And Anguish – absolute
" - Emily Dickinson

Cai a noite de junho na sarjeta,
Cheira a fritura, bacalhau, carniça.
Eu me encolho na minha capa preta
E desafio para a mesma liça

A cruz e a rosa, o abismo das estrelas.
Corre a vida encardida como um rio
Nevoento aos meus pés, sob as janelas
De ninguém, no universo vão, vazio.

O vento chicoteia o corpo inútil,
Com os círios do nada ele me invoca:
Queima a chama o silêncio que me impus.

O tempo que me resta a mais deglute-o
Uma voraz lagarta e sua roca,
Mas a rosa floresce sobre a cruz.

domingo, 28 de junho de 2009

Meu reencontro com Rachel de Queiroz





















Eu tinha nove anos de idade quando mudamos para a cidade. Lembro-me de que minha mãe me dava um cruzeiro para comprar um Cruzeiro (a velha moeda e a velha revista daquela época). Na última página do Cruzeiro vinha uma crônica de Rachel de Queirós. A minha mãe me ensinou a procunciar aquele ch do nome dela como qu - Raquel, que eu começara pronunciando errado.
Interessante como a minha mãe, mulher da roça - o lugar onde morávamos antes nem luz elétrica tinha -, sabia quem era Rachel de Queirós. Não sei se a entendia, mas acompanhava, com admiração.
Depois li O Quinze, gostei muito mais de João Miguel, e por fim, já no fim da vida de dona Rachel, o apaixonante Memorial de Maria Moura. Lia de vez em quando uma crônica. Dona Rachel me acompanhou a vida inteira.
Em 1991 eu a encontrei na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Passamos uma semana no mesmo hotel, tomávamos o café da manhã, almoçávamos e jantávamos juntos. Passávamos o dia no Centro de Convenções Rebouças, em palestras intermináveis sobre literatura. Não apenas nós dois, naturalmente, mas dezenas e dezenas de escritores do Brasil inteiro. Mas estávamos juntos, eu vivia a glória literária - estar ali convivendo com todos aqueles escritores, e principalmente com Rachel de Queiroz.
Era admirável como à noite, que varávamos numa conversa descompromissada de amigos, ela, bem mais velha do que a maioria ali, tinha disposição para ir a um teatro ou a um outro programa fora.
Eu olhava a sua cara doce e pensava em minha mãe. Penso em minha mãe ainda hoje quando penso em Rachel de Queiroz. Não eram parecidas - a minha mãe era bem mais gorda... Eram parecidas - a mesma doçura. Aquela doçura de mãe.
Reencontrei-me com dona Rachel em abril deste ano, em Fortaleza. Um encontro frio, de gelar. Na Praça dos Leões, em frente à Igreja do Rosário, sentada num banco de madeira, dona Rachel envelhece de tristeza. Quem tinha tanta vida, como o bronze é triste!
Pedi a uma menininha que conversasse com ela - a foto ficou linda. Eu conversei com ela, ensaiei abraçá-la - com vergonha. As folhas caíam no chão, o dia estava cinzento, tudo estava triste.
Dali fomos ao centro cultural Dragão do Mar, onde não tive coragem de falar com Patativa do Assaré, dizendo seu poemas sertanejos em pé no pátio. Respeito e admiro a arte desse passarinho do sertão, mas é muito diferente da minha. Eu também vim da roça, mas abastardei-me bebendo de tudo que fosse cultura ou pseudocultura, intelectualismos bestas.
E eu ainda estava triste de meu reencontro com dona Rachel.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Poemas de Gregório Vaz



Apresento-lhes meu outro eu: Gregório Vaz. Um heterônimo que criei há uns 30 anos. Das três partes de meu segundo livro, é dono de duas. Aparecem depois uns 10 poemas dele em uma antologia, mas com meu nome. Me sacanearam. Mas não matei Gregório. Ele escreveu um romance, um livro de aforismos, um livro de poemas revoltados... Os poemas de um revoltado seriam a cara do Gregório Vaz, mas no fim o cara estava a minha cara. Fiz com que hibernasse. Como se não existisse. Na realidade continuava escrevendo. Linguagem desleixada. No Exílio escreveu até alguns sonetos, sem desleixo, mas numa linguagem muito diferente da minha. A sua aversão à cidade podre - título de uma das partes de Exílio: Poemas da Cidade Podre...

Não adianta explicar um poeta. Ainda mais um poeta que não existe. Pretendia mostrar poemas antigos de Gregório Vaz. Talvez alguns aforismos. Mas esta semana ele escreveu dois poemas. Criei um blog para ele. Fiz bem? Confiram os poemas: http://gregoriovaz.blogspot.com

..........link ao lado..............

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Obama e a mosca...




A RESINA

A resina brilha
no tronco da árvore
como ouro.


PEDRAS

Caminho de pedras
subindo a montanha
e água fresca descendo.


O SOL

O grito do sol
atravessa a névoa branca
entre as ruínas.


O SILÊNCIO

O silêncio cai
sobre as pétalas da rosa
como o olhar de Deus.


