quinta-feira, 24 de março de 2011

TRÍPTICO




1.

Abro a janela para o terreno baldio
com suas cabras espantando os urubus.
O sol dá-me de chapa na cara,
poças d’água e árvores secas me olham.
A rua parada, sossegada, espera
a passagem de um burrico preguiçoso.
Quando saio, o sol continua a arder-me na cara
e o calor asfixia, tolhe-me o corpo, os pulmões estralam.
Uma nuvem branca caminha para o mar,
cada vez menos nítida, some no horizonte.
Os meus passos na calçada se apressam para nada.


2.

Côu, côu, côu! Vem, Neguinha! Vem, Teimosa, vem!
Seu Chico alimenta as vacas para ordenhar o dia.
A moenda de cana com os braços caídos para o chão.
Os cachorros latem balançando o rabo,
fungando com a língua de fora.
Um casebre fumega na beira do mato.
Procuro quem sou, quem fui,
com um aperto no peito, a alma saindo dos olhos bobos.
Um moinho abandonado apodrece num canto,
ao lado o tronco esquecido de uma peroba, do que foi uma peroba.


3.

Uma mulher nua no meio da rua, de pernas abertas para cima.
A molecada se assanha, uma pomba branca bate as asas.


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segunda-feira, 14 de março de 2011

Dia da poesia no fim dos tempos





O LEITOR E O POETA

O leitor gosta de um poema
porque pensa que foi ele que o escreveu.
O melhor poeta é aquele que desperta
o poeta adormecido no leitor.

O poeta vê as gotas de chuva na janela
e nas folhas do abacateiro, viu à noite,
    antes da chuva,
as estrelas multiplicando-se e apagando-se,
como numa grande brincadeira
                                                  – e escreve
como se fosse o leitor.

                                          O poeta é o mais abnegado
e desprendido dos seres: anula-se para que o leitor viva.
O poeta morde o lábio, morde a língua e sangra.
A poesia é feita de sangue, não de palavras.
                                                                    Estas são
um disfarce para a dor, cacos do espelho que chamamos
de poema.
                  O relógio resmunga na parede, como se fosse
dono do tempo.
                           Vai medindo, compassadamente,
a minha morte individual, diz o poeta, pensando
na morte coletiva.
O poeta pensa no seu irmão, o leitor,
tão íntimo e estranho ao mesmo tempo.
                                                              O leitor que lê

o poema como se tivesse ele próprio traçado, linha a linha,
aquelas linhas, aquelas palavras, aquelas imagens
que pulsam no bolso e, por pouco, não o derrubam.



NO FIM DOS TEMPOS

Talvez haja mil leitores entre um milhão de pessoas,
mas haverá cem leitores de poesia entre mil leitores?
Haverá dez leitores de poesia entre mil leitores?

Quantos leitores de poesia haverá entre mil poetas?
Os poetas leem os poemas dos outros poetas?

Sic transit gloria mundi – assim os poetas são:
passageiros, estranhos e indiferentes passageiros.


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           (dois poemas de Gregório Vaz)



sábado, 12 de março de 2011

Preparativos para o fim do mundo




O poema cresce independente de mim.
Eu o escrevo, escolho as palavras, as poucas imagens,
procuro controlar minha ânsia de metáforas.
Eu o escrevo, mas ele não tem nada a ver comigo.

O mundo lá fora é o que interessa.
O poema me expulsa do calor do ninho.
O poema me expulsa dos ovos com a vida regurgitando.
Há uma guerra lá fora e só essa guerra interessa ao poema.

Se uma gralha grita, é para estourar a paisagem.
Se o melro voa de um lado a outro do rio,
é para me lembrar que tudo passa,
que não é este lado
ou aquele que interessa.
Aliás, nada mais interessa.

Interessa o que está fora do meu controle.
Um frio me gela a espinha.
Parece que vou quebrar.
O meu poema caminha na rua,
quebrando o cimento
e a insensatez humana,
com a sua carga de dor
e estupefação.
           É como o fim do mundo.                                                             

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(Este poema está no blog do Gregório Vaz. Penso que merece mais visibilidade e o deixo aqui também.)


quinta-feira, 10 de março de 2011

A cigarra



                  
                                 
A CIGARRA

A cigarra é só cigarra

as asas diáfanas
imagem que pulsa

vibra o címbalo
do canto

imóvel no tronco da árvore.



terça-feira, 8 de março de 2011

O mar dos teus olhos - Homenagem à mulher


                  Jesus  Maria José - Portinari (foto na Igeja Matriz de Batataisi)


O MAR DOS TEUS OLHOS
 
O azul do céu e do mar nos teus olhos fundos.
Tudo são limites e enigmas, mesmo os teus olhos.
Neles uma rosa sangra como um punhal.

