segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Imanência e transcendência na poesia do mestre Brandão


capa de O Silêncio de Deus, 2009.


IMANÊNCIA E TRANSPARÊNCIA NA POESIA DO MESTRE BRANDÃO


Prefácio de O Silêncio de Deus, de J. C. M. Brandão, por

Luiz Vitor Martinello*


A Poesia brota dos dedos de Brandão. E como disse certa vez: “palavras que são coisas, com o saber de experiência feito, com os mestres, a quem chamamos clássicos, aprendida.”

A Poesia brota dos dedos de Brandão, iluminada: “pau, pau e pedra, pedra; ou bichos, árvores, terra e sangue.” “O poeta não escreve para dizer coisa nenhuma” – afirma com convicção – “mas para fazer”. E citando Ionesco: “entregar mensagens é trabalho do carteiro.”

O poeta não escreve para dizer coisa nenhuma, mas para fazer. Para fazer-se? Ao fazer seus poemas, Brandão faz-se. E mais: faz outros poetas quando, ministrando um curso de poesia, sugeridas as palavras “olhos, água, caminho, pássaro, flor, mesa “– ele que é prestidigitador delas – escreve, ensinando o caminho das pedras, que burila como só o fazem os verdadeiros poetas:

olhos
no caminho

uma flor
na água

um pássaro
sobre a mesa

Já em sua primeira obra, O Emparedado, Brandão anunciava sua procura: “na pedra mais dura / forjar um estilo” em busca da “palavra mais pura”.

Intrometo-me em um de seus poemas, recorto-lhe alguns versos (pura heresia) a substância em minhas mãos, plena, cantiga de enamorados, numa dimensão outra, inefável, candidamente erótica, magia absoluta:

Você olhava o sol poente.
Você queimava.
Eu não olhava os seus olhos,
seria a perdição.
Eu segurava os seus seios,
queimavam.
Maçãs encarnadas
pulsando, derretendo os meus dedos.
Candelabros
iluminando a noite.

Aliás, já em Emparedado percebemos a variedade de formas de que Brandão se ocupa em seu ofício, cada poema como pedra preciosa exigindo particular artifício: redondilhas, decassílabos, alexandrinos, oitavas, sonetos, tercetos, dísticos, aliterações, e também versos brancos, rimas consoantes, toantes, e estrofes que são verdadeiros haicais:

Por breve momento:
O tempo não era o tempo:
de tão antigo.

Em seu segundo livro Exílio, dê-se registro às palavras de abertura: “Por toda a grandeza do universo, do tempo ou do amor, eu quis a mágica da ascese, um vôo secreto na febre do sangue. O poeta sonha a forma do espírito”.

Suponho, ao ler esse fragmento, que Brandão conceba dois mundos: este - o da nossa miserabilidade, um exílio desgraçado, no sentido de termos sido desprovidos da graça (não somos anjos caídos?) e o de nossa origem, qual o mundo das idéias de Platão - ao qual ansiamos por voltar. São palavras do poeta em Exílio:

Dura mão abateu-se sobre nós.
Feriu—nos, castrou-nos.
E somos pobres como o olhar de um animal acuado.

Por isso o poeta assinala:

Não durmo. Duro
na noite em que me encontro
de mim ausente.

Ou, numa variação de imagens, o mesmo:

Um piolho
Mil piolhos me roem
O cérebro. Em frangalhos
Serei eu mesmo, o que escreve
Ou o que vive o estupor?

Só a ascese nos devolverá o Paraíso perdido, só a Arte pode, desejando criar o Belo, nos dar momentos de transfiguração, de transcendência para além desse mundo de sombras e espectros. Assim, para Brandão cada poema é uma elevação da alma, sua construção funcionando como um exercício de ascese, de elevação do espírito, uma verdadeira simbiose entre o aperfeiçoamento do poema e da alma.

No livro Poemas de Amor (que tem na contracapa um poema a mim ofertado, sempre meu muito obrigado, caríssimo Zé) parece-me que Brandão tirou umas férias dessa existência sacrificial, assumindo despudoradamente o cotidiano mais prosaico, e paradoxalmente, contente dele, elevando-o à mais alta poeticidade, talvez por que, escolhido o Amor como tema, seja este o único resíduo de nossa contingente e abatida divindade a nos possibilitar algum alento de antevisão do Eterno:

O amor ordena a casa apagada,
a mesa, o fogão, a cama aconchegante,
a fogueira à beira do lago,
os nossos corpos unidos,
a nossa alma que se eleva.

