quinta-feira, 3 de novembro de 2011

AS RUAS DA CIDADE






































1.      O ELMO

Uso um elmo de pedra
para lutar ao sol ou à noite.


2.      AS PEDRAS

Deitamos sobre as pedras do caminho.
Quando acordamos, eram ossos.
Respiravam, tocavam flautas.


3.      ENCONTRO

Vivemos em uma ilha
exilados de nós mesmos.
Talvezs um dia nos encontremos
na morte.


4.      O MURO

O muro é o meu limite.
A luz é fria, o escuro é frio.
Os meus pulmões secam, sem ar.
Sou como Penélope, tecendo e destecendo
as ruas da cidade.


5.      O TEMPO

O meu tempo não é o meu tempo.
Eu não faço parte destes homens, destas mulheres.
Sou uma sombra, um esqueleto, o esquecimento.


6.      COMPANHIA

Deitei sobre uma pedra
com a história da minha vida e da minha morte
ronronando em silêncio.


7.      ECCE HOMO

Não sou Deus.
Não sou o demônio.
Sou um homem com as minhas dores
e as minhas contradições.


8.      SOLIDÃO

Fechei a porta (fechei a pedra)
para ficar a sós com a minha angústia.


9.      POLÍCIA

Um homem matou a mulher a pauladas:
ele a amava.
Uma mulher envenenou o marido
por amor.
A sombra da polícia cresce no muro.


10.  ESTRANHEZA

Pode vir a velhice.
Pode vir a loucura.
Pode vir até a sensatez.
Serei sempre um estranho.


11.  CENSURA

Não escreva sobre a morte.
Não escreva sobre o sangue derramado.
Não escreva sobre a solidão, a angústia, o esquecimento.
Dizem, dizem.
Não querem que eu escreva sobre a vida.


12.  O OSSO

Os cães latem no beco,
disputam um osso seco.
Fico de quatro
como eles
roendo o osso da solidão.




5 comentários:

Wilson Torres Nanini disse...

José Carlos,

de joelhos e peito aberto, agradeço a aula poética.

Forte abraço!

Unknown disse...

José Carlos Brandão!

Todos Maravilhosos.

SOLIDÃO!

Nunca li nada tão certo.

Beijos, poeta!

Mirze

Luiza Maciel Nogueira disse...

Concordo muito, demais com o "MURO", adorei adorei! É exatamente assim! Beijos.

Fernando Campanella disse...

Pinceladas existencialistas, onde buscamos saídas para, não decifrar, mas tornar mais leves as questões da vida. E são profundas questões a que os poetas dão voz.
Forte abraço, Brandão, saudade de nossos contatos.

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

Diante das ruas e dessa horizontalidade enfadonha, nada melhor que o descanso e a companhia de uma pedra para me sentir um pouco mAis homem, um pouco mais pedra. Muito bom, Brandão! abs