segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Os fantasmas da memória












Os troncos cortados no chão do bosque

São como os homens degolados nas esquinas da cidade.


Não sangram mais, secam, apodrecem.

A terra negra de carvão, as cinzas ao vento.


Uma árvore em forma de cruz abre os braços

E resiste: queima ainda, se consumindo em solidão.


Um pássaro morto num galho caído,

O canto parado no ar, como se ainda cantasse.


Um ou outro tição brilha indeciso

Numa poça d’água, ao desamparo.


Uma estrela se espelha nessa poça

E agoniza, com a dor multiplicada.


Uma flor cresce na fuligem das ruínas

Com o medo cinza corroendo as pétalas diáfanas.


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A de Alfabeto ou O Disléxico

Escrevi num poema em prosa que saí analfabeto da escolinha de sítio da minha infância. Talvez por isso a minha irmã pensa que eu culpo a minha primeira professora, que se chama Conceição, tem seus oitenta e poucos anos de idade e está com Alzheimer. Não, minha boa irmã, eu não culpo a coitada da Dona Conceição. Eu é que era um burrinho muito xucro, que empacava e não ia para frente de jeito nenhum.

Deve ser uma das mais antigas recordações da minha infância (não fui um menino prodígio que, adulto, lembra-se de cenas de quando era um pirralho de uns dois anos apenas) a Dona Conceição me admoestando, rigorosa: “A sua mãe se mata de trabalhar e você não faz nada, nada!” Sou capaz de jurar que foram essas palavras, exatamente, e que eu me surpreendi: nunca imaginara que a minha mãe se matava de trabalhar (a Dona Conceição se hospedava em nossa casa, devia saber) e fazia o que os outros meninos da escolinha faziam – mas não aprendia nada.

Também o amor dos pais é cego. O meu pai, a minha mãe, os meus irmãos achavam que eu era muito inteligente. Talvez fosse. Mas tinha ao mesmo tempo uma admirável incapacidade para aprender.

Aos nove anos de idade, mudamos para Igaraçu do Tietê, uma cidadezinha pobre e ignorante. Resultado: tomei bomba na terceira série do Primário. Eu era mais ignorante do que os pobres meninos de Igaraçu do Tietê.

Ainda com onze anos, naturalmente sem saber o que fazia, decidi que iria ser padre. Entrei no seminário, em Jaú, onde estudei um ano de Admissão e dois de Ginásio. Nesses três anos, eu era o último da classe. Os padres e os meus colegas olhavam-me de esguelha: “Como pode ser tão inútil!”

Somente aos quinze anos, no terceiro ginasial, consegui aprender a ler. Conheci um rapaz que tinha o apelido de Seisano – porque ficara seis anos no primeiro ano do Primário. Eu deveria ter ficado oito.

De tanto passar vergonha, sem ninguém que me orientasse – a única orientação era o desprezo –, pus-me desesperadamente a fazer todo tipo de exercícios de dicção, decorando textos e repetindo-os ad infinitum. Tornei-me um dos melhores alunos.

Concluí depois que eu era disléxico; não sei se o meu diagnóstico teria fundamento, mas até hoje troco a posição das letras numa palavra ou dos algarismos num número, o que, então, dificultava o meu aprendizado. Superada essa dificuldade inicial, passei a aprender com facilidade – dizem que o disléxico é muito inteligente.

Dizem que o disléxico pensa por imagens – tornei-me poeta.

Escrevi num poema: “Essência do ritmo e forma do mundo, a imagem é o real do poema.” E mais à frente: “o poema é imagem de uma imagem.” Para concluir: “o poema é a metáfora do universo.” Ainda acredito que acertei em cheio. Coisas de disléxico.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Conhecimento da noite














Vou conhecendo a noite aos poucos.