Ou:

Um dia você tirou a roupa,
eu abaixei os olhos.
Você tirou o corpo, me deu.
Eu me ajoelhei.
[...]
E o espírito de Deus pairou
Sobre as águas.

Sabedor, agora, de outro caminho, o da Plenitude (“os amantes cruzam o umbral do tempo: em breve seremos eterno”s) Brandão já não mais recrimina este mundo; faz mesmo dele ante-sala, tempo de espera e com ele se compraz:

Deus pasce do alto.
A ovelha bale fora do aprisco
e volta.
O mundo é grande
e calmo cristal
onde brilha a face de Deus.

Há mesmo em seus últimos poemas (ainda inéditos em livro) uma complacência serena e sábia com este mundo em que:

As siriemas bicam o dia
na porta
da cozinha.

Essa antevisão da Plenitude aqui e agora na mais cotidiana realidade é reveladora definitiva da ascensão do poeta, já então estranho aos mortais comuns:

A luz me libertou da pedra.
Atravessei o rio subterrâneo,
atravessei o túnel escuro.
Cego de tanta luz,
eu me prostrei: Estou pronto, Senhor.
Quando me levantei,
era mais um estranho na terra.

Dessa estranheza sagrada de que é feita a alma dos grandes poetas.

_____________________________________



*Luiz Vitor é o poeta mais conhecido de Bauru, autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”.

__________________________________________


Peço desculpas aos amigos, elogio em boca própria é vitupério, mas eu não pedi ao Vitor para falar bem de mim. Já que ele escreveu, eu mostro.

O Vitor fez este ensaio há uns dois anos, mas cabe bem como prefácio de O Silêncio de Deus.

O Vitor foi generoso demais, chega a chamar-me de grande poeta, porque é meu amigo, mas também soube captar o que há por trás ou por dentro do que escrevo: a ânsia de transcendência.

Estou lançando O Silêncio de Deus pela internet, com impressão sob demanda, um tipo de edição que chegou ao Brasil somente neste ano.

Quem quiser adquirir um exemplar, basta fazer o pedido que o seu livro será impresso em São Paulo e, dentro de 5 a 10 dias, chegará pelo correio.

O grande problema da poesia é a falta de divulgação. Com este método, os livros poderão ser bem divulgados em blogs e sites.

Quem quiser conhecer mais, pode clicar no título deste texto – Imanência e Transcendência... – ou na barra à esquerda do blog.

Um grande abraço.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ipês




Os ipês estão floridos como nunca.
É inverno, mas todos os ipês gritam.
Tanta vida na claridade do dia.
Flocos de paina brincam com a brisa,

a beleza breve me veste de alegria.
Quatro garças brancas na copa das árvores,
ao longe, como a imagem da quietude.
Os ipês estão carregados de pássaros

e cálices de flores que gritam.
Um cachorro late como o meu coração.
A claridade é o nome da beleza.

Os pássaros maduros pingam mel;
o sol, como um cálice, pinga luz
do alto dos ipês que gritam como nunca.


Presença da Morte, 1991.
_________________________

Não era minha intenção mostrar textos antigos, principalmente se já publicados. Mas ninguém viu esse livro, apesar do Prêmio da Bienal Nestlé. E não resisti à tentação de comemorar a Primavera - apesar de estar chovendo, de esfriar à noite... Os ipês são mesmo árvores que florescem no inverno, antecipando a Primavera, indicando a passagem de uma estação à outra.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A estrela da noite - poemetos




A ESTRELA DA NOITE

A estrela da noite,
branca e vermelha,
sorri para a cidade.


DILÚVIO

Espero um dilúvio
para inundar a minha garganta
seca de Deus.


ALVORADA

Quebrem as garrafas!
Quero um banho de luz verde,
quero me afogar no sol.


A ESTRELA DA MANHÃ

A estrela da noite
lívida, quase sangrando,
nasceu de manhã.


ESTRELA MORTA

Perdi a noite e a vida
contemplando uma estrela
que já morreu.


TERMÓPILAS

Depois do deserto,
depois do desfiladeiro,
o mar é belo.


ECLESIASTES

Vaidade das vaidades.
O jardim das delícias
e a morte do sol.


SARÇA ARDENTE

Montanha deserta.
Pássaros caem
com o sol.


ARANHA

Vou urdir a teia
em sua trama dourada.
Sou aranha-enigma.


CRIAÇÃO

Pensei uma rosa
no deserto escuro.
Floriu na minha mão.


ALIANÇA

Não comerei rosas,
não beberei vinho
no rio eterno.