Delirávamos, em êxtase,
com a beleza da morte dentro dos teus olhos.

Quem nos disse da presença de Cristo
no mar trágico dos teus olhos?

Você tinha a chave na língua.
Eu carregava a âncora nos ombros.

Pescamos cestos e cestos de peixes no mar dos teus olhos.
Vamos dar de comer a multidões.

Você levantava muito alto um peixe cintilante na mão.
O peixe era belo como o crepúsculo.

Sentamo-nos à mesa e nos servimos de pão e vinho,
com o mistério da morte e da vida nos teus olhos e nos teus lábios.




domingo, 6 de março de 2011

Quinhão




 
À ENTRADA DA CAVERNA

Um pássaro
cantava

à entrada
da caverna.

Quando saí
para ouvi-lo,

desfez-se ao sol.


QUINHÃO

Caminhamos no deserto,

o nosso quinhão
do universo,

sob a tempestade de luz do verão.


A ALMA LEVE

Prostro-me por terra
na vinha do Senhor.

A uva tinge-me o corpo
e a alma leve.


A ESCADA DE JACÓ

Sobe a escada de Jacó
e luta contra o anjo,

luta contra Deus.
Tua derrota

será tua vitória.
Tua hora é agora.


AMÉM

Sou filho
da dor

e caminho
orgulhoso

de meus irmãos.
 


quinta-feira, 3 de março de 2011

ASPIRAÇÃO




ASPIRAÇÃO

Aspiro ao sublime
os cavalos, as vacas, os bezerros ao sol
com gratidão e maravilhamento

O que eu queria mesmo era ver Deus
por enquanto me contento com o sol
a água nas cascatas nos rios na torneira

por enquanto vejo as luzes da cidade
acesas neste momento
e pulsando como um pulmão.

É tão bela a vida que me calo
já disse que vi meu pai e basta
hoje digo que vi meu filho e basta.


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Este poema e os três anteriores – Contemplo o templo, Pomar e O pássaro e a pedra – foram escritos no final de janeiro. Chamei-os de Poemas de aniversário. Foram escritos num período de (como eu chamei) surto criativo de meu heterônimo Gregório Vaz, que escreve poemas escuros e descuidados, mas são luminosos porque nascidos num dia especial para se dar graças pelo dom da vida.

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terça-feira, 1 de março de 2011

Contemplo o templo




                                 
CONTEMPLO O TEMPLO


Olhem o mar!
Olhem aquele rochedo enorme
coberto de espumas brancas
e gaivotas
e o horizonte renovando-se a cada momento.

As minhas pegadas na areia
que as águas apagam
as minhas pegadas crescendo com o canto do mar
o sol nas minhas costas
carrego o sol como um cavalo à beira-mar.

Lembro um esquilo
é uma lembrança mínima
disso que se chama poesia
o esquilo me olhando num rochedo à beira-mar
com a linguinha de fora.

Não era preciso mais nada
havia muita água
areia, pedras, peixes
o grito das gaivotas e o canto do mar.

Entro no mar, deito-me na água, flutuo
a água me envolve, o sol por cima
não existe maior sensação de plenitude
o mar e as montanhas
o céu azul infinito e a face de Deus.



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pomar




POMAR

Vem uma abelha e pousa
numa banana madura,
estourando de madura.

Os volumosos seios da mulher
eram verdes e dourados
de tão maduros.

Uma maritaca vaia
escorrendo amora do bico
como sangue.

Com um sanhaço em cada ombro
e a língua limpa de palavras
aproveito a vida no pomar.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O pássaro e a pedra



 
O PÁSSARO E A PEDRA


Um pássaro pousado numa pedra
um pássaro enorme
um pássaro muito maior do que a pedra
um pássaro só pássaro
muito mais do que a pedra só pedra
todo o ser do pássaro
sob sol a pino
sobre a pedra em fogo

De repente
o pássaro voou

A pedra em chamas sob o sol a pino
sem o pássaro
a ausência do pássaro
a ausência enorme do pássaro
a ausência muito maior do que a pedra
uma pedra só pedra
uma pedra sem o pássaro
a pedra sem o ser do pássaro
a pedra quase não é
a pedra sem

Nada maior que a solidão
da pedra sem o pássaro
o milagre do ser do pássaro


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Luminosidade






                      A poesia, o poema


A poesia é o puro olhar sobre as coisas visíveis.
As coisas tornam-se palpáveis ao olhar da poesia,
libertas de forma, cor e corpo: são apenas luz.