A VELA

Ninguém apaga
a vela acesa
no dia claro.


A BAITACA

Era uma ferida
na pele do dia
a baitaca eletrocutada.


A MOSCA DE OBAMA

Barack Obama, num lapso,
não salvou o mundo,
mas matou a mosca.


A ROMÃ

Uma gota de orvalho
na romã vermelha
parada no galho.


FLORES AMARELAS

Flores amarelas
pendem aos cachos
dentro dos meus olhos.


O CARNEIRO

O carneiro no capinzal
me olha triste
com os olhos azuis.


UMA ROSA NÃO É SÓ UMA ROSA

No tronco de uma árvore,
num buraco escuro,
nasceu uma rosa.


A GOTA DE ORVALHO

A gota de orvalho
nas pétalas da rosa.
A beleza chora.


A ORELHA-DE-PAU

A orelha-de-pau
ouve o silêncio
e sorri para mim.


FOLHAS VERDES

As folhas verdes
na água da piscina azul
nadam em silêncio.

____________________________________

"Obama e a mosca... ou de como o poeta fazia seus poeminhas quando a política e suas mixórdias se intromete na poesia, na figura do imperador com os chifres e sua real sensatez, que fulmina a pobre de uma mosca com um golpe fatal, durante uma entrevista no dia 17 de junho"

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cristal




Cultivo a minha rosa no mais puro
cristal, mas uma febre me rói pétala
a pétala com uma fome louca
e da flor resta a jarra solitária.

Um cavalo galopa no meu peito,
com seus cascos de fogo me transporta
ao delírio, à neblina da memória.
Tenho uma cruz na boca, tenho terra

nos olhos e uma noite me solapa
cruel, sorrindo escárnio e pus e campa.
Leva-me a insânia numa sem regresso

viagem pelos pântanos escuros
da alma em sua procura esconsa e azeite
e sei quem sou na forma do poema.

domingo, 21 de junho de 2009

Vigília




Quem é a terra? Quem é o cavalo
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.

Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Me esquece e uiva à loucura da vida.

A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro da memória

Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.

_______________________

Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 16 de junho de 2009

Exercícios de admiração



ARTE DE MORRER

Os corpos se entendem
mas as almas não
no frio do caixão.


E AGORA, JOSÉ?

A rosa agoniza
na palma da mão.
Mas você não morre, José.


JUAN RAMÓN JIMENEZ

Atira a pedra na água
e esquece. Você nunca mais
será o mesmo.


GOETHE

Qual a forma do meu poema?
Ainda estou elaborando
o nome da rosa.


ROBERT BROWNING

A pedra cai na água,
o pássaro imóvel no galho.
A rosa, ao sol, se renova.


WALLACE STEVENS

Os melros na relva,
os melros dentro de mim.
Onde estão? Quem fui?


CECÍLIA MEIRELES

Em que espelho ficaram perdidas
as pétalas da rosa?


FRANCIS PONGE

As coisas são as coisas:
não têm alma, não vivem,
mas me fazem mais vivo.


Rosalía de Castro

Vozes verdes, verdes ventos.
Elaboro o meu poema
como um cavalo ruminando.


ANTONIO MACHADO

Caminho na tarde verde
à beira da água clara
onde as nuvens se miram.


JOÃO CABRAL

A cabra magra
resiste comendo pedra.


MANOEL DE BARROS

O rio engole a palavra
e espera a rosa
se mirar em suas águas.


BECKETT

Na luz negra do exílio,
falo com uma pedra
na língua.


WILLIAM BLAKE

Não sou do céu, não sou da terra,
mas comungo, com meu corpo, a flor da alma.


E. A. POE

No silêncio do mar,
o corvo apaga o farol
e sangra a aurora.


DEUS

Abismo.

________________________

Fausto Cunha publicou, in “A luta literária”, uma seção de ensaios com o título “Exercícios de admiração” (em 1964 – mas eu o li em 1970 ou 71). Lembro-me de que um dos homenageados era Mário Quintana, a quem poetas e críticos “intelectualizados” torciam o nariz (existem vacas de nariz sutil – lembrando o romance de Campos de Carvalho).

Em 1986, E. M. Cioran publica “Exercices de admiration”. Até o filósofo do azedume – de uma linguagem delicada, de poeta, que enleva, mas sem nunca deixar de ser azeda – se rendeu ao prazer e dever de tecer belas homenagens aos santos pagãos do seu Panteão.

A mim me ocorreu juntar nesta página alguns de meus exercícios de admiração, mínimos, mas frequentes.

