terça-feira, 30 de março de 2010

Êxtase


Êxtase


A pedra cai na água, o pássaro imóvel

no galho. A rosa, ao sol, se renova.

Os melros na relva, os melros dentro

de mim. Onde estão? Quem fui?


Caminho na tarde verde à beira

da água clara onde as nuvens se miram.

Atira a pedra na água e esquece.

O círculo cresce e desaparece.


Qual a forma do meu poema? Ainda

estou elaborando o nome da rosa.

Vozes verdes, verdes ventos. Elaboro


o meu poema como um cavalo ruminando.

O rio engole a palavra e espera o êxtase

da rosa ao se mirar em suas águas.


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segunda-feira, 29 de março de 2010

A maior tragédia do poeta




A maior tragédia do poeta

Disse Jean Cocteau que "para o poeta a maior tragédia é se o admiram porque não o entendem." Revi essa frase esses dias e comecei a refletir se meus últimos poemas (os que tenho mostrado, há outros que elaboro e reelaboro infinitamente e secretamente) são fruto dessa reflexão. A busca da simplicidade para não ser admirado, se o for, porque não me entendem. Comecei a escrever poemas complexos demais, para leitores iniciados. Considerava que a simplicidade era dificílima e só poderia ser atingida com muita experiência. Seria fruto da maturidade.
Mas me lembrei de que O Córrego tem uns doze ou quinze anos, Ele Era Nosso Pai tem mais de 15, Poente tem uns 20... Não foi agora que atingi essa maturidade, se é que consegui a façanha de ser entendido. Porque a questão não é tão simples. Um grande amigo reclamou: “Você escreve difícil, Zé.” Acontece que esse amigo não é leitor de poesia, aliás, não é leitor de coisa nenhuma. Penso que está respondida a questão: quem não é leitor de poesia, por mais que tenha boa vontade, por maior que seja a amizade, não entenderá o poema mais simples. E muitos, além de não serem leitores de poesia, não são leitores de nada – a esses é impossível esperar-se o milagre de entenderem um poema.
Por falar em entender um poema, tenho insistido nesse ponto há muitos anos: um poema não é para ser entendido. Mas fruído, degustado aos poucos, saboreado com prazer – aquele prazer que leva ao êxtase estético. Não é preciso se analisar a obra para se saber o que o autor quis dizer, não é preciso explicar pari passu as suas intenções aparentes e ocultas. Um poema não é uma obra de autoajuda para transmitir uma ideia banal ou profunda que possa ser lida como uma filosofia de vida. O poeta não transmite ideias, mas imagens. O poema não tem nenhum compromisso com a verdade, mas apenas com a beleza. Se é que tem algum objetivo, será o de encantar, extasiar.
As imagens do poema, inevitavelmente, farão bem ao leitor. Se gostou, se se emocionou, se sentiu que a realidade é bela, e a beleza é sempre um bem, e se sentiu que a realidade é mais do que a realidade, ou se apenas sentiu a realidade, o poema lhe fez bem. Mas, repito, não é preciso explicar essas imagens. Não sejamos tão magistrais. Afinal, repetindo-me ainda, explicar uma piada tira toda a graça da piada – quem precisa de explicação ri sempre sem graça, fica com cara de bobo.
Se é diminuir muito a poesia compará-la à piada, comparo-a então à mágica. A poesia tem o sortilégio da mágica. E sabemos que um mágico não ensina como realiza seus truques, seria tirar-lhes todo o encanto.
Desmontar o relógio ou a caixinha de música para saber como funciona tira-lhes toda a graça. A criança quebra o brinquedo para ver o que tem dentro e depois chora, não só porque está quebrado, mas porque sempre era melhor não saber.
Não prego a ignorância (ainda mais que já dei a entender que sou contra toda pregação). É preciso desenvolver no leitor o gosto estético. É preciso que o leitor tenha, antes, a capacidade linguística. João Cabral fez séries de poemas sobre o ovo, o relógio ou a cabra, matérias não-poéticas – estava ensinando-nos que poesia é antes de tudo uma questão de linguagem.
O poeta precisa dominar a linguagem para escrever (até para escrever errado). E o leitor precisa dominar a linguagem, não para entender um poema, mas para senti-lo. Sentir já é uma forma de entender.
Quando se fala em sentir, pensemos em sensações. O poema é uma forma, que posso manusear, ver, ouvir, cheirar, saborear. O poema é um objeto que deve tocar aos meus cinco sentidos, talvez a um sexto, a um sétimo... Estaríamos falando da imaginação, da perplexidade metafísica... Mas não é preciso complicar. Fiquemos nos cinco sentidos, que, pelo menos teoricamente, são bem fáceis de entender. Fiquemos no prazer de sentir as imagens do poema, é muito, pode ser tudo.
(Como no poema de Manoel de Barros: “Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia. / Eu não preciso de fazer razão.")