Quando a pisar com os meus pés,


Quando não precisar dos dedos

Para tatear os móveis no escuro,


Quando as palavras se quebrarem

Porque não há mais nada a dizer


E a beleza perdeu a forma,

Quando ouvir o cavalo do mistério


E medir a paisagem do eterno

Com o pássaro de Deus no espelho


E a rosa exata nos lábios,

Como temer a pedra do sono


E o abismo das estrelas?

A música ainda soa no silêncio.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O afogado


Quem escreve um poema salva um afogado, disse Mário Quintana. Salva em primeiro lugar o próprio poeta, completa Affonso Romano de Sant’Anna. Eu primeiro lembrei-me do meu poema “O Afogado”. Tornou-se um tema recorrente em minha poesia, o afogado. Ou algum elemento que o lembre. A gaivota e seu grito desesperado sobre a pedra do mar, onde sangra. Essa gaivota compareceu em três poemas meus quando escrevia “O Emparedado”, o meu primeiro livro.


Depois, não sei por que, lembrei-me do poema “Quintana’s Bar”, de Drummond. Algum afogado no poema? Abro a “Poesia Reunida” de Drummond, encontro o “Quintana’s Bar”, leio-o e não encontro nenhum afogado, nem gaivota ao menos. E eu que imaginava um aquário, e o poeta dentro, entre seres marinhos, fantástico, irreal. Mas olho bem e encontro uma estrela-do-mar e a gruta camoniana. Lembro-me de Camões salvando-se do afogamento, nadando com uma das mãos e com a outra carregando “Os Lusíadas”. Dinamene, coitada, é a afogada da história.


No fim do poema, viaja o poeta Mário Quintana. O destino do poeta é viajar. Mesmo que seja um poeta racionalista como João Cabral – diplomata, viajou à Espanha e mesmo ao Senegal de Leopold Sedar Sanghor. Mas fez a sua viagem, também, dentro do poema. Viajou nas imagens que criou muito racionalmente, as ondas do canavial que se tornaram ondas do mar, as lindas cabras de tão agrestes ou o ovo sem metafísica. O destino do poeta é viajar. O poema é uma “L’Invitation au Voyage” de Baudelaire. É mais que um convite ao sonho, é, na concretude das suas imagens, um apelo a superar o real, ir além, entrar numa outra realidade.



“O afogado mais belo do mundo” é um conto de Gabriel García Márquez. Não sei se foi esse conto que me levou a viajar com o meu afogado, criando-o, ou se foi T. S. Eliot. Confesso minhas fontes. Originalidade não existe. Talvez a minha fonte seja “A gaivota” de Tchekof, mas eu nem a havia lido quando uma gaivota começou a gritar e a agonizar nos meus poemas. Mal? Bem. A leitura nem é necessária, basta um nome, uma imagem, uma evocação – e começa a viagem. O afogado? Estou salvo.

sábado, 9 de agosto de 2008

A respiração de Deus

Sinto a respiração de Deus na pedra,

Na árvore da aurora.


Estou coberto de água,

No vale dos caminhos sem retorno.


Quem sou? Quem é o poeta?

Sou o espanto do homem plantado na terra.


Sou a raiz do sonho sufocado.

Farejo como um cão o lodo do abismo.


Sou real? Alguém me sonha?

Existo como as coisas, no caos?


Entrei no mar com a minha rede de pescador.

A realidade do peixe tem um peso eterno.


Mas que importa que eu me vá? Que importa que continue?

Somente furando os olhos posso ver Deus.


Os soterrados

Esperamos por nada. Logo estaremos todos mortos,

Sob a terra, no túmulo do esquecimento.


Alguns de nós são ainda crianças.

É cedo para morrer.


Com fome e sede, sem ar,

Sujos de terra, a boca, os olhos cheios de terra.


Por que nos abandonaram?

Quanto vale a vida de um homem?


Mais hora, menos hora, estarei morto

E ninguém ficará sabendo.


Ninguém se importará

Quando eu me for para sempre.


Estou de partida. Não olho para trás.

O homem nasce com o eterno na ponta dos dedos.


O mar em mim

O mar está todo em mim

Com as suas feridas abertas em minha fronte.