No último poema, “Deus”, não fica evidente a quem é dedicado. Oswald de Andrade e Adriana Godoy. Li esses dias que Oswald é autor do menor poema do mundo: “AMOR // Humor.” Não quis ficar atrás e examinei minha memória, meio fraca, mas nem tanto. Lembrei-me de um poemeto que fiz há uns dois anos “O SILÊNCIO // da rosa. / Abismo.” Curto, mas nem tanto. Então, lendo a última palavra, me lembrei de Adriana, que leu meio incredulamente, mas muito humanamente, meu poema “O abismo de Deus”, e num estalo, numa iluminação, estava pronto o poema: a palavra “abismo” não é uma palavra, mas uma imagem, mais, uma multiplicação de imagens, uma alegoria do universo, que cabe nela, embora, e por isso mesmo, não a explique.

sábado, 6 de junho de 2009

O abismo



O abismo das estrelas, o abismo do mar, o abismo.
Sempre estamos no abismo, irremediavelmente.
Com o silêncio das estrelas, dentro de uma concha.
Ouvindo o grito agônico de uma gaivota ferida.

Quem somos, quem seremos, quem fomos? Memória.
Somos (seremos, fomos) escravos do tempo cruel.
Girando as engrenagens do relógio, nosso domicílio.
Não somos mais que um peixe fora d’água, esperneando.

E vivemos perdidos dentro desse peixe, nosso universo.
Sufocamos sem ar no escuro desse peixe impossível.
A vida é impossível, sabemos. A concha e as pérolas.

O que vemos além das estrelas? Além do mar original?
Nós esperamos uma resposta, mas Deus, magnânimo,
Criou-nos livres como gaivotas voando sobre o abismo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Poemas breves




O CARAMUJO

O caramujo
entre as pedras e as flores
dorme a meu lado.


ASSASSINATO

Matei a lagarta
e a rosa vermelha
na minha roseira.


A VELA

A vela entre as flores
do altar na colina
queima em silêncio.


NA ESTAÇÃO

Murcha nas ruínas
da estação de trens
um ramo de flores.


A PAPOULA

A papoula floresce
nos meus olhos loucos
e morre.


A SOMBRA

Na sala vazia,
no espelho quebrado,
cai a sombra.


A RÃ

Uma rã coaxa
namorando a lua
na minha lagoa.


O CAVALO

Caído num buraco,
o cavalo morreu
de velhice.


OS CACHORROS

As casas no escuro
e os latidos dos cachorros
sob a chuva.


O LIMO

O limo escorrendo
no muro do quintal.
Saudades da infância.


A LAGARTA

A lagarta carrega
uma flor nas costas,
torta de dor, ao sol.


A ARANHA

Matei uma aranha
na parede da varanda.
Fiquei mais só ainda.


O RATO

Deitado na rede,
fiquei ouvindo um rato
que chiava no escuro.


O CACHORRO

Encontrei o meu cachorro
no cemitério entre os túmulos
a minha espera.


O COGUMELO

Vida branca ao sol,
cresce o cogumelo
entre os sabugos, no pasto.


A TAMPA

A tampa cobrindo
nada, nenhuma aparência,
enterrada no canteiro.


O PENSADOR

Macaco diante da morte,
em solidão no universo,
o homem pensa há muito tempo.


O REI E O POETA

O meu reino por um cavalo!
O meu reino por uma palavra!
A diferença entre o rei e o poeta.

____________________

“Poemas breves” é o título de uma das seções com... poemas breves, oras – de um livro com meus melhores poemas dos últimos 20 ou 30 anos que pretendo publicar, não sei se ainda este ano.

“Poesia mínima” é muito bom – e eu terei umas três seções de poemas breves nesse livro... – mas explica muito já no título.

Gostei do nome “poemínimos” – mas até uma antologia de poemas de Beckett em português tem esse título. E vai lembrar “poesia mínima”, “minimalismo”, teorias sobre a poseia com o mínimo de recursos – que pode ser o que tento fazer, mas não preciso confessar já no título.

“Poemas breves” me parece o ideal – não diz nada, apenas que são curtos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Cesare Pavese - uma tradução




A MORTE VIRÁ E TERÁ OS TEUS OLHOS

A morte virá e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.

A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.

22 de março de 1950.

Trad. – José Carlos Brandão

____________________


VERRÀ LA MORTE E AVRÀ I TUOI OCCHI -

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi -
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosí li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
.
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello psecchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.

22 marzo 1950

Cesare Pavese
_____________________

foto em http://www.bravagente.com/not01_0309/ital_not20090307a.htm

domingo, 31 de maio de 2009

Poesia mínima



VAN GOGH

Por que o corvo
nesse amarelo-ouro
me rouba a alma?


A COR

A luz cai na relva,
mistura-se à sombra
e cria a cor.


EMILY DICKINSON

O retrato antigo
na parede da casa
não envelhece.


TEIA

A mosca pousa
na teia de aranha.
Busca a dor.


A LAGARTIXA

A lagartixa deixa
a sombra na parede
fria como ela.


A CADEIRA

A cadeira navega
no assoalho escuro
como num mar.


AQUÁRIO

Peixes nadam no aquário
dos seus olhos parados
na morte.


A SEREIA

O piano de cauda
é como uma sereia
fora do mar.


O CUCO

Cuco! Canta o cuco
de madeira e metal
– com uma tristeza infinita.


IDÍLIO

A cinza das cartas
no fundo da gaveta
entre as baratas.


O BALDE

O balde de borco
brilha no escuro
entre as panelas velhas.