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Ao poeta Edson Bueno de Camargo, que andou em palpos de aranha por causa de certos não-leitores.



sábado, 27 de março de 2010

Crepúsculo





Crepúsculo

As pétalas de luz caídas na água,
Embriagadas com o vinho do crepúsculo.
A minha imagem sai do lago
Molhada de sombra doce.

Uma menina dorme e é uma rosa
E sonha as pétalas orvalhadas.
Um peixe olha de lado para o sol
E sorri com a prata das escamas.

Quebro gravetos secos com os pés,
Quebro o vidro da paisagem.
A árvore dança sorrindo

Com os pássaros no coração.
A lua se aproxima de mansinho
Fugindo do moinho do sol.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

As águas do rio



As águas do rio

A rosa floresce.
Junto à fonte interminável
Abre as pétalas de luz.
Um bem-te-vi anuncia o arrebol.

Na harpa da palavra,
Com os dedos em chamas,
Vou tangendo o universo.
No meu olhar cai o orvalho da manhã.

Vejo a tua face na gota de orvalho.
A libélula se procura à beira d’água.
Ouve-se o som da sombra de uma folha.

O poeta vive à beira do abismo e do êxtase.
As águas do rio estão dentro dos meus olhos,
Nunca acabam de passar.

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Claridade




Claridade

O hibisco vermelho apaixona-se pelo sol,
Abre-se mais, explode, parte-se.
As folhas verdes guardam a luz e a sombra.
A borboleta aprisiona a cor nas asas abertas.

A libélula equilibra-se no caniço.
O limo recobre a pedra por onde a água escorre,
A água cristalizada ao cair das pedras da cascata.
A garça caminha com leveza no capinzal.

O pica-pau martela o tronco do pinheiro.
O beija-flor carrega a luz nas asas em delírio.
A coruja vigia a sua toca com os olhos acesos.

As palmeiras espelham–se nas águas do rio.
O monjolo sobe e desce, a roda d’água cantarola.
O melro canta à beira d’água a claridade do verão.

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sexta-feira, 19 de março de 2010

O córrego




O córrego


Os brotos de bambu crescem rodeando a casa,
A água parada brinca com os girinos,
Giram no ar as jabuticabeiras pesadas,
As pedras sonham com a carne dos lagartos.

A cadela delira com o dia das maritacas,
O joão-de-barro palpita com a sua casa,
O arado levita nas asas do beija-flor,
A orquídea eleva a árvore acima do sol.

A vida clara estala na cacimba,
A borboleta adora a terra vermelha
E as flores semeadas no canteiro.

Meu canto engorda na ponta dos dedos,
As laranjeiras adernam no quintal.
No córrego a beleza nua e límpida.

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Ao Vasqs, que gostaria de ter escrito um outro poema, O Orvalho da Amora, que falava do córrego da infância, escrito no mês passado, enquanto este é do século passado, dever ter uns doze anos,
também à Claudinha, que não pode lembrar que eu nasci em Dois Córregos sem rir, e nem sabe que minha cidade tem três córregos, nasceu na confluência do córrego Fundo com o Lajeado, que se unem para formar o do Peixe, que vira rio, cresce, torna-se o Rio Jaú, que vai dar nome à cidade vizinha.
Carlos Reichenbach fez um filme chamado Dois Córregos, mas sem querer engana o incauto que vê uns córregos enormes, o rio Jacaré e o rio Tietê, que também banham o município de Dois Córregos.
Quando meu casei, fui morar na beira de um córrego, as vacas e as éguas de noite vinham se coçar nas paredes da casa, ou poderia ser uma anta, havia antas e capivaras por ali.
Mas o córrego da minha infância é bem longe dali, no pedaço de mato onde eu nasci, lugar que um dia foi tão grande que chamaram de Matão, e o córrego corria nos fundos de casa, não tão perto quanto o poema faz supor, havia antes uma imensidão de pés de jabuticaba, nunca vi tantos juntos depois, havia muitos outros pés de fruta, havia o mangueirão dos porcos, havia pássaros e outros bichos e havia encantos muito mais que o poems faz supor.
Ninguém acredita, mas eu nasci no paraíso.

