A palavra cai
com sangue
na areia do relógio.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Gênese
Entre pedra e água,
a palavra.
A árvore cresce na água,
linguagem.
O pássaro voa da pedra,
o poema.
a palavra.
A árvore cresce na água,
linguagem.
O pássaro voa da pedra,
o poema.
De mãos dadas
Caminhamos de mãos dadas na areia
da praia, em silêncio, sob as estrelas.
A nossa vigília amorosa se prolongava.
Olhei dentro da água dos teus olhos –
a minha alma pairava refletida.
Ao som do mar, sob o céu profundo,
as nossas almas se encontraram para sempre.
da praia, em silêncio, sob as estrelas.
A nossa vigília amorosa se prolongava.
Olhei dentro da água dos teus olhos –
a minha alma pairava refletida.
Ao som do mar, sob o céu profundo,
as nossas almas se encontraram para sempre.
A prata dos carvalhos
O menino é levado para o muro sob a prata dos carvalhos.
É noite e as pétalas da lua caem das folhas lívidas.
Olhando o céu, o menino modula a palavra de sombra
com as ondas do mar no coração.
É noite e as pétalas da lua caem das folhas lívidas.
Olhando o céu, o menino modula a palavra de sombra
com as ondas do mar no coração.
O menino e o mar
Era o tempo dos mortos.
O mar lançava a noite para a terra.
A praia era um grande cemitério,
os cadáveres de boca aberta à luz das estrelas.
As almas dançavam sob a copa das árvores.
Foi quando se ouviu o choro fraco de um menino.
Dentro de uma concha, como uma pérola negra,
um menino dizia que a vida, como o mar, sempre recomeçava.
O mar lançava a noite para a terra.
A praia era um grande cemitério,
os cadáveres de boca aberta à luz das estrelas.
As almas dançavam sob a copa das árvores.
Foi quando se ouviu o choro fraco de um menino.
Dentro de uma concha, como uma pérola negra,
um menino dizia que a vida, como o mar, sempre recomeçava.
Quebrei os relógios
Quebrei todos os relógios.
Em silêncio, na praia da ausência,
converso com os meus fantasmas.
Em silêncio, na praia da ausência,
converso com os meus fantasmas.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Entre pedra e água (Arte poética de João Cabral de Melo Neto)
Foto: Marjorie Salu1. Entre pedra e água, essa indolência
de mineral voltado para
dentro de si mesmo até quando
em intensidade pulsando;
que se pedra e água à roda-viva
emaranha alheios corpos,
eles corpos nada verão
do miolo desse ocluso pão;
que entre pedra e água, a indiferença
geométrica, lâmina fria
desvenda as coisas, os alheios
volumes, nunca o próprio seio;
assim entre pedra e água, a faca
corta o poema, bem ao meio
da frieza bem-humorada
da palavra, infecta de nada.
2. Essa a imagem, sempre de fora
que o dentro é só dela palavra
medida com precisão, cálculo
entre pedra e água, o mais agudo;
que a alta defesa da palavra
é carta geográfica para
não se orientar, severo enigma
entre pedra e água, inapreendida;
que é essa a matemática doma
do que indômito se faz, verbo
deserto, de mil fímbrias, lâmina
entre pedra e água, onde se escande
o poema numa fímbria exata
e contida como se o número
fosse o próprio timbre do canto
entre pedra e água, penetrante;
3. Se quando alfinetes penetrem
uma garganta, entre pedra e água
jorre o canto, nunca de espesso
sangue, mas sim de seu avesso;
que um alfinete ou outra seta
procura o canto entre pedra e água
por conhecê-lo aí vazio
de lágrimas ou outros cios;
que uma agulha busca somente
a natureza entre pedra e água,
a natureza sem vertigens
só dela agulha, impassível;
que esse estilete fere tanto
uma garganta, entre pedra e água
para saber-se imagem pura,
poema inciso em ponta de agulha.
4. A pedra doma a água, o seu ímpeto
mais voraz, resistindo até
que, subjugada, ela arrefeça
seus vórtices e pare, queda;
a água doma a pedra, polindo
as suas arestas até
que se volte sobre si mesma,
lisa, tal seda, pedra seda;
esse metódico trabalho,
água contida pela pedra,
tal a palavra, entre pedra e água
que se contém, em grave lavra;
geometria elementar,
o amaciar da pedra pela água,
tal o poeta, entre pedra e água,
esse engenheiro da palavra.