O RELÓGIO

O relógio parado
ainda marca o tempo
na casa abandonada.


DELÍRIO

No linho dos lençóis
o lírio delira.


POESIA MÍNIMA

Quero a poesia mínima
das ranhuras de uma pétala seca
entre as páginas de um livro.


AINDA

A formiga morta
no cimento frio
ainda é poesia.

___________________

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tempo Pascal



UNIDADE


O teu olhar me atravessou de lado a lado.
Dos meus olhos vazados, do meu peito
Saíram água e sangue e a luz mais pura –
A luz dos meus olhos vazados inundou o mundo.

Os homens céticos, as velhas, as mulheres,
Todos os desesperados do mundo se afogam
Na minha luz, na minha líquida iluminação –
E os anjos batem as asas brancas no céu azul.

Eu quero a plenitude da palavra amor.
Eu quero a plenitude do Ágape.
Deus me sustenta na sua mão absoluta.

As árvores cantam a música na lira do vento.
As tempestades levam as penas dos pássaros
E dos homens para a unidade de Deus.



TEMPO PASCAL


Espero a ressurreição dos mortos.
É tão simples a vida do homem puro
Que espera a segunda vinda do Senhor
Como quem espera o trem na estação.

O fogo dança nos lampiões, volta-se para o alto,
Os cadáveres das crianças sorriem beatíficos,
As flores crescem dos túmulos para o sol,
Os pássaros revoam com o delírio da luz.

O meu pai segue com o arado abrindo a terra,
A minha mãe cultiva as dálias da manhã
Nas fazendas de Deus, nos jardins do eterno.

Atravessei os areais do deserto na noite,
Mastiguei as pedras da aranha da angústia.
Espero a ressurreição como quem espera a chuva.


ANIVERSÁRIO

Hoje meu pai faz anos
dormindo sua morte,
mas não para sempre.

__________________________

Foto: Sônia Brandão

terça-feira, 26 de maio de 2009

Migalhas



A MESA

Sobre a mesa rústica
pratos e copos de barro.
E o pão repartido.


LEVEZA

É azul a água do sono.
Meu corpo leve paira
sobre as nuvens brancas.


A ARGILA

A argila da morte
coroa-me de vida
a vida.



O COPO

O copo de bruços
sobre a mesa vazia.
Brilha o nada dentro.


INFINITUDE

Beber-te
não mata a minha sede.


ESMOLA

Que me dás, ó infeliz,
que eu não te tenha dado?



O PESCADOR

Leva o pescador
um peixe maior do que ele,
menor que sua dor.


OS PASSOS

Quem percorre o caminho?
Uma borboleta?
Os passos de ninguém?


LAGO

A lua mergulha
na água do lago.
Ou a rã?



A LAVADEIRA

Passarinho branco e preto,
a lavadeira pipila
no tambor de lixo.


POÉTICA

As palavras do poema
são como as duas conchas
de uma ostra.


AQUI

Estou parado
na beira da estrada.
Mais nada.



O FERRO

Está sem carvão
o ferro de passar roupa.
Brilha no tempo.


PAISAGEM VERDE

A sombra verde das árvores
sobre o chão dos pobres
cheirando a lixo e dor.


A LOUCA

Com um peixe na mão,
uma mulher louca grita:
– Viva a vida!
_________

Meu poemeto Polpa, foi postado pelo Moacy Cirne,
com muita honra, no Balaio Porreta 1986 - http://balaiovermelho.blogspot.com/

sábado, 23 de maio de 2009

A sombra da lata



A SOMBRA DA LATA

À beira do mato
a lata e sua sombra
sobre as folhas secas.


ANSEIO

Deitamos na areia
olhando o céu azul.
Sonhamos com o mar.


NUVEM

Tenho uma nuvem na mão
densa como uma pedra,
mas chove.


PEGADAS

As minhas pegadas na areia
permanecem muito além
do vento e do tempo.


ESTRELA

Nada levo da vida
senão uma estrela
caída na água.


ENCONTRO

Perdi-me no bosque
para achar a poesia.


AS ÁGUAS

As águas do rio
são pedras ainda líquidas.


FIAT

Deus criou a luz.
Depois nada mais era preciso.


FUI

Fui como pedras.
A água e a terra leve
me poliram.


COMPLETUDE

Cortaram as árvores.
Mataram os pássaros.
O meu exílio é completo.


POLPA

Como a polpa de uma fruta,
o teu corpo.

_______________________

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O mar em Fortaleza





Dia e noite ouço a música do mar.
Do 13º andar ouço as ondas
Voando como loucas no mesmo lugar.
Batem as asas, assopram, engolem.

Os navios no porto estão parados eternamente
Como uma garça sobre uma perna só.
As jangadas são verdes como o mar.
O tigre da manhã ruge feroz.

Ao meio-dia, à meia-noite o mar ruge.
Ouço o mar rugindo no outro mundo,
Ouço o grasnido de uma gaivota, ouço as pedras,

As árvores afogam-se no mar e gritam felizes.
Ouço o meu quarto navegando nas ondas do outro mundo.
Tenho todas as palavras na mão e desfolho o abismo.

