sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma parábola




UMA PARÁBOLA


Você sabe a diferença entre o filósofo e o teólogo? O primeiro é o homem cego num quarto escuro procurando um gato preto. O segundo é o homem cego no quarto escuro procurando um gato preto que não está lá.
Essa historinha foi um teólogo quem me contou. Como sou poeta, vou meter o bedelho e continuar. O terceiro é o poeta: o homem cego no quarto escuro procurando um gato preto que não está lá, com uma pedra em cada mão.
O filósofo não encontra o que procura, mas sabe que está lá. O teólogo também não encontra o que procura, mas sabe que existe. O poeta é cego como os outros, porque todo homem é cego, mas bate uma pedra contra a outra e vê a iluminação no escuro. Saber que existe essa iluminação lhe basta.



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O outro deserto (poeminhas)




O OUTRO DESERTO

Na areia sob a água
a memória do deserto.


O PÁSSARO AZUL


Eu vi um pássaro azul.
A paisagem está perfeita.
Nada mais é preciso.


A ROSA

As pétalas como lábios
da beleza viva.

 
IMAGEM

Sou uma imagem
na água turva do tempo.


INFINITO

Infinito como a areia
o bronze do mar.


O SOL DA GALINHA

A galinha e a sombra
uma minhoca medrosa
o mundo do sol.


LÁZARO

Por que Lázaro volta à vida
com a memória das estrelas
e da areia do deserto?
Bastava-lhe um infinito.


CAVERNA

Nas paredes da caverna
dormem figuras estranhas
e uma sombra, talvez a minha.


A ÁRVORE SECA

A árvore seca
as águas do rio correm
sob o céu azul.


AS GALINHAS

As galinhas marcham
no galinheiro apertado
exercício ao sol.







sábado, 8 de janeiro de 2011

O gavião e a pomba




O GAVIÃO E A POMBA


O gavião grita no ar, mas não é o seu grito de alerta, vitória e domínio. É um grito de medo. Um bem-te-vi persegue-o, bica em desespero furioso o seu dorso, o pescoço, as asas frágeis.
O gavião carrega uma pomba nas garras, seu troféu, seu alimento. Voa no baixo, sem velocidade, é presa fácil de pássaros menores como o bem-te-vi. Foge de uma árvore a outra, não consegue esconder-se.
Logo mais dois, três bem-te-vis somam-se ao primeiro no ataque ao inimigo. O gavião larga a presa no meio da rua. Observo temeroso a pomba encolhida entre os carros, vítima do trânsito feroz.
O gavião busca abrigo na torre da igreja. Os desvalidos sempre procuraram refúgio na igreja. Hoje o gavião é um refugiado, e a igreja – a Igreja Santa Teresinha – há tempos é a morada de sua família.
Levo a pomba para casa. Sangra, as garras do gavião penetraram-lhe o corpinho delicado.  Pulsa, com um fio de vida, não deve resistir muito. Seguro-a com cuidado entre os dedos. A Sônia trata as suas feridas, aproxima-lhe pão embebido em leite do biquinho trêmulo.
A morte pinga dos seus olhinhos angustiados.
Ela dá duas bicadas fracas num pedaço de pão. Depois, pende a cabeça para o lado, deixa cair um último suspirozinho, e morre.
Enquanto escrevo, ainda ouço o grito do gavião. Mesmo quando o gavião tem a sua hora de fraqueza, e não pode fazer outra coisa a não ser fugir, mesmo assim tem as garras mortais.
A Sônia lembra a pombinha e, como se estivesse compondo um poema, entoa:
– Eu a alimentei com a morte.



________________


Esta é minha última crônica, de hoje. Tentei fazê-la pequena, de umas dez linhas. Precisei de três vezes mais.   

Há leitores que se confundem com o título deste blog. Como se a palavra "crônica" fosse adjetivo de "poesia" : a poesia quase como uma doença crônica - ou, vá lá, qualidade ou estado de espírito constande do autor. 

Não meus caros: Quem não me entendeu, desculpe-me. Este blog foi criado para postar crônicas e poemas. Principalmente crônicas. 

Depois, sentindo a dificuldade de se ler crônicas ou qualquer texto um pouco longo, num blog, fui deixando-as inéditas. Ou mesmo deixei de escrever. 


Era o mote que voltei a expor lá no cabeçalho: um registro do tempo que passa.