5. Entre pedra e água está o poema,
sem perder sua vegetal
natureza aquém de raízes
e além-ramada, em cicatrizes;
cicatrizes que mais se con-
densam, em sendo o próprio âmago
dele poema entre pedra e água
de todo excesso depurado;
depurado em fino alguidar
onde o que entre pedra e água seja
o mais puro ouro que se busca,
o verbo vivo, verbo-súmula;
súmula do que de mais livre
concentra-se numa palavra,
antes e depois, mesmo quando
de entre pedra e água findo o encanto.
(Em 1972, escrevi este exercício de admiração a João Cabral de Melo Neto. Contraria muito o poeta, eu pensava, e esqueci-o. Hoje não tenho tantos escrúpulos e mostro-o.)
sábado, 7 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
A palavra caiu
A palavra caiu
fora de casa, na noite.
Resta o silêncio
da imagem
como uma pedra
na mão.
fora de casa, na noite.
Resta o silêncio
da imagem
como uma pedra
na mão.
A palavra nos lábios
a palavra nos lábios
crestados
uma estrela cai
na cabeça
a pedra aberta
brilha
o silêncio da rosa
na água
crestados
uma estrela cai
na cabeça
a pedra aberta
brilha
o silêncio da rosa
na água
O perfume do verão
o perfume do verão
no abismo da memória
o abandono do teu corpo
na campânula da noite
no abismo da memória
o abandono do teu corpo
na campânula da noite
O silêncio
O silêncio do ouro
e a flor boiando no sangue.
O relógio quebrado
com a palavra.
O vento leva as cinzas.
e a flor boiando no sangue.
O relógio quebrado
com a palavra.
O vento leva as cinzas.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O mar queima
O mar queima as rochas,
o sal arde.
Os atobás caminham de peito erguido
na areia escura da praia.
Estrelas brilham na água.
O eterno instaura-se no azul,
entre as nuvens.
Manchas de sombra
nos envolvem.
Um sino insiste: cintila, cintila.
o sal arde.
Os atobás caminham de peito erguido
na areia escura da praia.
Estrelas brilham na água.
O eterno instaura-se no azul,
entre as nuvens.
Manchas de sombra
nos envolvem.
Um sino insiste: cintila, cintila.
Do cântaro
Do cântaro saiu sangue
em lugar de água.
Ao longe barcos de flores
e um pássaro assassinado.
Um sino tange.
A pedra cai da montanha
em silêncio.
em lugar de água.
Ao longe barcos de flores
e um pássaro assassinado.
Um sino tange.
A pedra cai da montanha
em silêncio.
A noite dos violinos
A noite dos violinos e a dor
nos dedos crispados.
Quem decifrará o voo da gangrena
na pele do eterno?
A mulher pisa os cacos de vidro,
vai deixando um rastro de sangue pelo caminho.
A sarça ardente dos pulmões sopra uma língua de fogo.
A palavra cavalga um cavalo de luz.
As tetas da memória acesa
alimentam as crianças das veredas perdidas.
O meu sêmen fertiliza a terra.
O silêncio de Deus move as pedras.
Caminho no bosque dos eucaliptos
com uma tocha acesa nos olhos.
nos dedos crispados.
Quem decifrará o voo da gangrena
na pele do eterno?
A mulher pisa os cacos de vidro,
vai deixando um rastro de sangue pelo caminho.
A sarça ardente dos pulmões sopra uma língua de fogo.
A palavra cavalga um cavalo de luz.
As tetas da memória acesa
alimentam as crianças das veredas perdidas.
O meu sêmen fertiliza a terra.
O silêncio de Deus move as pedras.
Caminho no bosque dos eucaliptos
com uma tocha acesa nos olhos.
Tanta claridade
O vento varre
As palavras afogadas
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
João 1, 18
Ninguém viu a face de Deus.
Eu vi a face do meu pai.
Ouvi a sua voz serena
ou o seu grito de trovão.
A sua voz criou o mundo.
Não vi a Deus, mas vi meu pai
e basta.
Eu vi a face do meu pai.
Ouvi a sua voz serena
ou o seu grito de trovão.
A sua voz criou o mundo.
Não vi a Deus, mas vi meu pai
e basta.