Suas ondas vão e vêm nos meus olhos,

Beijam-se nas praias do eterno.


A solidão do mar nos meus olhos,

Brilhando nos rochedos com o sal e o sol.


A rosa de tuas pegadas na areia

Rumo ao horizonte infinito.


Onde a minha, a tua essência?

Nos sargaços, na púrpura do fundo do mar.


Uma estrela caiu na montanha,

Aponta o abismo do céu e da terra.


Atira a pedra do esquecimento, me diz,

E dorme à espera do clarão da aurora.



Poesia mínima


Estava a ler – a ler, porque estava lendo uma poetisa portuguesa, Adília Lopes, a poetisa que reabilitou o termo poetisa, desacreditado por ter cara de meloso, próprio de mulherzinhas choronas, subjetivo ao extremo. Observo que Adília Lopes não é individualista, mas criadora de linguagem, embora eu não aprecie sobremaneira a sua poesia – individualista é o cara centrado no Eu, assim com maiúsculas, só sabe falar do seu pobre mundo particular. Adília é criadora substantiva, trata o poema como um objeto de arte, e o manuseia com a linguagem. Posso não gostar desse manuseio, mas reconheço de longe o poeta – ou poetisa! – que trabalha a linguagem e não apenas a usa para desabafar seu drama pessoal.

Bom. Estava a ler uma crônica de Adília Lopes e a vi dar uma definição intrigante de poesia, em sua simplicidade: “Fazer poesia tem a ver com a necessidade imperiosa de "transferir" "para o mundo do poema limpo e rigoroso" "o quadro o muro a brisa/ A flor o copo o brilho da madeira" (cito versos do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen intitulado "No poema" de "Livro Sexto")”. Anotei a expressão “para o mundo do poema limpo e rigoroso”, com uma aprovação muda: é o que eu quero do poema, que seja “limpo e rigoroso”.

Mas logo fui levado aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen “o quadro o muro a brisa/ A flor o copo o brilho da madeira”, exatos, sem excessos, “limpos e rigorosos”, mas eu estava é pensando nos meus versos de uma oficina de poesia há alguns anos, muito semelhantes: “Os olhos / na água // no caminho / um pássaro // uma flor / sobre a mesa”, intitulado “Paisagem”, que foi escrito na hora, na lousa, como demonstração aos meus discípulos. Por um feliz acaso – mas existem acasos? – saiu-me o poema “limpo e rigoroso”, como por um passe de mágica, ao manusear as palavras que os meus oficineiros me forneceram. Tal feliz acaso – acabo acreditando que existem acasos – que apenas dispus as palavras uma à frente da outra e tive tão bom resultado.

Para provar a mim mesmo o feliz acaso dessas palavras, já ordenadas, à espera de que eu chamasse àquela ordem de poema, quis dispô-las em outra ordem, não as palavras uma à frente da outra, mas verticalmente – e não é que tive outro feliz resultado? Outro feliz poema – porque existem poemas felizes, e este é mais um: “Os olhos / no caminho // uma flor / na água // um pássaro / sobre a mesa.” Perfeito, não? Exato.

Desculpem a falta de modéstia, mas gostei me descobrir autor de um grande poema mínimo, perdido em meus achados. Nem coube, não houve espaço, mas vou estender esse espaço para mais uma citação: "casem-se os poetas com a respiração do mundo". É ainda Adília Lopes comentando a criação poética. É uma resposta a uma pergunta curiosa: Com quem deve casar a poetisa? Adília, poetisa sem cadeado na língua, responde e completa a idéia: “E eu vou ser mesmo moralista e vou dizer: acho que toda a gente devia ter o propósito de casar com a respiração do mundo. Ou, porque não?, com a respiração de Deus. A poesia é uma questão de fidelidade a esse casamento.” Não preciso dizer mais nada. Falou bem, exato, a poetisa.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Em face dos últimos acontecimentos

Dizem que a felicidade não é notícia, e tasca tragédia nos olhos do leitor, tão ávido de deliciar-se com a desgraça alheia. Mas será isso verdade? É o que Machado de Assis dizia no seu “Suave Maria Magno”: contemplar do alto mar de nossa segurança a tragédia do próximo.