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quarta-feira, 17 de março de 2010

A origem do poeta




Ele era nosso pai

Ele contava histórias e ele plantava árvores.
Um dia viu uma cobra à beira do caminho,
Aninhou-a no peito, dormiu com ela,
Acordou irmão das árvores e dos bichos.

Desceu ao fundo do rio atrás de uma concha,
Voltou com nove filhos e uma mulher nos olhos.
Dizem que somos frutos de uma ou nove árvores,
Somos peixes das águas, que a dor humaniza.

Nosso pai dominava os cavalos selvagens,
Conversava de longe, acariciava as crinas.
Dizem que relinchamos alto na alvorada.

Nosso pai conhecia a voz da terra e do sol.
Tinha uma cobra no peito quando cavalgava
Tocando o berrante com um som de água verde.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

O orvalho da amora




O orvalho da amora

Os dias caem no córrego da infância,
O tempo gordo, de sal e sol,
Com os bezerros e os cachorros.
A bananeira exibe o coração enorme,

As jabuticabeiras carregadas
Forram o chão de folhas leves.
Os pés afundam no barro vermelho,
Os olhos mergulham no orvalho da amora.

Ouço ao longe o monjolo e sua sombra,
O vento balança as nuvens brancas,
As espigas rebentam no milharal.

Abro os pulmões para o ar da manhã,
O cavalo relincha na porta da cozinha,
O galo canta por todos os galos.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

Quietude




Quietude

A casa quieta, à beira do lago, acorda com os pássaros.
Há domingos tão belos que até os cachimbos florescem.
Os meus olhos e os figos maduros estouram ao sol.
A água fresca dos cântaros reluz à sombra sossegada.

O poeta escreve com estrelas, pedras e pássaros.
A montanha brilha no caminho do pinheiro além-horizonte.
O pássaro desenha o círculo perfeito no céu azul.
A pomba passeia na terra do canteiro de buganvílias.

Escrever é um testemunho da alegria.
A mulher ergue a mão para a macieira em chamas.
As árvores solícitas esperam a passagem do rio.

A figueira abre os braços e oferece a sombra acolhedora.
Nadam na água os peixes dourados e a imagem das árvores.
O melro canta, imóvel. O rio deflui, banha as folhagens do dia.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

O sangue e a terra




O sangue e a terra

O barco no campo entre as vacas,
Os bezerros e os cavalos.
A luz era tanta
Que giravam os cavalos.

O barco flutuava,
O brilho da tarde degolava.
A mulher de pedra pairava
Na luz da terra vermelha.

A borboleta amarela
Media a distância infinita.
Pendiam de sede os caules da tarde.

Os marimbondos bailavam como loucos
Ou apaixonados.
Fiquei cego com tanta cor.

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Corpo e figo




Corpo e figo

Seu corpo imita um figo
Estourando de maduro.
No azul dos olhos, refletido,
O azul de um sanhaço.

O orvalho da manhã
Ainda líquida na pele
E os lábios de maçã,
Os seios que explodem

De carne rubra e cristal.
Palavras são pouco,
Nenhum repouso.

A boca saliva
E sangra. Antecipa,
No desejo, a mordida.
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Foto: Evandroc - Flickr

sábado, 6 de março de 2010

Sinfonia




Sinfonia

As tartaruguinhas nadam
Com as cabecinhas de fora,
O lírio caído no lago
Sonha um idílio no jardim.

O cisne flutua
Entre as árvores no espelho d’ água,
O cisne valsa
No cálice do lago,

Um ninho valsa
Com a música da brisa.
Um raiozinho quase se afoga

No tanque da rãzinha.
O pica-pau no alto do coqueiro
Martela a sua sinfonia inacabada.

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terça-feira, 2 de março de 2010

Alba



Alba

Gira a roda d’água,
O monjolo pila o milho,
Um galo bica a manhã.
Escorre a farinha do ouro do sol.