Sei que estou morrendo
Sei que estou morrendo
porque tenho um cheiro
de formiga
nas axilas
e a minha língua se quebra
em contato com a luz.
porque tenho um cheiro
de formiga
nas axilas
e a minha língua se quebra
em contato com a luz.
A eternidade na face
A eternidade na face
como uma pétala de rosa
sopra, sopra
acende um incêndio
com a pedra do crepúsculo.
como uma pétala de rosa
sopra, sopra
acende um incêndio
com a pedra do crepúsculo.
Os passos da morte
Posso ouvir os passos da morte
seu cheiro de jasmim
o sangue escorrendo
na terra úmida.
Apenas as palavras
gravadas na pedra
ficarão.
seu cheiro de jasmim
o sangue escorrendo
na terra úmida.
Apenas as palavras
gravadas na pedra
ficarão.
A foice da morte
A foice da morte
cortou-lhe a garganta.
Um gavião gritou de espanto
com a cor do sangue.
cortou-lhe a garganta.
Um gavião gritou de espanto
com a cor do sangue.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Definição de poesia
Poesia é a emoção depurada pela forma. Se me pedissem a minha definição de poesia, podia ser essa. Mas precisaria definir forma. Há uma confusão abrangente nesse termo, que se torna mais abrangente a cada dia que passa. O próprio Todorov, um dos papas do formalismo, parece rever suas posições: “não vejo como se poderia admirar uma forma se ela não participasse da construção de um sentido.” Diz que insistia na forma, no período áureo do formalismo, para incutir na cabeça das pessoas a importância da estrutura ou forma de um texto. Não excluía o sentido.
Quando digo que poesia é uma questão de forma, estou dizendo que é uma questão de linguagem. É redundância dizer, mas digo: linguagem formalmente considerada. A linguagem trabalhada. Que tem uma estrutura. Quando se trabalha a linguagem, cria-se a poesia. Não qualquer trabalho. Modela-se a linguagem para criar a imagem. Esse é o princípio da poesia. Depois há que se inserir a imagem num determinado campo. O poema é esse campo. Cria-se o poema quando se insere a imagem numa determinada estrutura. Portanto, mais que a poesia, o poema é uma questão de forma.
A linguagem, lembrando os rudimentos da linguística, compõe-se de significante e significado. É necessariamente portadora de sentido (como lembra Todorov). Falar em forma não é falar apenas no aspecto externo da linguagem. Se falo apenas em significante, não estou ainda falando em linguagem. Falar em forma é falar da roupagem da linguagem e do que essa roupagem cobre. Lembrando que a roupagem cobre, embeleza, e ao mesmo tempo dá sentido. O continente torna-se o conteúdo, e vice-versa.
Não há como se abordar a poesia de um âmbito puramente estético. Poesia é linguagem, e linguagem tem implicações políticas, sociais, religiosas, éticas... Linguagem inclui em si uma mundividência. A poesia, sendo linguagem, é uma mundividência. Ou cosmovisão. Prefiro o termo cosmovisão: tem muito maior amplitude.
Lembro-me de que eu definia poesia como uma forma que respira. Não contradiz o que eu disse aqui até agora. Reafirma. É ainda melhor definição: vai direto ao ponto. Se é uma forma que respira, não é uma forma fria. É uma forma com o homem dentro. Ou com o espírito, sinônimo de sopro, respiração, o que anima a poesia. Concluindo: a poesia é uma forma vivificada pelo espírito humano. É uma forma que respira.
Quando digo que poesia é uma questão de forma, estou dizendo que é uma questão de linguagem. É redundância dizer, mas digo: linguagem formalmente considerada. A linguagem trabalhada. Que tem uma estrutura. Quando se trabalha a linguagem, cria-se a poesia. Não qualquer trabalho. Modela-se a linguagem para criar a imagem. Esse é o princípio da poesia. Depois há que se inserir a imagem num determinado campo. O poema é esse campo. Cria-se o poema quando se insere a imagem numa determinada estrutura. Portanto, mais que a poesia, o poema é uma questão de forma.