Seria verdade tudo que o Velho Bruxo afirma? Creio que ele tem a sua boa dose de razão, como têm razão os jornais que nos impingem a dor como prato cheio – prato principal e sobremesa variada.

Contra a corrente, conto o que ouvi nos últimos dias. Uma cadela descobre uma criança no lixo, protege-a, salva-a. Um ato de heroísmo de que os seres humanos não são capazes – foram capazes de jogá-la, à criança, no lixo.

Outra notícia feliz? Um menino de nove anos morde um cão feroz e salva-se. Querem maior proeza? Ah, eu tenho maior proeza: um nenê de nove meses (nove passa a ser um número cabalístico) morde uma cobra coral, mata-a. Que força nos dentes – exclamo, pensando que um bebê ainda não têm dentes.

Que mais? Um menino toma um tiro entre os supercílios e sobrevive. Entre tantos casos de balas perdidas, que facilmente acham vítimas mortais, encontro uma que atinge justamente um menino, quase um nenê, justamente entre ou sob os supercílios, e por uns dois centímetros miraculosos, deixa-o com vida.

Por que os jornais não contam mais histórias que acabam bem? Temos tanta sede de sangue? O homem é um ser assim sanguinário? Não nos deliciamos com as flores, com os pássaros, com o sol e com a chuva?

É muito pedir que noticiem que uma flor e um pássaro cantaram, o sol e a chuva, cada um por sua vez, sorriram enamorados? Mas existem notícias felizes e existe gente sem tanta maldade no coração que quer ouvir boas novas.

Em face dos últimos acontecimentos – que nos anunciam o fim do mundo, mas enquanto não chega... Sejamos menos selvagens.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O ovo da galinha


Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um jornalista se meteu a escrever sobre esse velho assunto inútil. Eu já pensei lá comigo: “Política é a arte de enfiar a mão na merda”, como disse Otto Lara Resende, e esse cara prefere falar do cu da galinha do que do próprio, aliás, do que do dos políticos. A notícia dominante é a política, oras.


Logo vi, porém, que o cara falava sério. E tasca comentário de pesquisas científicas concludentes: o ovo nasceu primeiro. Passou por uma série de mutações genéticas, desde um primitivo ovo de réptil ou peixe, até se tornar ovo de galinha. Grande descoberta! Que vamos fazer com ela? Proclamar que então Deus não criou a galinha, portanto Deus não existe?


João Cabral de Melo Neto escreveu uma série de poemas sobre o ovo de galinha. Não queria provar nada, não queria investigar o que havia dentro do ovo, qual a sua origem, nenhuma questão metafísica. Falou do ovo externamente, como um objeto que se pode manusear.


Falou do ovo como falou do relógio ou da cabra. Aliás, falou do relógio como falou da cabra. Não há como falar de relógio sem falar do tempo e todas as suas implicações, como se todos fôssemos mesmo eternos e o tempo apenas uma convenção. Conseguiu o impossível: falar do relógio como um objeto manuseável e mais nada.


Conseguiu mais: se apaixonar pela cabra. Não disse isso nos poemas da cabra. Disse numa entrevista: “A cabra é linda!” Como um cara, um intelectual, um cara sensível como só um poeta pode ser, embora ele advogasse o fato de o poeta ser um cara normal – como pode um cara normal achar linda uma cabra?


Clarice Lispector também falou da galinha e do ovo de galinha. Metafisicamente. Tudo na escrita de Clarice leva o olhar para mais longe ou mais dentro. Escreve como se tudo levasse a crer no indizível. A galinha é mais importante do que a galinha, o ovo do que o ovo. Logo, o homem é mais importante do que esse bípede implume de Platão.