A dor das ameixas abre-se à luz.
Entre as folhas da cerejeira,
O canto do pássaro inventa o pássaro.
Saboreio a amora roxa.

Os meninos e as abelhas
Sonham o mel das pitangueiras vermelhas.
Dos cajus dourados nos galhos do cajueiro,

Pingo a pingo, o sol.
Bebe de meus lábios,
Na clara luz da manhã, o êxtase do olhar.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O pomar do dia




O pomar do dia

As maritacas trincam o céu das frutas maduras,
O ouro escorre da árvore.
Olhar uma árvore é multiplicar o olhar,
O prisma das folhas me entrega o universo.

Os gerânios vermelhos entre o musgo verde,
Os cravos rosados na água brilhante do jarro.
Na forja da tarde, o martelo da araponga.
As pitangas são gotas de sangue.

A romã explode, as sementes são diamantes.
Uma cigarra quebra as vidraças da tarde.
Um melro voa de um galho de cedro.

Cálices de flores gritam no alto dos ipês,
Pássaros pingam mel.
A vida é perfeita no pomar do dia.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O novo Orfeu



O novo Orfeu


Desço ao inferno como Orfeu.
Sou dilacerado pelas palavras do mundo, minha musa.
Eurídice me espera numa curva da estrada.
Eurídice está livre.

Sou eu que dou a forma da liberdade a Eurídice.
Carrego a chave na mão e a chave é uma cruz.
O madeiro da cruz pesa tanto, eu sangro,
Mas caminho altaneiro, sem titubear, entre as pedras

E as serpentes, que me tentam com a maçã preciosa.
Sou pregado na cruz, de cabeça para baixo.
É minha a chave do mistério.

Eurídice é bela, fecunda e se multiplica entre os filhos dos homens.
Como Orfeu, no fundo do inferno,
Eu componho a música da liberdade.

(4-12-07)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Equilíbrio



Equilíbrio

Colore a manhã a seda simples da brisa.
Uma garça valsa na margem do rio,
O sol doura a água.
Venha beijar comigo o orvalho dos nenúfares.

O tuiuiú se levanta da água
Com um peixe de ouro no bico.
A pena da paisagem era de ouro e prata,
Cada vez mais florida a plumagem do dia.

As taboas deixavam cair os pendões
Em reverência ao azul do céu e da água.
Uma borboleta saltita no ar

Entre as florinhas amarelas.
Um flamingo equilibra
A perna fina do silêncio.

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Delírios








Delírio

O lago reflete
o incêndio de um lírio.


Tchibum

Um beija-flor mergulha
de repente – tchibum! –
por meus olhos a dentro.


Iluminação

Era uma pedra dourada.
Quando se abriu, voaram diamantes.
Pombas brancas na tarde azul.


Avalanche

A lua entre as pedras
faz cair da montanha
uma avalanche.


Os sinos

Os sinos de bronze
nas ladeiras de Ouro Preto.
A alma resfolega.


O pastor

Um pássaro num sino,
na alta montanha,
tange as nuvens.




O êxtase do enforcado

A criança ofereceu uma flor
ao enforcado.


O êxtase do poeta

O poema é natural.
A árvore, sobrenatural.


O pomar do dia

O ouro escorre da árvore.
As maritacas trincam o céu das frutas maduras.
A vida é perfeita no pomar do dia.

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O tempo escorre dos cabelos




O tempo escorre dos cabelos

O tempo não existe para o meu avô.
Chega um tempo em que não é mais o tempo
De preparar a terra, calcular a lua, a chuva, plantar e colher.
Chega um tempo em que o homem é a colheita.

O meu avô olha o horizonte, resmunga: ara!
Chega um tempo em que não somos do tempo,
O cachorro do eterno ronronando, mordendo
O calcanhar. E somos cavalos trôpegos, inúteis.

O tempo escorre dos cabelos do meu avô
Que morreu com noventa e dois anos de idade
Depois de muitos relógios quebrados.

Um minuto basta para acariciar o cachorro
Ou para morrer e continuar no tempo,
A mão no pelo do cachorro, na morte prolongando a vida.

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sábado, 13 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A copaíba




O sangue verde nas veias
As folhas verdes gritam
O tronco gordo se esparrama
A grande copa cobre a areia branca.

