quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A borboleta















Uma borboleta pousada
no cadeado do portão

como uma flor amarela
depois azul e vermelha

um pássaro canta
ela bate as asas

bate bate as asas
para que o pássaro cante

e ele canta.

Anoitecer



Os cães disputam o osso da tarde

com o sol dentro.


O morro explode com o sangue

dos caracóis.


A parede me limita mais que

a faca na garganta.


Meu corpo cai do sétimo andar

a minha alma voa como um pássaro


ou um anjo subliminar.


Tenho o deserto na pele

nas unhas e no


relógio inútil.


Os cães latem

os gatos no telhado


namoram a lua.

Como um epitáfio

O poema
gravado
na pedra

como um epitáfio.

Do dia morremos,
da noite nascemos.

Viver é medir
a poeira da morte.

A luz nasce
dessa poeira.

(2007)

O crime

A noite
dentro
da pedra.

Eu sou culpado
desse crime.

Eu matei
a rosa.

(2007)

Ponte

















Olhar é ponte
e as águas passam

debaixo

um pássaro acima
e uma flor

teus lábios feridos
sangrando

de tanta cor
e sol na pele

da alma.

O lagarto


















O lagarto abana a cauda
as duas patas no ar

sobre a sombra

estende a língua
vermelha

lambendo o sol
e o verde da paisagem

o olhar oblíquo
colhe a borboleta

nas margaridas amarelas.

No meio do caminho


















Tinha uma estrela no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma estrela

tinha uma estrela no sapato
tinha uma estrela na língua

mastigava estrelas com a boca aberta
e os olhos fechados

para ver por dentro.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Inger Christensen

Morreu Inger Christensen, poetisa dinamarquesa (8-01-09). Como se pode ser ao mesmo tempo suave e trágica? Como um relógio quebrado, as peças espalhadas na neve. Na ausência das horas, a eternidade dói.

Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Edgard Allan Poe


Este poema se desprega do
tempo e compõe um sonho sem memória.
Sua velhice adormecida canta
a mesma repetida história tonta,

na voz ferida de registro torto
constante desatrela o corvo absorto
de outro poema crocitante vate.
Seu encanto repousa em seios ocos

gretados de monótonos torpores.
Os olhos comem terra, sangue e mofo,
a insânia acalentando ovos gorados

num jazigo de lavras e mistério.
Um manicômio de palavras túrgidas
dorme no descalabro da consciência.

Homenagem a Edgard Allan Poe, no bicentenário de seu nascimento (19-01-1809).

domingo, 11 de janeiro de 2009

A morte do poema


Em primeiro lugar, a página branca. Ou a tela do computador. É sempre uma lápide. Como se fôssemos dizer a última palavra. O poeta, como qualquer homem, não sabe o que vai gravar, de definitivo, final. As palavras de um poema soam como definitivas. Epitáfios. Nada mais despojado do que uma lápide. O poema é nobre e frio como o mármore. Diante dele, diante da morte, o poeta é mais despojado ainda.

É poeta porque domina uma técnica. Mas em que essa técnica pode ajudá-lo? Ela não existe por si só. Dá forma a um sentimento. A ética está por trás desse sentimento. Está por trás do homem. Mas não é a ética, nem é o sentimento, que determinam o poema. A eclosão, a explosão do poema. Essa criança insegura entre o silêncio e a linguagem. Mal toma consciência do mundo, revela-se-lhe o quanto desconhece, o mistério à sua frente.

Chega uma hora em que a palavra é nada para o poeta. O poeta toma consciência, como uma criança diante do cosmos, de que há uma palavra absoluta. Inatingível. Qualquer poema é sempre o primeiro poema. É sempre essa tomada de consciência do absoluto. Um sentimento de impotência. Nada do que possa dizer transformará a realidade. No entanto, é preciso dizer. É preciso gravar a verdade final na lápide.

O poema é invenção. Apossa-se de todas as possibilidades. Nada lhe tolhe os passos. E, ao mesmo tempo, tudo. É um pássaro na palma da mão pronto para a possibilidade do voo. Sabendo que é apenas uma possibilidade. Com as asas cortadas, a garganta cortada, cego. Enfim, tudo lhe tolhe o voo. A possibilidade e a impossibilidade do voo são o território do poeta.