Logo, falar do ovo e da galinha é melhor do que enfiar a mão na merda.

domingo, 27 de julho de 2008

Com o pé no estribo ou A educação pela pedra


“Escrevo com o pé no estribo.” Assim começa Machado de Assis uma sua crônica. Explica que o pé no estribo quer dizer que está para mudar de clima. Não estou com paciência para entender por quê. Aliás, não quero entender. A frase é tão boa: Escrevo com o pé no estribo. Por que abastardá-la com qualquer explicação?


Não interessa por que uma frase é boa. É uma questão de fenomenologia da linguagem: ser ou não ser, eis a questão. Poderia tomar outra com a mesma sintaxe: Escrevo com o coração na mão. Resultado: uma frase sentimental, piegas. A questão não é de sintaxe, está se vendo, mas de cavalgadura. A palavra parece grosseira, mas é isso mesmo que eu queria dizer: ou o cavalo da linguagem marcha com nobreza, com graça, desenvoltura, com ritmo, às vezes parece que está dançando, outras, que é seco, ou pisa em pedras, machuca as patas, sangra; ou não marcha, emperra como um burro chucro.


Escrevo com quatro pedras na mão. Quatro, uma vai ferir o leitor. É preciso que o leitor seja tocado pela palavra. Escrevo com quatro pedras na mão. Não é todo dia que se encontra uma frase assim. Não há um porquê. A frase é perfeita: nem explicação não tem. Já disse que explicações abastardam, e desta frase eu sou o pai, como daquela o é Machado de Assis.


Rubem Braga, o cronista-poeta, interrogava-se sobre os mistérios da poesia. Por que o verso de Camões – “a grande dor das coisas que passaram” – é um grande verso? Perguntava-se: por que tanta poesia nessa frase simples? O que faz uma frase ser poética?


Gosto de lembrar a historinha que Manuel Bandeira contava, do português que dizia da placa “Península Fernandes”: “Fernandes porque é o meu nome e Península porque eu achei bonito.” É essa toda a explicação da poesia.



Escrevo com uma flor nos lábios. Já disse essa frase num poema. Talvez por isso seja uma frase boa: é uma imagem, o que já é meio caminho andado para justificar a frase. O outro meio caminho é não precisar de justificativa. É a frase valer por si só. Não por uma idéia, uma tese, qualquer esquema. O texto não pode ficar preso a um esquema.


As gramáticas da criação (George Steiner) são indecifráveis porque são poesia. O poema, mesmo o mais simples, veste a roupagem do mistério. O poeta apenas não é um criador como Deus porque não parte do nada: tudo que viveu influi na escolha das pedras da sua construção. Às vezes as pedras se encaixam umas às outras magicamente, outras nem se encaixam, são pedras de tropeço, mas necessárias. A pedra e a flor, a mágica e o tropeço fazem parte da poesia.


O poeta faz poesia como quem respira. Esta é uma frase bonita: parece uma frase feita. As frases feitas são perfeitas; toda frase deveria soar como uma frase feita, que já estava assim, é assim porque é. Nem precisam dizer coisa alguma. Por isso vou explicar a minha respiração: os pulmões trabalham muito, mas ninguém percebe.


O poema é fruto de muito trabalho, que não deve transparecer. É transpiração, que para o leitor deve soar imperceptível como a respiração. Às vezes a respiração é pesada, presa, difícil, sufocante; muitos poemas, também.


Valéry disse que o poeta se esquece do trabalho que o poema deu. Muitos querem escrever sem trabalho algum, por um passe de mágica; não são poetas. O mágico aprende trabalhosamente os seus passes de mágica. Eu disse acima, ou em qualquer parte, que a poesia parece vir de um passe de mágica; não disse que vem milagrosamente, gratuitamente.


O poeta se esquece do trabalho que o poema deu. É uma boa frase. Mas é preciso lembrar o que é trabalhar um poema. Não é procurar a palavra perfeita, a rima, o verso com métrica ou não; isso é questão de técnica; você pode dominar a técnica e não fazer poesia nenhuma. Bastasse a técnica, qualquer um seria poeta.