A linguagem, lembrando os rudimentos da linguística, compõe-se de significante e significado. É necessariamente portadora de sentido (como lembra Todorov). Falar em forma não é falar apenas no aspecto externo da linguagem. Se falo apenas em significante, não estou ainda falando em linguagem. Falar em forma é falar da roupagem da linguagem e do que essa roupagem cobre. Lembrando que a roupagem cobre, embeleza, e ao mesmo tempo dá sentido. O continente torna-se o conteúdo, e vice-versa.
Não há como se abordar a poesia de um âmbito puramente estético. Poesia é linguagem, e linguagem tem implicações políticas, sociais, religiosas, éticas... Linguagem inclui em si uma mundividência. A poesia, sendo linguagem, é uma mundividência. Ou cosmovisão. Prefiro o termo cosmovisão: tem muito maior amplitude.
Lembro-me de que eu definia poesia como uma forma que respira. Não contradiz o que eu disse aqui até agora. Reafirma. É ainda melhor definição: vai direto ao ponto. Se é uma forma que respira, não é uma forma fria. É uma forma com o homem dentro. Ou com o espírito, sinônimo de sopro, respiração, o que anima a poesia. Concluindo: a poesia é uma forma vivificada pelo espírito humano. É uma forma que respira.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
O tempo aberto
o tempo aberto
como um cadáver sobre a mesa
não digas nada
cala e escuta
contempla
o tempo não sangra mais
como um cadáver frio
como um cadáver sobre a mesa
não digas nada
cala e escuta
contempla
o tempo não sangra mais
como um cadáver frio
O silêncio da pedra
o silêncio na pedra
na bengala
no cais agônico
na cal das palavras
um gavião voa de repente
instaura a claridade
o cinzel talha o silêncio
o sangue escorre da pedra ferida
na bengala
no cais agônico
na cal das palavras
um gavião voa de repente
instaura a claridade
o cinzel talha o silêncio
o sangue escorre da pedra ferida
Exultação
afogado no escuro
nenhum peixe
a noite me leva sobre
as casas da cidade
nenhuma estrela
os cascos dos cavalos
na praia
exultação
a língua me leva à origem
da minha face
nenhum peixe
a noite me leva sobre
as casas da cidade
nenhuma estrela
os cascos dos cavalos
na praia
exultação
a língua me leva à origem
da minha face
Claridade
de olhos fechados
vejo a claridade
no âmago da rosa
a essência do sangue
uma árvore de luz
um peixe com sol
o mar desperta o azul
o céu mergulha na água
sou todo claridade
vejo a claridade
no âmago da rosa
a essência do sangue
uma árvore de luz
um peixe com sol
o mar desperta o azul
o céu mergulha na água
sou todo claridade
Além da memória
além da memória
os barcos frágeis da tarde
nas ondas
nas rochas do mar
e a minha língua na mão
na ponta dos dedos
o coração naufraga
com a água do crepúsculo
estou só como uma gaivota
na linha do horizonte
os barcos frágeis da tarde
nas ondas
nas rochas do mar
e a minha língua na mão
na ponta dos dedos
o coração naufraga
com a água do crepúsculo
estou só como uma gaivota
na linha do horizonte
A língua no muro
a língua no muro
a palavra dói
pedras entre os dentes
e terra terra terra
é preciso quebrar a palavra nos dentes
para que floresça
a palavra dói
pedras entre os dentes
e terra terra terra
é preciso quebrar a palavra nos dentes
para que floresça
A flor do pássaro
a flor do pássaro
o pão e a água
o corpo da mulher
aberto
na relva tranquila
como se voasse
o pão e a água
o corpo da mulher
aberto
na relva tranquila
como se voasse
A eternidade
a eternidade é uma gaivota
sobre o mar
um cântaro de sombra
um cão
a água parada
uma flor de luz
sobre o mar
um cântaro de sombra
um cão
a água parada
uma flor de luz
A esmeralda
a esmeralda brilha
estrela, cristal
as quilhas quebradas
da linguagem
a forma da pedra
na luz
A árvore agônica
o silêncio do pássaro
na árvore
afoga
estrangula a luz
é uma pedra que cai
no abismo
a árvore agônica
inexiste
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
A flor de maracujá
Ruínas
A solidão do poeta
Dizem, e eu tenho repetido, que a poesia não é necessária. Mas é. A poesia é um sinal de que o homem está vivo. Mais: ajuda, e muito, o homem a viver. Leio na última revista “Isto É”, na crônica de Miguel Falabela: “Deveríamos todos ler um poema por dia. As escolas deveriam iniciar seus trabalhos com um poema antes da maratona de aulas. Faz bem ao coração.”
