sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
A palavra caiu
fora de casa, na noite.
Resta o silêncio
da imagem
como uma pedra
na mão.
A palavra nos lábios
crestados
uma estrela cai
na cabeça
a pedra aberta
brilha
o silêncio da rosa
na água
O perfume do verão
no abismo da memória
o abandono do teu corpo
na campânula da noite
O silêncio
e a flor boiando no sangue.
O relógio quebrado
com a palavra.
O vento leva as cinzas.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O mar queima
o sal arde.
Os atobás caminham de peito erguido
na areia escura da praia.
Estrelas brilham na água.
O eterno instaura-se no azul,
entre as nuvens.
Manchas de sombra
nos envolvem.
Um sino insiste: cintila, cintila.
Do cântaro
em lugar de água.
Ao longe barcos de flores
e um pássaro assassinado.
Um sino tange.
A pedra cai da montanha
em silêncio.
A noite dos violinos
nos dedos crispados.
Quem decifrará o voo da gangrena
na pele do eterno?
A mulher pisa os cacos de vidro,
vai deixando um rastro de sangue pelo caminho.
A sarça ardente dos pulmões sopra uma língua de fogo.
A palavra cavalga um cavalo de luz.
As tetas da memória acesa
alimentam as crianças das veredas perdidas.
O meu sêmen fertiliza a terra.
O silêncio de Deus move as pedras.
Caminho no bosque dos eucaliptos
com uma tocha acesa nos olhos.
Tanta claridade
O vento varre
As palavras afogadas
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
João 1, 18
Eu vi a face do meu pai.
Ouvi a sua voz serena
ou o seu grito de trovão.
A sua voz criou o mundo.
Não vi a Deus, mas vi meu pai
e basta.
Sei que estou morrendo
porque tenho um cheiro
de formiga
nas axilas
e a minha língua se quebra
em contato com a luz.
A eternidade na face
como uma pétala de rosa
sopra, sopra
acende um incêndio
com a pedra do crepúsculo.
Os passos da morte
seu cheiro de jasmim
o sangue escorrendo
na terra úmida.
Apenas as palavras
gravadas na pedra
ficarão.
A foice da morte
cortou-lhe a garganta.
Um gavião gritou de espanto
com a cor do sangue.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Definição de poesia
Quando digo que poesia é uma questão de forma, estou dizendo que é uma questão de linguagem. É redundância dizer, mas digo: linguagem formalmente considerada. A linguagem trabalhada. Que tem uma estrutura. Quando se trabalha a linguagem, cria-se a poesia. Não qualquer trabalho. Modela-se a linguagem para criar a imagem. Esse é o princípio da poesia. Depois há que se inserir a imagem num determinado campo. O poema é esse campo. Cria-se o poema quando se insere a imagem numa determinada estrutura. Portanto, mais que a poesia, o poema é uma questão de forma.
A linguagem, lembrando os rudimentos da linguística, compõe-se de significante e significado. É necessariamente portadora de sentido (como lembra Todorov). Falar em forma não é falar apenas no aspecto externo da linguagem. Se falo apenas em significante, não estou ainda falando em linguagem. Falar em forma é falar da roupagem da linguagem e do que essa roupagem cobre. Lembrando que a roupagem cobre, embeleza, e ao mesmo tempo dá sentido. O continente torna-se o conteúdo, e vice-versa.
Não há como se abordar a poesia de um âmbito puramente estético. Poesia é linguagem, e linguagem tem implicações políticas, sociais, religiosas, éticas... Linguagem inclui em si uma mundividência. A poesia, sendo linguagem, é uma mundividência. Ou cosmovisão. Prefiro o termo cosmovisão: tem muito maior amplitude.