Os galhos vertiginosamente para os lados
Como se não houvesse espaço acima ou abaixo
A copa baixíssima cobre a cidade
Os galhos larguíssimos abraçam os quatro pontos cardeais.

A árvore em oração de joelhos no seu diminuto altar
Um candelabro de folhas verdes louvando a Deus
É a mãe ungindo com o óleo a terra como um filho.

A copaíba é o símbolo da vida contra a farinha da morte
É o universo que nos estende os braços
São os braços de Deus abençoando a cidade.

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A copaíba estava no caminho onde se abriria a avenida Getúlio Vargas, em Bauru. Sacrificar a árvore? Nunca. A copaíba continua lá, no centro da avenida. Porque não é uma simples árvore, mas o símbolo da cidade. Um monumento vivo. Contra a farinha da morte. Esbanjando o seu sangue verde, como que fertilizando esta terra.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Periscópios




A tesourinha

A tesourinha pousa no fio.
A longa cauda corta o ar.


A andorinha

A andorinha pousa
na placa enferrujada
entre água e o olhar.


Flores

As flores de bucha
subindo no bambual
contra as nuvens brancas.


Namoro

O casal de marrecos
passeia no capinzal.


A imagem

A imagem congelada
das águas fluindo
no córrego.


Nudez

Nascemos nus,
mas com a morte no bolso.


Cur timeam?

Tenho medo
por que estou vivo.


Praga

Uma nuvem branca
do cuspe das lagartas
devora o tronco da árvore.


Premonição

A silhueta dos marrecos
nos galhos da árvore seca.


Folha de mamona

A enorme folha de mamona
respingada de gotas de orvalho.


Periscópios

Oito marrecos navegam
na água do lago.
Vejo apenas as cabeças pretas.

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Estalidos




Quero-quero

Marcha o quero-quero
no capim à beira d’água.
Guarda o seu reino.


Corruíra

Salta a corruíra
da grade de arame
para as margaridas.


A orelha-de-pau

A orelha-de-pau
envolve o tronco da árvore.
Quer escutá-la.


A luta pela vida

O gatinho
devora o passarinho.


A equilibrista

A baitaca se equilibra
no beiral da igreja
com arte e astúcia.


Extinção

Um tronco queimado
no meio do jardim.


O inventor

De tanto medo
eu criei a morte.


Alerta

Com comida no bico
o sanhaço espreita o ninho.


Depressão

O macaco-aranha
agarra com as cinco mãos
as grades da jaula.


O mico branco

O mico branco
com seu olhar triste
ergue as mãos em oração.


O lhama

O lhama sério,
cara de poucos amigos,
urina na grama.


A coruja

A coruja me encara
com os olhos vermelhos.
Eu volto a cara.


Os barcos

Os barcos de pesca
no Saco da Ribeira
flutuam na luz.


A coruja buraqueira

Numa perna só
a coruja buraqueira
me desafia.


A tromba

A parte mais sensível do elefante é a tromba.
A minha também.

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Foto: Sônia Brandão

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Arte poética

Foto: Sônia Brandão


Arte poética

Receba o poema
como quem abre a porta para a luz do dia.

Às vezes a luz não vem,
mas a chuva, o vento, a noite.
São igualmente poesia.

O poema é uma árvore
carregada de frutos e pássaros.

O poema é bom quando você ouve o seu canto
sob a luz do dia
ou sob a chuva, o vento, a noite.

É preciso que haja um menino no poema
ou um velho, que é um menino outra vez.

O poema deve brincar
como um menino
e morrer, devagar, meio louco,
como um velho.

É bom um pouco de loucura no poema,
talvez muita.
São muitas as sombras da vida,
às vezes apenas os relâmpagos da loucura
podem clareá-las.

O poema deve ser fechado como a pedra
e aberto como o ventre da mulher.

O poema não é eterno:
tem a idade do homem.

É preciso,
é inexoravelmente preciso
que o homem esteja presente no poema.

Um poema se faz de palavras
e sangue do homem.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Lápides




Forja

Na forja da tarde,
o martelo da araponga.
Uma laranja cai.


A cigarra

Uma cigarra quebra
as vidraças da tarde.


O salgueiro

O salgueiro estremece.
Maçãs e ameixas maduras
esquecidas no chão.


