sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Arte poética

Foto: Sônia Brandão


Arte poética

Receba o poema
como quem abre a porta para a luz do dia.

Às vezes a luz não vem,
mas a chuva, o vento, a noite.
São igualmente poesia.

O poema é uma árvore
carregada de frutos e pássaros.

O poema é bom quando você ouve o seu canto
sob a luz do dia
ou sob a chuva, o vento, a noite.

É preciso que haja um menino no poema
ou um velho, que é um menino outra vez.

O poema deve brincar
como um menino
e morrer, devagar, meio louco,
como um velho.

É bom um pouco de loucura no poema,
talvez muita.
São muitas as sombras da vida,
às vezes apenas os relâmpagos da loucura
podem clareá-las.

O poema deve ser fechado como a pedra
e aberto como o ventre da mulher.

O poema não é eterno:
tem a idade do homem.

É preciso,
é inexoravelmente preciso
que o homem esteja presente no poema.

Um poema se faz de palavras
e sangue do homem.

___________

10 comentários:

José Carlos Brandão disse...

Poema de 25-11-07. É bom guardar um poema por 2 ou 3 meses, para depois lê-lo com mais isenção; eu guardei este por 2 anos e pouco. É da mesma época que “A noite do emparedado” e “O fim do mundo”; este ganha força nas duas últimas estrofes, quando ganha tom religioso e se aproxima do tom de Murilo Mendes (aquele “trator do fim do mundo” lembra o “Quem vem lá montado num trator de cadáveres?” da “Ceia sinistra”, um dos melhores poemas de Murilo Mendes?), como bem notaram o Edson e a Nydia, enquanto aquele tem uma referência que pode dizer respeito só a mim mesmo (“O emparedado” é o nome do meu primeiro livro e de um de meus melhores poemas até hoje) e me fica a sensação de que o valorizo por esse dado muito pessoal; foi motivo bastante para eu excluir esses dois poemas quando organizei meu livro “O silêncio de Deus”. Se um poema precisa de justificativa, não é bom o suficiente. Não quer dizer que os despreze: guardo-os com carinho e mostro-os com orgulho (embora com um pé atrás).

Gisele Freire disse...

Hoje tudo que leio me corta, me atinge em proporção de gigante... este poema Brandão, fez meu coração se aquietar, precisava ler isto. E bastante bonito!
Abraço
Gi

Gisele Freire disse...

A foto!
Uma beleza o olhar, a luz, tudo perfeito.
Parabéns Sônia
bj
Gi

Anônimo disse...

Que lindeza!
Fiquei lendo, lendo.....
Bjs.

EDUARDO POISL disse...

"... E de novo acredito que nada do que é
importante se perde verdadeiramente
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas,
dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei,
todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

Desejo um lindo final de semana.
Abraços com carinho.

Adriana Godoy disse...

JC, um poema como esse dá alento às almas aflitas e frágeis. Lindíssimo e de uma sensibilidade e ternura ímpares. Parabéns, isso vale a pena. beijo.

BAR DO BARDO disse...

Precisei de imitá-lo. Mas prefiro a sua poética. Abraço!

Tais Luso de Carvalho disse...

'O poema deve brincar
como um menino
e morrer, devagar, meio louco,
como um velho'.

Oi, Brandão:
não sou poeta, mas observo que muitos poemas começam com a doçura dos ingênuos, vão se desenvolvendo e terminam, meio amargos e desiludidos. E isso não vemos nas crianças, e sim naquelas que já viveram o bastante para não terem mais tantas ilusões. Talvez não loucos, mas resignados. Ou alguns loucos, quem sabe?!

Gostei.
bjs tais luso

Fernando Campanella disse...

Bela profissão de fé poética, Brandão, o poema é conciso, enxuto, com boa fluência e clareza...ah, e belas imagens também. A foto da Sonia é sensacional também.
Grande abraço, meu amigo.

Marcelo Novaes disse...

Brandão,



Eis o Murilo Mendes que eu citei alhures, falando dos teus poemas. A tua leitura da arte poética é "humanizada da melhor humanidade", o que significa dizer: enxuta das juvenilidades. Há amplo espaço para o que circunda o homem, entendido, sobretudo [assim me parece], como emblemas do Divino: acenos à nossa imersão na humana condição [lampejos em meio às nossas próprias sombras]. O poema, como apresentado aqui, parece se constituir na "tentativa de resposta a este aceno". Com ou sem explicitudes religiosas, é poema religioso em sua essência.


É uma espinha dorsal de respeito, para constituir belo trabalho: tua voz, teu olhar.








Abração.