BOSQUE

Na trilha do bosque
abraço o velho pinheiro,
que me abraça.

_________________

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A iluminação dos poeminhas caindo na ampulheta




AMPULHETA

A areia na ampulheta não para.
Cada vez mais vazia
a praia.


ÁRVORES

a areia leve
o mar desenha árvores
passarinhos voam


SABEDORIA

Agora já não tem pressa.
Agora está com a boca
coberta de terra.


ESCURO

a areia cai no escuro
ninguém vê o tempo
ninguém vê o mar


O SAL DA PAISAGEM

As ondas do mar
e a música do silêncio
na areia da praia.


GRITO

Os olhos das crianças
assassinadas na rua.
Um grito de vidro.


ÓRFÃS

as crianças uivam
estranguladas
para uma estrela


CEIFA

A língua canta
os olhos no espinheiro
como flores do abismo.


PAISAGEM URBANA

cidade arrasada
trapos sangrentos
cadáveres de ninguém


PÉROLAS

pérolas nos olhos
asas loucas do mistério
vêm e vão na brisa


O GIRASSOL

Por que gira o girassol?
A terra gira porque o girassol gira,
o sol gira nas hastes do girassol,
o universo inteiro gira porque o girassol gira.


SUCATA

Uma rosa sangra.
Poesia na sucata
apesar da dor.


DOMINGO PEDE CACHIMBO

Há domingos tão belos que até os cachimbos florescem.


PUREZA

Chovia na vidraça e nos meus olhos.
A minha face estava pura como um coração.
Os pássaros de Deus semeavam margaridinhas na minha língua.


O TRIGAL DE VAN GOGH

Os grãos de ouro explodem.
Vincent corta a orelha, fura os olhos
em êxtase com tanta cor.

______________

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O êxtase da poesia


Santa Teresa d'Ávila, de Bernini

Escrevi num poema (Poética Essencial, 2008) que eu “Escrevo para entrar em êxtase. / Escrevo para ver Deus.” Muita pretensão? Ninguém diria isso se São João da Cruz ou Santa Teresa de Jesus, grandes poetas, além de santos, tivessem escrito esses versos. Santa Teresa dizia que se policiava para não entrar em êxtase, que, por qualquer descuido, sentia-se transportada, pela força da oração, para fora da realidade. E São João da Cruz era o enorme poeta da Mística, que cantou as núpcias da alma com Deus.

Todavia não é outro o poder da poesia, a sua função é, em primeiro lugar, encantar, não pelo encanto em si, mas para, pelo encantamento, iluminar, extasiar, levar-nos a transcender a nossa pobre realidade. Não usei o verbo “extasiar”? Um verbo que usamos comumente para dizer que estamos encantados, iluminados, extasiados pela poesia. Extasiados, isto é, em êxtase.

A função da poesia é fazer-nos entrar em êxtase. É levar-nos a atingir a transcendência. O que é o Transcendente, em última instância? Deus. Por isso escrevi o nome Transcendente com maiúscula, porque estava escrevendo o nome de Deus. Por isso registrei que “Escrevo poesia para ver Deus.” É a pura e simples verdade. Ver Deus pode não ser tão extraordinário.

Li e reli várias vezes o capítulo “Êxtase em Óstia”, das “Confissões” de Santo Agostinho. Queria ver o que haveria de extraordinário nesse “Êxtase”. Santo Agostinho elevando-se do chão em companhia de sua mãe Santa Mônica, inebriados do amor de Deus, como se já não pertencessem a este mundo vil? Sem peso, etéreos, duas almas, dois corpos gloriosos, triunfantes, libertos das contingências da carne? Nada disso se via, nada de fora do normal estava acontecendo, nada do que achamos que é fora do normal. Apenas a mãe e o filho recém-convertido contemplavam a natureza de Deus.

Agostinho e sua mãe contemplavam a natureza, a beleza da paisagem, a criação maravilhosa de Deus. Não eram mais do que duas pessoas comuns olhando a natureza, encantadas, extasiadas com a poesia que viam no jardim e além, até o mais distante que poderiam imaginar. E esse mais distante que poderiam imaginar estava próximo, estava ali ao lado deles, mais do que isso, estava dentro deles. Compreenderam que o Criador, esse Ser tão distante, completamente inconcebível, estava ali junto deles, dentro deles.