Sono

Uma aranha metafísica me anula.


O velho cavalo

Subindo a montanha,
o velho cavalo
carrega o sol no lombo.


Poética

Um poema deveria ser como uma lápide.


A eternidade

A eternidade é uma gaivota sobre o mar,
um cântaro de sombra, um cão,
a água parada, uma flor de luz.


Comunhão

Havia um silêncio redondo
e o canto do pássaro.
O canto ia e voltava.
O silêncio, redondo.


Lápide

Eu cheguei antes.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Poemas breves




Alba

A dor das ameixas
abrindo-se à luz.


As flores de pedra

Quando as dores do mundo são a dor.


Alvorada

Gira a roda d’água.
O monjolo pila o milho.
Um galo bica a manhã.


Epitáfio

Tinha uma pedra no meio do caminho.
Agora estou debaixo dela.


Maturidade

A maturidade são as rugas,
umas dores, uns achaques.
É saber que, no fundo da chácara,
teu pai está morto.


A língua seca

A minha língua está seca de tanto contar os mortos.


O sal nas pétalas

Quem salgou as pétalas das rosas
secas no caminho?


Fidelidade

Na minha língua vai florindo a flor da loucura.


Oferta

Eu vos oferto os meus olhos, ó príncipes, ó mendigos.
Que quereis mais?


Os jacintos

As palavras eram de pedra
quando morreram os últimos jacintos.


Roca

A lagarta cega entre as folhas da árvore
fia a forma do efêmero.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O fim do mundo




O fim do mundo

O coração queimava na trincheira,
era um pedaço de carvão pulsando,
em agonia, entre a fumaça e o sangue.
Os meus olhos vazados na fuligem.

Os ratos nos buracos da parede
ansiavam, gemiam de prazer.
Um verme sufocava nos meus lábios,
as palavras quebradas entre os dentes.

Eu carregava um peixe sobre os ombros.
Um poema se faz com o mistério
da âncora entre os despojos do naufrágio.

O trator do fim do mundo segue arando,
as lâminas levantam da terra esqueletos
de anjos e de oráculos destronados.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Poema de aniversário




Continuo a olhar no horizonte a terra que toca o céu,
a linha mínima compondo
no encontro de verde e azul
uma pele exata,
bela e eterna, conquanto frágil.

Cavalos se erguem no ar
brotando de uma fonte rubra,
a fogueira do sol
na paina das nuvens a jorrar:
luz deste exílio breve
como areia
a se perder na distância.

As folhas caem com as árvores
sobre a terra sem uso.
Os frutos e os pássaros da infância
ficaram sepultos
no escuro do tempo,
com vagas inscrições na parede.

O que fica de quem fui,
o ser antigo diluído em nova forma,
os cães do menino latindo
no calcanhar do velho,
que exibe as cãs formosas na beira da estrada.

No solo fica a cinza,
um muro por cima coberto de hera.
Uma flor nasce numa reentrância,
entre duas pedras,
embora seja noite e tudo,
a montanha e as águas,
se cale.

Deus pasce do alto.
A ovelha bale fora do aprisco
e volta.
O mundo é grande
e calmo cristal
onde brilha a face de Deus.

28 de janeiro de 2007.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A noite do emparedado



As estrelas ecoam no fundo do lago.
Um anjo dorme num pequeno barco.
O gavião grita de seu nicho no rochedo.
É tarde. A árvore estremece.
A raposa geme acuada à beira do banhado.
O perigo espreita, orvalhado.
A morte é suave, é uma criança rósea.

O menino agoniza sob a palha
com a bênção brilhando na fronte.
O sino dobra na montanha.
As casas de pedra recolhem as águas da aurora.
É a noite do emparedado.
Conheço os caminhos da névoa.
Estou pisando as cinzas do silêncio.

Uma chaga floresce no meu peito.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Geofagia - no Haiti como aqui


Biscoitos de barro temperado com manteiga ou banha, água e sal, vendidos na rua, no Haiti. Foto de 2007. A natureza não é culpada da miséria, que não tem pátria.

Inda meninos, íamos com febre
comer juntos o barro dessa encosta.
Será talvez por isso que o homem goze
ser a seu modo tão visionário e ébrio.

E inda goste de ter em si a terra
com seu talude estanque e sua rosa,
e esse incesto contínuo, e infância anosa,
e céu chorando as vísceras que o cevam.