O poeta é como o mágico: faz e não ensina o segredo da sua mágica. Qualquer um pode aprender a fazer mágica? Teoricamente, sim. Teoricamente qualquer um pode fazer poesia.


O mágico faz mágicas; o poeta, mágicas com as palavras. Às vezes, a mágica é imperceptível. Mas sabemos que existe, que naquele texto ali as palavras se amaram de tal forma que pariram poesia. Não é questão de encaixar as palavras em tal ou qual esquema. É quando as palavras fogem de qualquer esquema.


É até possível ensinar o caminho das pedras: como uma se encontra com a outra e produz uma faísca, uma iluminação a que chamamos poesia. Aprender são outros quinhentos. Continuar nesse caminho pedregoso é para poucos. Não foi o que João Cabral disse no poema “A educação pela pedra” – mas a poesia é uma educação pela pedra.


terça-feira, 15 de julho de 2008

As águas do eterno















Eu estava abraçado à arvore da noite

Com seus frutos dependurados no abismo.


Eu tinha medo de dormir, dormir para sempre

Sob o brilho das estrelas cantando no caos.


A planície se estendia até o infinito

Além do que a vista enxergava, entre as trevas.


Uma figura humana caminhava em minha direção

Gesticulando, com os unhas erguidas para os céus,


Os dentes rubros das chamas saindo pela boca.

É a morte, eu pensava, e vem me levar nos ombros.


Para onde irei? O que é morrer? Acabar?

E eu ouvia o silêncio branco me respondendo


Do moinho da sombra, do barco do enigma:

O universo repousa nas águas do eterno.


As lágrimas do morto
















As lágrimas do morto encheram toda a sala,

O pensamento se esvaía no ar da noite,


O coração percebeu que havia parado.

O sal da morte amolecera o barro.


O universo se apaga nos olhos do morto.

O universo seco, como a areia do deserto.


Por que choro? Por que memória?

Que imagem da vida quero levar?


Não fui outro. Fui eu o próprio espelho.

As coisas passam, as coisas foram. Eu fico.


A morte deságua na areia do esquecimento.

A morte seca, a lágrima seca, o sal seco.


A rede das estrelas balança sobre outro mar,

Pescando outros peixes – na noite do eterno.


segunda-feira, 30 de junho de 2008

A terceira margem da vida


“A terceira margem do rio” é um continho com todo um mundo dentro. Qual seria a sua gênese? Guimarães Rosa conta-a em uma crônica. Como, de onde teria surgido essa idéia estranha? De contos populares, lendas, crendices? Algum maluco do sertão teria algum dia realizado uma meia façanha dessas, meia apenas, de tão inverossímil?

G. Rosa conta em sua crônica a história de um viajante incansável, que veio da Holanda ao Rio de Janeiro, do Rio ao Recife, e à Alemanha, à Inglaterra, sempre a um porto diferente, sem aportar em nenhum. Estava sempre em viagem. Estava sempre na terceira margem.

Era o tempo em que o mundo vinha abaixo, nos anos da 2ª Guerra Mundial, tempo de perigo, de espionagens, de muita gente vivendo uma vida secreta. Mesmo G. Rosa e sua mulher Ara viviam vidas secretas, paralelas à sua existência burocrática de diplomatas, conseguindo papéis para milhares de judeus escaparem do extermínio nazista. Os homens matavam e morriam, ninguém confiava em ninguém, viver era perigoso. Não é assim à toa que G. Rosa escreve essa frase – “Viver é perigoso” – em seu monumental “Grande Sertão: Veredas”, composto nessa época.

E, enquanto isso, enquanto o mundo tremia em suas bases, um homem comum, aparentemente sem quê nem porquê, inventa de realizar uma idéia incomum: não morar em lugar nenhum. Estava sempre em viagem. Sempre na terceira margem.