Escrevi sem querer, mas acertando, que Agostinho e Mônica contemplavam a natureza de Deus. Eu me referia à beleza da paisagem que olhavam, que os rodeava. De fato o que Agostinho nos conta no seu “Êxtase em Óstia” é que ele e a mãe viram Deus. Não viram a natureza verde do jardim ou o infinito dos espaços azuis a se perder de vista, mas viram a natureza de Deus. Agostinho, quando escrevia, era poeta – e contou, com a mágica das palavras, como viram Deus.

Concordo que é muita pretensão, ver Deus. Mas qualquer conhecedor de poesia sabe que a sua função é transcender a realidade, é ver o invisível, é iluminar a noite escura da alma. A função da poesia é dar a ver Deus.

Não é preciso ser santo para ver Deus. É preciso ser poeta.

______________________________

sábado, 12 de setembro de 2009

Sinfonia




Ela veio com os lábios abertos, o coração
com muita sede: os morangos eram vermelhos
de urgência, o sangue derramado do pássaro na mão.
Nós nos amamos sem a palha das palavras:

queimavam os corpos largados, a polpa explodia
dentro do espelho. Nós éramos amantes na praia
da meia-noite: o motor de popa, as hélices, a lâmina
do amor girava, cortava em fatias o desejo.

Ela se foi com os girassóis da madrugada,
pisando a terra vermelha das plantações,
a memória de quando éramos outros e ninguém.

Ela se foi para as águas e as colinas do cristal alado.
Na minha língua vai florindo a flor da loucura.
Com o mel do mito componho a sinfonia do absoluto.

___________________

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A ponte impossível - pintando o sete




A PONTE

Sei que a poesia
é uma ponte impossível
com a luz à frente.


MATINADA

A casa quieta
acorda com os pássaros
à beira do lago.


LAVRA

Lavro a palavra,
planto a imagem,
germina o poema.


TÃO PURINHO

Pinto o paraíso
na porta da minha casa:
a cobra e a maçã.


ANTIPREGÃO

Não faço um poema
para vender na feira.


PREGÃO

Faço o meu poema
para encantar
a gaiola e o pássaro.


CANGA

Com a canga no pescoço
o homem mói a cana e o tempo
sob o céu azul.


ERGO SUM

Penso com imagens
fora do lugar.
Sou poeta.


CAVE CANEM

Nas Ilhas Canárias
os cachorros voam
e cantam nas árvores.


NO MEIO DO CAMINHO

Tinha uma pedra na mão.
Jurava que era um pássaro,
mas voou.


COGITUR

Borges, Homero e Milton eram cegos.
Logo, para ser poeta
é preciso ser cego.


POENINHO

Faço o meu poeminho
para o meu passarinho
no ninho.


CAVE POETAM

Na Casa do Poeta
em Pompeia, a inscrição:
CUIDADO COM O CÃO.


QUOD SCRIPSI, SCRIPSI

O que escrevi, escrevi.
Depois corrijo, emendo, rasgo e queimo.
– Se alguém mais fizer isso, leva uma patada.


MAIS UM

De gênio, poeta e louco
todo mundo tem um pouco,
muito pouco.
______________________

Brincadeirinhas. Em frente à Casa do Poeta Trágico, na Pompeia destruída pelo Vesúvio, lia-se numa tabuleta: CAVE CANEM, cuidado com o cão.
Nas Ilhas Canárias, que têm esse nome não por seus belos pássaros, mas por suas matilhas de cães selvagens, foi brincadeirinha.
Mas não posso deixar de lembrar a frase de Elias Canetti: “O poeta é o cão do nosso tempo”. Então, não é só brincadeirinha.
Adorno se perguntava se a poesia ainda seria possível depois de Auschwitz. Pois é quando é mais necessária. Porque a função da poesia não é enfeitar, mas iluminar. “O poeta é o cão do nosso tempo. “
A poesia é um jogo, mas não inocente, nunca se joga impunemente.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Lenda de São Julião Hospitaleiro, segundo Flaubert




1

Julião ouve a maldição do veado:
“Matarás o teu pai e a tua mãe.”
E toda uma vida carregou
essas palavras nos ouvidos loucos.

Foi o guerreiro vil do desespero,
matou por reis e príncipes e damas.
Premiado com a mão de uma donzela,
vive feliz sem mais caçar, jamais.

Mas ele vai caçar, e é perseguido
pelos animais, pela maldição.
Volta nas mãos da angústia para casa

e mata em sua cama o homem deitado
com a sua mulher, sem saber que eram
o seu pai e a sua mãe – e a maldição.


2

Julião atravessa os viajantes
no seu precário barco, sobre o rio
terrível, por qualquer côdea de pão.
Cumpre a pena do seu pecado infame.