Esta crônica de hoje narra um fato que a Sônia já registrou em um poema, com a concisão lá dela. Está aqui, no nº 6 destas belas inscrições.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TÓLSTOI ESPERA O TREM NA ESTAÇÃO DE ASTAPOVO

                                                                 Estação de Astapovo - foto da web
                        

                          
TÓLSTOI ESPERA O TREM NA ESTAÇÃO DE ASTAPOVO

Tolstoi espera o trem na estação: é preciso partir. Todos
esperamos na estação: a partida é inadiável.
A fumaça sufoca, turva
os olhos, cega e estonteia
e nem percebemos que o trem chegou
e partimos.

É noite. Mar, rochedos, estrelas.
Os mortos desfilam aos pares, cantando uma canção interminável.
Um cachorro balança o rabo para os homens.
Tolstoi dorme num canto, à espera do trem.

O que é a verdade?
Por que Deus não fala alto e claro?
Por que os homens não ouvem as palavras de Deus?
Pai!
Ó Pai, por que me abandonaste?
O cristal do cálice se parte
sob as pálpebras.
Pendo a cabeça à beira do poço. Tolstoi e eu morremos na estação
de Astapovo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As palavras no jardim




AS PALAVRAS NO JARDIM


As palavras crescem no jardim
entre as pedras
e os cavalos descuidados.
Têm cicatrizes
ou tatuagens
na fronte
como flores sinistras
dançando no abismo.

Qual a chave?
Que símbolo me revela?

Os cabelos crescem nos telhados
e debaixo da terra,
vermelhos.
O sol derrete o chumbo
dos cata-ventos.

Um galo canta
no monturo
a verdade
escrita com sangue.
Crescem as unhas
do tempo.

A linguagem
dos peixes
no vento
acorda antigas crenças.

Dai-me
a âncora
do mundo,
ó timoneiro da aurora.



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

AUTORRETRATO COM VOTOS DE FELIZ ANO NOVO



                                
AUTORRETRATO
COM VOTOS DE ANO NOVO


Quiseram-me para padre
mas era muito difícil
viver com a molecada
no seminário dos padres

(dos futuros padres – na marra!
porque muitos são chamados
e poucos os escolhidos
– e quem não é escolhido
vai para os quintos do inferno!)

O jeito foi descobrir
a poesia – sinal de liberdade
com um anjo de cada lado
e as duas mãos de Deus no meio

Deus nunca mais me largou
por mais que eu esperneasse
fizesse o diabo a quatro
e ficasse todo estropiado
de não ter mais jeito não

A poesia nunca mais me largou
por maior que fosse a preguiça
e esperasse que os poemas
caíssem se espiralando do céu
– nem que fosse o céu das cabras
ou dos bodes chupando manga

Poesia é iluminação
mas Deus não dá assim de graça
é preciso quebrar a cabeça
o joelho e o tornozelo
brigar com os anjos como Jacó
tirar leite da pedra
e sangue da terra

(Verdade que certos poemas
não têm jeito não
Como talvez
este que lês
que é como pau que nasce torto
Também, não briguei com a cobra
nem briguei com nenhum anjo)

Juro que sou feliz
como Mário de Andrade
que morria de sofrer
mas achava a vida gozada
e proclamava: “A própria dor
é uma felicidade.”

Neste ano que principia
desejo a todos muita poesia
paz, saúde e alegria
Deus esteja com vocês
meus amigos, meus inimigos

(mas eu não tenho inimigos!)

As sementes do amor
se multipliquem em todos
os corações – e Viva a vida!



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O relógio (poeminhas)




                                
CORES

A flor e o coqueiro
disputam o céu azul.
O verde e o vermelho


O RELÓGIO

O relógio cego
chora de hora em hora
a cinza do tempo.


A FERRUGEM

A ferrugem cobre de ouro a chave.


A CHUVA

A chuva lava a terra
nua, sensual, mortal.


O POEMA

O poema é o leito de um rio
com a água e os peixes sempre novos.


ANIMAL

Sou um animal estranho
tão humano
diante de uma pedra.


A ROSA

A rosa floresce
e esquece.


A FÉ

A fé move montanhas.
(Às vezes apenas um rato.)


A ROSA DE DEUS

Onde a rosa de Deus?
Sonho a forma da luz
sobre a roseira.





segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os morcegos verdes (poeminhas)



                                        
COMPOSIÇÃO

O pássaro e a flor
compõem a paisagem.


CÍRCULO

O círculo da pedra na água
renova-se em outro círculo
até desaparecer.


ALTURA

O sol e o vento,
entre as árvores e o céu,
conversam na montanha.


PERFUME

Daquela noite, a vida,
resta apenas
um perfume de jasmim.


O MINOTAURO

O Minotauro morreu,
com o seu labirinto de estrelas,
quando eu morri.