Tudo isso é um abril desenterrado
e ilha de se comer, ontem e agora,
e vontade contínua de cavá-los,

cavá-los com a maleita renovada.
Ó terra que a si própria se devora!
Ó pulsos galopantes, ó cavalos!

Jorge de Lima, Invenção de Orfeu, 1952.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Poética essencial



Escrevo para descobrir o verbo essencial.
Eu quero o verbo essencial.
A rosa,
as pétalas em chamas,
a rosa das trevas,
o cálice de néctar e sangue,
a essência da rosa.
Escrevo para entrar em êxtase.
Escrevo para ver Deus.

Quero escrever um poema tão mal feito
que só Deus para consertar.
Um poema tão sem sentido
que só Deus para me dar a chave.
Um poema do abismo
que só Deus para me salvar.
Um poema que me anule,
absolutamente.
Na folha branca,
na pedra fria,
só o absoluto de Deus.

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O Silêncio de Deus, 2009

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Federico García Lorca




Dos telhados da tarde flui a chuva.
Os talos de penumbra nas veredas,
a paisagem se queda cinza e sonho.
Sobre os ramos de pássaros tristonhos,

uma chaga se grava na folhagem.
Suspiram múrmuros tremores acres.
As espigas desabam com estrondo
de granizos de estrelas que soluçam.

Eleva-se da terra névoa aflita,
ânsia de flores turvas pelas águas.
Do húmus se liquefaz um negro sumo,

cravos na face e luto nos cabelos.
Olhares delirantes suam trevas.
E minha voz desliza, além da imagem.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Cristal




Estátua, estou só
no parque, no tempo.

Que forças, terríveis,
me açoitam?

Que forma componho
do sangue dos mitos?

(Miragem, resisto
à fala da serpente.

Pombos voam no céu azul,
não me pousam no peito frio.

O real passa por mim
como uma nuvem.)

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domingo, 17 de janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Depois do terremoto no Haiti




É o fim do mundo, grita a haitiana.

A terra tremeu,
o fogo queimou,
as casas caíram.

Vítimas sangram no meio da rua.

Um soterrado pede ajuda,
uma mão sai de uma parede,
uma cabeça sobre uma pedra.

Corpos, corpos, corpos.

Ainda está balançando,
eu não posso ficar neste lugar,
preciso de ajuda.

Gritos, gritos.

Zilda Arns morreu numa igreja.
Um menino olha para o céu.

Deus não vê a dor dos homens,
eu sofro, eu cego Deus.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A púrpura vária




Eu me perdi nas dunas do poente,
ouro selado no caminho das lágrimas.

Que palavra o desígnio vence?
A noite é o limite do mistério.

Uma pálpebra tímida me escuta,
inútil o exercício da procura.

As vagas se detêm na praia cinza,
a aranha tece o véu de orvalho e nácar.

No labirinto da linguagem cega,
eu velo a flor do abismo.

Estou perdido, além das evidências.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Cecília Meireles




A BAILARINA

Escala íntima, prece entretecida
reflexo alado e cântico delido
a bailarina arremetida vela
o corpo-ritmo pluma que se anela.

É fábula cativa nas retinas
em equilíbrio lírico feridas,
é uma estrela livre sobre o dia,
intacto raio verde-gris contido,

e pássaro de prata cristalina,
librada em árvores de seda breve.
Tranqüila ceifa as asas como pétalas

e cai espelho concha de água e seta.
Fina imagem de flor que se enleva,
fantasia de brisa e luz reflete.

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Alberto da Costa e Silva lembrou bem: Cecília Meireles é bem pouco lembrada. Por quê?

Ele próprio, Alberto da Costa e Silva, é bem pouco lembrado. É um dos dois ou três maiores poetas brasileiros vivos (embora poesia não seja corrida de alcance, como lembrava Mário Quintana), mas quase ninguém o reconhece.

Cecília é um dos poucos nomes realmente grandes da nossa poesia, mas sofre quase um ostracismo. Não é demasiado ousada? Mas é preciso uma obra ser ousada? O que é essencial numa obra? Aliás, falar em essencial é falar em Cecília Meireles. Tenho dito.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Manoel de Barros





O ENCANTADOR DE CABRAS

Vinha na poeira da estrada, aceitava um prato de comida,
talvez algum serviço.
Era encantador de cabras. Tocava a flauta,
cabras sisudas roçavam o pasto para ele.