Todos os homens nascem condenados à solidão. Sempre falta algo que lhes preencha a alma. Sempre sobra um vazio interior. Pode haver aquele auto-suficiente, que se julga superior, frio e calculista, e acha não necessitar da poesia. Se nem esse vazio interior tem! Se nem interior tem! Pois, por isso mesmo, esse é que precisa mais da poesia. Mais do que para preencher o vazio que todos nós temos uma vez ou outra, quando nos confrontamos com nós mesmos. Para dar-lhe essa vida interior que lhe falta, para torná-lo humano.
Ledo Ivo diz que a poesia é a arte de fazer poemas, mas também uma visão do mundo, é existencial, reflete tudo que o homem sente e sonha. É experiência pessoal, intransferível. O trabalho do poeta é, portanto, enorme: transferir o intransferível. É espelhar com as suas imagens todos os anseios e sentimentos do homem, todo o mundo que a sua consciência cria, lá no fundo dessa consciência, no inconsciente, onde nem ele mesmo sabe que tais sonhos e alucinações existem.
O poeta português António Ramos Rosa disse que quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta. Comunica-se com a solidão dos outros homens. Preenche-as. Torna a alma desses outros homens mais pura, com a ascese das suas imagens. Por isso disse ainda que o poema é um arbusto que não cessa de tremer. Eu diria mais: que o poema é a sarça ardente, porque é animado pelo sopro de Deus. Daí a importância do trabalho do poeta, esse ser inútil. Daí porque a poesia não é necessária, mas é. É um sinal da presença de Deus entre os homens. Somente Deus poderia insuflar vida aos homens, no íntimo da solidão humana, como a poesia faz.
Todos os homens nascem condenados à solidão. Sempre falta algo que lhes preencha a alma. Sempre sobra um vazio interior. Pode haver aquele auto-suficiente, que se julga superior, frio e calculista, e acha não necessitar da poesia. Se nem esse vazio interior tem! Se nem interior tem! Pois, por isso mesmo, esse é que precisa mais da poesia. Mais do que para preencher o vazio que todos nós temos uma vez ou outra, quando nos confrontamos com nós mesmos. Para dar-lhe essa vida interior que lhe falta, para torná-lo humano.
Ledo Ivo diz que a poesia é a arte de fazer poemas, mas também uma visão do mundo, é existencial, reflete tudo que o homem sente e sonha. É experiência pessoal, intransferível. O trabalho do poeta é, portanto, enorme: transferir o intransferível. É espelhar com as suas imagens todos os anseios e sentimentos do homem, todo o mundo que a sua consciência cria, lá no fundo dessa consciência, no inconsciente, onde nem ele mesmo sabe que tais sonhos e alucinações existem.
O poeta português António Ramos Rosa disse que quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta. Comunica-se com a solidão dos outros homens. Preenche-as. Torna a alma desses outros homens mais pura, com a ascese das suas imagens. Por isso disse ainda que o poema é um arbusto que não cessa de tremer. Eu diria mais: que o poema é a sarça ardente, porque é animado pelo sopro de Deus. Daí a importância do trabalho do poeta, esse ser inútil. Daí porque a poesia não é necessária, mas é. É um sinal da presença de Deus entre os homens. Somente Deus poderia insuflar vida aos homens, no íntimo da solidão humana, como a poesia faz.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
o pássaro azul
A tartaruga azul
A tartaruga no fundo do mar azul
nada com a delicadeza de uma pétala
no ar
que paira
paira
paira
como se não quisesse nunca mais
cair.
A tartaruga azul no fundo do mar
paira como um pássaro
no ar
azul
que não quisesse nunca mais
deixar
de voar.
A tartaruga azul é tão leve
no fundo do mar
azul
como um pétala
ou um pássaro no ar
azul.
A tartaruga azul será sempre
azul
como o mar
azul
e o ar
e a pétala
e o pássaro
azul.
domingo, 25 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Caos
Sou eu
Concha

Os pescadores remam
sob as estrelas.
A lua flutua na água do lago,
prata sobre a prata
brilhando
como um espelho.
Pesa o silêncio
das casas fechadas,
mas uma ou outra luz
bruxuleia ainda.