MORCEGOS VERDES

No beiral da casa,
como morcegos verdes,
as duas maritacas.


A COR DA AURORA

O poema sabe
a cor da aurora,
mas cala.


A LUA NO LAGO

A lua no lago
coaxa como uma rã.


ESTRELAS

Estrelas se apagam
no pasto, entre os pirilampos.


O MELRO

O canto do melro
embala as águas do rio.





quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O mistério do Natal

                                 

                  
O MISTÉRIO DO NATAL


E o anjo do Senhor anunciou a Maria
E ela concebeu do Espírito Santo.
Dois mil anos se passaram
E ainda se ouvem as trombetas da alegria.
A estrela brilha no alto da montanha
E ilumina o universo de esperança.

A terra inteira festeja o Mistério.
O primeiro milagre de Jesus
Não foi mudar a água no vinho em Caná,
Mas tornar-se homem no ventre de Maria.
Sem deixar de ser Deus,
Jesus se esvaziou da divindade,
Ganhou carne e alma humana para a Redenção.

O homem não se salvaria
Se o Salvador não nascesse de Maria.
Os pastores e os reis adoraram o Menino
Envolto em panos e deitado na palha,
Deitado no leito de madeira como a cruz do Amor.

Maria é a nova Eva,
com a maçã na mão e a serpente aos pés,
Jesus é o novo Adão
Da aliança eterna, sempre nova.
O pão e o vinho são a carne e o sangue
Da ação de graças de toda a Criação.

E tudo começou na estrebaria,
O Menino nascendo de Maria.
Cantamos a primeira igreja: Jesus, Maria e José.
Na sagrada família de Nazaré
O amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.


_________
Escrevi vários poemas de Natal. O melhor foi postado neste blog há um ano - quem não viu ou quer recordar, está aqui. É mais a minha cara, minhas inquietações, meu carinho especial por aquela terra, onde um dia foi a Mesopotânia, onde correm os rios Eufrates e Tibre, que banhavam o Paraíso Terrestre. O poema trata da invasão anterior, é de 1998.
Este é mais didático, doutrinal, feito de encomenda, mas a grandeza da festa da Encarnação de Deus tem muita poesia que merece ser mostrada.
Feliz celebração do Natal de Jesus. 




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O rio do tempo e outros poeminhas




A SOMBRA DO RELÓGIO

A sombra do relógio
com seu pêndulo implacável
no espelho.


O DIA IMÓVEL

O dia imóvel,
na planície deserta,
passa.


LOUSA

Passou por aqui.
(Nem a sombra deixou.)


ESTRELAS CRUÉIS

Ó estrelas cruéis
zombando da sorte
como pedras vivas.


O RIO DO TEMPO

Ouça, na sombra,
o rio do tempo.


A PORTA DA LEI

Cheguei à porta da lei, com Kafka ao lado.
Sorrimos tristes para a areia da ampulheta.


CAIM

Os filhos de Abel
chamam-se, todos, Caim.


A BORBOLETA

A borboleta azul, preta e branca
no tronco sem casca da árvore.
Medita sobre a sua sombra verde.


BRONZE

Inscrevo o meu poema
no bronze do mar.



sábado, 18 de dezembro de 2010

Poema de Natal



poema de natal 1984

o céu não está mais próximo nem mais frio
somos quem somos
sem nenhuma angústia
nenhum pesar

sob os brancos lençóis
entre as tuas coxas
amor
a rosa efêmera
mas eterna
no mito de que somos feitos

teu coração bate mais forte
numa certeza única
e múltipla
como as sendas da noite inumerável

o poema é uma pedra de fogo
queima os olhos
e o vôo dos anjos

é natal
nasce a estrela
sábia e ingênua como a água

existimos
não sofremos
nascemos no sonho
e acordados
nos reintegramos à sombra cotidiana

submersos no mistério
amor
somos o sonho

natal
nasce o deus
que em nós adormece
e sonha





quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Arte poética

IL PESCATORE FILANDO LA RETE



           Arte poética


Quero escrever como um velho que tece a sua rede
até gastar os olhos e os dedos, como Penélope
à espera de Ulisses, como Ulisses
enfrentando a morte mil vezes.

Quero escrever como o ferreiro moldando o ferro em brasa
na forja, como o escultor moldando
a pedra fria,
como um louco
tirando leite da pedra
e bebendo.

Quero escrever como uma criança
esperando a pedra florescer.

Quero escrever como o meu pai
preparando a terra
e esperando
a chuva e o sol,
o tempo de plantar e o tempo
de colher.

A poesia é um longo exercício de paciência.
A palavra precisa morrer, como a semente, para renascer.

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