sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A mesa dos mortos

Um socó desafia uma garça, abaixo da Ponte Velha, de Barra Bonita,
apontando para a estrada de Igaraçu do Tietê, de 1 km. que eu garbosamente 
percorri muitas vezes brincando, quando criança.




A MESA DOS MORTOS


Os mortos acordam, sentam-se à mesa comigo.
Têm pedras nas mãos e pássaros sobre os ombros.
É perigoso que as pedras matem os pássaros.
As palavras são pesadas como pedras.
Às vezes é preciso que as palavras matem os pássaros.

A minha mãe e o meu pai contam histórias.
Têm terra na boca e contam histórias.
As suas palavras são como a água no meio do mato.
Nas suas palavras, a alma de todos os que vieram antes.

O meu avô corta lenha com um machado negro.
O machado do meu avô corta a lenha da memória.
Se é verde, fica a secar ao sol.
É preciso apagar a memória das árvores.
Tanta água represada.

Deus preside a conferência dos mortos.
Deus guia a minha mão.
Não escreve por mim: muitas vezes apaga o que escrevo.
Deus me ensina: as palavras morrem.
As palavras precisam apagar o que existe.
É preciso deixar lugar para o eterno.




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            Poema de 2007.

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10 comentários:

Jota Brasil disse...

O poema não é ruim. Talvez ele tenha se desencontrado um pouco nas entrelinhas, mas não se pode chamar ruim uma coisa que toca e mexe com a alma...

Sândrio cândido. disse...

Concordo com o jota.

Unknown disse...

LINDO POEMA!

Imaginar a "fala" dos mortos, as pedras e os pássaros a lenha verde como verde era o lenho. E Deus presidindo a conferência.

Gostaria de estar aí. Eu li seu recado, mas dá para perceber a intimidade entre vocês.

Se a idéia é bonita, o poema é bom!

Beijos, poeta!

Mais uma vez, PARABÉNS pelo NÌVER!

Mirze

dade amorim disse...

O poema não é ruim, José Carlos - é sensível, fala e perturba quem o lê, no bom sentido da poesia de qualidade. Talvez alguma mudança na forma pudesse ser feita, mas isso não é o essencial.

Beijo pra você.

Mar Arável disse...

A vida dos criativos

não é fácil

Luiza Maciel Nogueira disse...

a idéia é muito bela e o poema tem seu encanto e sua sabedoria sim poeta! é preciso deixar o verso ser :)
beijos

Edson Bueno de Camargo disse...

2007 foi um ano estranho para a poesia.

Gosto muito quanto o amigo nos mostra a morte como um monge franciscano. Esta é uma legítima natureza morta.

Claudia Almeida disse...

Não estamos na lista dos poetas mortos, Deus nos brinda com a poética do Brandão!Bjs

Lídia Borges disse...

Realço o aspecto visual que é fantástico.

Um beijo

BAR DO BARDO disse...

Muito bom.

Namastê!