Um dia ouve o chamado entre as ondas,
era um leproso sob as trevas frias.
Julião leva o homem para o outro lado,
dá-lhe comida, dá-lhe de beber,

aquece-o com seu corpo, na sua cama.
Encosta bem o corpo ao corpo nu
para esquentá-lo – é tão gelado o pobre!

O pobre que abraçou, com as estrelas
nos olhos, a Julião extasiado
era Jesus que o arrebatava aos céus.

______________________

Isto é apenas um exercício, e um convite aos meus queridos leitores: releiam o conto São Julião Hospitaleiro, de Flaubert. Agora que relembraram a história, vejam o trabalho de linguagem de Flaubert - comprovando, agora e sempre: literatura é linguagem.

domingo, 6 de setembro de 2009

o haicai ensina que a beleza não morre



a coroa de gladíolos
em volta do chafariz
muros de musgo caem
___________

o mar era azul
nós dançávamos na chuva
árvores ventavam
________

o lagarto de vidro
como uma cobra verde
desliza na água
__________

cicio da ramagem
murmúrio da fonte
sossego noturno
____________

nesse momento
ouvindo a noite
sou eu o mundo
_________

no tronco da árvore
o ninho pequeno
quatro bocas aflitas
___________

a clara paisagem
na moldura da janela
canta um bem-te-vi
_____________

entre o musgo verde
o lírio roxo se inclina
para a água gelada
_________________

o sol poente
tece as nuvens
com sangue
__________

a beleza
flor da morte
não morre
________

as flores de limão
as abelhas zuniam
perfume doce
_______

nascemos doendo
a angústia escura
a luz cega
__________

coroada de sol
a nuvem iluminada
orlada de ouro
___________

mais luz mais luz
a miséria não tem fim
vejo Deus no azul
_________

carda e fia
doba e tece
e morre
__________

a beleza dói
como a sombra de Deus
sobre o universo
_______

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

a nudez de algumas piscadelas parecidas com haicais



NUDEZ

Nasci nu de espanto
com o mistério da vida.
Mais nu morrerei.
__________

o quero-quero
diante da água correndo
bebe o verde
_____________

A água pisca para o sol
ou o sol para a água?
___________

que claro mar
tantas gaivotas
seu grito branco

_________

a lua caiu
no fundo do mar
em silêncio
______________

o orvalho
doce nos olhos
memória
_____________

uma flor
no focinho do porco
infância
_________

tirei o espinho
da perna do cachorro
choramos
______________

tinha o silêncio
na palma da mão
brilhava
________

deitou-se na cama
como no fundo da cova
à espera
_________

o morto sorria
como se não soubesse
_______

a borboleta beija
as pedras da rua
como beija a flor
___________

um pássaro azul
canta na beira da estrada
vai morrer
____________

a flor do ipê
é um cálice
de cor e luz
_________

as abelhas
giravam loucas
sobre o girassol
_________

a aranha tece a teia
da árvore até a água
numa réstia de sol
_____________

num canto da calçada
na noite morta
a pombinha dorme
________________

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Epifanias do exílio – a Miroslav B. Dušanić



EXÍLIO

O cheiro de cipreste
lembra o esquecimento.

Vem do Norte
o frio da aflição.

As canções das laranjeiras floridas
viajam nas asas das andorinhas.

____________________

SALMO

Logo será meu tempo:
o que eu tenho de céu
brilhará
sob as raízes das árvores.

_________________

ELEGIA

O leve chuvisco das minhas lágrimas
molha a terra com doçura.
Aumenta a minha dor.

__________

ESTRANGEIRO

Todos me olhavam como um estranho.
Ninguém entendia a minha língua,
nem a minha angústia.

_________

AUTO-DE-FÉ

Pus as minhas asas para secar ao sol.
Queimaram.

Restou apenas um punhado de cinza
sob o céu de vidro.

_________

ENFORCADO

Enforcado no teto da minha casa,
conheço quanto é longa a morte.

______________________

EPIFANIA

Proibido comer estes poemas.
Proibido beber.

São de algum pássaro louco,
são do fogo.

Você poderá, talvez,
ouvi-los uma vez
e depois morrer.

Poderá, enfim, vê-los queimando no fogo
na mesma fogueira
em que você estará se queimando.

__________

MEMÓRIA BRANCA

Uma faca cravada na parede.

______________

O primeiro destes poemetos foi comentário a um poema de Miroslav B. Dušanić - http://miroslavdusaniclyrik.blogspot.com/ -
e me sugeriu os outros.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

a roda d'água a roda da vida




INTIMIDADE

Entro no espelho
despido.


