
Uma borboleta pousada
no cadeado do portão
como uma flor amarela
depois azul e vermelha
um pássaro canta
ela bate as asas
bate bate as asas
para que o pássaro cante
e ele canta.
Os cães disputam o osso da tarde
com o sol dentro.
O morro explode com o sangue
dos caracóis.
A parede me limita mais que
a faca na garganta.
Meu corpo cai do sétimo andar
a minha alma voa como um pássaro
ou um anjo subliminar.
Tenho o deserto na pele
nas unhas e no
relógio inútil.
Os cães latem
os gatos no telhado
namoram a lua.

O barco descansa na praia
A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol
Urubus ao lado esperam inquietos
Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar
As ondas brancas quebram-se na areia
O peito branco dos atobás eleva-se muito alto
Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas
Para os urubus e depois para os atobás no mar
Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica
Onde o mar desenhou árvores delicadas
Procuro as flores e os frutos nos galhos
Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha
O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar
Como um cachorro o universo lambe os meus pés.
(Crônica já apresentada aqui, mas como era mais poema que crônica, apresento-a agora em novo formato, de poema. Era tanto poema, tão síntese como um poema quer ser, que não lhe suprimi nenhuma palavra.)
(8-12-08)
o céu azul e as nuvens brancas
sobre o campo verde as árvores
verdes e os bois até os bois verdes
porque tudo é verde nesta paisagem
uma colina verde se ergue contra o
céu azul agora com mais nuvens
muito brancas e um eucalipto verde
perfurando-as e logo muitas árvores
engolem a estrada como um abismo
verde e aquela nuvem branca todas as
nuvens são brancas aquela nuvem branca
é um bebê engatinhando no azul cerúleo
e uma garça leva o bebê no bico leve
o bebê que se esgarça como paina leve
no azul do céu sobre o campo verde
(25-12-08)
o lagarto abana a cauda
ergue as patas pesadas com sombra
e a língua vermelha aponta o caminho o
corpo rajado sobre a sombra
no cimento negro entre a folhagem verde
tanto verde a língua se estende
vermelha entre o verde adora a borboleta
branca e vermelha e o beija-flor quieto no galho
os olhos do lagarto e os olhinhos do beija-flor
se encontram e se encantam na tarde clara em
cantante êxtase
Alguma coisa nós temos em comum. Algumas coincidências no mínimo curiosas. Veja só: Cony não falou até os cinco anos, depois tomou um susto e desandou a falar, mas errado, ininteligível, como se tivesse a língua presa. Tinha. Foi operado com treze anos, mas ainda não falava coisa com coisa. Era a dislexia no caminho. Fez exercícios com bolas de gude na boca. Acabou falando até profissionalmente.
Eu falava errado e era motivo de gozação para todo mundo. Aprendi a falar com quinze anos. Estava no seminário e me autodiagnostiquei uma provável dislexia. Como não fui orientado por ninguém, não fiz exercícios com bola de gude, mas com pedras mesmo, como Demóstenes. Aprendi a falar e, praticamente só então, a ler e escrever.
Cony foi para o seminário com uns doze anos, eu também. Ele porque queria fazer bonito. Eu porque não sabia dizer não. Saímos quase oito anos depois. Cony diz que perdeu a fé, e a saída do seminário foi traumática. Deve ter jogado um palavrão na cara do padre Reitor como eu: isso é motivo para uma saída traumática. Eu um dia voltei à religião – e ele afirma que, se pudesse voltar atrás, se ordenaria padre.
Cony fez curso de línguas neolatinas, que não concluiu. Eu sou licenciado em Letras Vernáculas, tenho registro do MEC de professor de português, francês e latim, mas não me formei em neolatinas por teimosia. E as coincidências acabam aí, já é muito, não?
Mas vou dizer ainda que o primeiro livro de Cony que li foi “Informação ao Crucificado”, que narra a sua experiência de seminarista. Escrevi também um romance narrando a minha experiência. Ganhei o Prêmio Nac. de Lit. “Cidade de B. Horizonte” com ele, mas não foi publicado. Então, apresentei-o ao Prêmio SESC de Literatura e ficou entre os finalistas. Cony era um dos jurados e acredito, como consolação, que tentou premiar seu irmão espúrio.
Manuel Bandeira tinha um piano na alma
Com o teclado à mostra.
Eu, rilhando os dentes,
Carrego um piano nas costas.
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(Autorretrato é o meu último poema de 2008 e primeiro na nova ortografia.
Auto-retrato é um justamente famoso poema de Manuel Bandeira. Agora rebaixado a Autorretrato. Deveria haver um adendo nas leis ortográficas: não mexer no título das obras consagradas, aliás, em nenhuma palavra do texto. Nem nas maltratadas ou esquecidas pelo tempo, esse juiz implacável, às vezes injusto como qualquer juiz.)