O poema é a luz condensada nas palavras
como se fosse um campo de lírios iluminado.


       Geometria

O poema ordenado como um homem
estendido sobre a mesa, aberto, geométrico, exato.

Os pássaros caem, o homem reverbera.
Os cavalos cantam, o homem reverbera.

A rosa em chamas, o poema canta e voa, perfeito.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Tempo duro, tempo escuro



                                          
1. Tempo escuro

Para que a poesia
neste tempo da banalidade?
Para que a poesia
neste tempo da forma rara
em lugar do homem?

Cegos e surdos,
entanto cantamos.
Somente a tocha da poesia
ilumina este tempo escuro.


2. O cadáver da poesia

Vesti o cadáver da poesia
com as mais belas roupas que encontrei.
Vesti o cadáver da poesia
com as roupas de um operário.
Deixei nu o cadáver da poesia:
não deixou de ser o cadáver
deste tempo negro.

(Gregório Vaz)
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Gregório Vaz teve um surto criativo este ano. Parei de escrever como eu mesmo, até  o dia do meu aniversário, quando fiz quatro poemas luminosos. Não era dia para o pessimismo de Gregório Vaz. Depois tentei equilibrar a forma - G. Vaz é desleixado - mas tanto a forma como o fundo saíram escuros. Talvez seja mesmo este tempo escuro em que vivemos. Talvez eu não esteja nos meus melhores dias.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um brinde para os amigos


Carissimos amigos: - Vocês que me seguem já conhecem os poemas do meu livro Memória da terra (pelo menos a maioria dos poemas), que lancei em 2010. Se quiserem guardar uma cópia do livro, é com prazer que lhes ofereço. É só clicar aqui.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nenhures





NENHURES

Como um tigre, a manhã se aproxima.
Arma o bote diante do abismo.
Que universo é este?
Que Deus me guia?

Mastigo estrelas quentes como brasas,
me queimam a língua, como uma palavra.
Saco a morte do bolso,
atiro contra o enigma.

Carrego a minha cruz às costas, com galhardia.
Beijo a cruz como aos lábios de uma mulher.
O demônio me bafeja o calcanhar,
me cega os olhos cansados do caos cotidiano.

A árvore da eternidade tem as raízes para o ar.
Pássaros voam com ramos verdes no bico,
e caem pesados, estupefatos.
As águas vão e voltam, inúteis.

Além do véu
e dentro do espelho,
conheço quem sou: ninguém.
Espectro de outrem me habita.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

A CABEÇA DE BOI



                                
A CABEÇA DE BOI


            Uma cabeça de boi pendurada no mourão da porteira.
É velha, está quebrada, os chifres estão quebrados. Entram e saem abelhas por todos os lados.
As abelhas fizeram a sua cachopa dentro da cabeça de boi. Pinga mel pelos dentes, pelas narinas da cabeça de boi.
Os dentes são dourados de mel, o hálito é doce, meloso, perfuma até o ringido da porteira.

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A Sônia postou esses dias uma cabeça de boi no Flickr. Lembrei-me de que eu fotografei também a mesma cabeça. O texto é de uns dez anos antes. 

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Candelabro



O CANDELABRO

 

Acendo o candelabro

do universo

com a minha palavra.

 

Ouça o monjolo

como mói

o ouro

do tempo

 

e com o milho

das estrelas

compõe

 

as cores

fúlgidas

da aurora.

 



Selos

Ganhei estes selos do blog Versos de Luz.


Como sou preguiçoso, respondo apenas as questões da Luiza:

1. Poema favorito:


PEQUENO POEMA SOBRE O FIM DO MUNDO 


Quando chegar o fim do mundo,
A abelha estará sobrevoando a espora-de-galo,
O pescador estará consultando a rede brilhante,
Os delfins estarão saltando alegres no mar,
Os pardais estarão a reunir-se sobre o telhado,
A pele da cobra brilhará como sempre.

 
Quando chegar o fim do mundo,
As mulheres irão para debaixo dos guarda-sóis,
O bêbado adormecerá em algum lugar sobre a relva,
Os verdureiros farão suas vendas gritando,
O barco de vela amarela chegará à ilha,
As violas soarão no ar,
Abrindo a noite estrelada.


Quem esperar raios e trovões
Vai decepcionar-se;
Quem aguardar um sinal e trombetas de anjos,
Nem acreditará que o fim já chegou.

 
Enquanto o sol e a lua brilharem lá em cima,
Enquanto o insecto visitar a rosa,
Enquanto crianças coradas ainda se alegrarem,
Ninguém acreditará que o fim já chegou.