FARDO

Levo em cada ombro
D. Quixote e Sancho Pança.


CIPRESTES

Caminho ao longo
da alameda de ciprestes
com a morte no bolso.


PAZ

A rosa no altar
e a luz de uma pomba
sobre a pedra sagrada.


O MAESTRO

O velho carvalho
agita os ramos e acorda
o canto dos pássaros.


VÊNUS

Um busto de gesso
no jardim noturno
com o luar nos seios.


ESPELHO

Nas águas do lago
entre o verde das árvores
o universo refletido.


CLARIDADE

Tinha uma gota de orvalho
e uma orquídea nos olhos.


QUASE

No escuro da pedra
o silêncio de Deus.
Quase entrei em êxtase.


BUSCA

O menino perdido
estava agachado dentro
do pé de ameixas pretas.


A RODA D’ÁGUA

Ao sol de setembro
canta a roda d’água
a música da vida.

____________

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

a iluminação no jardim da tarde - poeminhos com sol, suor, sede e sangue



BRISA

A brisa leve
faz cair as pétalas
das flores de cereja.


SEDE

As uvas estão maduras.
Como é grande a sede
do menino ao sol.


VÔO

A árvore enfuna as velas,
no espaço, com as estrelas.


CINZA

As nuvens cinzentas.
O crepúsculo me espera
sob as árvores secas.


DISTÂNCIA

O horizonte ao longe.
É pesado este caminho
que ninguém percorre.


MARTELO

Na forja da tarde
o martelo da araponga.
Uma laranja cai.


SANGUE

Pitanga vermelha
como uma gota de sangue.
Tenho o sol nos olhos.


PÔR-DO-SOL

A lagarta numa pétala
da rosa no galho.


ALTURA

O sol ilumina
a estrada na montanha.
Caminho com orgulho.


FIGO

A menina na cerca.
O sanhaço azul
bica o figo maduro.


ACIDENTE NATURAL

A lagarta caiu da árvore.
Me manchou de verde
o peito vermelho.


CÁLICES

Cálices de flores
gritam no alto dos ipês.
Pássaros pingam mel.


DESCOBERTA DA DOR

A goiaba vermelha.
Queima o braço do menino
uma lagarta de fogo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

poeminhos para Aníbal Beça, que nos deixou hoje de manhã



deitado sob a árvore
o prisma das folhas
me entrega o universo

o tronco é grave
como o meu avô
dormindo a sua morte

quanto resplendor
o pássaro me traz o sol
nas asas, no canto

tenho estrelas nos olhos
minha estrada é larga
no horizonte de ouro

O silêncio e o pássaro.
O pássaro ia e voltava.
O silêncio, redondo.

A cor dos açafrões.
Giram no vento as folhas
e o grito dos pavões.

Estamos no outono.
O universo se concentra
numa folha seca.

O olhar se quebra.
Estrelas doidas
sobre o caos.

A madeira estrala.
A noite, como um morcego,
pende do telhado.

O raio partiu a árvore ao meio.
Foi como se o universo
tivesse desabado.

O luar penetra
na minha casa quieta.
Os lençóis são brancos.

A maçã repousa na mesa.
Nela pulsa a memória
da macieira.

É leve o meu caminho.
O perfume de uma árvore
me agasalha.

domingo, 23 de agosto de 2009

Nenpuku Sato, poeta visceralmente brasileiro

Dizer “visceralmente” parece exagerado, mas não sou eu quem o diz. Nenpuku Sato traz as vísceras no nome. Chamava-se Kenjiro, e adotou o nome literário Nenpuku – em que “nen” significa “sentir”, e “puku”, “vísceras”: “sentir com as vísceras”.

Chegou ao Brasil em 1927, incumbido por seu mestre Kyoshi de ensinar o haiku aos imigrantes.

Kyoshi era herdeiro de Shiki, o sucessor de Bashô, Buson e Issa. Shiki é responsável pela modernização do haiku, respeitando-lhe a tradição. Contra o que havia de zen em Bashô, aprovando a aproximação com a pintura em Buson, queria um haiku eminentemente literário.

Era essa a lição de Nenpuku: a simplicidade, sem nenhum pedantismo, a pintura com as palavras. Mantendo os princípios técnicos do haiku: um mínimo de 17 sons (pés ou sílabas, para nós) e o kigô, a notação sazonal.