A essência do poema é a falta de sentido do universo, da palavra, da vida e da morte. Precisa gravar a lápide porque sabe que aquele instante não vai sobreviver. Precisa organizar o mundo para a morte. O êxtase da vida é desorganizado pela morte. Escreve para fixar esse êxtase. É um servo da incoerência: escreve para falhar. A lápide é gravada: o poema existe, falho e inútil, contra todas as expectativas.

8-01-09

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Insônia

Quem é a terra? Quem é o cavalo
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.

Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Esquece quem sou, ao pé do meu túmulo.

A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro do tempo

Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.

Os discípulos de Emaús

Caminham pela estrada de Emaús
Conversam com o pescador solitário

Mas não o reconhecem.
Revela as escrituras, o verbo de Deus

Diz que é tarde, virá numa rede de estrelas
Os homens abrem os olhos, mas não vêem.

As portas se abrem, o estranho entra com eles
Senta-se à mesa, fala da água do caminho

Mas não o reconhecem.
Trazem o pão, o estranho o parte

Os olhos se abrem e vêem
O Senhor caminhou com eles, ensinando.

Os homens não conseguem ver Deus
Estamos sós, ficai conosco, Senhor.


(Sempre quis fazer um poema com este tema. Ei-lo. 7-12-08)

A Árvore e a Cruz

A árvore tinha a forma de uma cruz
Dois galhos abriam-se como dois braços.

Era uma estranha forma de beleza
Algo de perigo, mistério ou sagrado.

Um líquen avermelhado coagulara-se pelo tronco
Onde deveriam estar os pés e mãos do crucificado.

Umas poucas folhas verdes, muito delicadas
Procurei e descobri escondida uma flor, já seca.

Sem pensar estendi os braços na cruz
A lua tingiu-se de um vermelho opaco

Um vento frio feriu-me as faces
E inesperadamente caí em mim:

A nostalgia é um sentimento universal
O homem busca suas origens; às vezes encontra-as, na cruz.


(A Árvore e a Cruz era uma crônica publicada no jornal A Tribuna, de Santos, em 1978. Mas foi concebida, a exemplo de Jorge Luis Borges, como poema. Daí, foi fácil hoje dar-lhe forma de poema. 8-12-08)

A copaíba

















A copaíba


O sangue verde nas veias
As folhas verdes gritam
O tronco gordo se esparrama
A grande copa cobre a areia branca

Os galhos vertiginosamente para os lados
Como se não houvesse espaço acima ou abaixo

A copa baixíssima cobre a cidade
Os galhos larguíssimos abraçam os quatro pontos cardeais

A árvore em oração de joelhos no seu diminuto altar
Um candelabro de folhas verde louvando a Deus
É a mãe ungindo com o óleo a terra como um filho
A copaíba é o símbolo da vida contra a farinha da morte

É o universo que nos estende os braços
São os braços de Deus abençoando a cidade.

(A Copaíba era uma crônica, que agradou muito, falava afinal de um ícone, a Copaíba, proclamando-a símbolo de Bauru. Mas a crônica era péssima, palavrosa demais, gordurosa. Tentei extrair dela o essencial, neste poema. 8-12-08)

ODE À CIDADE - a Bauru no seu centenário


                                                                                                                                      foto: Nilton Scudeller



Ode à cidade
                            a Bauru no seu centenário

O verde se evola
no ar.
A areia
branca
me foge entre os dedos,
poalha de estrelas
que o céu destila.
Caminhos se bifurcam,
         artérias
         de um coração multiplicado.
Voo pelas ruas
com os olhos
brilhando de memórias,
Árvores
e casas
e homens
mergulham por mim a dentro.
Os rastros de meus pés
permanecem,
alheios ao tempo
que se escoa.
Os limites se esvaem
da bússola
ou da palma da mão.
Em meu peito
 pulsa
 o pulmão do universo.
                                                             






Saída de Itaguá



O barco descansa na praia

A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol


Urubus ao lado esperam inquietos

Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar


As ondas brancas quebram-se na areia

O peito branco dos atobás eleva-se muito alto


Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas

Para os urubus e depois para os atobás no mar


Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica

Onde o mar desenhou árvores delicadas


Procuro as flores e os frutos nos galhos

Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha


O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar

Como um cachorro o universo lambe os meus pés.