 
Até que o velhote grisalho, que poderia ser profeta,
Mas não é profeta, porque o seu trabalho é outro,
Dirá ao amarrar tomates:
Nem haverá um outro fim do mundo.

 
Czeslaw Milosz


Poeta e ensaísta polaco, nascido em Kédainiai, na Lituânia, em 1911.
Foi Prémio Nobel da Literatura em 1980.
Faleceu em Cracóvia em 2004.



2. Escritor favorito: Graciliano Ramos

       Vou acrescentar aqui a observação que ainda não vi ser feita sobre Graciliano, assim justificando porque  gosto de sua prosa: Vidas Secas é um grande poema (Não o escrevi acima porque é muito grande). É todo feito de imagens, e imagens sensoriais (Você sente sede, sente na pele a secura das Vidas Secas) como só o melhor poema consegue.

3. Filme que recomendo: VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos. 

4. Porque escrevo: Fui aprender tocar órgão. Como não distiguia uma nota da outra, mandaram-me aprender datilografia. Parece brincadeira, mas é sério: escrever foi a única coisa que consegui aprender. 


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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O ESTRANHO



                                                                    
O ESTRANHO


O dia amanhece carregado de pássaros.
O canto dos pássaros vai romper o silêncio das dálias.
É meu o cavalo. É minha a montanha.
É minha a rosa perdida no barco do olvido.

Todos os caminhos levam ao deserto.
A faca na garganta ilumina a cicatriz do enigma.
Pairo sobre as vagas do mar eterno e vejo Deus.
Ergo o cálice dourado e bebo o vinho da rosa.

As palavras são duras como pedras.
Estou com as mãos feridas de tanto lavrar as palavras.
Envelheço. Um estranho me olha do espelho.
Devoro as pedras do estigma.

Anoitece na casa vazia. Há um lugar vago
no álbum de retratos. Em breve serei antepassado.
Ouço a voz de Deus. O verbo de Deus me chama.
O sopro de Deus outra vez molda a minha forma na argila.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O perfume das uvas




O perfume das uvas sob o sol de outubro.
O rio cresce, as águas se avolumam, destroem
                                as barrancas e as locas dos peixes.
As águas correm dentro das árvores, correm dentro de nós.
As nossas raízes se vão com as águas vorazes.
E as uvas perfumam a tarde sob o sol do outono.

Os abismos do mar deságuam por nós a dentro.
No canto selvagem do mar a voz do afogado,
estrangeiro como nós, sem pátria como nós.

O sal do mar nas pétalas caídas no altar.
O grito do gavião nas fauces do mar.
As vagas morrem na areia, os rochedos cobertos
                           de espumas, lágrimas escorrendo.
O mar uiva, as uvas perfumam a montanha.

Vou deixando as minhas pegadas na areia da praia,
pesadas, com sombra.
Cai a sombra na minha alma.
Logo se apagam as pegadas.
Um sino tange o tempo antiqüíssimo e sempre novo.

As gaivotas trazem o mar nas asas.
As árvores em chamas despencam no mar.
Flores voam no ar do verão.
Espumas e sangue escorrem do rochedo dos mariscos.
Um navio joga grossas ondas contra a ilha.
Línguas de fogo elevam-se da terra.

Este é o tempo dos mortos.
As mulheres se abrem aflitas para o céu.
Desfia-se o tecido das coisas.
Não somos. Sombras que a sombra devora.
Ouvi a voz dos mortos, como sementes,
brotando à borda dos poços.
Os vinhedos já não estão ao sol, as uvas
ainda perfumam os pássaros, as águas, os peixes.
O sino tange no horizonte, com sangue.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A ILUMINAÇÃO NO ESPELHO DA TARDE



                                 
                                 
A ILUMINAÇÃO NO ESPELHO DA TARDE


O rio carrega peixes mortos, homens mortos
e destroços, cavalos, vacas e cães mortos.
É a estação das brumas, das sombras,
da desgraça ancestral.

Choramos a nostalgia da rosa na pedra cinza.
Folhas de ouro caem da árvore do tempo, com fragor.
As faces esmaecidas de um paciente agonizante
deitado na mesa coberta de alvos lençóis.

A viagem não tem fim,
o porto à distância, cada vez mais longe.
A praia se retira, como o tempo, intocável.
Carrego a minha morte no bolso, no pulso, nos pés.

Ouço sempre o guizo da morte
pendurado no pescoço, junto à canga velha.
O rio chega ao mar, eu chego ao mar,

as águas do mar vão e vêm, eternas.
Viajo para um renovado horizonte,
de pássaros brancos, entre as brancas nuvens.