_____________________________________________

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O deserto do poeta



O deserto fala comigo, grita, esperneia.
Sou areia ao vento, dunas, miragem.
Preencho o meu vazio com palavras
Como um poema, aceito o arco da forma.

Aprendo o silêncio com a música,
Carrego pássaros de sangue nos ombros,
Contemplo a rosa até queimar os olhos.
A minha vida é o violino do abismo.

Estou só como uma pedra sem árvore.
O poeta lavra a palavra com terra na boca,
Com espirais de areia e sol nos olhos.

O poeta é um cão, ladra na noite,
Disputa o osso do caos e perde.
Cavalgo para sempre o cavalo da loucura.

sábado, 16 de maio de 2009

Memória da terra



CENTRO

O centro da terra é o céu.


VOO

Na memória da terra
delira o azul do céu.


SERENIDADE

A pedra é serena.
Aceita a origem como água
e o fim como terra.


ETERNIDADE

O céu azul brilha
sobre o abismo das águas.
Nascemos para o eterno.


AUSTERIDADE

As pedras são estrelas
austeras caindo
sobre a terra e as águas.


HORIZONTE PERDIDO

O sol brilhava na minha alma.
Entre pedra e céu, achei-me.


FORMA

Qual a forma do poema?
A água e o espinho do cacto
contra o céu azul.


CAOS

Na memória da terra
a paisagem do eterno
e a pedra do caos.


DIAMANTE

Diamante contra o azul,
a beleza revela-se na morte.

______________________________

Foto: Sônia Brandão

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gritos e sussurros



O GRITO

Quem me ouvirá
se eu gritar no escuro
quando os anjos dormem?


O SUSSURRO

A aranha devorou
a pequena abelha
e a ordem do universo não mudou.


A REVELAÇÃO

Sempre leio o Apocalipse
à procura das últimas notícias.
Encontro as primeiras.


GÊNESE

Poesia se faz com palavras
e sangue pulsando.
Do sangue nascem as palavras.


O GAVIÃO

Primeiro ouve-se um grasnido.
Depois um gavião leva-me os olhos
para que eu veja o sangue do alto.


VÊNUS

Quando criança quebrei uma Vênus de gesso.
Foi minha primeira obra de arte
e a constatação: o criador destrói a criatura.


A ÁRVORE E A CRUZ

O poeta vai ao dentista
mas não deixa a poesia do lado de fora.
A poesia senta-se com ele na cadeira de tortura,
abre a boca com ele, geme, sofre,
às vezes ganha a forma de um poema.

___________________________________

Foto: Sônia Brandão

sábado, 9 de maio de 2009

Homenagem às mães



A MÃE

Quando a última batida do coração
Tiver feito cair o muro de sombra,
Para me conduzir ao Senhor, ó Mãe,
Como outrora me darás a mão.

De joelhos, decidida,
Serás uma estátua diante do Eterno,
Como eu já te via
Quando ainda eras viva.

Levantarás tremente os velhos braços,
Como quando expiraste
Dizendo: Meu Deus, estou aqui.

E só quando eu for perdoado,
Terás o desejo de me olhar.

Recordarás de me ter esperado tanto,
E terás nos olhos um leve suspiro.

Tradução de José Carlos Brandão

LA MADRE

E il cuore quando d’un ultimo battito
Avrà fatto cadere il muro d’ombra,
Per condurmi, Madre, sino al Signore,
Come una volta mi darai la mano.

In ginocchio, decisa,
Sarai una statua di fronte all’Eterno,
Come già ti vedeva
Quando eri ancora in vita.

Alzerai tremante le vecchie braccia,
Come quando spirasti
Dicendo: Mio Dio, eccomi.

E solo quando m’avrà perdonato,
Ti verrà desiderio di guardarmi.

Ricorderai d’avermi atteso tanto,
E avrai negli occhi un rapido sospiro

Giuseppe Ungaretti
_____________________________________

Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O gari verde



O gari verde não madura nunca
Para que a sua dor não se perceba.
Empurra o seu carrinho com a cacunda,
Empurra a dor adunca da limpeza

Com a vassoura e o ancinho da desgraça.
Ninguém vê o gari verde sofrendo,
Gemendo como se fizesse graça.
O gari vai da Praia de Iracema

À Volta da Jurema se apagando.
A calça curta verde, as meias verdes
Com a camisa azul e verde vão

Compondo a imagem do gari doendo
Por onde passa, para a Fortaleza
Bela brilhar ao sol como as palmeiras.

_______________________________________

A foto foi batida pela Sônia na Volta da Jurema, Praia do Meireles.
Ouvi falar bem da polícia e mal da prefeita.
Não ouvi falar bem nem mal dos garis. Eu tento cobrir essa lacuna.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Parabéns, Fortaleza







Dia 12: show de aniversário de Fortaleza, 283 anos. Imaginava Fortaleza mais velha, mas é bela. Mona Gadelha, por falta de uma Mona Lisa, introduz o show. Mona Gadelha é a imagem de Fortaleza, juventude, vitalidade da juventude, e beleza.