Aí começa a dificuldade. A nossa natureza é diferente da japonesa. Quase não se percebem as estações do ano. Mas quanto mais Nenpuku se integra com a nossa terra, mais a conhece e a torna sua.

Não se pode dizer até que ponto a nossa terra se tornou a terra de Nenpuku, até que ponto ele se tornou brasileiro, mas é certo que sentiu a natureza do Brasil como sua.

Um dos seus mais belos haikus é o da via-látea:



Na trascrição fonética: “Happo ni nagaruru hoshi ya ama no gawa”

Se “ama no gawa” significa “via-látea”, e o poeta queria comparar a “via-látea” a um rio de estrelas, parece-me que uma tradução fiel ao espírito da letra seria esta:

a via-látea
é um rio de estrelas
fluindo suave

Um poema essencialmente poesia.

Outro poema que me chamou a atenção é o da flor do café dominando a cor da paisagem:



“nagare kuru kohii no hana ni sosogi keri”

Que seria mais ou menos:

a flor do café
no rio a roupa lavada
flutua mais branca

Ou então, quando o poeta levanta os seus olhos para o cafezal:



“kohii no haha akari yori ideshi tsuki”

que eu poderia interpretar como:

a lua se inclina
na brancura perfumada
do café em flor

E me lembro dos meus tempos de criança...

Eu sempre tive um certo constrangimento em chamar de haiku ou haikai certos poeminhas meus. Eu não tenho a mentalidade oriental. Sou incapaz de sentir como um japonês. A minha sensibilidade tem uma longa retaguarda greco-latina, ocidental, cristã. Posso fazer poemetos epigramáticos, um pensamento animando um elemento da natureza, as palavras dando forma a uma concepção de mundo milenar, oposta de outra milenar concepção de mundo, vinda do oriente, do Japão.

Mas no fundo estava a terra. No fundo, a mesma dificuldade de Nenpuku Sato. Como sentir a terra do Brasil? Nenpuku abrasileirou-se. Era um lavrador trabalhando a terra, com o seu suor, que a tornou sua.

Por que os haikus do café me chamaram particularmente a atenção? Eu fui criado numa fazenda de café. Eis tudo. Usei e abusei na minha poesia do sintagma “verde e vermelho”. Num poema dedicado a Mário de Andrade, deixei escapar um “verde e vermelho”, e um amigo (cheio de boas intenções) viu no “vermelho” uma alusão ao comunismo de Mário (que não era comunista). Só faltou ver no “verde” qualquer absurda alusão ao integralismo de não sei quem. O verde e vermelho que colore a minha poesia é a cor da minha terra – interior de São Paulo, terra vermelha – e o verde da natureza, dos cafezais da minha infância.

Faltou falar no branco dos cafeeiros, de que Nenpuku Sato, um japonês, vem me lembrar. As flores brancas e perfumadas dos cafeeiros. Aquele verde e vermelho do café nos pés de café, e depois nos terreiros de café brilhando ao sol, e o branco perfumado das suas flores, eram a maior maravilha do mundo. A minha memória afetiva vibra com mil sensações.

Esse verde e vermelho, e esse perfume branco, não caberiam num haiku?

Nenpuku Sato não foi receber a comenda que o imperador do Japão lhe ofereceu. Talvez porque estava muito longe e velho, já fora do Japão há mais de 50 anos. Talvez porque se sentisse brasileiro. Os japoneses que para cá vieram, seus filhos e netos, já eram brasileiros. Talvez visceralmente brasileiros. Não usamos essa expressão, “visceralmente”, para dizermos profundamente, com todo o corpo, alma e espírito, integralmente? Nenpuku escolheu-a quando escolheu seu nome, de poeta até às vísceras.

Dia 22 de outubro fará vinte anos que Nenpuku Sato faleceu, em Bauru, no Brasil, deixando aqui as suas raízes brasileiras.

____________________________________

Texto-base: Trilha forrada de folhas - Nenpuku Sato / Um mestre de Haikai no Brasil, Maurício Arruda Mendonça, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O estranho matou os pássaros



O estranho matou os pássaros com um martelo.
Eu o tranquei no fundo calabouço.
Estava vestido de penas, nuvens e espumas,
Sonhava no seu leito de pregos com o paraíso.

Os mortos sabem as palavras cifradas,
A chave rolou para o fundo do poço.
O estranho se dizia possuído dos dons do espírito,
Mas trazia a morte na ponta dos dedos

E o seu sopro era seco como o pó dos sepulcros.
O céu veio abaixo, arrebentou o seu peito.
Restam as cinzas dos delírios sobre as pedras,
Mas a sua visão ainda incendeia as estrelas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

mundo haiku



Entre os verdes caniços
o arco-íris sorri.