A urna fechada pulsa
como um coração.
Os teus olhos encontram
os meus, com lágrimas.
A montanha aponta o céu
com as suas árvores nuas,
que dor!
na concha da ausência.
Uma palavra na minha mão
se esfarela como cinza.
A borboleta
Anoitecer
Os cães disputam o osso da tarde
com o sol dentro.
O morro explode com o sangue
dos caracóis.
A parede me limita mais que
a faca na garganta.
Meu corpo cai do sétimo andar
a minha alma voa como um pássaro
ou um anjo subliminar.
Tenho o deserto na pele
nas unhas e no
relógio inútil.
Os cães latem
os gatos no telhado
namoram a lua.
Como um epitáfio
O poema
gravado
na pedra
como um epitáfio.
Do dia morremos,
da noite nascemos.
Viver é medir
a poeira da morte.
A luz nasce
dessa poeira.
(2007)
gravado
na pedra
como um epitáfio.
Do dia morremos,
da noite nascemos.
Viver é medir
a poeira da morte.
A luz nasce
dessa poeira.
(2007)
Ponte
O lagarto
No meio do caminho
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Inger Christensen
Morreu Inger Christensen, poetisa dinamarquesa (8-01-09). Como se pode ser ao mesmo tempo suave e trágica? Como um relógio quebrado, as peças espalhadas na neve. Na ausência das horas, a eternidade dói.
Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio
de outro modo como poderia
a eternidade deslizar
Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio
de outro modo como poderia
a eternidade deslizar
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Edgard Allan Poe

Este poema se desprega do
tempo e compõe um sonho sem memória.
Sua velhice adormecida canta
a mesma repetida história tonta,
na voz ferida de registro torto
constante desatrela o corvo absorto
de outro poema crocitante vate.
Seu encanto repousa em seios ocos
gretados de monótonos torpores.
Os olhos comem terra, sangue e mofo,
a insânia acalentando ovos gorados
num jazigo de lavras e mistério.
Um manicômio de palavras túrgidas
dorme no descalabro da consciência.
Homenagem a Edgard Allan Poe, no bicentenário de seu nascimento (19-01-1809).
domingo, 11 de janeiro de 2009
A morte do poema
Em primeiro lugar, a página branca. Ou a tela do computador. É sempre uma lápide. Como se fôssemos dizer a última palavra. O poeta, como qualquer homem, não sabe o que vai gravar, de definitivo, final. As palavras de um poema soam como definitivas. Epitáfios. Nada mais despojado do que uma lápide. O poema é nobre e frio como o mármore. Diante dele, diante da morte, o poeta é mais despojado ainda.
É poeta porque domina uma técnica. Mas em que essa técnica pode ajudá-lo? Ela não existe por si só. Dá forma a um sentimento. A ética está por trás desse sentimento. Está por trás do homem. Mas não é a ética, nem é o sentimento, que determinam o poema. A eclosão, a explosão do poema. Essa criança insegura entre o silêncio e a linguagem. Mal toma consciência do mundo, revela-se-lhe o quanto desconhece, o mistério à sua frente.
Chega uma hora em que a palavra é nada para o poeta. O poeta toma consciência, como uma criança diante do cosmos, de que há uma palavra absoluta. Inatingível. Qualquer poema é sempre o primeiro poema. É sempre essa tomada de consciência do absoluto. Um sentimento de impotência. Nada do que possa dizer transformará a realidade. No entanto, é preciso dizer. É preciso gravar a verdade final na lápide.
O poema é invenção. Apossa-se de todas as possibilidades. Nada lhe tolhe os passos. E, ao mesmo tempo, tudo. É um pássaro na palma da mão pronto para a possibilidade do voo. Sabendo que é apenas uma possibilidade. Com as asas cortadas, a garganta cortada, cego. Enfim, tudo lhe tolhe o voo. A possibilidade e a impossibilidade do voo são o território do poeta.
A essência do poema é a falta de sentido do universo, da palavra, da vida e da morte. Precisa gravar a lápide porque sabe que aquele instante não vai sobreviver. Precisa organizar o mundo para a morte. O êxtase da vida é desorganizado pela morte. Escreve para fixar esse êxtase. É um servo da incoerência: escreve para falhar. A lápide é gravada: o poema existe, falho e inútil, contra todas as expectativas.