Ednardo entra e comove o público por quase duas horas. Ednardo não deixou Fortaleza: leva-a no coração. Fortaleza não deixou Ednardo: canta com ele as suas músicas, leva Ednardo no coração.

Mona canta blues. Ednardo, mal entra, sente-se a voz do cearense. Linda a “Aurora” de Ednardo: “Abre as janelas, manhã.” Enfim, temos a presença da poesia. Imagens palpáveis, plásticas. Canta a bela “Calu”, de Humberto Teixeira.

Gostei do “Dono dos teus olhos” – ritmo e imagens fortes. Juntando-se a outras composições, comprova-se o gosto de cantar a dor de cotovelo. Não por acaso, uma das músicas chama-se Lupicínica, lembrando Lupicínio Rodrigues, que era o poeta de dor de corno. Grandes poetas, Lupicínio e Ednardo.

Outras músicas: “Reizado”, “Art. 26”, “Amor de Estalo”, “Longarinas”, “Terral”, “Carneiro”, “Enquanto engoma”. O povo, uma praia apinhada de admiradores, vibrou com “Maresia”, “Manga Rosa”, “Doroty L”Amour” e, por fim, “Pavão Misterioso”.

Um senhor cheio de graças atrás de mim – um gozador?, figura popular pitoresca? Ednardo dedica uma música ao Augusto – seria o irmão, ali perto de mim? Depois nova música, lembrando muitos artistas que mantiveram de pé a arte em Fortaleza, aglutinados no festival Massafeira – em especial o Augusto Fontes, não o companheiro alegre a meu lado, mas o grande compositor e animador cultural.

Massafeira pode ter sido apenas um festival, mas fez história – e a História merece ser respeitada. Ednardo merece ser e é respeitado: – a sua empatia com o público é grande, está na pele, está nas veias como seiva.

As ondas do mar cantam louvando Fortaleza. O vento canta fazendo dançar as folhas das árvores. Um pavão misterioso ajuda a cantar com o mistério do seu voar. Alguma coisa não é certa, não, mas a beleza persiste no canto e no voo do pavão chamado Ednardo.

______________________________________________

O CÁRCERE DE BÁRBARA DE ALENCAR















Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar.
No subsolo, a pequena cela de tortura:
Atrás das grades, pedras, paredes de pedras,
A cela onde um homem não cabe em pé.

Bárbara recebia uma só refeição por dia,
Mas era muito: alimentava-se de pedras
E de orgulho ferido e erguido como bandeira.
As pedras eram cabras mansas para Bárbara

Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.
“Quem me pedirá contas de meus atos?
Meu marido, meus filhos, o meu Ceará?

Quem combate o bom combate não sucumbe.
Eu colho na derrota toda a minha vitória.”
Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras.

_______________________________________

Depois de quase um mês em Fortaleza, Ceará, aqui estou de volta.
Fortaleza é bela, belíssima. Voltei com os olhos transbordando de imagens, com a alma lavada, pura como as águas primitivas do mar e da chuva. Foram vinte e tantos dias de mar, sol e chuva: pureza, beleza, finitude e infinitude.
Um grande abraço a todos os amigos. Saudades.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Dia Internacional do Livro - 23 de abril. Dia em que Shakespeare, Cervantes e Inca Garcilaso embarcaram na Barca da Morte



Desde 1995, 23 de abril é o Dia Internacional do Livro. A data foi escolhida pela Unesco em homenagem a William Shakespeare e Miguel de Cervantes, dois grandes autores que morreram no mesmo 23 de abril de 1616. E o Inca Garcilaso de la Vega.
Quando soube da data, num 23 de abril de 2005, fiz este poema.
Deixo-o aqui numa comemoração antecipada – saio de viagem por quase um mês.


A BARCA DA MORTE

O mar lembra a morte.

O grande sineiro toca
o sino da montanha,

tange nuvens,
carneiros loucos,

bois que mugem
ruminando o milho do mistério.

Ó tempo,
timoneiro do destino esconso,

para onde me levas
nessa nau entre os vagalhões despedaçada?

A memória do mar,
a memória da morte

nas flores de abril cruel.

Levanto a rosa de fogo
diante de um velho crânio.

Cavalguei para a fábula
com a dor escorrendo nos lábios.

Sentado na barca
aguardo o último cálice de vinho.

Já vejo a minha face
na água da eternidade.

O mar vai e vem na praia
e apaga as pegadas

descomunais
na areia delicada.

Atrelo o arado a um tigre
e continuo lavrando o meu campo de estrelas.

O poema é um nó sereno sob a harpa quebrada
dos pássaros do crepúsculo.

Estou pequeno
esculpindo palavras toscas num tronco seco.

Eu sou o que não partiu.

Eu
fincado no chão como uma estaca.

Se fosse na infância
iria florir o meu bordão.

Já quebrei as pernas descuidadas
nas esquinas do mundo.

A ferrugem nas juntas
é o meu ouro.

A morte cose as minhas meias
junto ao fogão.