Sufocaram as rãs, enroladinhas no peito
para não morrerem de frio; o peito ainda coaxa.
Tinha a cabeça virada para trás,
mode guardar as lembranças.

Gania no fundo do poço, a água jorrava.
A vida tem muitas mágicas, como um ovo.
Santo de todas as rezas, benze sobre o estrume verde
e floresce a muleta entrevada.

Vira e mexe se transforma num diabinho de chifres furados,
oito brincos dependurados.
Simples a vida, milagre de água
de mina bebida na guampa – dizia, encantado.

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Poeta grande é aquele que não precisa de explicação.
Minha homenagem ao enorme poeta Manoel de Barros.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Página de diário



Abri a janela e vi um avião,
a tarde estava azul
no céu, mas
verde no morro, nas árvores, no pasto, nos bois.
A terra é vermelha,
branca em Bauru, dizem,
mas é verde quando meus olhos estão pastando
e vermelha quando meus pés pisam,
se afundam,
navegam entre os pés de café, as jabuticabeiras e a beira
dos córregos verdes da infância.

Olho o avião e me vejo plantado na paisagem,
no galope do cavalo,
uma fruta na boca, outra na mão
e respingando terra úmida
– de calças curtas –
nas ruas por onde ando.

Trago na carne os perfumes da vida
que vivi, sonhei, pisei, escarrei
– a minha vida cuspida e escarrada na palma da mão
eu vos ofereço, ó príncipes, meus irmãos.

Não sou todo mundo
nem ninguém, sou
a razão da minha emoção
ao sol e à chuva,
nudez, equilíbrio, brilho do orvalho
na corola da flor ou na bosta das vacas.
A minha poesia tem a pureza de uma laranja
brilhando no alto da laranjeira
ou apodrecendo no prato esquecido no alto do armário.

Um peso na balança
na noite, no centro
do dia, o poema é um fruto sempre maduro
que apodrece, se esquecido
no alto do que for.
Eu sou a voz que fica no poema
mesmo se apodrecido,
voz perene.

Dentro
do poema, o coração
com a sua régua e esquadro. Que bela
a vida de cada dia
retalhada como a carne no açougue
– tão vulgar!
e tão doce,
tão alma.

Tenho a presença de Deus no fundo dos olhos
dormindo,
pisca-piscando como um vaga-lume
ou brilhando tanto que, por isso, não se vê.

Sou pobre
como um cisco,
a galinha no quintal,
o cachorro roendo um osso,
o mendigo como um anjo atravessado no caminho
e sou rico
como a água, o pássaro, o jumento
porque tenho a poesia na ponta da língua
e às vezes sei disso.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

600 cruzes





As crianças carregam suas cruzes
Proclamando a verdade nua e crua:
“O lugar de criança não é a rua.”
São seiscentos meninos carregando,

Às costas, cada um a sua cruz
Lembrando a todos os desocupados
Que o lugar de criança não é a rua,
Lembrando que nós somos os culpados

De as crianças não terem pai nem mãe,
De viverem catando lixo podre,
De disputarem com os urubus

A carniça da vida, as imundícies
Que o rico desbundado joga ao pobre.
Voltaremos ao pó nós todos nus.

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Escrevi este poema em abril de 2009, quando vi a mais bela manifestação de minha vida.
Em Fortaleza, praia do Meireles, Volta da Jurema, 600 meninos carregando cruzes, denunciando o abandono das crianças de rua.
Mostro somente agora o poema, como uma forma de participar da denúncia desse grave problema humano.

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ressaca



Som de bronze nenhum, o tédio tange.
No mármore e no sangue a aderência.
Mas nós que somos filhos da carência,
que oculta flor de fogo nos responde?

O besouro do olvido nos confrange.
Por que condutos fluem as ondas, onde?
A alameda febril consome a angústia
com o seu ímpeto. Nós, os insolventes,

quem somos? O ar nos modela a forma vã,
e contemplá-la é flauta. Vagas? Entoamos
o cântico do mito constelado, dementes

e mansamente lúcidos na escura e chã
(bruma, nudez) medida que geramos.
Quem somos nos exaure em ouro e astúcia.

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