8-01-09
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Insônia
Quem é a terra? Quem é o cavalo
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.
Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Esquece quem sou, ao pé do meu túmulo.
A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro do tempo
Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.
Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Esquece quem sou, ao pé do meu túmulo.
A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro do tempo
Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.
Os discípulos de Emaús
Caminham pela estrada de Emaús
Conversam com o pescador solitário
Mas não o reconhecem.
Revela as escrituras, o verbo de Deus
Diz que é tarde, virá numa rede de estrelas
Os homens abrem os olhos, mas não vêem.
As portas se abrem, o estranho entra com eles
Senta-se à mesa, fala da água do caminho
Mas não o reconhecem.
Trazem o pão, o estranho o parte
Os olhos se abrem e vêem
O Senhor caminhou com eles, ensinando.
Os homens não conseguem ver Deus
Estamos sós, ficai conosco, Senhor.
(Sempre quis fazer um poema com este tema. Ei-lo. 7-12-08)
Conversam com o pescador solitário
Mas não o reconhecem.
Revela as escrituras, o verbo de Deus
Diz que é tarde, virá numa rede de estrelas
Os homens abrem os olhos, mas não vêem.
As portas se abrem, o estranho entra com eles
Senta-se à mesa, fala da água do caminho
Mas não o reconhecem.
Trazem o pão, o estranho o parte
Os olhos se abrem e vêem
O Senhor caminhou com eles, ensinando.
Os homens não conseguem ver Deus
Estamos sós, ficai conosco, Senhor.
(Sempre quis fazer um poema com este tema. Ei-lo. 7-12-08)
A Árvore e a Cruz
A árvore tinha a forma de uma cruz
Dois galhos abriam-se como dois braços.
Era uma estranha forma de beleza
Algo de perigo, mistério ou sagrado.
Um líquen avermelhado coagulara-se pelo tronco
Onde deveriam estar os pés e mãos do crucificado.
Umas poucas folhas verdes, muito delicadas
Procurei e descobri escondida uma flor, já seca.
Sem pensar estendi os braços na cruz
A lua tingiu-se de um vermelho opaco
Um vento frio feriu-me as faces
E inesperadamente caí em mim:
A nostalgia é um sentimento universal
O homem busca suas origens; às vezes encontra-as, na cruz.
(A Árvore e a Cruz era uma crônica publicada no jornal A Tribuna, de Santos, em 1978. Mas foi concebida, a exemplo de Jorge Luis Borges, como poema. Daí, foi fácil hoje dar-lhe forma de poema. 8-12-08)
Dois galhos abriam-se como dois braços.
Era uma estranha forma de beleza
Algo de perigo, mistério ou sagrado.
Um líquen avermelhado coagulara-se pelo tronco
Onde deveriam estar os pés e mãos do crucificado.
Umas poucas folhas verdes, muito delicadas
Procurei e descobri escondida uma flor, já seca.
Sem pensar estendi os braços na cruz
A lua tingiu-se de um vermelho opaco
Um vento frio feriu-me as faces
E inesperadamente caí em mim:
A nostalgia é um sentimento universal
O homem busca suas origens; às vezes encontra-as, na cruz.
(A Árvore e a Cruz era uma crônica publicada no jornal A Tribuna, de Santos, em 1978. Mas foi concebida, a exemplo de Jorge Luis Borges, como poema. Daí, foi fácil hoje dar-lhe forma de poema. 8-12-08)
A copaíba
A copaíba
O sangue verde nas veias
As folhas verdes gritam
O tronco gordo se esparrama
A grande copa cobre a areia branca
Os galhos vertiginosamente para os lados
Como se não houvesse espaço acima ou abaixo
A copa baixíssima cobre a cidade
Os galhos larguíssimos abraçam os quatro pontos cardeais
A árvore em oração de joelhos no seu diminuto altar
Um candelabro de folhas verde louvando a Deus
É a mãe ungindo com o óleo a terra como um filho
A copaíba é o símbolo da vida contra a farinha da morte
É o universo que nos estende os braços
São os braços de Deus abençoando a cidade.
(A Copaíba era uma crônica, que agradou muito, falava afinal de um ícone, a Copaíba, proclamando-a símbolo de Bauru. Mas a crônica era péssima, palavrosa demais, gordurosa. Tentei extrair dela o essencial, neste poema. 8-12-08)
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