Nenhum fogo,
as cinzas frias

e a morte a fiar, a fiar
na roca que não pára.

Estendo a minha mortalha
entre as brumas e as escoriações.

Eleva-se a minha alma em êxtase na barca e canta
a água que vem e vai

com o estandarte do sol
e a terra ferida.

Diviso à minha frente o horizonte aberto
e a morte.

O sol sangra no mar da morte.

_________________________________

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Inutensílios







A chaleira vermelha, com pintinhas
brancas, aqui e ali descascada e amassada
como a lembrar o estrago do tempo cruel,
tem o cabo quebrado preso com arame.

O bule azul com suas flores brancas,
pintas vermelhas e pistilos amarelos
na folhagem de um verde-escuro triste,
exibe as marcas das pancadas e a ferrugem.

O lampião dependurado no alto
ilumina o passado dentro do presente.
Apresenta-se novo como o tempo

e antigo como a eternidade lívida.
Que mão brejeira reuniu objetos
perdidos para a forma do essencial?

_________________________________

"Inutensílios" é um termo cunhado pelo grande Manoel de Barros.

terça-feira, 31 de março de 2009

A teia da aranha










DIANTE DO UMBRAL

Passo a mão pela fronte
E reconheço a noite nos olhos escuros.
Diante do umbral
Com a chave na fechadura

Tenho a dor do homem nos ombros
E sucumbo.
A máquina do mundo gira nos gonzos,
As águas da memória transbordam.

Teço a teia da minha fábula,
Suplico a Deus que me anule.
O pesadelo não termina no labirinto.

Entro e saio do espelho,
Sou sempre outro.
De bruços na metáfora, colho o universo.


O MONUMENTO

Construo um monumento de cristal
Com as minhas mãos nuas.
É ilusório o mundo que conhecemos.
Quem pagará o preço do esquecimento?

Perdido no claustro terrível,
Desenrolo o novelo da pirâmide.
Sou o mesmo sonho desdobrado.
A fonte rumoreja infinitamente.

De quem é essa voz que canta?
Quem toca essa música no labirinto?
Tenho trinta moedas na cintura

E sangro no abismo.
Adivinho nos olhos do falcão
Como é longa a eternidade.


PRIVILÉGIO

As pétalas de uma estrela
caíram no meu jardim

e brilham ainda.

____________________________

O título desta página é A Teia de Aranha justamente para chamar a atenção para as fotos, mais que para os poemas. Fica o dilema: Quem é o autor? A Sônia e eu fotografamos com a mesma máquina, um depois do outro, e no fim fica difícil saber quem fotografou - os nossos estilos (ou falta de, eu diria, no meu caso - mas aí complica), também na fotografia, se parecem. Vamos dizer que a maioria das fotos são da Sônia, que se dedica mais à fotografia que eu, mais preguiçoso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A alegria























A relva recobre o chão e viver é tão grande
O peixe me revela a cor das coisas
Sou a semente plantada na terra
Vejo na enxada o nome do universo

Vejo no perfume do pássaro a alegria
A música das águas abraça as árvores
Margaridas dançarinas cantarolam na luz
Um cavalo alazão relincha na invernada

São meus os horizontes das palmeiras
Tenho raízes e a infância grita no mato
Tenho estrume nas botas e grito para o dia

A cobra percorre o caminho da roça
O pincel do lagarto colore a paisagem
O pólen da beleza desenha a vida.

________________________________________


A ALEGRIA (TAMBÉM) É MATÉRIA DE POESIA

Remexendo nos meus baús (tenho baús? Alguém ainda tem baús? Tenho um, lindo, na sala - como decoração. Mas você sabe que não é desse baú que falo), no baú de há uns 10 anos encontrei esse poema. Achei que não era de se jogar fora, tanto que não joguei. Serve no mínimo para lembrar, coisa de que eu mesmo costumo me esquecer, que a alegria - a alegria e as raízes são matéria de poesia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Réquiem




































Parem as máquinas, parem todos os motores
Queimem os livros, as enciclopédias, todas as cifras
Todos os poemas, as palavras e as imagens
Queimem o homem e a sua verdade implausível

Morreu o poeta, o mundo não é o mesmo
A memória do próprio tempo, das árvores e das águas
Desfaz-se ao contato humano, à vigília, ao clarão da aurora
As paredes caem, os olhos explodem no labirinto

O ouro da sombra desmorona, desmorona
O azul do céu e o azul do mar são muito frágeis
Não nos contaram que era tanta a solidão

Parem as máquinas, chegamos ao esquecimento
Queimem os poemas, as imagens continuam cegas e mudas
Nós continuamos perplexos diante da porta sem fechadura.


_______________________________________________________

Igreja Nossa Senhora do Carmo, Mariana, MG; altar e inscrição tumular no assoalho. Fotos e poema de JCBrandão.

domingo, 22 de março de 2009

Testamento



Deixarei meu olhar no olhar do meu filho
Deixarei minha voz estranha como a vida
Deixarei a minha estranheza nos gestos
Na minha difícil, impossível humanidade

Deixarei o meu sorriso tímido e atrevido
Um jeito enigmático para os outros
Uma correção, um espanto, um sim e não
Deixarei, imperfeita, a minha diferença

Deixarei a minha pele, a minha delicadeza
As minhas palavras ressoando no escuro
Deixarei meus erros e meus escuros acertos

Deixarei o sentido do êxtase, tão pouco
Deixarei o quanto tenho de alma e de absoluto
Deixarei Deus, no espelho, para o meu filho.