Saltita no fio
o passarinho vermelho
rindo de mim.

A gota de orvalho
no cálice róseo
da flor do ipê.

À beira da estrada
é mais bela a paisagem.

Tinha uma pedra na mão,
voaram dois pássaros
da alma.

O gato preto sonolento
ronrona como um besouro.

O tiê-sangue
respinga sangue
nos meus olhos.

A imagem do pássaro
voa como o pássaro.

A flor do ipê
é um cálice de luz
na manhã.

A flor-cálice de luz
do ipê
multiplicada.

O gato me olhou
com os olhos verdes
como a paisagem.

O canto do pássaro
inventa o pássaro.

O pássaro é o coração
da árvore.

O poema é natural.
A árvore, sobrenatural.



________________________________

A foto do arco-íris é minha.
A do tiê-sangue, no voo, mágica, é da Sônia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

algum haiku



A libélula beija a água
com os dois olhos abertos.

Descanso na clareira.
O esquilo de cauda no ar
voa na floresta.

À beira da estrada
o homem parado
é paisagem.

O sol pesa no céu.
Uma estrela de fogo
na cabeça da serpente.

A gaivota beija o mar
inventa um peixe no bico
brilho de sal e sol.

Uma estrela cai no banhado
as rãs coaxam
os juncos tremem no escuro.

Os meninos e as abelhas
sonham o mel
das pitangueiras vermelhas.

O grito do quero-quero
desperta o banhado.
O capim cintila em festa.

A lua sobre a mesa
e as estrelas no chão
da casa na floresta.

O monte de lenha.
Um grilo no escuro
tece redes de estrelas.

Flores de água brilham
na superfície do lago.
Tudo é calmo e limpo.

Olhar uma árvore
é multiplicar o olhar.

sábado, 8 de agosto de 2009

para o dia dos pais




OS GALOS

O galo debulha a espiga da manhã.
Seu grito trepa as árvores,
o chifre das vacas, as esporas do meu pai.
O velho calça as polainas, amola a faca na pedra negra,

enfia na bainha, na cinta.
Bate o isqueiro de pederneira, acende o cigarro
e monta com um grito na garganta.
Como um galo.

Meu pai e o galo debulham o milho da manhã.
O dia trepa no terreiro,
na invernada,
com o gado mugindo,

soberbo,
único,
para os galos.


JACARANDÁ

Nesta colina está enterrado meu pai:
Emudeceu à sombra de um jacarandá.
Sua voz estrondava, dominava o mundo.
Apagou-se na fumaça do entardecer.

Que noite podre se abaixou sobre nós
Quando se foi o dono da terra, o senhor.
O pasto, a roça, o mato, os bichos existiam
Na sua voz, que é cinza escura dormindo.

Nós todos existíamos na sua voz.
Perdemos a noção de ser no mundo:
Estar, simplesmente, como os bichos estão.

Um homem existe plantado na terra
Ou é nada. Nós sabemos, mas essa verdade
Emudeceu à sombra do jacarandá.

_______________________

Foto de Trevor Hart - Flickr

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ai, cai - para o alto



A areia da praia.
O menino exibe ao sol
um peixe de luz.

A lua entre as pedras
faz cair da montanha
uma avalanche.

Um beija-flor azul
mergulha de repente
por meus olhos a dentro.

Um pássaro num sino
na alta montanha
tange as nuvens.

A pétala na água.
A aranha desce da árvore
na réstia do sol.

A flor negra na parede
da casa branca na praia.
Uma gaivota morta.

Os cravos rosados
na água brilhante de um jarro.
O dia claro é simples.

Venha beijar comigo
o orvalho dos nenúfares.
Do alto a baitaca abençoa.

Bebe de meus lábios,
na clara luz da manhã,
o êxtase do olhar.

Entre as folhas verdes
o canto do pássaro
inventa o pássaro.

Saboreio a amora roxa.
Todo se acabaria
se eu não cantasse.

Um pássaro de ouro
canta na palmeira.
Queimam as penas ao sol.

Delírio.
O lago reflete
o incêndio de um lírio.

As cerejeiras em flor.
Contemplo encantado
uma abelha.

_____________________

A ilustração é o projeto do cartaz para a exposição
do aniversário dos 10 anos do grupo Expressão Poética, no Centro de Cultura de Bauru. Por isso o nº 10 ano centro da paisagem.
E apenas alguns haicais.