Lembro-me de que eu definia poesia como uma forma que respira. Não contradiz o que eu disse aqui até agora. Reafirma. É ainda melhor definição: vai direto ao ponto. Se é uma forma que respira, não é uma forma fria. É uma forma com o homem dentro. Ou com o espírito, sinônimo de sopro, respiração, o que anima a poesia. Concluindo: a poesia é uma forma vivificada pelo espírito humano. É uma forma que respira.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
O tempo aberto
como um cadáver sobre a mesa
não digas nada
cala e escuta
contempla
o tempo não sangra mais
como um cadáver frio
O silêncio da pedra
na bengala
no cais agônico
na cal das palavras
um gavião voa de repente
instaura a claridade
o cinzel talha o silêncio
o sangue escorre da pedra ferida
Exultação
nenhum peixe
a noite me leva sobre
as casas da cidade
nenhuma estrela
os cascos dos cavalos
na praia
exultação
a língua me leva à origem
da minha face
Claridade
vejo a claridade
no âmago da rosa
a essência do sangue
uma árvore de luz
um peixe com sol
o mar desperta o azul
o céu mergulha na água
sou todo claridade
Além da memória
os barcos frágeis da tarde
nas ondas
nas rochas do mar
e a minha língua na mão
na ponta dos dedos
o coração naufraga
com a água do crepúsculo
estou só como uma gaivota
na linha do horizonte
A língua no muro
a palavra dói
pedras entre os dentes
e terra terra terra
é preciso quebrar a palavra nos dentes
para que floresça
A flor do pássaro
o pão e a água
o corpo da mulher
aberto
na relva tranquila
como se voasse
A eternidade
sobre o mar
um cântaro de sombra
um cão
a água parada
uma flor de luz
A esmeralda
a esmeralda brilha
estrela, cristal
as quilhas quebradas
da linguagem
a forma da pedra
na luz
A árvore agônica
o silêncio do pássaro
na árvore
afoga
estrangula a luz
é uma pedra que cai
no abismo
a árvore agônica
inexiste
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
A flor de maracujá
Ruínas
A solidão do poeta
Todos os homens nascem condenados à solidão. Sempre falta algo que lhes preencha a alma. Sempre sobra um vazio interior. Pode haver aquele auto-suficiente, que se julga superior, frio e calculista, e acha não necessitar da poesia. Se nem esse vazio interior tem! Se nem interior tem! Pois, por isso mesmo, esse é que precisa mais da poesia. Mais do que para preencher o vazio que todos nós temos uma vez ou outra, quando nos confrontamos com nós mesmos. Para dar-lhe essa vida interior que lhe falta, para torná-lo humano.
Ledo Ivo diz que a poesia é a arte de fazer poemas, mas também uma visão do mundo, é existencial, reflete tudo que o homem sente e sonha. É experiência pessoal, intransferível. O trabalho do poeta é, portanto, enorme: transferir o intransferível. É espelhar com as suas imagens todos os anseios e sentimentos do homem, todo o mundo que a sua consciência cria, lá no fundo dessa consciência, no inconsciente, onde nem ele mesmo sabe que tais sonhos e alucinações existem.
O poeta português António Ramos Rosa disse que quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta. Comunica-se com a solidão dos outros homens. Preenche-as. Torna a alma desses outros homens mais pura, com a ascese das suas imagens. Por isso disse ainda que o poema é um arbusto que não cessa de tremer. Eu diria mais: que o poema é a sarça ardente, porque é animado pelo sopro de Deus. Daí a importância do trabalho do poeta, esse ser inútil. Daí porque a poesia não é necessária, mas é. É um sinal da presença de Deus entre os homens. Somente Deus poderia insuflar vida aos homens, no íntimo da solidão humana, como a poesia faz.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
o pássaro azul
A tartaruga azul
A tartaruga no fundo do mar azul
nada com a delicadeza de uma pétala
no ar
que paira
paira
paira
como se não quisesse nunca mais
cair.
A tartaruga azul no fundo do mar
paira como um pássaro
no ar
azul
que não quisesse nunca mais
deixar
de voar.
A tartaruga azul é tão leve
no fundo do mar
azul
como um pétala
ou um pássaro no ar
azul.
A tartaruga azul será sempre
azul
como o mar
azul
e o ar
e a pétala
e o pássaro
azul.
domingo, 25 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Caos
Sou eu
Concha

Os pescadores remam
sob as estrelas.
A lua flutua na água do lago,
prata sobre a prata
brilhando
como um espelho.
Pesa o silêncio
das casas fechadas,
mas uma ou outra luz
bruxuleia ainda.
A urna fechada pulsa
como um coração.
Os teus olhos encontram
os meus, com lágrimas.
A montanha aponta o céu
com as suas árvores nuas,
que dor!
na concha da ausência.
Uma palavra na minha mão
se esfarela como cinza.
A borboleta
Anoitecer
Os cães disputam o osso da tarde
com o sol dentro.
O morro explode com o sangue
dos caracóis.
A parede me limita mais que
a faca na garganta.