_________________________________________

Idéia do poema de Adriana Godói: "O que vou deixar para os meus filhos" http://driaguida.blogspot.com/

sexta-feira, 20 de março de 2009

Folhas do outono



CENA

Na rua molhada
o cachorro morde o rabo.
Cai na poça d’água.


ALVORADA

Os lençóis no varal,
as cerejas vermelhas
e os pássaros da aurora.


AMARELINHA

As crianças gritam
pulando amarelinha
nas sombras do sol.


FLAUTA

As andorinhas no fio
como numa pauta.
Até se ouve a música.


INFÂNCIA

Barcos de papel
navegam na enxurrada
para nunca mais.


FOME

O pardal no ninho
pia com fome da mãe
e da minhoca.


ADEUS

Como lenços brancos
barcos e gaivotas chegam
no mar da tarde.


O SALGUEIRO

O salgueiro chora
lágrimas de ouro e âmbar
na luz da tarde.


OS SINOS

Os sinos de bronze
nas ladeiras de Ouro Preto.
A alma resfolega.


OUTONO

As folhas do outono
no labirinto da vida
enfeitam o caminho.


MEMÓRIA

Na sombra das árvores
a dança da borboleta
e da memória.


FIAPOS

No anoitecer da vida
alguns fiapos de nuvens
e de palavras.


GAIOLA

A gaiola aprisiona
o pássaro,
não o canto.


ASSOMBRO

O gemido da sombra
da árvore que cai.


CAMINHADA

Por mais que caminhe
não chego ao mar
nem à terra.


CRISTAL

Vejo a tua face
na gota de orvalho.


IMAGEM

A libélula
à beira d’água
se procura.


QUIETUDE

Ouve-se
o som da sombra
de uma folha.

_____________________________

quarta-feira, 18 de março de 2009

A harpa da palavra



INSCRIÇÃO

Passei por aqui
com o vento, as nuvens, o mar
e o sol ao crepúsculo.


À BEIRA

O poeta vive à beira
do abismo
e do êxtase.


EU SEI

Eu sei o que existe
além do arco-íris.
Mas não me importo.


KASPAR HAUSER

Sou um estranho entre os homens
com uma lua no bolso
e um punhal no coração.


D. QUIXOTE

Os moinhos de vento
não seriam nada
sem Sancho Pança.


INTERSECÇÃO

Faz sol lá fora,
mas dentro de mim
chove a cântaros.


O POETA

O bicho-da-seda
farta-se de folhas de amoreira.
Prepara o seu casulo.


KAFKA

Ficou junto à porta
até morrer.


OUTONO

Para onde quer que eu vá
sopra o vento do outono
sobre a água da tarde.


ORIGEM

O caranguejo
anda de lado na areia.
Volta-se para o mar.


NORTE

Onde o meu norte,
nuvens e folhas
ao vento da tarde.


UNGARETTI

Na harpa da palavra,
com os dedos em chamas,
vou tangendo o universo.


UM SINO

Um sino toca
e a noite cai
sobre as árvores.


OLHAR

No meu olhar
cai o orvalho
da manhã.


PEGADAS

Os meus passos na areia
cada vez mais fundos.
Como é longo o dia!


BARCOS

Nuvens brancas no céu azul.
No azul do mar os barcos
e suas velas brancas.


A SIRIEMA

A siriema passeia
no pasto verde
perto dos hibiscos.

________________________

Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cacos



SER

Ser ou não ser?
No momento antes da aurora
tudo é sonho.


ALTAR

A rosa e o vinho sobre a mesa
como sobre um altar
esperam o poeta.


O PERFUME

Guardou na pele
o perfume daquela noite
como uma alma.


AS FOLHAS

As folhas giram no ar
e caem na água
entre as pedras e o silêncio.


O PIANO

As cordas caladas
do piano na noite.
A música em mim.


O HORTO

O horto em silêncio.
A lua entre as árvores
e o cheiro de alecrim.


DEGOLA

Degolo de um golpe
o poente e a aurora
e crio a beleza.


QUEM CASTROU

Quem castrou
o gorjeio do pintassilgo
no cipreste?


O VELHO

Sou um velho sem memória.
A minha casa caiu.
Cubro-me de cinza e morro.


A CHAVE

Como uma chave na porta,
pássaros, pedras e peixes
se inscrevem no meu desígnio.


XADREZ

Jogo xadrez
com as estrelas
no tabuleiro da noite.


COMPOSIÇÃO

Pedra a pedra o poema,
com a água, a argila
e as pétalas da rosa.


CACOS

Anterior ao paraíso,
somos os cacos do cântaro
ao sol e à chuva.

_____________________________