(Crônica já apresentada aqui, mas como era mais poema que crônica, apresento-a agora em novo formato, de poema. Era tanto poema, tão síntese como um poema quer ser, que não lhe suprimi nenhuma palavra.)

(8-12-08)


viagem


o céu azul e as nuvens brancas

sobre o campo verde as árvores


verdes e os bois até os bois verdes

porque tudo é verde nesta paisagem


uma colina verde se ergue contra o

céu azul agora com mais nuvens


muito brancas e um eucalipto verde

perfurando-as e logo muitas árvores


engolem a estrada como um abismo

verde e aquela nuvem branca todas as


nuvens são brancas aquela nuvem branca

é um bebê engatinhando no azul cerúleo


e uma garça leva o bebê no bico leve

o bebê que se esgarça como paina leve


no azul do céu sobre o campo verde


(25-12-08)


êxtase

o lagarto abana a cauda

ergue as patas pesadas com sombra


e a língua vermelha aponta o caminho o

corpo rajado sobre a sombra


no cimento negro entre a folhagem verde

tanto verde a língua se estende


vermelha entre o verde adora a borboleta

branca e vermelha e o beija-flor quieto no galho


os olhos do lagarto e os olhinhos do beija-flor

se encontram e se encantam na tarde clara em


cantante êxtase


(25-12-08)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cony e eu

Alguma coisa nós temos em comum. Algumas coincidências no mínimo curiosas. Veja só: Cony não falou até os cinco anos, depois tomou um susto e desandou a falar, mas errado, ininteligível, como se tivesse a língua presa. Tinha. Foi operado com treze anos, mas ainda não falava coisa com coisa. Era a dislexia no caminho. Fez exercícios com bolas de gude na boca. Acabou falando até profissionalmente.


Eu falava errado e era motivo de gozação para todo mundo. Aprendi a falar com quinze anos. Estava no seminário e me autodiagnostiquei uma provável dislexia. Como não fui orientado por ninguém, não fiz exercícios com bola de gude, mas com pedras mesmo, como Demóstenes. Aprendi a falar e, praticamente só então, a ler e escrever.


Cony foi para o seminário com uns doze anos, eu também. Ele porque queria fazer bonito. Eu porque não sabia dizer não. Saímos quase oito anos depois. Cony diz que perdeu a fé, e a saída do seminário foi traumática. Deve ter jogado um palavrão na cara do padre Reitor como eu: isso é motivo para uma saída traumática. Eu um dia voltei à religião – e ele afirma que, se pudesse voltar atrás, se ordenaria padre.


Cony fez curso de línguas neolatinas, que não concluiu. Eu sou licenciado em Letras Vernáculas, tenho registro do MEC de professor de português, francês e latim, mas não me formei em neolatinas por teimosia. E as coincidências acabam aí, já é muito, não?


Mas vou dizer ainda que o primeiro livro de Cony que li foi “Informação ao Crucificado”, que narra a sua experiência de seminarista. Escrevi também um romance narrando a minha experiência. Ganhei o Prêmio Nac. de Lit. “Cidade de B. Horizonte” com ele, mas não foi publicado. Então, apresentei-o ao Prêmio SESC de Literatura e ficou entre os finalistas. Cony era um dos jurados e acredito, como consolação, que tentou premiar seu irmão espúrio.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Autorretrato
















Manuel Bandeira tinha um piano na alma

Com o teclado à mostra.


Eu, rilhando os dentes,

Carrego um piano nas costas.


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(Autorretrato é o meu último poema de 2008 e primeiro na nova ortografia.

Auto-retrato é um justamente famoso poema de Manuel Bandeira. Agora rebaixado a Autorretrato. Deveria haver um adendo nas leis ortográficas: não mexer no título das obras consagradas, aliás, em nenhuma palavra do texto. Nem nas maltratadas ou esquecidas pelo tempo, esse juiz implacável, às vezes injusto como qualquer juiz.)