Era uma história – G. Rosa inventa de escrever “estória”, tão vulgarizada, sem sentido, sem eira nem beira, estava a História. Era uma história extraordinária. Bastava escrevê-la com engenho e arte, uns quantos personagens acessórios, umas quantas cenas acessórias, uns contrapesos aqui e ali, para dar peso ao protagonista – que era um homem comum, o seu tanto sem graça.

G. Rosa já tinha passado pela experiência de escrever um conto que vai se alongando, alongando, até chegar a umas seiscentas páginas. Foi assim com “Grande Sertão: Veredas”. Era um conto, verdade que um conto longo como os de “Corpo de Baile”, que estava escrevendo nessa época, de umas setenta a cem páginas cada um. Mas o rio era baldo – o narrador Riobaldo deixou extravasar suas águas, que eram tantas, e o conto ficou daquele tamanhão.

G. Rosa está escrevendo as “Primeiras estórias” – primeiras mesmo, não mais o caudal de águas em ebulição dos contões anteriores, mas agora histórias curtas, fábulas de umas três a seis páginas. Está mais contido e está mais artista. (O excepcional contista mexicano Juan Rulfo é seu amigo então). Acabaram-se os tempos difíceis cheirando a pólvora e a morte da 2ª Guerra, quando não se tinha tempo para ser breve, para se conseguir a síntese que uma obra de arte exige – condensar a realidade, até que dela só exista a essência.

É assim que, de alma leve, descansado, G. Rosa situa a sua história, como não podia deixar de ser, nas suas Minas Gerais. O seu personagem é um caboclo simples, rude, tosco, incapaz de uma idéia fora do comum. O narrador é seu filho, que não acredita na esquisitice do pai, esquisitice mas bem planejada, palmo a palmo: conta como vai entalhando o barco em madeira de lei, forte para durar muitíssimos anos, sem falar com ninguém, até o dia em que se despede da família, ainda sem nenhuma explicação, nenhuma palavra. Deita um meio carinho no filho, quase uma bênção. A mulher deita-lhe uma quase maldição, que, se quer ir, que vá para sempre, não volte nunca mais.

O homem vai para não voltar nunca mais, mas também não vai para sempre: está ali à frente, dentro do rio, sem ter ido para lugar nenhum. O filho, menino, torna-se homem feito e feio como o pai: sempre à margem do rio comunicando-se à sua maneira, até arremedando o jeito, as feições, com aquela assombração que não está nesta nem na outra margem do rio, presente e ausente a um tempo.

É a mesma história da crônica dos tempos da guerra, em que o personagem comum também, sem invencionices também, fugia da guerra e da vida impossível, não estando em lugar nenhum. Numa terceira margem – que é também nenhures.

A velha da maçã
















O menino repousa sobre um barco

Coberto de palha e panos.


Um boi, um burro e um cão guardam o sono

Do menino deitado no seu berço


Que é um barco e navega com as estrelas

Nas vastas águas da noite.


O homem medita no mistério azul

Do menino nascido de um peixe de luz.


Uma velha mulher trouxe uma maçã

Para a mãe do menino.


Era uma estranha e veio do outro lado do tempo

Com a maçã para a mãe do menino.


Era Eva e voltava do Paraíso

Com a maçã e a serpente na mão.


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Fluir














Um rio flui da montanha, outro da estrela.

Deságuam no meu peito velho de milênios.


Estou imóvel, à beira da estrada, como um rochedo.

Uma árvore me envolve com os braços verdes.


Tenho os pés plantados na terra como raízes.

A seiva densa escorre nas minhas veias.


Os gaviões se agarram aos meus cabelos

E gritam desesperados para o céu


E bicam os meus olhos, a minha língua.

O meu cachorro já se converteu em pedra.


O meu cavalo espera o meu chamado,

Mas tanta água flui dos meus pulmões.


Um peixe navega nas minhas entranhas.

Revolve, dentro de mim, a memória de Cristo.