
Abri a janela e vi um avião,
a tarde estava azul
no céu, mas
verde no morro, nas árvores, no pasto, nos bois.
A terra é vermelha,
branca em Bauru, dizem,
mas é verde quando meus olhos estão pastando
e vermelha quando meus pés pisam,
se afundam,
navegam entre os pés de café, as jabuticabeiras e a beira
dos córregos verdes da infância.
Olho o avião e me vejo plantado na paisagem,
no galope do cavalo,
uma fruta na boca, outra na mão
e respingando terra úmida
– de calças curtas –
nas ruas por onde ando.
Trago na carne os perfumes da vida
que vivi, sonhei, pisei, escarrei
– a minha vida cuspida e escarrada na palma da mão
eu vos ofereço, ó príncipes, meus irmãos.
Não sou todo mundo
nem ninguém, sou
a razão da minha emoção
ao sol e à chuva,
nudez, equilíbrio, brilho do orvalho
na corola da flor ou na bosta das vacas.
A minha poesia tem a pureza de uma laranja
brilhando no alto da laranjeira
ou apodrecendo no prato esquecido no alto do armário.
Um peso na balança
na noite, no centro
do dia, o poema é um fruto sempre maduro
que apodrece, se esquecido
no alto do que for.
Eu sou a voz que fica no poema
mesmo se apodrecido,
voz perene.
Dentro
do poema, o coração
com a sua régua e esquadro. Que bela
a vida de cada dia
retalhada como a carne no açougue
– tão vulgar!
e tão doce,
tão alma.
Tenho a presença de Deus no fundo dos olhos
dormindo,
pisca-piscando como um vaga-lume
ou brilhando tanto que, por isso, não se vê.
Sou pobre
como um cisco,
a galinha no quintal,
o cachorro roendo um osso,
o mendigo como um anjo atravessado no caminho
e sou rico
como a água, o pássaro, o jumento
porque tenho a poesia na ponta da língua
e às vezes sei disso.
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