Meu corpo cai do sétimo andar
a minha alma voa como um pássaro
ou um anjo subliminar.
Tenho o deserto na pele
nas unhas e no
relógio inútil.
Os cães latem
os gatos no telhado
namoram a lua.
Como um epitáfio
gravado
na pedra
como um epitáfio.
Do dia morremos,
da noite nascemos.
Viver é medir
a poeira da morte.
A luz nasce
dessa poeira.
(2007)
Ponte
O lagarto
No meio do caminho
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Inger Christensen
Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio
de outro modo como poderia
a eternidade deslizar
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Edgard Allan Poe

Este poema se desprega do
tempo e compõe um sonho sem memória.
Sua velhice adormecida canta
a mesma repetida história tonta,
na voz ferida de registro torto
constante desatrela o corvo absorto
de outro poema crocitante vate.
Seu encanto repousa em seios ocos
gretados de monótonos torpores.
Os olhos comem terra, sangue e mofo,
a insânia acalentando ovos gorados
num jazigo de lavras e mistério.
Um manicômio de palavras túrgidas
dorme no descalabro da consciência.
Homenagem a Edgard Allan Poe, no bicentenário de seu nascimento (19-01-1809).
domingo, 11 de janeiro de 2009
A morte do poema
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Insônia
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.
Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Esquece quem sou, ao pé do meu túmulo.
A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro do tempo
Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.
Os discípulos de Emaús
Conversam com o pescador solitário
Mas não o reconhecem.
Revela as escrituras, o verbo de Deus
Diz que é tarde, virá numa rede de estrelas
Os homens abrem os olhos, mas não vêem.
As portas se abrem, o estranho entra com eles
Senta-se à mesa, fala da água do caminho
Mas não o reconhecem.
Trazem o pão, o estranho o parte
Os olhos se abrem e vêem
O Senhor caminhou com eles, ensinando.
Os homens não conseguem ver Deus
Estamos sós, ficai conosco, Senhor.
(Sempre quis fazer um poema com este tema. Ei-lo. 7-12-08)
A Árvore e a Cruz
Dois galhos abriam-se como dois braços.
Era uma estranha forma de beleza
Algo de perigo, mistério ou sagrado.
Um líquen avermelhado coagulara-se pelo tronco
Onde deveriam estar os pés e mãos do crucificado.
Umas poucas folhas verdes, muito delicadas
Procurei e descobri escondida uma flor, já seca.
Sem pensar estendi os braços na cruz
A lua tingiu-se de um vermelho opaco
Um vento frio feriu-me as faces
E inesperadamente caí em mim:
A nostalgia é um sentimento universal
O homem busca suas origens; às vezes encontra-as, na cruz.
(A Árvore e a Cruz era uma crônica publicada no jornal A Tribuna, de Santos, em 1978. Mas foi concebida, a exemplo de Jorge Luis Borges, como poema. Daí, foi fácil hoje dar-lhe forma de poema. 8-12-08)
A copaíba
ODE À CIDADE - a Bauru no seu centenário
foto: Nilton Scudeller
Saída de Itaguá
O barco descansa na praia
A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol
Urubus ao lado esperam inquietos
Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar
As ondas brancas quebram-se na areia
O peito branco dos atobás eleva-se muito alto
Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas
Para os urubus e depois para os atobás no mar
Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica
Onde o mar desenhou árvores delicadas
Procuro as flores e os frutos nos galhos
Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha
O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar
Como um cachorro o universo lambe os meus pés.
(Crônica já apresentada aqui, mas como era mais poema que crônica, apresento-a agora em novo formato, de poema. Era tanto poema, tão síntese como um poema quer ser, que não lhe suprimi nenhuma palavra.)
(8-12-08)
viagem
o céu azul e as nuvens brancas
sobre o campo verde as árvores
verdes e os bois até os bois verdes
porque tudo é verde nesta paisagem
uma colina verde se ergue contra o
céu azul agora com mais nuvens
muito brancas e um eucalipto verde
perfurando-as e logo muitas árvores
engolem a estrada como um abismo
verde e aquela nuvem branca todas as
nuvens são brancas aquela nuvem branca
é um bebê engatinhando no azul cerúleo
e uma garça leva o bebê no bico leve
o bebê que se esgarça como paina leve
no azul do céu sobre o campo verde
(25-12-08)
















